A pessoa não tem pronde ir, fica tendo ideia e infernizando a vida da costureira e o resultado é que tenho vestidos prontos e lindos para ir a lugar nenhum e uma costureira exausta e infeliz que já avisou que passará os próximos quatro meses na praia.

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Dois mil e vinte e um quase ali e ainda tem homem nesse mundo bancando o idiotinha.

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Ora, meu amigo, eu na iminência dos cinquenta, você galopando para os sessenta, por favor – disse ela antes de aceitar o convite de um estranho.

Ah, a vida.

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Comprei uma caixa de maracujás. No que fiz muito bem.

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Contratada fui para escrever sobre um dos autores que mais amo na vida. Politicamente discordamos de tudo. Tudo. E ele escreve como um Deus. Como pode, né, o amor. Desde a primeira vez que o li, rezo para escrever como ele, coisa que jamais acontecerá, você sabe, eu sei.

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Livros nojentos com capas incríveis. Que desperdício.

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Eleição, ou você perde ou ganha. Não existe campeão moral.

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Cada panaquice que eu ouço, mais vontade me dá de morrer.

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Por dever de ofício (sério mesmo) tenho visto um montão de documentários de medicina. Meus pesadelos estão de categoria internacional.

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A tempô dos figos começou. Não há motivo para tristeza. Quase.

Bolero faz 21 anos.

Isso é um bocado de tempo para um gato.

Na verdade, acho que também é um bocado de tempo para gente. Lembro-me de me sentir completamente esgotada aos 21 anos.

Por favor, permita-me agora louvar as muitas qualidades de Bolero.

 Bolero é um gato bom.

Ele é um gato gentil. E foi calmo a vida toda.

Sempre gostou de brincar.

Sempre gostou de outros gatos.

Talvez por ter sido muito bem-cuidado pela gata adulta que tínhamos quando ele chegou, Bolero foi um gato muito querido com bebês gatinhos. Nunca bateu, nunca ameaçou, nunca se mostrou impaciente com as brincadeiras dos pequenos.

Bolero também gosta de cães – com alguma reserva. Se o cão é mais na dele, como era nosso Baco, Bolero fica de boa.

Se o cão é alegrinho e amiguinho, como é nosso Otelo, Bolero conversa um pouquinho, dá umas lambidinhas e dorme junto. Sempre banhado em graça e dignidade.

Bolero é, também, um gato que gosta de pessoas, mas não foi sempre assim. Durante muitos anos ele se escondia quando visitas chegavam. Não sei como, mas ele se fazia caber debaixo do fogão. Tive um grupo de amigas que o chamava de gato invisível.

Com a idade, isso mudou e, de muitos anos para cá, ele se senta no sofá com as visitas. Ainda banhado em dignidade e graça troca algumas palavras com os visitantes e, se a pessoa for muito educada e gentil, Bolero permite que ela o alimente com biscoitinhos com patê.

Quando nos mudamos para essa casa, Bolero descobriu a rua e, durante anos e anos, fui obrigada a dividir sua guarda com o vizinho que mora três casas abaixo, porque ele amava passar temporadas lá. O moço o alimentava com peixe cru e tocava Chopin para ele. Juro. Ele voltava de lá gordinho, mimado, com o pelo brilhando e usando colarzinhos verdes ou cor-de-rosa ou alaranjados.

Bolero sempre foi um gato de turminha. No apartamento onde vivíamos, ele e os irmãos faziam bolinho e passavam a tarde toda dormindo em nossa cama. Com a morte do Alexandre, mudamos de casa, mas a turma não se desfez. Acontece que, com o passar dos anos, os gatinhos, todos mais velhos do que Bolero, foram morrendo.

Sobrou Bárbara Manteiguinha Batatinha Maluquinha, sua irmã preferida. Eles foram uma dupla feliz por anos e viviam à parte dos outros gatos da casa, num mundo deles.

Quando ela morreu, temi por Bolero. Achei que ele fosse ficar sozinho em seus últimos anos.

Acontece que ele é querido e bonzinho e tem um cheiro delicioso. (Bolero parece ter caído num caldeirão de colônia Contouré quando era pequeno).

Por isso, os gatinhos mais novos da casa, especialmente a mais bebezinha, são apaixonados por Bolero. Para não mencionar o cãozinho, que é louco por ele.

Eles adotaram Bolero e o transformaram no chefe da matilha (gato em matilha? Uai, os meus, sim).

Eles se deitam em volta de Bolero para esquentá-lo. E lambem sua carinha e seu pescoço e brincam com ele, ainda que ele não esteja mais para altas brincadeiras, e fazem aqueles barulhinhos de gato para ele. Bolero não fica sozinho porque os bebês (que não são, absolutamente, bebês), fazem bolinho em torno dele. Bolero é um gato-ilha cercado de gatos por todos os lados.

Bolero jamais come sozinho, porque Chico vai com ele e nem sonha em roubar sua comidinha-de-gatinho-velhinho-e-sem-dentes. Ele vai com Bolero só para fazer companhia. Quando Marli entra na cozinha e vê os dois juntos, ela pergunta “Ei, Chico, está fazendo ato de presença? ”.

Bolero é especial também porque ele é o último dos gatinhos de Alexandre. Alexandre adorava gatos. E Bolero é o último de seus gatos vivo. Ele é o último gato que conheceu Alexandre e dormiu em seu colo e foi batizado por Alexandre (que batizava todos os bichos com nome começados por “B” para que fossem todos “B de Bibi”). Bolero conhece a Riviera de São Lourenço como ninguém, porque foi o único gato que Alexandre levava conosco para as viagens para a praia, primeiro porque ele era o bebezinho da casa (Bolero já foi o bebezinho) e tínhamos medo de deixá-lo com os grandes – “E se eles baterem em Bolero?” “E se ele sentir medo sozinho no apartamento (com mil outros gatos) todo o fim de semana?” Depois, porque Bolero se tornou uma excelente companhia para viagens. Era ótimo tê-lo conosco e ele gostava de andar na praia e se enfiar na areia.

Quando Bolero chegou dentro de uma caixa de sapatos, Alexandre abriu a tampa e fez um barulho não humano do tipo nhóóóóóiiiiim. Ele dormiu na nossa cama naquela noite (e nas muitas noites depois dessa, mamando no cabelo de Alexandre e falando “miu, miu, miu”).

Eu poderia continuar contando como ele comia manteiga de amendoim no colo de Alexandre durante o café da manhã, ou como ele se deitava na barriga do Alexandre para ouvir música, ou como ele ficava deitado ao lado do box enquanto Alexandre tomava banho, miando desesperado porque o pai estava preso naquela caixa envidraçada, cheia de vapor e água quente.

Bolero faz 21 anos hoje. Ele é um gato muito querido. Tem olhos feitos de montes de camadas de azul e uma manchinha branca na boca e no peito e pezinhos de meia. Ele gosta de sachê, agora que não tem mais dentes, mas amava ração dura quando era mais novinho. Ele ainda gosta de salsicha, se eu amassar no garfo. Ele gosta de andar entre os pés da minha mãe e não se importa quando ela o xinga por isso. Bolero está bem surdo.

Umas tristezinhas, uma dor enorme, um susto, uma morte injustificada debaixo de porradas injustificadas, uma leve irritação, uma enorme irritação, clientes que me fizeram desligar o computador tremendo (mesmo) de indignação, um pudim que nem sei descrever, uma coquinha gelada, planos, zero você.

Algumas semanas são assim. Difíceis. A gente não corre. Não grita com os outros (ainda que ouça gritos dos descontrolados). A gente não joga as coisas na parede (tudo bem, confesso, às vezes algum dicionário voa) e, é claro, a gente não desconta nos gatos. A gente segue na única direção possível. Isso.

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Gente, roupa preta não emagrece. O que emagrece é dieta.

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O cara que reclama porque não tem trabalho. Daí, o cara que reclama porque tem trabalho demais e não tem vida e não pode passear e… Jamais entenderei.

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Conversando com um amigo no domingo, chegamos à conclusão que vamos para a rua exigir um trem chamado “BOLSA LATINO-AMERICA”. Os contemplados (ele e eu, só), receberiam autorização pra fazer um puxadinho no sítio do do Mujica e ficar lá até o apocalipse-zumbi. Eu sei capinar, ordenhar (será que eu ainda sei ordenhar?), fazer pão (na mão, a máquina de pão inda é um mistério-misterioso e me encara, irônica, lá do balcão), fazer sardela, acender fogo de um monte de formas, cantar várias de musiquinhas dos anos 1970 e19 80 (nunca subestimem os benefícios duma rodinha de violão). Não sei rachar lenha, mas meu amigo é grande, ele há de se virar. Certeza que Mujica vai achar alguma utilidade pra gente. Não entendo de plantação (a não ser que feijão no algodão dentro do copinho de danone conte), mas se Mujica me aceitar, prometo aprender.

*

Amo quando meus amigos que entendem de computadô e gentilmente querem me ensinar alguma coisa, dizem ‘abra o iniciar e clique em….’. Paro de entender aí, claro, e não tenho a menor condição de fazer nada daquilo que eles mandam, mas o que vale é a intenção e a delicadeza deles.

*

O mundo do cinema se divide entre filmes com e sem o Samuel L. Jackson, e os ‘sem’ são minoria. Não que eu esteja reclamando, amo esse cara. Adoro ele ser tão filmeiro. Só essa semana, assisti três. Tudo bem, talvez não tenha sido assim, tão dificil.

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(história antiga)

– A roupa tá boa?

– Tá.

– Não marca aqui em cima?

– Não.

– Orna com o sapato?

– Orna.

– E o que é que eu faço com esse cabelo ridículo?

– Quer uma tiara, mã?

– Minha filha, e eu lá tenho idade pra usar tiara?

– Mã, idade pra usar tiara nenhuma de nós duas tem. Não tou perguntando isso, não tou fazendo enquete. Quer uma tiara pra ir passear?

– Quero, vá.

*

Da lista de 250 filmes que pergunta “Quantos filmes você viu?”, vi 38. Ou seja.

PS: Ah sim, forçoso admitir, os filmes da série “Senhor dos Anéis”, só vi porque a querida Ana Laura, dias depois da morte do não menos querido A., passou os três, um em seguida do outro, numa tentativa muito linda e muito fofa de me distrair.

E meu amigo D., numa cavalheiresca tentativa de me consolar, disse que não, eu não vivo num mundo à parte, só assisto vezes demais os mesmos filmes para “dominar o assunto”. Um lorde.

*

Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é oura coisa. Só pra esclarecer.

*

(história antiga)

E a moça:

_ Que cor de esmalte você quer?

E eu:

_ Vermelho.

E a moça:

_ Esmalte vermelho-paixão ou esmalte vermelho-tomate?

E eu (em pensamento):

_ Moça, não força a amizade.

*

Você sabe que fracassou quando depois de virar a madrugada trabalhando, vê que o dia amanheceu, que na televisão rola um filme chamado Aventuras Caninas (título autoexplicativo), que o prazo vence hoje e que…. Sei lá. Você não lavou a cabeça. Não toma os remédios há uns 4 dias. Perdeu três consultas consecutivas na dentista. Comprou vestidos sem ter grana para isso. E… ah, sei lá mesmo. É tanta coisa. Seu fracasso está em todos os lugares.

Vem cá, meu bem

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Piu Piu


Conferindo para aprovação a boneca do livro físico Sombras&Fadas do @tcordeiro com ilustração de @DropsdaFal
Tá lindo!
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