Domingo-caderninho

Anotações desconexas, o dia todo com vontade de chorar, canetas sem tampa, desenhos ruins, letra feia, calor em julho, coisas difíceis de falar, coisas difíceis de ouvir, as ferramentas que não possuo, os retornos inesperados, calor demais em julho, o dia todo com vontade de chorar, madrugada de vizinhos barulhentos, sentir-se alquebrada, comida horrível, circunstâncias atenuantes, bagunça, cansaço, tristeza, a raiva absurda de não conseguir fazer diferente, objetos fora do lugar, garrafa de água tônica explodida dentro do freezer, o dia todo com vontade de chorar, evidências claudicantes, impotência, viver para lutar um novo dia, compota de goiaba, calor no pés, pescoço pinicando, almoço bem horrendo, transgressões mínimas, o dia todo com vontade de chorar, respostas improváveis, toalhas na máquina, total impossibilidade de catar aquele telefone e ligar e pedir pra você só cantar pra mim – uma música depois da outra. O dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar.

Cecilia e Davi, Nelsão Blues, risoto de brie com pera e uma pista de dança. Diário de um mundo que acabou.

O que é relevante. O que não é relevante. O que importa para mim, o que importa para você.

Estamos beirando os cem mil mortos e, ao mesmo tempo, seguem nossas vidas. Comprei tapetes para a cozinha. Mandei operar de urgência uma gata. Um gasto e um susto que não estavam nos planos. Me apaixonei pelas ervilhinhas que a Suzi colheu no quintal. Esperei um telefonema que não veio. Me afligi com alunos e datas. Recomecei a ver um seriado boboca que adoro.

Cem mil mortos. Ontem, fiz o melhor risoto do mundo e bebi vinho pensando em quem, definitivamente, não deveria ocupar meus pensamentos.

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The umbrella academy. Sim, meu seriado boboca. Vi a primeira temporada mas, com a graça dos céus, não me lembro de patavina. De modos que estou revendo a primeira temporada para, depois, começar a segundona, que tá aí, nova em folha.

Adoro, adoro.

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O presidente é um desclassificado. Só isso mesmo.

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Eu não tenho mais meu pai. Nunca ligamos pra datas, nunca demos a mínima, pra ser bem franca, mas agora que não tenho mais meu pai, todos os dias do pais, há quase vinte anos, são feitos de: eu não tenho mais meu pai. Hoje me emocionei quando soube duma amiga que tem a delicadeza de mandar feijoada para os amigos que não têm mais pai – um presentinho de dias dos pais. Ela envia um almoço especial para os solitários de pai neste mundo. Moro longe demais para uma quentinha, mas me considerei alimentada.

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É julho, ventilador ligado, dou aulas sem meias, bebendo chá gelado. Sou contra demais este estado de coisas.

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Nos últimos tempos, tenho o privilégio de conviver com uma meninazinha de sete anos, um menino de doze. Amo todos os meus alunos, mas os dias dessas crianças são, de longe, os melhores da semana. De longe. Não tem competição.

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A cirurgia da gata foi horrorosa e o cara ainda era bem barbeiro. Ela tá se recuperando, mas eu, não. Não tenho mais idade pra nada disso.

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Achei um uísque do meu pai, aqui. Tá velho, velhíssimo, o rótulo é só uma lembrança, quase 1/3 da garrafa evaporou, a cor é laranja-avermelhado agora e o gosto é como se satanás, pessoalmente, me beijasse na boca e me tirasse para dançar.

Domingo-caderninho

Salva mais uma vez pela música dos anos 1980, fiz uma lista, mudei livros de lugar (“A biblioteca da Fal nunca vai ficar pronta”, disse o velho e bom Candido, certa vez), lavei quantidade industrial de roupa, fiz outra lista, me meti na lista alheia, fiz fondue de queijo (aquele de póbi, com queijo mesmo, não os de rico, com aquele creminho), bebi um bocado de vinho, aprendi com Marli e Mariana que fondue é menina, escrevi sobre o nosso filme (chamo o filme de “nosso” como se você soubesse quem sou, como se dividíssemos o que quer que seja e como se meu analista não fosse dar um tapa na minha testa na terça-feira), enchi carrinhos e carrinhos em lojas online de tecidos, só pra depois fechar a janela e deixar tudo lá. Fumando no portão (virei dessas vizinhas que fumam no portão – mas em minha defesa: eu não estava de roupão), ganhei um boa noite tão gentil e cheio de energia da moça que subia a rua com uma bebezinha, que dei até um sorriso sincero. Anotei, escolhi não anotar, repeti, não para elaborar, mas para chorar em paz.

Diário de um mundo que acabou: couve, imã, notas dissonantes, o milagroso remédio da Andréa, lavanda para os lençóis

Couve. Imã. Documento. Sempre. História. Mitocôndria. Dia. Caminhão. Mundo. Júpiter. El Bulli. Primeiro.

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Nós, as véia, espargimos água de lavanda nos lençóis todo santo dia. Porque fazer a cama é um ritual e nós amamos rituais. Precisamos deles.

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Acho que você nunca ficou tanto tempo sem falar comigo, babe. Não, emoji não conta, não, que você não tem dez anos.

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Ver televisão com a minha mãe é ouvir coisas como “Que coisa, essa moça é linda e tem uma metade do rosto tão diferente da outra…”

Olha.

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Comprei o dvd de Logan. Culpo a pandemia. Meu texto sobre o filme está pronto (o que, uns quatro anos depois?), mas ainda preciso assistir mais uma vez. Ou duas.

Um dia haverei de aprender a baixar filmes e daí cês vão ver só.

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Óculos, tiaras, brincos, vozes gravadas, copos de vinho, as pílulas milagrosas da Andréa, lasanhas de berinjela, gatos [agora todos castrados], aventuras muito loucas da pesada pelo maravilhoso mundo da arrumação de livros, aulas sendo preparadas com precisão alemã, unhas crescendo lentamente, tortas de frango, plurais, plurais, plurais e solos de guitarra que certamente me conquistariam, criatura fraca que sou.

Domingo-caderninho

Livrinhos coloridos, cães estranhos, móveis a alguns centímetro do chão e plantas que desafiam as leis mais básicas da botânica: desenhos de um monstro que não sabe desenhar, duma vida improvável, dum alguém que não está.