EDITORIAL

Paul Klee: registro, processo, método e nós, os caras que seguem em frente.

 

Klee passou a vida em perseguição: a si mesmo, à sua arte.

Ele quis desenhar, depois fazer a transição para a pintura, dominar o contraste e a tonalidade, a forma, o equilíbrio. Klee não sabia como seguir ou por onde, mas queria ir e continuar indo, cumprir o destino que todo ser humano se impôs desde o primeiro instante: somos os caras que seguem em frente.

Klee foi estudar em Munique, em 1900, e fez um amigo para a vida toda, outro pintor, Kandinsky. Da maneira como só nossos amigos fazem, Kandinsky o ajudou a criar e nutriu com ideias e lhe mostrou que outra vida era possível. Klee fez parte do grupo de pintores expressionistas de Kandinsky, O cavaleiro azul, mas ele ainda não se sentia um pintor, considerava-se um desenhista. Durante os catorze anos seguintes, Klee perseguiu a si mesmo e à essa transição. Em 1914, na Tunísia, experimentando com aquelas cores inacreditáveis e formas alteradas pelo calor e pelas eras, Paul Klee disse a si mesmo: Eu e a cor somos um. Eu sou um pintor. Nos anos seguintes, de volta à Alemanha, explorou sua obsessão pelo contraste e pelas tonalidades, lutou na Primeira Guerra Mundial, ou melhor, pintou camuflagem nos aviões alemães da Primeira Guerra Mundial, casou-se e teve um filho, cerrou fileiras na Bauhaus, tornou-se professor, passou a estudar as leis da física que transpôs às telas para dar vazão à sua nova obsessão, o equilíbrio. Klee passeou (às vezes sem descer do trem, às vezes agitando os dedinhos dos pés na água gelada) por diferentes estilos modernos do século XX, discutiu as relações artísticas, formou gerações de artistas, farejou o ar em busca do estabelecimento de sua expressão, da forma e da cor, correu a vida toda atrás do que se pode e do que não se pode ver e, finalmente, separou forma e cor, luz e tom, rumo ao abstracionismo, permitindo que enxergássemos o éter transformado em obra de arte. Foi perseguido pelo nazismo e expulso da Alemanha e morreu antes de testemunhar os maiores horrores da guerra. Aliás, defendo que a única coisa que impediu Klee de continuar a se transverter e à sua arte, de continuar seguindo e aprendendo e se manifestando foi isso mesmo, a morte.

Ainda assim, sem fôlego, com fome e com calor e prestes a encarar uma semana dos diabos, ainda temos forças para nos perguntar: o que realmente diferencia Paul Klee de tantosoutros artistas?

Paul Klee, ao longo da vida, fez diários. Confissões. Análises. Klee, preste atenção, registrou suas lembranças de infância, amores, medos e traumas. Ele colocou em palavras a natureza de suas obsessões e manias, sua busca pelos movimentos artísticos, picuinhas entre professores, escalas cromáticas, croquis, historinhas do filho e o que ele não queria comer naquele determinado dia. A cada depoimento feito, a cada impressão registrada, ele permitiu a si mesmo o estabelecimento de um método e, a nós, esquadrinhar seu processo, que veio antes do método.  

Para mim, cuja obsessão não é como o claro e o escuro se relacionam na tela, não é uma nova paleta de cores, não é como as formas e texturas se estabelecem na arte de determinada época e, sim, é como o registro se dá e de que maneira ele nos alcança, o maior legado de Klee, para além das aquarelas, das marionetes e dos muitos quadros e muitos desenhos e da comparação das sombras e da luz, da linguagem artística e das peças que nos enchem coração e alma, é que ele entendeu desde sempre que o caminho se faz quando seguimos em frente, mas, também, quando registramos essa caminhada.

Passo a passo, com detalhes, tomando a nossa mão, Klee nos ensina que o registro da formação de nosso método nos permite, também, ter para sempre a dimensão de que ponto partimos, do que desejávamos e com o que nos acomodamos: o registro afeta a construção de quem somos, aos nossos olhos, aos olhos dos outros. O Klee que nos alcança, como o velho axioma do cachimbo, não é o Paul e, ao mesmo tempo, é. Ele se torna real para quem o lê porque se deu ao trabalho de escrever e reescrever seu dia a dia, seus poemas, suas grandes dúvidas e seu cansaço.

Hoje, falando com meu amigo sobre nossos respectivos livros, dissemos um ao outro: Essa estratégia está no papel ou está na sua cabeça? Porque se estiver só na sua cabeça não vale.

Acho que é sobre isso que eu queria falar. Finalmente, Fal, ninguém aqui jantou. Ao descrever método e processo, ao preencher páginas e mais páginas com suas angústias, suas mais cruéis confissões, seus esboços de linhas impecáveis e escalas cromáticas, o velho Klee chega o mais perto de nós, neste confuso 2022, que pode chegar um cara que nasceu em 1879.

Não somos, não fazemos e não estabelecemos apenas ao ser, fazer e estabelecer. Tudo isso se dá, em grande parte, por meio de cada registro que deixamos. Não escute a mim, eu sou uma tontona, mas obedeça ao sábio Klee e, num país disforme, num 2022 interminável, numa existência que soluça, ponha as suas palavras no papel.

Ponha suas palavras no papel.

Fal Vitiello de Azevedo

Editora

Vem cá:

Documentário:

O diário de Paul Klee, de Michaël Gaumnitz

Livros:

Paul Klee: Life and Work, de Boris Friedewald

Diários de Paul Klee, editora Martins Fontes

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Aqui você sabe do que se trata e, sabendo, quem sabe decide fazer parte deste grupo maravilhoso:

 

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Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Paul Klee
Colunistas: Fal Vitiello de Azevedo, Tiago Cordeiro, Krysse Barros, Andrea Natal, Priscila Cattoni e Suzi Márcia Castelani
Imagens que ilustram as matérias: Paul Klee

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