Domingo-caderninho

Salva mais uma vez pela música dos anos 1980, fiz uma lista, mudei livros de lugar (“A biblioteca da Fal nunca vai ficar pronta”, disse o velho e bom Candido, certa vez), lavei quantidade industrial de roupa, fiz outra lista, me meti na lista alheia, fiz fondue de queijo (aquele de póbi, com queijo mesmo, não os de rico, com aquele creminho), bebi um bocado de vinho, aprendi com Marli e Mariana que fondue é menina, escrevi sobre o nosso filme (chamo o filme de “nosso” como se você soubesse quem sou, como se dividíssemos o que quer que seja e como se meu analista não fosse dar um tapa na minha testa na terça-feira), enchi carrinhos e carrinhos em lojas online de tecidos, só pra depois fechar a janela e deixar tudo lá. Fumando no portão (virei dessas vizinhas que fumam no portão – mas em minha defesa: eu não estava de roupão), ganhei um boa noite tão gentil e cheio de energia da moça que subia a rua com uma bebezinha, que dei até um sorriso sincero. Anotei, escolhi não anotar, repeti, não para elaborar, mas para chorar em paz.

Diário de um mundo que acabou: couve, imã, notas dissonantes, o milagroso remédio da Andréa, lavanda para os lençóis

Couve. Imã. Documento. Sempre. História. Mitocôndria. Dia. Caminhão. Mundo. Júpiter. El Bulli. Primeiro.

*

Nós, as véia, espargimos água de lavanda nos lençóis todo santo dia. Porque fazer a cama é um ritual e nós amamos rituais. Precisamos deles.

*

Acho que você nunca ficou tanto tempo sem falar comigo, babe. Não, emoji não conta, não, que você não tem dez anos.

*

Ver televisão com a minha mãe é ouvir coisas como “Que coisa, essa moça é linda e tem uma metade do rosto tão diferente da outra…”

Olha.

*

Comprei o dvd de Logan. Culpo a pandemia. Meu texto sobre o filme está pronto (o que, uns quatro anos depois?), mas ainda preciso assistir mais uma vez. Ou duas.

Um dia haverei de aprender a baixar filmes e daí cês vão ver só.

*

Óculos, tiaras, brincos, vozes gravadas, copos de vinho, as pílulas milagrosas da Andréa, lasanhas de berinjela, gatos [agora todos castrados], aventuras muito loucas da pesada pelo maravilhoso mundo da arrumação de livros, aulas sendo preparadas com precisão alemã, unhas crescendo lentamente, tortas de frango, plurais, plurais, plurais e solos de guitarra que certamente me conquistariam, criatura fraca que sou.

Domingo-caderninho

Livrinhos coloridos, cães estranhos, móveis a alguns centímetro do chão e plantas que desafiam as leis mais básicas da botânica: desenhos de um monstro que não sabe desenhar, duma vida improvável, dum alguém que não está.

Domingo-caderninho

Uma voz de outra galáxia, unhas que se roem até sangrar, alô-alô, responde, o de sempre, o de sempre, suspiro, tudo bom?, tudo, o Brasil, o brasil, calma, segura, espera, respira, olhos abertos, fechados, abertos, sussurro, sopro, golpe, gole no vinho, calma, fala, não, não fala, espera, conta, ri, espera, ri de novo, interrompe a frase, fala, fala, despede, tchau, não fala, respira, o chefe da polícia não gosta de mim. Não de verdade.

#DomingoCaderninho