Domingo-caderninho 1
Keaton, turquesa – o mais belo dos nomes do azul, Guernica, Kusama, o foco que não há, a loba, as muitas e muitas coisas que não me importam, aquarela, café, café, e mais café, sombrinhas, um lugar que reconheço, flores que se parecem com bucetas, uma escadaria, as passagens do metrô, estruturas de metal, Ipanema, Arpoador e Leblon (lugares cujo nome reconheço, mas não sei bem como chegar lá), os vários problemas em envelhecer, Barata Ribeiro. No título do projeto de que não tomo parte, as intenções são conjugadas no futuro do pretérito composto do indicativo.

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(em Apart-Hotel Do Conde Drácula)
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Ontem chorei até dormir. Não me orgulho, não me envergonho. Essa sou eu. Num país que fica menor e mais triste, mais sombrio e burro a cada instante que passa, acho mesmo que não podemos ter um João Gilberto. Você não precisa realmente concordar ou discordar. Esse é o meu registro, sugiro que você faça o seu. Prometo não ler. Chorei ontem até dormir, senti a morte dele como se sente a morte de alguém que fez parte da infância da gente. Alexandre imitava o João Gilberto cantando “Tim tim por tim tim” (lembra Ivanise Zel, querida?) e estaria devastado hoje. Talvez parte da minha tristeza, talvez parte da minha insistência com essa canção venham daí. Não sei. Esse é um registro, não uma análise. Chorei até dormir.

Os muitos nadas dessa vida

O erre do meu computador está emperrado. Como se minha digitação claudicante precisasse de mais boicote.

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Admitir em voz alta “não vou dar conta de tudo” é horrível, mas libertador.

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Estou dopando meu joelho. Dane-se.

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Conversa com J. Ele está em busca do tom exato pro texto exato, e essa é uma busca que sempre me comove. Falei com ele sobre leitura em voz alta e matraqueei sem parar sobre registro. Registro, registro, sou um disco riscado, a agulha pula e volta pro mesmo lugar.

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Programas de decoração. O youtube é um ninho deles. Eu, que mal ponho as lombadas dos livros pro lado certo, sou fascinada, sabe-se lá o motivo. O tom certo de cinza pra parede da cozinha alheia me consome. Vou montar um grupo de ajuda muito específico: Viciados em programas de decoração e em analgésico pro joelho e bagunceiros procrastinadores compulsivos anônimos. Serei o único membro, mas Chico, o gato, vai frequentar em solidariedade.

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“Olá, notamos que você tem um bloqueador de anúncios! Desabilite, para ter acesso às dez matérias desbloqueadas por mês e…”

Enfia essa reportagem no seu cu.

Grata.

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O décimo homem, na Netflica. Que filme maluco da caralha. Adorei, adorei.

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O melhor que podemos fazer uns pelos outros é não nos conhecer muito bem.

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A pessoa não sabe o que quer, mas espera que você não apenas saiba o que ela quer, mas faça do jeito que ela faria se soubesse o que quer.

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Depois de tantos, tantos anos no mesmo esquema, nossa romancista não sabe bem o que escrever quando não é para o seu olhar.

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Tenho quase cinquenta anos e minha mãe vai ao mercado e compra iacúlti pra mim. Eu me envergonho disso? Não.

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Tem coisa mais patética do que achar que o recado, a fofura, a graça, a foto, o comentário eram para você e descobrir que não, não eram? Até tem, assim, na vida em geral, mas no momento particular da descoberta, não, não tem. A pessoa só quer morrer.

Durante quatro semanas, a newsletter do Drops, Noticinhas do Drops, mandou para os assinantes esquemas enxutos de aula de redação para concursos e Enem. Foi uma nova experiência, num novo formato, dentro da news do Drops, que sempre foi mais literária e metida a diarinho.

Adoramos a disponibilidade de vocês, o acolhimento de escritores experientes como a Vera Guimarães, o olhar querido com que vocês se dispuseram a receber essa nossa invenção e as indicações muitas, que nos trouxeram um monte de novos assinantes.

Foi divertido e outras viagenzinhas virão.

A última newsletter dessa sequência era um presente e a querida Renata Lins, a leitora mais rápida do Velho Oeste, levou. 🙂

Obrigada a todo mundo pelo carinho.

Quarta-feira a newsletter do Drops alcança vocês de novo.

Quem quiser assinar, vem cá: https://tinyletter.com/DropsdaFal

Fal&Suzi

Querido diário Querida Dani

Querida minha: 20 de maio. O frio chegou, mas nem tão convicto. A alergia misteriosa vai e vem. Como o seu, meu corpo também está tentando se livrar de alguma coisa. Acho que é de mim. Continuo tristonha. Amiga tá meio estranha e eu, com a minha sensibilidade nula, não sei se ela está gentilmente me dizendo que nao quer mais ser minha miga. Odeio não entender sinais. Que bom que a discussão sobre Kafka foi boa, de verdade. Tou que nem você, sem paciência, sem coragem e, Deus por minha testemunha, sem condição nem de brigar. Sim, tou um cado mais ativa no grupo. Longe do ideal, mas é o que tenho dado conta. No tuinto também. Opa, pausa pra eu reclamar: todo dia o caminhão do reciclado passa tardão. Hoje que eu enrolei, ele tá passando nesse instante. Como meu joelho direito (que se chama Herodes) e eu não daremos conta de nos arrastar até o portão em tempo, reclamo aqui com você. Tá. Voltando. Pessoas, opiniões, gentes, você sabe. E apesar de ser um trator, eu não quero ser um trator. Quero ser uma pessoa doce e primaveril, quero sorrir, quero lançar gentilezas ao redor, quero ser querida. Mas como isso não passa de ilusão, refreio minha vontade de dar opinião sobre tudo. Menos no Drops, porque é para isso que ele existe e aqui, porque essa é a sua cruz, hahahaha. E sobre a endorfina: ela é uma danadinha 🙂 Falta muito para o Natal?

Joelho, uma nova turma e a fronha azul em: querido diário

Inventei novas personagens, uma outra turma. Falta registrar e depois enlouquecer a pobre da Suzi com meus desenhos lamentáveis.

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Tenho aconselhado – com ar seríssimo e voz de óculos-na-ponta-do-nariz, que as pessoas façam diários, anotações diárias da própria vida, que registrem, registrem. Devo seguir meu próprio conselho, portanto, mas ui que a vida é um sem-fim de chatices e coisiquitas e aiaiais e o dia passa e o caderno não é aberto e sinto vergonha de mim mesma.

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Uma casa, falando em detalhes, chatices e sem-fins, é um não acabar de bagunças e coisas-não-feitas e banheiros que precisam de reforma e camas que depois, só depois, da troca de lençol descobre-se: uma fronha sumiu. Uma. A cama ali, linda e combinante e uma maldita fronha desapareceu. E não há a quem culpar além de você.

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A pessoa não dá um centímetro de satisfação e finge, com graça, que está fazendo um favor a você quando escuta um “e aí, meu bem?”.

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Não vai ter uma sexta temporada de Z Nation e eu lamento demais. O fim da 5ª tempô ficou uma chatice.

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Joelho, essa coisa frágil e tola, está dando defeitos inimagináveis.

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Programas de decoração. Que vício, que vício.

Horóscopo Drops do Dias das Mães

O filho de Áries é um incompreendido. Usa o pijama um dia do avesso outro do direito por uma questão de liberdade e menor esforço. Poupa energia para tarefas mais nobres, como videogames, por exemplo. É quase uma filosofia.

Filho de Virgem, quando a mãe chamar para almoçar, não vai na primeira chamada que é golpe. É para pôr a mesa.

O filho de Gêmeos é conectado com a natureza. Na necessidade de um despertador, ele compra um galo. E tendo a casa furtada, providencia um ganso. Glória do Greenpeace.

O filho de Aquário vira vegano de repente e daí liga pra mãe pra choramingar que tá com o freezer cheio de carneiro e leitão.

A filha de Câncer, depois de anos e anos de conselhos que diziam “não se case com ele, é roubada”, se casa, sim, com ele, entra na maior roubada e, depois de se separar, vira pra mãe e diz “POR QUE VOCÊ NÃO ME AVISOOOOOU?”.

O filho de Leão é acima de tudo, honesto. À meia noite de domingo liga do colégio interno a cobrar, claro, para a mãe, avisando: “Mãe, amanhã o diretor vai te ligar e, ó: fui eu.”

O filho de Capricórnio é narrador e crítico da direção da mãe.  “Por que essa pista?”, “Nossa, que devagar!”, “É assim que você usa o freio de mão?”. Cuidado, pois, se a mãe for de Peixes, periga você ser largado a dez quilômetros da escola numa manhã de inverno. Lei do retorno que chama.

O filho de Escorpião liga da faculdade a cobrar, claro, para a mãe e manda: “Mãe, a Marina tá grávida e arrumei um emprego de garçom pois a família dela quer que a gente case. E tranquei a matrícula. Mas fica feliz que são gêmeos!”. Enquanto o cérebro da mãe ainda processa as informações, o fedazunha grita: “Mentirrraaaa, mããeeee!! Tirei 1,5 em cálculo!!”.

O filho de Touro não liga no Natal, não liga no aniversário, não liga na Páscoa, não liga no Dia das Mães. Claro que o filho de Touro é o filhinho preferido.

O filho de Libra ao receber a polícia que foi acionada pelos vizinhos, às duas da manhã, temperatura dois graus, por som alto na festa da república, bate palmas devagar e berra pro oficial que entrou no carro e desligou o som: “Parabéns, sargento! O senhor sabia que não pode entrar num carro sem mandado?”.  A seguir, para a mãe, ligando da delegacia: “Meus direitos, você que me ensinou!”. Filho de Libra, na ditadura, não dura dez minutos.

A filha de Sagitário considera brigadeiro e Yakult doses únicas. Não peça uma mordida e um gole que ela não dá. Nem pra mãe.

O filho de Peixes tem amigos em todos os bairros da cidade e depois do treino promete carona para geral. No carro da mãe, com a mãe de motorista. Sem avisar, claro.