Rádio Drops: Me vieron cruzar

Y los deseos me vieron nacer
Los árboles me vieron crecer
El océano me vio navegar
Las estrellas me vieron cruzar
Las estrellas me vieron llegar
Las estrellas me vieron perder
Las estrellas me vieron ganar
Las estrellas me vieron correr
Las estrellas me vieron volar
Las estrellas me vieron perder
Las estrellas me vieron ganar

Diário de um mundo que acabou: eu não vou chupar picolé

Simon Russell Beale, sempre impecável. Em Penny Dreadful ele está perfeito.

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Sim, mil anos depois da torcida do Corinthians, eis-me aqui vendo a terceira e derradeira temporada de Penny Dreadful. Sei por que demorei tanto para ver, mas tenho vergonha de dizer em voz alta. Não que você vá se lembrar disso quando (não) ler meu livro novo. Mas ainda assim.

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Nem guento mais falar sobre a lamentável burrice orgulhosa e algo arrogante desta terra.

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Ah, Russell Beale é sir. Pelamordedeus.

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Minha mania de botar limão em tudo voltou a todo vapor e quero crer que isso é uma melhora.

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Eu deveria estar fazendo alguma coisa que não sei o que é.

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A temperatura deu outra guinada para o lado do bem. Madrugada passada, que vi passar todinha, acordada que estava, chegamos aos gloriosos dezoito graus. Não vou reclamar.

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Não estou exagerando e nem me valendo duma figura de retórica para dizer que envelheci cinco ou seis anos em 2020. Cada foto é uma revelação mais assustadora do que a outra.

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Compro roupas para ocasiões que jamais acontecerão. E tudo de algodão.

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A verdade é que se um cara falar pruma mina: “Vem pra cá. Não estou nadando em grana, mas posso cuidar de você até as coisas clarearem, até tudo melhorar, até, até”, ninguém, mesmo, seja franco, vai dizer que ele está comprando uma namorada ou pagando por sexo. Vão chamar isso de parceria, de casal bonito, de nossa, que lindo o amor. Mesmo que o cara não seja exatamente um Adônis.

Agora, vai uma mulher de cinquenta anos falar uma coisa dessas prum cara, mesmo que o sujeito seja dez anos mais velho do que ela. Vai ela dizer “olha, tem espaço pras tuas coisas, eu sou boa de risoto, de cama e de risada. Vem, se ajeita. Eu seguro as pontas e você pensa no que fazer”.

Nossa. Senhora.

E daí eu sei que vão dizer “mas e daí o que os outros dizem” e tal e tal, mas olha.

De modos que a mulher, no geral, nem fala. O que é uma pena. E, ao mesmo tempo, não é.

Tou philosófica hoje.

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O presidente da republiquinha tá chamando jornalista de idiota e ninguém toma providência.

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Tenho duas semanas para acabar o maior serviço do planeta e tudo o que eu queria era chupar picolé e ver filme de amor.

Diário de um mundo que acabou: 675 quilômetros

Lido com a dor imensa trazida pela percepção tardia da perda como lido com qualquer dor: dormindo. Há quem coma, lute, faça esportes, chore ou beba. Eu durmo. Dormi você o domingo todo. Aproveitei e dormi a perda do marido da amiga.

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Filme excelente, de tão ruim, passou pelo tempo/espaço e eu não vi; o vilão, de suástica no peito, é o Bobby Goren, o Toby é o advogado dele, aquele bonitinho segurança no velho seriado de cassinos é o mocinho e o onipresente Bruciulins é o mocinho-auxiliar. A única tristeza do filme é pensar que, se fosse feito hoje, talvez o Bobby Goren fosse o mocinho. Pessoal anda apegado à suástica.

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Amiga perdeu marido na mais dolorosa das épocas e, de longe, Marli e eu choramos abraçadas, porque é só isso mesmo que é possível.

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Continua o tempo agradável. Calor ainda, moro num país tropical, esquecido por Deus e horrendo por natureza – mas a temperatura se aproxima da civilização, pelo que agradeço.

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Entro dez vezes por dia na casa que desejo. Ando por cada cômodo por meio das fotos, sei dos detalhes, sei dos cantos do minúsculo jardim, planejo onde comprar lenha para o fogão, sei das redes que subirão os muros para os gatos, sonho com prateleiras e poltrona de escritório. No primeiro dia, com o google maps, aprendi a ir e vir da padaria e da sorveteria (minhas prioridades, como você sabe, são irretocáveis.) Não vou dizer que por uns dez segundos, não pensei que você caberia ali, seus livros, cafeteiras e biblioteca, mas parei imediatamente com isso. Me concentro nos meus livros, nas minhas cafeteiras e na minha biblioteca.

Colocarei 675 quilômetros em linha reta entre nós. Pode ser que, lá, eu esteja a salvo.

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Frango xadrez: não é meu lance, realmente.

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Água gelada: meu lance, totalmente.

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Acabou o bolo de chocolate. Vida longa ao bolo de chocolate.

Diário de um mundo que acabou: um cão aflito

De dois dias para cá, o tempo melhorou. Dormir coberta por uma manta é uma delícia. O calor histérico das últimas semana me deu erupções no colo e pescoço. Eu parecia uma velha nelsonrodrigueana. Estou um pouco melhor.

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Lutando com um conto novo. Ele está e não está, é e não é, ele existe, mas nem tanto assim. Passei a tarde toda presa na rede e ele e as palavras dele e a sombra dele se enredaram por entre meus tornozelos, como um cão aflito.

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 Acho que nunca mais vou falar com você. Não de verdade. Não além do hahah, obrigada por mandar para mim o mesmo meme impessoal e cretino que você manda para a sua timeline inteira, obrigada, eu ainda não estava me sentido humilhada o suficiente. 

Ás vezes, quando inspiro o ar, ele vem para dentro de mim como aquela respiração sincopada que damos aos soluços, sabe, no meio do choro. É isso. Choro por aí sem lágrimas, como uma boa soldadinha. Minha mãe certa vez elogiou minha imensa capacidade de recuperação e eu acreditei nisso. 

Como outros homens minúsculos e covardes, você a jogou para cima de mim. Mas eu não os amei. Nunca esperei coisa alguma deles e, se não pudemos ser amigos, ai, dane-se. Você eu amei imensamente. Foi mais um soco na boca sem necessidade. Eu já estava tão frágil. 

Minha pele vai parando de doer com a água do banho, o lençol, a camiseta cinzenta que adoro.

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Demoro para acusar cada golpe que recebo. Demoro para sentir. Demoro para entender. O golpe deferido sobre mim por um grupo de pessoas, todo um grupo de pessoas que realmente julguei amigas, me atingiu só essa semana, acho que mais de um anos depois do fato. Meu luto por cada um começou ontem. Meu luto por mim mesma deve demorar, ainda, algum tempo.

A sua perda se tornou mais real com a perda de todas essas pessoas me alcançando. Primeiro porque você está ali. E você escolheu ficar ali. Depois porque meus erros de julgamento me dilaceram. Eu me sinto tão tola.

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Escrevi um montão de coisas amargas e tristes, mas apaguei posts e posts e posts. Porque sou uma boa pessoa? Não. Por que nada faz sentido ou adianta ou fará diferença? Sim.

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O cheiro do bolo de chocolate faz meus joelhos tremerem e, como acabo de dizer, perfuma a casa, acalma o coração. Não traz de volta quem nunca esteve, mas nada trará.

Vem cá, meu bem

Repetir para Elaborar

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Apesar de o impressionismo ser meu período artístico favorito, meus pintores prediletos não são impressionistas. O que faz de um pintor nosso favorito?
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