Drops Editora

Memória, verdade e poesia.

Três musas invocadas, Kalliope, Clio e Melpomene – poesia épica, história, tragédia. Não que os poemas sejam épicos, históricos ou trágicos, mas talvez o espírito daquele poeta que naquele instante as chamou em sua ajuda fosse. Ou estivesse.

A Musas são filhas da Memória e, na Grécia Arcaica, Mnemosine era responsável por grande parte de uma certa verdade. E naquela Grécia, quem desvelava a verdade eram os poetas, os reis e os adivinhos.

Essa última frase é tão complexa que eu nem saberia explicá-la direito. Mas posso explicar um pouco. E certamente errado.

“Aquela Grécia”, a Grécia Arcaica da Guerra de Tróia, de heróis épicos que atravessavam o mar para guerrear por dez anos por uma mulher e depois demoravam dez anos lutando para voltar para outra, a Grécia dos inúmeros Homeros, inúmeros filmes, mãe de inúmeras gentes que vieram depois, essa Grécia lendária no nascimento do igualmente lendário Ocidente, ela sequer existia de verdade há pouco mais de 50 anos. Só no início dos anos 1960 se decifra uma escrita-chave, e aquela Grécia mítica, da qual restavam apenas indícios vagos do século de Platão, se torna uma história de doze séculos.

No século IV A.C. restavam apenas certas tradições, certas crenças, rituais de origem perdida no passado. Os reis já não eram a fonte da lei e da justiça, os adivinhos já não sabiam o que seria de nós e os poetas, mesmo os cegos, já não nos diziam quem eram os favoritos dos deuses. “Nós” ali são eles, os contemporâneos de Sócrates. Mas somos também nós, seus herdeiros tortos.

Mas lá, na Grécia de Homero, os poetas, os reis e os adivinhos eram os guardiões da verdade. E verdade se escrevia “aletheia”. De “lethe”, esquecimento (por sinal o nome do rio no Hades que as almas a caminho da reencarnação atravessavam, o rio do Esquecimento, para que não se lembrassem de sua vida passada). Esse prefixo, “a”, é grego para negação. “Aletheia”, então, é o “não-esquecido”. Uma das traduções canônicas é “desvelado”. Uma tradução mais divertida seria “desesquecido”.

A verdade, na Grécia Arcaica, existia – era até uma deusa. Mas não era clara e distinta como queria nosso velho amigo René (aquele que pensava e existia), mas algo que precisava ser revelado, desocultado, desvelado.

E a produção da verdade era a função primeira de três classes de pessoas: os poetas, que diziam a verdade sobre o que tinha sido, revelando e louvando os feitos dos heróis do passado, cujas vidas eram exemplos de virtude. Os reis, que dispensavam a justiça e, portanto, determinavam a verdade de agora. E os adivinhos, as vozes encarnadas dos oráculos, que revelavam aquilo que seria, o futuro dos homens (não, ninguém ligava muito para o futuro das mulheres na Grécia Arcaica).

Os poetas, então, eram os mestres da verdade que se escondia na memória, e falavam sob supervisão e orientação das Musas, filhas da Memória.

Nós, “ocidentais” (vá-lá: o Brasil não é no Ocidente da vida, mas não se explica sem um certo Ocidente mental). Mas eu dizia, nós, “ocidentais”, tão sábios e científicos, já não acreditamos em deusas, muito menos em filhas de deusas. Mas como já disseram vários do mais sábios entre nós, não precisamos acreditar para que elas existam. Ou ajudem.

Então o poeta mais esperto não se furta a chamar as musas em seu auxílio, ainda que disfarce por vezes aquelas deusas gregas em mulheres mortais ou mesmo objetos inanimados. Freud e Lacan teriam algo dizer sobre essa transmigração/projeção de deusas, etéreas como um conceito (ou, aha, uma pulsão), em seres ou coisas no mundo. Mas se disserem, vão dizer em outro texto, esse já se alongou demais.

Uma última observação: aqui não é a Grécia Arcaica – o Ministério do Pós-Tudo adverte, procurar verdade na poesia pode ser prejudicial à estrutura.

Paulo Candido

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Apresentação – pelo Autor

Por todas as razões que talvez nunca fiquem perfeitamente esclarecidas, o livro se chama A Canção da Borboleta Ausente. O subtítulo, “três musas, catorze sonetos, e algumas diversões” sequer informa o leitor do todo, pois deixa de fora pelo menos o tampouco informativo poema-prefácio e o Lamento, inclassificável como diversão.

Não há aqui uma linha condutora, um tema – há experiências poéticas um tanto abertas, um tanto antigas, algumas certamente herméticas, outras até um tanto frívolas. Mas foram lidas (por muito poucas pessoas), e alguns desses leitores dedicaram esforços para convencer o autor da conveniência da publicação me livro.

Essas notas, essa série de pequenos textos que precedem o lançamento como um prefácio etéreo e fantasmagórico (pois a um livro que fisicamente sequer existe ainda – falta pouco! – não tendo sido submetido ao processo industrial cujo produto final se chama “livro”), serão então observações, quiçá relevantes, sobre referências, citações e inspirações, uma tentativa certamente fútil de circunscrever uma interpretação oficiosa do material. Claro, o leitor deve ser avisado que intenções do autor sobre seu próprio texto são, no mais da vezes, ficções ora arrogantes ora enganadoras.

Mas atente sempre para a advertência do imenso Fernando Pessoa sobre gente que se arroga a cometer poesia: fingidores, que fingem tão completamente, que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem. E tenha consigo também aquele impertinente francês, Focault: o autor sequer existe. Armado assim, o leitor não será pego desprevenido por alguma distância entre as notas do autor (inexistente) e o texto concreto ao qual as notas se referem.

Paulo Candido

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