Baratas gigantes

Desisti do Natal há muitos anos. A bem da verdade, nunca fui dessa equipa. Menina, surfava na onda da minha mãe, ela sim a rainha do Natal. Adolescente, íamos passar os natais na casa da amante do meu pai (por favor, não me faça falar a respeito da minha disfuncional família que nem existe mais), ou na casa dum parente que já era bolsonarista nos anos 1990, pelamordedeus.

Aos dezoito anos, decidi que nunca mais. E foi nunca mais mesmo. Passei anos e Natais solita, vendo tevê e comendo pizza de ontem, até conhecer Alexandre.

Durante meus anos de casada fiz banquetes natalinos de revista – para dois. Sem festa, sem gente em casa, só nós e tudo o que Alexandre queria para a ceia, incluindo o peru que apita. Foram anos divertidos porque ele se divertia e isso bastava para mim. Quando ele morreu, voltei ao meu nadismo doze meses por ano, o que inclui o Natal. Nada me encanta ou mobiliza ou apaixona: cerimônias do Oscar, futebol, Miss Brasil, Natal. Simplesmente não há nada neste planeta que me faça dar pulinhos. Então, o Natal é um dia em que me levanto, ando o cão, escrevo, lavo louça e troco a roupa de máquina. É só um dia péssimo, mas todos os dias são.

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Este ano ganhei uma sacola para livros da Vera e uma caderneta do Edgar Allan Poe da Telinha, além de um monte de caderninhos em branco da Suzi, pra eu montar um livro no esquema faça-você-mesma.

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Minha grande resolução para 2020 é arrumar aquela sala absolutamente podre e este quarto sobre o qual não quero falar, para poder chamar o moço do computador. A minha impressora só funciona na presença dele ou com a mulher dele. E eu preciso demais que minha impressora volte.

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Eu me sinto cada vez mais distante das pessoas. Mais afastada. Elas são um eco, lá longe. É como se ninguém fosse real e eu vivesse num mundo de ficção científica com uma projeção holográfica em 3D que tem resquícios de alguma consciência humana, que é a Maliu, e baratas gigantes que vejo como gatos e um cãozinho, porque né, maluca. Quando saio, na verdade estou só, perambulando pelos escombros do planeta e as outras pessoas são alucinações. Ninguém realmente existe, importa ou se importa e as baratas gigantes planejam me comer.

Meu muito querido Pedro

Há o incrível, há o imensurável e há o dia de hoje.

E no dia de hoje, recebemos a doce notícia de que nosso livro, “Meu muito querido Pedro”, foi classificado no Prêmio Nacional de Incentivo à Publicação Literária, 200 Anos de Independência.

Nós estamos felizes, felizes e queremos que vocês fiquem também.

Não foi, não está sendo, um ano fácil, e um cafuné, depois de tanto trabalho, nos dá coragem para seguir.

A Drops Editora entra em 2020 com o pé direito e coberta de glitter.

Tim-tim, queridos.