Quando a nudez se desvela

por Pedro Eloi Rech

Por mais de mil anos a filosofia foi aprisionada pelo cristianismo e pelo moralismo que ele impôs. Santo Agostinho submeteu a razão aos ditames da fé, das crenças diretamente reveladas ou ditadas por Deus. A força do Deus judaico prosperou com as armas de Constantino e a intolerância ao mundo plural e diverso foi implantada.

João Paulo II culpa Descartes pela sua libertação. Antes dele, o sujeito fazia parte de Deus, um ente autossuficiente (Ens subsistens), do qual era participante e ao qual era submetido. A partir de Descartes, o sujeito se tornou pensante (Ens cogitans) e a dúvida, não mais a verdade, passou a ser a diretriz filosófica.  João Paulo II, em seu Memória e identidade, denomina isso de ideologias do mal e as culpa pelo nazismo e comunismo. Não via na imposição da verdade nenhum mal. O Cogito, ergo sum revolucionou a filosofia. Ela volta à sua origem grega, na busca de respostas que sempre afligiram e atormentaram o ser humano.

O nu na filosofia não deve, portanto, ser procurado neste período de dominação da interpretação do pensamento de Deus pelas autoridades cristãs, a não ser pelas figuras da repressão, que tantos recalques e personagens sinistros provocaram. Considero a oração de Santo Agostinho, como uma das preces mais sinceras ao longo de toda a história e que, numa livre interpretação, diz mais ou menos o seguinte: Dai-me Senhor, a virtude da castidade, mas sem nenhuma pressa. Só depois de velho.

O tema do nu, embora explicitamente esteja ausente da filosofia, ensejou-me um mundo de possibilidades na sua abordagem. Fiz então uma opção, ligando-o ao erótico, ao fantástico mundo do desejo e da busca de sentido e de significados. Passando por cima das bacantes fui buscar em O banquete, um dos mais belos e fundantes livros de todos os tempos, a inspiração necessária.

Os banquetes gregos eram uma instituição cultural em que se promovia a emulação em torno de belos discursos, sob a inspiração da dádiva dionisíaca do vinho. Não só o melhor orador seria premiado, mas também os que mais bebiam da divina dádiva. Era um tempo em que o ser humano era visto, não em sua divisão entre o dionisíaco e o apolíneo, mas como um todo harmonioso. Os banquetes eram precedidos de danças, a única participação dada ao feminino. Deixo para o seu imaginário a representação da cena, pois certamente ela será bem mais criativa do que a minha escrita.

Em O banquete o tema dos discursos é o amor. Conseguem imaginar a beleza que é este livro? O mote do encontro é uma premiação recebida por Agaton, o anfitrião da festa. Ao todo são sete discursos, na busca do seu significado maior. Fedro fala do que já estava dito; Pausânias elogia o amor homossexual;  Erixímaco o elogia do ponto de vista da medicina; Aristófanes nos fala da insensibilidade humana para com o verdadeiro amor, dos seres partidos ao meio e em busca da reconstituição do todo perdido; Agaton faz o elogio ao deus do amor, sempre jovem e belo. A expectativa cresce com a aproximação da vez de Sócrates discursar.

Como Sócrates nada sabe, ele invoca a sabedoria de Diotima, uma sacerdotisa. E aí vem poesia pura. Diotima fala do amor como um gênio, entre um deus e um mortal. Cabe a ele fazer a mediação entre os deuses e os homens, levando destes as súplicas e os sacrifícios e, recebendo daqueles, as ordens e as recompensas. Uma das partes mais lindas do discurso é sobre a paternidade e maternidade deste gênio. Transcrevo:

“É um tanto longo de explicar, disse ela: todavia eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois de acabarem de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar – pois vinho ainda não existia -, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. A pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor”.

Deixo para os leitores a sequência, para afirmar toda a beleza do amor, uma eterna busca pelo encontro da Pobreza, da falta, da carência e do desejo, com o Recurso, com a generosidade e a abundância. O amor sempre carregará em si a marca da carência, do “descalço e sem lar, deitando ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão”. A este mundo de precisão se somará o mundo do Pai “insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível, mago, feiticeiro, sofista”. Uma busca inesgotável.

Mas o amor, segundo Diotima/Sócrates/Platão não termina aí. Ele conduz à elevação: “Subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só  para dois e de dois para todos os belos corpos e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo”. É a mediação para tornar-se amigo da divindade.

É o amor platônico que, importante lembrar, é uma busca e um encontro entre a pobreza e a riqueza que, em estado de elevação, encontra a plenitude do significado do que é o amor, este, estendido a toda a humanidade, a começar pelo encontro de belos corpos, certamente despidos de adornos, para que em seu estado de natureza, mostrem toda a beleza do desejo pelos corpos desvelados.

Quando tudo parece terminado, eis que chega outro belo e promissor jovem ateniense ao recinto. É Alcebíades, completamente embriagado. Ele não se contém e declara todo o seu amor ao sábio, digo, a Sócrates, evocando a uma das figuras mais recorrentes ao longo de toda a história, a figura do Sileno, pequena estatueta, que em suas aparências representa o feio, mas que, quando se desvela, quando se desnuda, mostra toda a beleza de tesouros intermináveis, que brotam do seu interior. É o sétimo discurso.

Para terminar, desnecessário seria dizer, mas convém lembrar que os moralistas, pseudo intérpretes do divino, são incapazes de ver beleza na nudez, a não ser naquela que provém da pobreza e da miséria humana, causada por homens não atingidos pelo amor; a nudez deformada pela fome que torna os corpos esquálidos e sujeitos a tortura do frio. Se esta imagem não lhes causa um sádico prazer, ao menos os situa no mundo da indiferença, pois, o seu moralismo lhes diz da necessidade de privações e sacrifícios para a expiação de seus males e a obtenção da salvação de suas almas.

Pedro Elói Rech é administrador de tempo livre e do http://www.blogdopedroeloi.com.br

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