Bolero faz 21 anos.

Isso é um bocado de tempo para um gato.

Na verdade, acho que também é um bocado de tempo para gente. Lembro-me de me sentir completamente esgotada aos 21 anos.

Por favor, permita-me agora louvar as muitas qualidades de Bolero.

 Bolero é um gato bom.

Ele é um gato gentil. E foi calmo a vida toda.

Sempre gostou de brincar.

Sempre gostou de outros gatos.

Talvez por ter sido muito bem-cuidado pela gata adulta que tínhamos quando ele chegou, Bolero foi um gato muito querido com bebês gatinhos. Nunca bateu, nunca ameaçou, nunca se mostrou impaciente com as brincadeiras dos pequenos.

Bolero também gosta de cães – com alguma reserva. Se o cão é mais na dele, como era nosso Baco, Bolero fica de boa.

Se o cão é alegrinho e amiguinho, como é nosso Otelo, Bolero conversa um pouquinho, dá umas lambidinhas e dorme junto. Sempre banhado em graça e dignidade.

Bolero é, também, um gato que gosta de pessoas, mas não foi sempre assim. Durante muitos anos ele se escondia quando visitas chegavam. Não sei como, mas ele se fazia caber debaixo do fogão. Tive um grupo de amigas que o chamava de gato invisível.

Com a idade, isso mudou e, de muitos anos para cá, ele se senta no sofá com as visitas. Ainda banhado em dignidade e graça troca algumas palavras com os visitantes e, se a pessoa for muito educada e gentil, Bolero permite que ela o alimente com biscoitinhos com patê.

Quando nos mudamos para essa casa, Bolero descobriu a rua e, durante anos e anos, fui obrigada a dividir sua guarda com o vizinho que mora três casas abaixo, porque ele amava passar temporadas lá. O moço o alimentava com peixe cru e tocava Chopin para ele. Juro. Ele voltava de lá gordinho, mimado, com o pelo brilhando e usando colarzinhos verdes ou cor-de-rosa ou alaranjados.

Bolero sempre foi um gato de turminha. No apartamento onde vivíamos, ele e os irmãos faziam bolinho e passavam a tarde toda dormindo em nossa cama. Com a morte do Alexandre, mudamos de casa, mas a turma não se desfez. Acontece que, com o passar dos anos, os gatinhos, todos mais velhos do que Bolero, foram morrendo.

Sobrou Bárbara Manteiguinha Batatinha Maluquinha, sua irmã preferida. Eles foram uma dupla feliz por anos e viviam à parte dos outros gatos da casa, num mundo deles.

Quando ela morreu, temi por Bolero. Achei que ele fosse ficar sozinho em seus últimos anos.

Acontece que ele é querido e bonzinho e tem um cheiro delicioso. (Bolero parece ter caído num caldeirão de colônia Contouré quando era pequeno).

Por isso, os gatinhos mais novos da casa, especialmente a mais bebezinha, são apaixonados por Bolero. Para não mencionar o cãozinho, que é louco por ele.

Eles adotaram Bolero e o transformaram no chefe da matilha (gato em matilha? Uai, os meus, sim).

Eles se deitam em volta de Bolero para esquentá-lo. E lambem sua carinha e seu pescoço e brincam com ele, ainda que ele não esteja mais para altas brincadeiras, e fazem aqueles barulhinhos de gato para ele. Bolero não fica sozinhos porque os bebês (que não são, absolutamente, bebês), fazem bolinho em torno dele. Bolero é um gato-ilha cercado de gatos por todos os lados.

Bolero jamais come sozinho, porque Chico vai com ele e nem sonha em roubar sua comidinha-de-gatinho-velhinho-e-sem-dentes. Ele vai com Bolero só para fazer companhia. Quando Marli entra na cozinha e vê os dois juntos, ela pergunta “Ei, Chico, está fazendo ato de presença? ”.

Bolero é especial também porque ele é o último dos gatinhos de Alexandre. Alexandre adorava gatos. E Bolero é o último de seus gatos vivo. Ele é o último gato que conheceu Alexandre e dormiu em seu colo e foi batizado por Alexandre (que batizava todos os bichos com nome começados por “B” para que fossem todos “B de Bibi”). Bolero conhece a Riviera de São Lourenço como ninguém, porque foi o único gato que Alexandre levava conosco para as viagens para a praia, primeiro porque ele era o bebezinho da casa (Bolero já foi o bebezinho) e tínhamos medo de deixá-lo com os grandes – e se eles baterem em Bolero? E se ele sentir medo sozinho no apartamento (com mil outros gatos) todo o fim de semana? Depois, porque Bolero se tornou uma excelente companhia para viagens. Era ótimo tê-lo conosco e ele gostava de andar na praia e se enfiar na areia.

Quando Bolero chegou dentro de uma caixa de sapatos, Alexandre abriu a tampa e fez um barulho não humano do tipo nhóóóóóiiiiim. Ele dormiu na nossa cama naquela noite (e nas muitas noites depois dessa, mamando no cabelo de Alexandre e falando “miu, miu, miu”).

Eu poderia continuar contando como ele comia manteiga de amendoim no colo de Alexandre durante o café da manhã, ou como ele se deitava na barriga do Alexandre para ouvir música, ou como ele ficava deitado ao lado do box enquanto Alexandre tomava banho, miando desesperado porque o pai estava preso naquela caixa envidraçada, cheia de vapor e água quente.

Bolero faz 21 anos hoje. Ele é um gato muito querido. Tem olhos feitos de montes de camadas de azul e uma manchinha branca na boca e no peito e pezinhos de meia. Ele gosta de sachê, agora que não tem mais dentes, mas amava ração dura quando era mais novinho. Ele ainda gosta de salsicha, se eu amassar no garfo. Ele gosta de andar entre os pés da minha mãe e não se importa quando ela o xinga por isso. Bolero está bem surdo.

Judah and Tamar is a painting by Emile Jean Horace Vernet

Judá era filho de Jacó.

Para situar, vamos relembrar a história de Jacó e Raquel.

Jacó, fugindo da ira de seu irmão Esaú, do qual havia roubado o direito de primogenitura, direito este que lhe garantia herança em dobro, foi pra casa de um tio, Labão porque Esaú queria arrancar seu couro, com toda razão.

Labão tinha filhas. Lia, a mais velha e Raquel, a mais nova.

Jacó se engraçou pros lado de Raquel e fez proposta a Labão de servi-lo por sete anos em troca da moça. Labão topou.

Sete anos mais tarde, Labão fez uma baita festa de casamento e quando Jacó já estava completamente bêbado, mandou pro quarto dele Lia, em vez de Raquel.

No outro dia, Jacó foi reclamar da trapaça, mas aí, meu amigo, Inês é morta. As leis de Moisés não permitiam devolução nem com nota fiscal.

Labão, com a maior cara de pau deste mundo manda essa: Não podia te dar a mais nova sem casar primeiro a mais velha. Mas vamos fazer assim, fica bom pros dois. Eu te dou Raquel se me servires por mais sete anos. E assim foi feito pois Jacó era um trouxa. Pilantra, mas trouxa em se tratando de mulher.

Jacó teve uma penca de filhos com Lia e Raquel foi estéril por muitos anos. Incrível que os grandes patriarcas tiveram mulheres estéreis, fato sobre o qual se originou mil tretas.

Abrãao e Sara

Isaque e Rebeca

Jacó e Raquel.

Mas isso é outro assunto.

O importante aqui é que Raquel beeemmm mais tarde consegue parir dois filhos, José e Benjamin, e Lia pariu seis filhos, entre eles, Judá. Segura aí esse Judá.

Chegou uma hora que Judá quis apartar dos seus irmãos. Não dava mais, era muito irmão e muita treta. Pegou sua trouxa de roupa, e foi pra muito, muito longe. Na verdade, era vinte e quatro quilômetros de distância da casa do seu pai, mas vamos respeitar que a viagem era feita a pé.

Neste lugar ele conheceu uma mulher chamada Sua. Isso não era uma mulher, era uma cantada pronta, vamo combinar! Com ela teve três filhos: Er, Onã e Selá.

Se a gente parar pra pensar que essa gente não tinha sobrenome fica mais esquisito ainda, mas vamos em frente que piora.

Os meninos cresceram e Judá casou o mais velho, Er com uma moça chamada Tamar.  Mas esse moço era tão malaco, tão gente ruim, que Deus fez questão de matá-lo pessoalmente. Sério. Gênesis 38:7.

Ficando a moça viúva, Judá ordena que Onã, seu filho do meio – como direi? – bulisse nos guardado de Tamar. Pela lei de Moisés isso chamava levirato, que era embuchar a cunhada viúva do primogênito para manter a primogenitura. Tudo questão de herança.

Mas Onã já tinha filhos e queria que a herança viesse para a prole dele. Então, para não gerar descendência que seria atribuída a Er por essa lei sem pé nem cabeça, Onã, – sejamos literais – deixava o sêmen cair na terra.

Judá, informado da questão, certamente por Tamar, mandou que a moça vestisse o luto pelo marido e voltasse para a casa do seu pai até que que Selá chegasse à idade de lhe dar o passe.

Tamar foi e Judá sossegou o assunto. Não se falou mais disso. Tamar passou a ter notícia das noitadas que Selá curtia nas tabernas, os luau na beira do oásis e nada de comparecer. Ficou puta.

Um belo dia, quando Judá levou o rebanho de ovelhas para tosquiar numa aldeia próxima da casa do pai de Tamar, ela tirou as vestes de viúva, vestiu uma roupa de guerra, cobriu o rosto com um véu e ficou na beira da estrada rodando o alforje.

Judá se alvoroçou quando viu o pitéu.

– Qual o pagamento? – Tamar tinha tino comercial.

– Depois eu te mando um cabritinho…

– Depois o escambau, quero meus vinte rrreaaiiiPÉRA, preciso de garantias.

Judá tirou o cordão que usava, que tinha seu selo e seu cajado e deu em garantia pelo serviço.

Tamar voltou para casa do pai com o cajado, o cordão, o selo e o filho de Judá na barriga.

Judá, no outro dia, justiça seja feita, mandou levar o cabritinho, pela mão de um amigo. Mas o amigo perguntou a todos sobre uma prostituta que fazia ponto por ali e ninguém soube informar, tampouco a encontrou. Menos mal, pensou Judá, sem saber que tinha se lascado.

Depois de nove meses você vê o resultado, jádizia o Tchan. Quando a barriga começou a aparecer os fofoqueiros foram correndo contar a Judá. Se até hoje o mundo é um lugar inóspito para mulheres, imagina naquela época.

Judá chegou na frente da casa do pai de Tamar mandando que ela saísse para ser queimada.

Ela saiu com o cajado (uia), o cordão e o selo de Judá nas mãos dizendo:

Do homem a quem pertence estas coisas, eu concebi.

Desta forma, com essa gravidez que gerou gêmeos, Tamar garantiu sua herança e ainda, de quebra, ficou com o jovem Selá. Primeiro a obrigação para depois a diversão.

Descoberta

Eu estou completamente louca por este artista. Dimitris Papaioannou é diretor de teatro experimental, coreógrafo e artista visual grego.
O trabalho dele é lindo, elegante, ousado e ele constrói imagens maravilhosas com o trabalho dos bailarinos.
Tem um caminho filosófico no trabalho dele, não é desconectado. Você consegue saber como ele se sente no mundo a partir do que ele cria. Tem uma crítica social no que ele faz.
Tudo é coerente. Ele emprega tecnologia, faz uso de todas as possibilidades disponíveis de luz e cenário, tornando o trabalho integrado.
É uma descoberta recente para mim e é um prazer compartilhar.

Umas tristezinhas, uma dor enorme, um susto, uma morte injustificada debaixo de porradas injustificadas, uma leve irritação, uma enorme irritação, clientes que me fizeram desligar o computador tremendo (mesmo) de indignação, um pudim que nem sei descrever, uma coquinha gelada, planos, zero você.

Algumas semanas são assim. Difíceis. A gente não corre. Não grita com os outros (ainda que ouça gritos dos descontrolados). A gente não joga as coisas na parede (tudo bem, confesso, às vezes algum dicionário voa) e, é claro, a gente não desconta nos gatos. A gente segue na única direção possível. Isso.

*

Gente, roupa preta não emagrece. O que emagrece é dieta.

*

O cara que reclama porque não tem trabalho. Daí, o cara que reclama porque tem trabalho demais e não tem vida e não pode passear e… Jamais entenderei.

*

Conversando com um amigo no domingo, chegamos à conclusão que vamos para a rua exigir um trem chamado “BOLSA LATINO-AMERICA”. Os contemplados (ele e eu, só), receberiam autorização pra fazer um puxadinho no sítio do do Mujica e ficar lá até o apocalipse-zumbi. Eu sei capinar, ordenhar (será que eu ainda sei ordenhar?), fazer pão (na mão, a máquina de pão inda é um mistério-misterioso e me encara, irônica, lá do balcão), fazer sardela, acender fogo de um monte de formas, cantar várias de musiquinhas dos anos 1970 e19 80 (nunca subestimem os benefícios duma rodinha de violão). Não sei rachar lenha, mas meu amigo é grande, ele há de se virar. Certeza que Mujica vai achar alguma utilidade pra gente. Não entendo de plantação (a não ser que feijão no algodão dentro do copinho de danone conte), mas se Mujica me aceitar, prometo aprender.

*

Amo quando meus amigos que entendem de computadô e gentilmente querem me ensinar alguma coisa, dizem ‘abra o iniciar e clique em….’. Paro de entender aí, claro, e não tenho a menor condição de fazer nada daquilo que eles mandam, mas o que vale é a intenção e a delicadeza deles.

*

O mundo do cinema se divide entre filmes com e sem o Samuel L. Jackson, e os ‘sem’ são minoria. Não que eu esteja reclamando, amo esse cara. Adoro ele ser tão filmeiro. Só essa semana, assisti três. Tudo bem, talvez não tenha sido assim, tão dificil.

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(história antiga)

– A roupa tá boa?

– Tá.

– Não marca aqui em cima?

– Não.

– Orna com o sapato?

– Orna.

– E o que é que eu faço com esse cabelo ridículo?

– Quer uma tiara, mã?

– Minha filha, e eu lá tenho idade pra usar tiara?

– Mã, idade pra usar tiara nenhuma de nós duas tem. Não tou perguntando isso, não tou fazendo enquete. Quer uma tiara pra ir passear?

– Quero, vá.

*

Da lista de 250 filmes que pergunta “Quantos filmes você viu?”, vi 38. Ou seja.

PS: Ah sim, forçoso admitir, os filmes da série “Senhor dos Anéis”, só vi porque a querida Ana Laura, dias depois da morte do não menos querido A., passou os três, um em seguida do outro, numa tentativa muito linda e muito fofa de me distrair.

E meu amigo D., numa cavalheiresca tentativa de me consolar, disse que não, eu não vivo num mundo à parte, só assisto vezes demais os mesmos filmes para “dominar o assunto”. Um lorde.

*

Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é oura coisa. Só pra esclarecer.

*

(história antiga)

E a moça:

_ Que cor de esmalte você quer?

E eu:

_ Vermelho.

E a moça:

_ Esmalte vermelho-paixão ou esmalte vermelho-tomate?

E eu (em pensamento):

_ Moça, não força a amizade.

*

Você sabe que fracassou quando depois de virar a madrugada trabalhando, vê que o dia amanheceu, que na televisão rola um filme chamado Aventuras Caninas (título autoexplicativo), que o prazo vence hoje e que…. Sei lá. Você não lavou a cabeça. Não toma os remédios há uns 4 dias. Perdeu três consultas consecutivas na dentista. Comprou vestidos sem ter grana para isso. E… ah, sei lá mesmo. É tanta coisa. Seu fracasso está em todos os lugares.

Lessing sabia disso muito bem: você deve comer enquanto lê. Enquanto seus olhos absorvem as palavras, sua boca deve absorver calorias. Ela que dizia, não eu. Eu só obedeço.

*

Comprei novas tigelas de tomar café com leite. São enormes e coloridas e lindas e foram tão baratas que dá até vergonha. Talvez tenham sido feitas nalguma biboca desse mundo, por mãos mal pagas e infelizes, quem sabe menores de idade. Mas vou dizer: são lindas.

*

Tomo café com leite em tigelas desde que me entendo por gente, mesmo antes de saber que parte dos franceses faz isso. Mesmo antes de saber que a França existia, acho. É que realmente nunca me ocorreu forma melhor de tomar café com leite. Canecas são legais, xícaras são lindas, mas tigelas são… confortáveis. Você ocupa suas duas mãos, o que é o ideal. Vê um lago – não um poço – e o cheiro e o vapor, quando se aproxima a tigela da boca, envolvem todo o seu rosto, o que faz parecer que você está sempre em casa, ainda que você não vá para lá há mais de trinta e cinco anos, como é o meu caso.

*

Será que a Lessing tomava café com leite em tigelas?

*

Não sei no que pocha seus nuggets você, querido leitor, mas o meu, pocho num molho de pera e nozes. Ser filha da minha mãe é deveras agradável, devo confessar.

*

Antes dou depois do Acordo (dos vários, vários Acordos), as regras para uso de hífen são de sentar e chorar. Português é para os fortes de caráter.

*

“Fal, você fez o bolo da Telinha?”

“Não”

Isso nunca acontece, diz a pessoa. Daí cê diz, tá bão, mas aconteceu comigo. Daí o cara diz, não, não pode ter acontecido com você, isso nunca acontece. Daí cê diz, então, mas comigo aconteceu. Daí a sequência é a pessoa, na defensiva (do que, meu caralho consagrado, a história é SUA, não dela, é só não se meter e calar a boca), desqualificando você, ou sua memória, ou seu conceito de verdade ou o profissional que atendeu você na situação ou as pessoas envolvidas com você na situação, ou atacando você com toda gentileza que a passividade-agressiva dela permite pela grana que você não tem, ou… Juro, gente, pra quê? O cara diz, aconteceu comigo, você, que não sabe tudo, não vive a vida do cara, não está sob as mesmas circunstâncias que o cara, na casa do cara, na pele do cara, responde, que merda, amigo, sinto muito, como posso te ajudar? Olha que mundo lindo e ao seu alcance. De nada.

Mocinha dos anos 1980 que fui, usei tiaras. Gorduchas, de veludo, firmes e garradas nesse cabelo que não se apega a nada. Ontem descobri que elas voltaram. Minha amiga Patricia me mandou algumas – resultado de suas (maravilhosas) tentativas e experiências. Ela espera ampliar suas vendas de artesanato. Por mim, vai viver só disso. Sou agora a feliz proprietária de tiaras gorduchonas e coloridas, vindas direto dos anos 1980. É fútil e tolo, aos quase cinquenta anos acho que eu nem deveria usar tiaras, mas que se dane. O mundo chegando ao fim, vou para o céu com minha cabecinha adornada.

P.S.: Amo tiaras e cabelo preso porque eles evidenciam minhas orelhinhas semiabano, a única parte bonita e delicada em mim. Amo minhas orelhinhas dumbo.

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O Amapá está sem água ou luz há quatro dias. Portanto, está quase impossível comprar comida, encher o tanque, manter conservada a comida que ainda se tem, olha, pesadelo nível apocalipse zumbi na vida real. O governo federal que não há, sendo a mesma massa acéfala e incompetente de sempre. Sempre.

*

Sente-se um desamparo tão grande quando se acorda no meio da madrugada. Não se tem o que fazer, voltar a dormir é uma impossibilidade, cedo demais para trabalhar, deprimente demais ficar vendo série e arrumando coisas. Não posso ligar para alguém, não às três da manhã. Bem, não para alguém com que eu queira falar, não para você. A comida – colo e conforto – está longe demais e, de qualquer maneira, tenho medo de andar pela casa escura (mesmo com as luzes acesas a casa é escura no meio da madrugada e eu tenho medo de andar por ela, tenho medo dos gatos, tenho medo do barulho da geladeira).

*

Eu me ofereço pra ajudar. Ele responde que sou linda. Quero responder que não, não sou linda, sou só uma velha gorda, grisalha, infeliz, muito solitária, terrivelmente apaixonada por ele. Também quero dizer que se ele pedir largo tudo, que se ele quiser mudo meu nome, meu cep, o nome do cãozinho, mas no fim respondo “O que é isso, imagina”.

*

Pessoas que não entendem e/ou não admitem o uso de metáforas. Vamos chamá-las de concretões idiotas e depois tacar fogo?

Rádio Drops

Bolinho de chuva? Não! Bolo de goteira!

Fico ouvindo Coltrane e me perguntado se você ouve também ouve o velho. Isso é o tipo da pergunta idiota. Devia sair uma personagem de detrás da cortina e me acertar com um martelo bem grandão daqueles do Pica-Pau.

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Canetinha boa é canetinha de rico. Eu ligo pra Zuzi Márcia e pergunto “posso comprar?” e ela diz “pode”. Aí eu confirmo “posso mesmo, Zuzi?” e ela diz “pode, porra”. Canetinha de rico é caro demais. Mas você pinta e fica aquela coisa linda, uniforme, a canetinha parece que preenche sozinha os buraquinhos brancos (a nao ser quando a gente deixa os branquinhos de propósito pra fazer a linha “artista-perturbado-desleixado”). Enfim, enquanto a Zuzi deixar, compro mesmo.

*

Grifei um trecho do Verissimo novo em amarelo e fotografei pra Nepomuceno. Ela viu a foto, se deu conta de que tinha grifado o mesmo trecho em amarelo e pensou “como que meu livro foi parar na casa da Fal?”.

*

Creio na força dos apelidos. Na particularidade deles. Que eles ajudam a criar laços que desejamos estabelecer. Em sua maioria, traduzem um estado – de humor, de amor, de época. São únicos, são delicados. Quando me tomam um apelido que cuidadosamente escolhi (no mais das vezes, amorosamente, porque não vejo outro motivo para apelidar que não seja o amor), abandono o apelido e, dependendo da situação, também os envolvidos, o apelidado e o ladrão. Nem olho para trás.

*

Pensando em mudar de casa e de cidade, pensando em ir embora, pensando em sair daqui, pensando, pensando. Odeio São Paulo. O que me consola é o que diz minha mãe: “Quando a gente detesta alguém, quase certeza que ela também nos detesta”.

*

Entendo que linguagem comercial é isso mesmo, comercial e que não cabem grandes declarações de amor, amizade e tal, mas jamais vou acostumar com a secura que beira a falta de educação. Credo. Se é comigo, cancelo.

*

Cartago me escapa. Ao longe, sozinha, tremula em meio à névoa, ao granulado do tempo, ao sépia que toma minhas retinas. Cartago escapa em meio a respostas evasivas, em meio às pegadas leves sobre a folha de arroz. Cartago acena e se esconde, ela me quer, mas não muito, ela me sabe, mas nem tanto assim. Cartago some, some, some, como se fosse possível navegar em meio à areia, na direção do centro da África e mais além, na direção dum mundo que não há, na direção do nada absoluto, do que sequer se nomeia. Cartago esquece as chaves, a carteirinha do plano, meu nome, a cor dos meus olhos e o tanto que a amei, o tanto que entoei seu nome, louvei seus predicados, busquei alcançá-la por sortilégios e orações e febres. Cartago me guarda nalgum canto, nisso preciso acreditar, ela me guarda, acho, no eu te amo apressado que deixou na minha caixa postal tantos anos atrás (e que guardo, guardo, guardo), nalguma coisa certa que eu tenha feito ou sido, no meio do tanto de errado e inadequado e de constrangedor que sou. Cartago quase desaparece no horizonte e depois some e depois não dá notícias e depois me ignora cruelmente e depois manda um oi tonto no gerenciador e depois reaparece, como se fosse possível viver sem ela, como se fosse possível viver com ela.

by Fal Azevedo

Ruth and Naomi, ca. 1854,  Ary Scheffer

Em Efrata de Belém, me perdoem a rima ruim, ninguém era de ninguém. Estava todo mundo acolá, vivendo em grande iniquidade. Salsinha sendo picada sobre a tábua dos dez mandamentos, a arca da aliança cheia de manta lá no quarto da vó, os meninos do 81 tirando um som nas cornetas de Jericó, a Torá servindo de calço para mesa de ping-pongue e a malandragem posta em sossego. Mapeando a palhaçada, Deus, com seu ego de bebê gigante, sentiu-se desaplaudido e resolveu fazer geral pagar o credicarma. Jogou foi fome nos calhordas.

Tempos duros se instalaram, a mão invisível do mercado só dava pescotapa na nuca dos ímpios, o ministro da economia cortando tudo quanto era bolsa de doutorado, o feijão quase oito reais o pacote.

Vai daí que Elimeleque, odiando esse negócio de viver que nem pobre, garrou a mulher dele e seus dois fios e, chamando a Granero, foi cantar noutra freguesia.

Ou seja, em Moabe. Onde moravam, quem diria, os moabitas. Rutinha, era tipo princesa deles. Mais que princesa, tchutchuca.

Fofa que só, Rutinha logo fez amizade com os vizinhos judeus sem maldade no coração – ela era meio adolescente rebelde, reclamava de como viviam os pais, achava que aquele negócio de palácio e três refeições por dia era coisa de burguês.

Por isso, quando ela aceitou o pedido de casamento do menino da casa ao lado, os pais dela suspiraram fundo e toparam. Antes isso do que um piercing no umbigo.

Anos depois, quando o velho e seus dois filhos morreram, a mulher de Meleca, Naomi, viu uma excelente oportunidade de se livrar das noras e viver la vida loca noutras paragens. Ela disse para as meninas que ia voltar para sua terra natal, mas que as noras deveriam voltar para casa dos pais, pois em Belém o sistema era bruto. Uma das noras não se manifestou, devia de tar louca para contrair segundas núpcias com o dono da lotérica, mas Rutinha, gente finíssima, taca pra cima da véia o  já manjado teu Deus é o meu Deus, tua tenda é a minha tenda, tamos juntas, BFFs forever.

Rute 1:16

A véia e Rutinha encararam meses de estrada sujando as vestes de pó e pagando dezesseis pila no misto quente do Graal. Um dia, enfim, chegaram.

Rutinha, depois de acomodar a véia no Motel Meia é Meia, saiu em busca duns objetos comestíveis, shampoo e, quem sabe, um vinho rose em lata.

Esbarrou em Boaz, um considerado rico. Muito, muito rico. Boaz ficou todo animado pra cima de Rutinha e encheu ela de palavrinhas malacas em hebraico, além de vários lanches.

Rutinha voltou pra casa toda feliz e contou o ocorrido para Naomi que já morou na jogada: Boaz era primo do finado Meleca. Israel, gente, é um ovo.

Nos meses seguintes, Rutinha deixou Boaz pagar um Big MacabeuCheese pra ela, noivaram, ele fez dela uma mulher honesta antes de conhecê-la biblicamente (perdão, leitor), fizeram uma suíte pra Naomi na edícula, tiveram um bebezinho que viria a ser, vejam vocês, pai de Jessé (vida que vem e que vaaaaaaaaai, VEM GENT) e avô de David (já falei que Israel é um ovo?).

Moral da história: nem sempre coisas boas acontecem para pessoas boas, mas às vezes, olha, acontecem.

 

Blog novo, né? Mentira, é o mesmo blog, são dezoito anos do mesmo, mesmo, mesmo blog. Ao mesmo tempo, um novo blog. Amo tanto essa sensação. Amo ter um lugar, o meu lugar, para escrever e desenhar, para resmungar e contar histórias. Feliz demais.

*

Jantar, que conceito sensacional. Se incluir sopa de feijão, então, pelamor.

*

Ontem, o presidente da Câmara falou mal da atuação do ministro do Meio Ambiente. O ministro respondeu como um idiota, chamando o cara de “Nhonho”. Eu achei que se pronunciasse “nhonhô“, porque, né. Daí me ensinaram que se pronuncia “Nhônho”, o nome dalguma personagem da tevê que me escapou ao longo dos anos vivendo na Fabialândia (um dia, um dos homens que mais amo na vida me deu um baita esporro porque eu não sabia quem era Anita – ou Anitta. Continuo não sabendo e fiquei magoadíssima com o esporro. Como se pode ver, ainda estou).

A atitude das pessoas que nos governam é assustadora. Postura. Não há. Não é que não leiam Melville, não leem mesmo, mas Melville nem entra na equação. É uma gente que NÃO SABE SE COMPORTAR. Meu Deus do céu. Se meu irmão, aos doze anos, xingasse um amigo, levaria um tapa na boca. É simples assim. São homens e mulheres que não sabem se comportar. E, sim, foram eleitos. Por pessoas tão escrotas quanto eles.

*

Além do Verissimo, ganhei duas garrafas imensas de cobertura de sorvete. Era só isso mesmo, queria registrar meu privilégio para facilitar o trabalho dos tribunais do povo quando vier a revolução. Ligo o ventilador para os gatos e como sorvete, a partir de hoje, com calda de framboesa. Pendurem minha cabeça na ponta duma estaca, sobre os muros da cidade. Eu mereço.

*

Nossos lírios abriram e que lindo o tom creme deles, que perfume maravilhoso, que lindos, que lindos. E daí os gatos foram e estraçalharam com eles e eles tão capengas. Mas continuam lindos.

*

Metade o busto duma deusa maia, metade um grande rabo de baleia. Salve, Gil.

*

Estou preparando um livro tão bom, tão bom, que até dói.

*

Quero batata-doce frita em rodelas. E vou ficar querendo, eu sei.

*

As palavras e eu estamos nos estranhando, meu caro, porque não quero falar da vida. Entende? Não quero montar as aulas dos alunos. Não quero trabalhar no meu livro (tenho um baita preparador de originais, mais a Nepomuceno toda se oferecendo para ler garranchos sem sentido – sente o drama -, e zero serviço para mostrar para eles). Não quero escrever no blog. Não quero escrever aulinha virtual. Não quero lavar o quintal. Não quero escovar os gatos. Não quero beber vinho. Não quero cantar Chico Buarque. Não quero hidratar o cabelo. Só quero falar de você. Quero falar de você e de você e de você. Quer desenhar seu nome num caderninho com um coração ao lado. Quero decorar seus sobrenomes. Quero falar das suas mãos, quero falar do seu sotaque, quero explicar como a cor dos seus olhos é quase um céu nublado. Quero fazer poesia ruim para você. Aliás, já fiz. Fiz um livro inteiro de poesia ruim para você. Quero falar de você, não quero trabalhar. Não conte isso para a Suzi, tenho mais medo dela do que o Maximus, e olha que ele morre de medo da Suzi. Mas é isso. Não quero trabalhar, comer, ver séries, cozinhar, jogar meu joguinho vício de computadô, andar Otelo. Quero falar de você para o resto da minha vida. Quero dizer que eu moraria num telhado com você Quero comparar a cor da sua pele com o fruto das oliveiras, entende? Quero ser incrivelmente cafona e falar só de você.

Manifesto

A Drops Editora só publica material do qual se orgulha.
Não há possibilidade de que interesses de qualquer natureza se sobreponham ao nosso prazer em publicar um bom autor.
Ocupar os espaços com arte. Para isso, escrevemos e, em nome disso, publicamos.
Queremos, sim, ter lucro com nossas publicações. Jamais, porém, com um percentual maior do que o do autor.
Acreditamos que uma obra literária seja uma empreitada que se cumpre com o coração e os punhos. Ver o autor assumindo a sua obra, da escrita ao leitor, é uma caminhada que nos interessa acompanhar.
Nessa jornada trocamos opiniões, partilhamos compromissos e cumprimos nosso ofício com paixão.
Somos a mão na mão do autor, encorajando e encarando sua obra pelo que ela é: uma criação singular e personalíssima. Como o trabalho que fazemos juntos.
As editoras

Não, as coisas não vão bem. Mesmo. Eu sei, você sabe. O mundo acabou. Além disso, estamos chatos. Insuportáveis, malas, idiotas. Sacais. Textos chatos (o nosso, por exemplo), discussões medíocres, conclusões rasas. Em todos os cantos, gente burra ou que se acha espertona e também é burra.
Tudo ruim. Intolerável. Sem esperança de melhora.
Tudo.
Menos meu site.
Meu site tá lindo. Fofo. Engraçado. Organizado. Perfeito.
Graças a mim, que sou um gênio cibernético.
E à Guilda do Drops, esse grupo adorável e querido, que resolveu que valia a pena se juntar para cuidar do Drops.
Então é isso, site novo, vida nova. Bom, site novo.
Sim, ainda tem cousas a arrumar, eu sei. Eu sei.

Sejam bem-vindos. Todos vocês.

Maximus

Horas depois de meu marido morrer nas minhas mãos, a vizinha, que tinha perdido o marido há poucos meses da mesmíssima maneira, atravessou o saguão que nos separava para unir suas mãos às minhas e me dizer “A vida da gente muda em um segundo”.

Muda.

Muda sim.

As mudanças demoram eras e eras para acontecer, mas, quando acontecem, são coisas de mili-nano-segundos (os hífens são meus e eu faço o que quiser deles).

Mudar para não mudar é um clichê e há um motivo para isso: é a mais pura verdade.

Ao longo de tantos anos, quase duas décadas, o Drops – e eu – nos movimentamos. Mudamos de jeito, de cara, de logo, de estilo. De endereço. De estado civil. Quisemos uma coisa, depois outra. Tentamos desse jeito e daquele. Amamos aqui e ali. Amamos errado. Amamos certo. Nossa voz, quase a mesma, mas nossos cabelos, quanta diferença. Durante esses anos, contamos com amigos e mais amigos. Com leitores gentis. Com a sorte. Ah, nós demos tanta sorte. Tanta.

O Drops se movimenta, mais uma vez. Eu me movimento, mais uma vez. Aceitamos o que não podemos mudar. Bom, tentamos aceitar. E mudamos – furiosamente, eu diria – tudo o que conseguimos mudar.

Vamos mudar, portanto. De cara, de jeito, de estilo. O endereço continua o mesmo, porque não vamos mudar. É confuso, eu sei, as mudanças geralmente são.

A grande diferença dessa mudança é que não vou só.

O Drops da Fal cresceu demais, demais e não é mais empreitada para um lobo solitário. A Suzi Márcia está comigo, está no Drops e para o Drops, emprestando seu talento, sua imensa capacidade de trabalho, de força no empuxo e de rapidez de raciocínio não apenas à loja ou à editora, mas ao Drops. Todo, todo o Drops. A cada passo, letra, vírgula, caneca, suspiro. Ela tomou o Drops como dela e o Drops, esse Drops imenso, imenso, passa a ser o projeto de vida de duas mulheres. Passa a ser o principal objeto da atenção, do trabalho, do cuidado e do tempo de duas mulheres. Bem, bem. Duas mulheres e um monstro. Ah, sim, Maximus também está aqui.

É ainda preciso que eu diga: nada, nenhuma mudança, nenhum móvel se arrastaria sem essa graça, sem esse aconchego que se chama Guilda do Drops. Amigos de todas as partes e filosofias e olhares que, juntos, apoiam o Drops. Por amor. Por bem querer. Sou tão grata ao pessoal da Guilda. Sem cada uma dessas pessoas, o Drops não conseguiria dar um passo.

Então, vamos. Mudança. Mudança. Mudança.

Vamos seguir viagem.

O Drops não volta. O Drops não vai a lugar algum.

O Drops da Fal, o nosso Drops, volta já.

Fiquem firmes.

Amor, Fal.

Um amigo carioca chamado Valadares. Um amigo carioca chamado Valadares que me ligasse uma vez por semana ou pra quem eu pudesse ligar de quando em vez, a cada dez dias, que me fizesse rir, que risse do que digo, que me dissesse coisas engraçadas. Não quero sexo (calma, brasil), não quero romance, não quero morar com ninguém ou, Deus me ajude, enfiar alguém aqui em casa. Mas queria um amigo carioca (gosto do sotaque), chamado Valadares, que faça pausas nas frases pra tragar o cigarro e que odeie o governo. Sinceramente, não é pedir demais.

*

Talvez eu tenha cometido o melhor patê de alho do Brasil. A modéstia me impede de afirmar. Mas é. É sim.

*

O calor deste setembro serve a quem? Quem se beneficia com minha pele arranhada no tecido da camiseta mais fofa? Num guento mais.

*

Eu tive um amigo que amava café. Ganhei um daqueles trequinhos que moem grãos e estou me sentindo a pessoa mais cool do mundo. Queria contar pra ele, não posso. Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração, não é assim a canção? Sentimos.

*

Cê olha no relógio. 19h12. Ah, vai dar tempo de fazer tudo. Cê olha no relógio. Meu Deus do céu, 22h35, não fiz porra nenhuma.

No prelo!

O nosso querido livro Coletânea de Minibiografias Quase Autorizadas está no prelo!
A contagem é regressiva e será breve.
Estamos ansiosas? Estamos.
Felizes e orgulhosas também.
As Editoras

Daqui da caverna, governamos o mundo.

Mais um baita livro do José Eduardo Heflinger Jr. chegou aqui em casa faz um tempo. Acontece que eu estava bibibi bobobö e fui deixando a vida passar. O que foi uma bobagem minha, pois este não é um livro que a gente deva deixar passar. “Os populares” é uma das mais belas ideias. As personagens mais queridas e emblematicas de Limeira registradas pelo Heflinger que escreve sobre a cidade e, por isso, quase 30 livros depois, escreve sobre o mundo todo. Que livro lindo, que pessoas adoráveis de se conhecer. Obrigada Luiz Biajoni pelo livro incrível. Beijos e amor, Fal.

Muito triste que estava (estou) fui resmungar um bocadinho (bocadão), mas a Raquel mandou logo a real: “Ele fez uma escolha”. Calei minha boca na hora. Ele fez, sim.

*

Suflês, pois adoro refeições de prato único. Suflê de queijo, suflê de couve-flor, suflê de abobrinha e hoje teremos um maravilhoso suflê de suflê. Nem pergunte.

*

A incrível história da pessoa que não bota cacacola na geladeira pra ela quando vamos gelar uma latinha porque”não bebe refrigerante” e daí fica tomando da nossa. Nem me faça começar.

*

Meu gato velho está muito, muito velho. Muito velho. Isso me dói demais. Mas você queria que Bolero durasse para sempre, Fal? Queria. Queria sim.

*

Vejo fotos de pessoas celebrando a monarquia que, se numa monarquia vivessem, não passariam nem na porta do palácio sem tomar uma geral da guarda imperial. Que país ridículo. Que gente medonha. Que tristeza.

A princesa Isabel mandaria dar uma coça nessa gente. No mínimo.

*

Gente que passa gritando na rua. Quem são, de onde vêm, quedê a mãe e o pai deles? Obrigada, de nada.

*

“Não, credo, eu tomo água porque meu corpo é um templo e bibibi e a dieta e a taxa de não sei que e os índices de bububu e as vitaminas e eu não tomo mais refrigerante e você deveria parar e o… Cê tá tomando cacacola? Mim dá.”

*

Eu ia desenhar minha Berenice dando comidinha pros pombos, mas eles pareciam meio psicóticos. Então fiz um lago com peixinhos e carpas.

*

“É tudo bandido”, declara outra amiga. É. É. Cê tá certa.

*

Quando eu era pequena a minha mãe cantava Superbacana pra mim e eu simplesmente amava a frase “Copacabana me engana”. Eu amava um bairro enganando pessoas. Ainda adoro essa ideia.

*

“Eu moraria num telhado com você”, era isso, basicamente. Não era bem isso, mas, né, era isso.

*

A pessoa que não colocou curry no ketchup, não viveu. Meu Deus do céu, que invenção maravilhosa. Onde eu estive nos últimos quase cinquenta anos?

*

Sim, eu moraria num telhado com você.

Coup d’état

Mudamos.
Você, a vida, o país, o Natal. Mudamos todos – o país para pior, muito, muito pior, mas xapralá.
Os monstros também mudam, claro, sempre para melhor.
Semana passada, Aquela Que Me Batizou esteve aqui com um texto sem-vergonha falando sobre mudança. Ela voltará, claro. Ela sempre volta.

Hoje, porém, estou aqui, dessa minha maneira meiga, and assertiva, para declarar:


VOU MUDAR GERAL ESSA BAGAÇA!


Casa nova, novos cantinhos, novos amigos, um catiorrinho para chamar de meu!
Sim, tudo novo.


Drops da Fal sob nova direção: a minha.

Estarei na sala da diretoria, debaixo do ar condicionado, produzindo meus desenhos perfeitos, porque, né, se não eu, quem?

Quando não estiver desenhando, meditarei sobre a finitude humana, pés sobre a mesa, vendo séries, comendo a cabeça dos inimingos, bebendo cacacola gelada.


No chão da fábrica, minha equipe produzirá textos, livros e demais tranqueiras, sempre sob minha rigorosa supervisão.

São novos tempos no Drops da Fal, amigos.

Tejem preparados.


Maximus, el jefe.

Tenho pensado demais em mudanças de toda sorte.  A mudança virá, queiramos ou não e, conforme o tempo passa, isso fica mais claro. Mudamos porque precisamos mudar, porque queremos mudar, mas também porque simplesmente acordamos a cada dia um tantinho diferentes.

Alteramos, modificamos, transformamos, viramos, variamos. Contamos outra história, buscamos novo contexto, trocamos o nome das personagens, convertemos a essência e nos tornamos o que sempre fomos, o que imaginamos, o que pensávamos detestar, o que tínhamos certeza temer.

Nós nos transmudamos, afastamos, desviamos, transferimos. Trocamos o dia pela noite e o objeto de nosso desejo. Substituímos, cambiamos, permutamos, damos um novo nome ao velho cão e seguimos em frente.

Mudar é, também, inventariar. Para mudar, precisamos passar em revista nossos bem materiais e imateriais. O que temos, o que acumulamos, o que honramos, o que está em sacos pretos lá no sótão, não usado, não visto, não amado. Inventariar para doar, manter, jogar fora, tacar fogo no meio da rua e dançar pelado em volta da fogueira, besuntado em sangue de carneiro (no meu bairro isso não é tão difícil de acontecer, não).

Inventariar o que nos cerca e escolher, escolher, escolher. Escolher também é mudar.

Mudamos, alteramos e nos movemos. A arca que nossa mãe nos deu vai para o outro lado do quarto, a cor do nosso cabelo nunca foi tão escura, os livros de arte mudaram para a sala.

Por fim, acreditemos que mudar é bom. Mesmo quando é ruim, é bom. Trago comigo os ensinamentos dos muitos filmes e séries de zumbi em meu repertório e, por isso, sei: mudar é viver. Só sobrevive quem muda, quem se muda, quem permanece em movimento. Quem para, morre.

Segura no pierrô molhado e vem comigo, ladeira abaixo, sob as bençãos de Caê. Seja o que Deus quiser.

Blog de Maliu

Hoje, Maliu faz perguntas e convoca.

Quem virá com Maliu?

Blog de Maliu

Blog de Maliu

Maliu fala de possibilidades, escolhas e opções.

Em mais uma segunda-feira.

Blog de Maliu

Un son para Portinari ( de Batista e Alvarez)

y La Negra

As coisas em que acreditamos nos enfraquecem. Elas nos tornam alvos mais fáceis, bem mais fáceis. Acreditar é o primeiro passo para o abismo. As coisas em que acreditamos revelam de onde viemos, escancaram para onde vamos. As coisas em que acreditamos penduram uma melancia no nosso pescoço. Elas são como uma carta de intenções, o cartão de visitas do conde Drácula, o vestido de baile da Bela Adormecida pendurado pelas fadinhas atrás da porta. As coisas em que acreditamos são uma trilha de migalhas. São a cruz de neon do padre Duncan, amigo do designer Ronald Shakespear. Eu creio. Creio no tom que não é marrom dos seus olhos, no cheiro do seu perfume em meu travesseiro, na sua voz via embratel e na sua coleção de livros. Não haverá paz ou perdão para mim e é bem feito.

Rádio Drops

Me concede a honra desta contradança?

Segunda feira.

Dia de que?

Acertou:
https://dropsdafal.com.br/blog-de-maliu/

Os diários da adolescência oferecem uma visão panorâmica de nós mesmos em ação.
Claro que é uma tomada com filtros, luz e ângulos favoráveis.
As feiúras não mostramos. O que é engraçado já que os diários são escritos, teoricamente, somente para nossos olhos (tô tão jamesbondeana, gente!).
Então o nosso glamuroso cotidiano dos doze aos vinte e cinco anos (ou setenta e quatro, quem é que pode saber?) é descrito com belas passagens, lindos cenários e maravilhosos coadjuvantes. Até os figurantes são dignos de nota.
A grande função do diário é mostrar-nos a nós mesmos como somos, como gostaríamos de ser e que pessoa queremos ser aos olhos dos outros.
Essa criação se vale de todos os sujeitos que idealizamos ou isolamos aspectos e atributos que nos encantam em qualquer um.
Adotamos a gestualidade, linguagem, conceitos, preconceitos, estilo, cor de cabelo, roupas “et caterva” dos nossos amigos, professores, ídolos esportivos ou das artes e mixamos criando o ser ideal – que  eventualmente pode acabar se revelando um monstro.
Ainda assim, na escrita do nosso diário, chegamos o mais próximo da perfeição possível, seguindo as normas criadas por nós mesmos e que obedecem aos mais altos padrões de excelência que conseguimos atingir.
O bom é que, ultrapassada determinada fase, conseguimos retirar a sopa desse melting pot e passá-la por um cadinho com o que nos convém (quase sempre).
E passamos, então, para a próxima fase, da qual a Fal costuma falar tão bem e com tanto entusiasmo (entusiasmados demais dirão alguns, não eu, que sou mãe amorosíssima): os diários de adultos. Os diários que, se tudo der certo e prestarmos atenção às aulas da Fal, escreveremos em nossa vida adulta, mesclando intenção, ação, egotrips variadase declarações definitivas, fazendo um registro que é, ao mesmo tempo, “testemunho e profecia” (eu cito minha filha mesmo).

São Tomás de Aquino nos diz que se nos esforçamos para exercer as virtudes que desejamos possuir por bastante tempo elas acabam se tornando nossa segunda pele.
 Os diários são perfeitos para nos auxiliar nisso, no papel ou na tela.

Viva os blogs.

Então, inté jacaré.

Marli Tolosa, psicóloga e pesquisadora

Blog de Maliu

Alice no País das Maravilhas – Filme de Tim Burton – 2010

Segunda feira, dia de Maliu!

Blog de Maliu

Eu me lembro da Mére Cristol falando de Mon Oncle, num parênteses da aula de religião, há algumas décadas.

Fui ver o filme da mesma forma que eu ia à missa: dever de ofício.
Em alguns domingos, logo depois do almoço, eu rumava para algum cinema do bairro para a matinê.
Quando eu era menina todos os bairros tinham cinema, geralmente mais de um.

Ao voltar para casa, mamãe perguntava sobre o filme e eu narrava, com requintes de detalhes que beiravam a tortura. Ela me ouvia circunspecta, aprofundando vez ou outra a ruga entre os olhos.

Não depois da conversa sobre o filme de Jacques Tati.

Senti que algo escapava à mamãe por falta de competência minha em falar do que vira.
Eu não sabia como descrever o que a tela mostrou ao apagar das luzes.
Narrei, mais ou menos na sequência, as aventuras do menino e seu tio mas havia todas aquelas nuances de cinza e os espaços vazios – tão diferente daquilo que Hollywood nos mostrava.
Também a ironia fina que não se escondia nem mesmo ao olhar tosco de uma menina que começara o ginásio.

Pela primeira vez pude me identificar com uma personagem do cinema.

As comédias românticas traziam heróis que eu achava velhos ou que tinham um jeito de viver diverso demais do nosso, como as histórias de fada que eu lia.

Naquele tempo, dez anos dopo guerra, eu não conseguia me aperceber do fim de um estilo de vida. Tati anunciava a nova Paris, nova ao som do jazz contrapondo-se à velha Paris embalada pelas canções ligeiras tão francesas.

Há também no filme poesia, cada tomada é um verso e isso  impressionou a alma e a mente de quem se expunha ao olhar vago específico (expressão de Millôr Fernandes) do cineasta francês.

Ganhei uma coleção de filmes de Tati e, por isso, voltei à infância.

Marli Tolosa, psicóloga e pesquisadora

Anotações desconexas, o dia todo com vontade de chorar, canetas sem tampa, desenhos ruins, letra feia, calor em julho, coisas difíceis de falar, coisas difíceis de ouvir, as ferramentas que não possuo, os retornos inesperados, calor demais em julho, o dia todo com vontade de chorar, madrugada de vizinhos barulhentos, sentir-se alquebrada, comida horrível, circunstâncias atenuantes, bagunça, cansaço, tristeza, a raiva absurda de não conseguir fazer diferente, objetos fora do lugar, garrafa de água tônica explodida dentro do freezer, o dia todo com vontade de chorar, evidências claudicantes, impotência, viver para lutar um novo dia, compota de goiaba, calor no pés, pescoço pinicando, almoço bem horrendo, transgressões mínimas, o dia todo com vontade de chorar, respostas improváveis, toalhas na máquina, total impossibilidade de catar aquele telefone e ligar e pedir pra você só cantar pra mim – uma música depois da outra. O dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar.

Sábados de Bill

O que é relevante. O que não é relevante. O que importa para mim, o que importa para você.

Estamos beirando os cem mil mortos e, ao mesmo tempo, seguem nossas vidas. Comprei tapetes para a cozinha. Mandei operar de urgência uma gata. Um gasto e um susto que não estavam nos planos. Me apaixonei pelas ervilhinhas que a Suzi colheu no quintal. Esperei um telefonema que não veio. Me afligi com alunos e datas. Recomecei a ver um seriado boboca que adoro.

Cem mil mortos. Ontem, fiz o melhor risoto do mundo e bebi vinho pensando em quem, definitivamente, não deveria ocupar meus pensamentos.

*

The umbrella academy. Sim, meu seriado boboca. Vi a primeira temporada mas, com a graça dos céus, não me lembro de patavina. De modos que estou revendo a primeira temporada para, depois, começar a segundona, que tá aí, nova em folha.

Adoro, adoro.

*

O presidente é um desclassificado. Só isso mesmo.

*

Eu não tenho mais meu pai. Nunca ligamos pra datas, nunca demos a mínima, pra ser bem franca, mas agora que não tenho mais meu pai, todos os dias do pais, há quase vinte anos, são feitos de: eu não tenho mais meu pai. Hoje me emocionei quando soube duma amiga que tem a delicadeza de mandar feijoada para os amigos que não têm mais pai – um presentinho de dias dos pais. Ela envia um almoço especial para os solitários de pai neste mundo. Moro longe demais para uma quentinha, mas me considerei alimentada.

*

É julho, ventilador ligado, dou aulas sem meias, bebendo chá gelado. Sou contra demais este estado de coisas.

*

Nos últimos tempos, tenho o privilégio de conviver com uma meninazinha de sete anos, um menino de doze. Amo todos os meus alunos, mas os dias dessas crianças são, de longe, os melhores da semana. De longe. Não tem competição.

*

A cirurgia da gata foi horrorosa e o cara ainda era bem barbeiro. Ela tá se recuperando, mas eu, não. Não tenho mais idade pra nada disso.

*

Achei um uísque do meu pai, aqui. Tá velho, velhíssimo, o rótulo é só uma lembrança, quase 1/3 da garrafa evaporou, a cor é laranja-avermelhado agora e o gosto é como se satanás, pessoalmente, me beijasse na boca e me tirasse para dançar.

O No Princípio de hoje foi escrito por Fal Azevedo.

Espetacular é pouco. Leiam peloamordedeus!

No Princípio era o Verbo

Sermão de Areópago em Atenas, por Rafael, 1515.

Epimênides foi um grego nascido em Cnossos, na ilha de Creta e viveu em meados de 600 anos a.C.

Esteve em Atenas e, conforme escritos de Diógenes Laertius, livrou a cidade de uma praga.

Epimênides era chamado de “homem estranho” por ser um dos poucos da sua época que criam em apenas um Deus. Nessa época, os deuses gregos em Atenas passavam de trinta mil, sendo em número superior ao das pessoas que viviam na cidade.

Quando Atenas foi acometida por essa praga, que não sabemos qual era, foram chamados sacerdotes egípcios e babilônicos para resolver o problema, sem nenhum sucesso.

Foi então que alguém se lembrou do Deus único de Epimênides e mandaram chamar o cabra.

Ele chegou botando banca e duma forma que ninguém entendeu direito, resolveu o problema.

O importante da história é que, no lugar que Epimênides adorou a esse Deus, Atenas construiu um altar e como não sabiam o nome da divindade, nomearam-no ao Deus Desconhecido.

Seiscentos e tantos anos mais tarde, Paulo, aquele moço do qual já falamos aquiA caminho de Damasco

se encontra no Aerópago de Atenas discursando ao povo.  Aerópago era um tribunal a céu aberto onde se debatia política e assuntos religiosos. Um congresso grego sem o Niemeyer.

Paulo falava aos filósofos epicureus e estoicos tentando estabelecer uma continuidade entre filosofia e cristianismo.

O livro da Bíblia que trata dessa passagem é Atos dos apóstolos, especificamente capítulo 17 15-34, livro escrito pelo próprio Paulo, então o que sabemos do fato é o que Paulo contou.

Fica muito clara, inclusive, a opinião dele sobre os gregos e seus filósofos no versículo 21, in verbis:

(Pois todos os atenienses e estrangeiros residentes, de nenhuma outra coisa se ocupavam senão de dizer e ouvir alguma novidade)

Chamou Atenas todinha de desocupada e fofoqueira.

Diante da resistência dos filósofos em aceitar sua doutrina —  chegaram a chamá-lo de paroleiro — Paulo manda essa:

“…passando eu e vendo vossos santuários, achei também um altar em que estava escrito: AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais não o conhecendo é o que vos anuncio.”

Numa encaçapada só, Paulo arrasta para si a postura de conciliação entre filosofia e cristianismo, sem a qual ele não teria conseguido, inclusive, adesão de pensadores atenienses do quilate de um Clemente de Alexandria, décadas mais tarde.

Paulo se apropriou de um altar de adoração já existente para disseminar uma nova doutrina. Pois não há como destituir o sagrado entendido como tal senão dando a ele continuidade numa ideia de desenvolvimento e plenitude.

Epimênides dizia, sempre às quartas-feiras, quando chovia: “Cretenses, sempre mentirosos.” Isso porque ele morreu sem conhecer os nativos de Tarso.

Rádio Drops

Mas talvez, quem sabe, seja.

Blog de Maliu

Maliu no colo da Vó Cida

Hoje é segunda-feira.

Dia de Blog de Maliu!

Blog de Maliu

Então, minha mãe me vestiu para sair. Muito arrumadinha, lá estava eu num vestido de veludo marrom de gola xale de renda branca, luvinhas e equilibrando a cabeça sob um laço improvável, segurando as madeixas rebeldes.

Rumamos, mamãe e eu para uma aventura no meio da semana. Eu não sabia nada do que ia acontecer porque não havia qualquer possibilidade de questionar as decisões maternas.

Descemos do ônibus e caminhamos um pouco de mãos dadas até chegarmos a um prédio amplo cheio de cartazes coloridos.
Dirigimo-nos a um guichê onde ela me instalou diante de si, encostada ao seu joelho, meu rosto querendo esbarrar na parede à minha frente. (Esse era o truque para que eu não saísse de junto dela quando precisávamos soltar as mãos)

Resolutamente atravessamos o saguão de pé direito altíssimo, entramos numa sala imensa cheia de cadeiras cor de vinho e ela procurou um lugar para nós duas onde não houvesse alguém que impedisse a minha visão.

Ficamos ali sentadas e eu já achando tudo bonitíssimo, as luzes, os chapéus de mamães e filhinhas, o rumor de tantas vozes, a cortina grená, a música enchendo a sala.

Ao meu lado sentou-se uma família inteira, pai, mãe dois meninos e duas meninas. Quando um deles pediu ao pai para passar o saquinho de doces, um apertão no braço impediu-me de olhar.
Lição número um para conviver com estranhos. 

Foi então que as luzes se apagaram, parte delas de início, todas elas a seguir e a cortina se abriu. A tela branca encheu-se de imediato de imagens em branco e preto enquanto um instrumento de sopro secundava figuras descritas por uma voz masculina muito elegante.

Embora a televisão tenha diminuído a magia desse episódio inaugural, penso que para meus filhos a primeira sessão de cinema tenha oferecido deslumbramento semelhante.

Quero acreditar nisso porque, embora fosse muito pequena na ocasião, gravei para sempre o medinho de estar num lugar desconhecido e escuro, o cheiro daquele salão, os ruídos todos e o silêncio ao eclipsar das luzes.
Principalmente as imagens enormes e o som vibrando no ar. Uma história contada com som e fúria.

E claro, o orgulho da minha mãe por me dar um presente tão precioso.

Marli Tolosa, psicóloga e pesquisadora

Salva mais uma vez pela música dos anos 1980, fiz uma lista, mudei livros de lugar (“A biblioteca da Fal nunca vai ficar pronta”, disse o velho e bom Candido, certa vez), lavei quantidade industrial de roupa, fiz outra lista, me meti na lista alheia, fiz fondue de queijo (aquele de póbi, com queijo mesmo, não os de rico, com aquele creminho), bebi um bocado de vinho, aprendi com Marli e Mariana que fondue é menina, escrevi sobre o nosso filme (chamo o filme de “nosso” como se você soubesse quem sou, como se dividíssemos o que quer que seja e como se meu analista não fosse dar um tapa na minha testa na terça-feira), enchi carrinhos e carrinhos em lojas online de tecidos, só pra depois fechar a janela e deixar tudo lá. Fumando no portão (virei dessas vizinhas que fumam no portão – mas em minha defesa: eu não estava de roupão), ganhei um boa noite tão gentil e cheio de energia da moça que subia a rua com uma bebezinha, que dei até um sorriso sincero. Anotei, escolhi não anotar, repeti, não para elaborar, mas para chorar em paz.

P: Fal, porque você nunca posta fotos do Alda com a mulher dele, com quem ele é casado há décadas?

R: Porque eu tenho ciúmes de mozão.

Couve. Imã. Documento. Sempre. História. Mitocôndria. Dia. Caminhão. Mundo. Júpiter. El Bulli. Primeiro.

*

Nós, as véia, espargimos água de lavanda nos lençóis todo santo dia. Porque fazer a cama é um ritual e nós amamos rituais. Precisamos deles.

*

Acho que você nunca ficou tanto tempo sem falar comigo, babe. Não, emoji não conta, não, que você não tem dez anos.

*

Ver televisão com a minha mãe é ouvir coisas como “Que coisa, essa moça é linda e tem uma metade do rosto tão diferente da outra…”

Olha.

*

Comprei o dvd de Logan. Culpo a pandemia. Meu texto sobre o filme está pronto (o que, uns quatro anos depois?), mas ainda preciso assistir mais uma vez. Ou duas.

Um dia haverei de aprender a baixar filmes e daí cês vão ver só.

*

Óculos, tiaras, brincos, vozes gravadas, copos de vinho, as pílulas milagrosas da Andréa, lasanhas de berinjela, gatos [agora todos castrados], aventuras muito loucas da pesada pelo maravilhoso mundo da arrumação de livros, aulas sendo preparadas com precisão alemã, unhas crescendo lentamente, tortas de frango, plurais, plurais, plurais e solos de guitarra que certamente me conquistariam, criatura fraca que sou.

e de você e de mim

Rádio Drops

Um dia a verdade é revelada!

Blog de Maliu

“Penso que a gente gosta tanto do Proust porque os livros dele contam coisas com jeito de conversa de botequim.”
No Drops, Maliu dá a letra, a pena e o nankin.

Hoje é segunda?

Então é dia de Blog de Maliu!


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