Nunca mais nos veríamos #bdd

Sonhei com W. De novo. Ele tinha um gatinho numa das mãos e meio que estendia o gato pra mim, como se o bicho fosse um presente. Eu estava longe demais pra pegar o gato no colo. Gritei Obrigada, e ele respondeu alguma coisa que não entendi. Ele não me ouvia, nenhum dos dois conseguia se mexer. No sonho eu sabia que nunca mais íamos conseguir nos mover de verdade um na direção do outro e que, se saíssemos de onde estávamos, nunca mais nos veríamos.

Diário de um mundo que acabou

Não saímos há mais de quinze dias, Maliu e eu. Rimos, cozinhamos, esfrego o chão com cloro puro o tempo todo, ela me chama de louca, alimentamos os gatos, assistimos séries, vemos uns programas-cabeça dela, ela assiste reprises de Bóbins Gorens de dez anos atrás comigo e tudo bem. Não cortei relações com meus #ocoisoruimtemrazao, pelo menos não com todos. Mas sabe, alguns deles têm pais vivos e eu me pergunto se beijam a mãe com a mesma boca que defendem que tudo bem se morrem “uns 5 mil, 7 mil velhinhos, afinal de contas…”. Estou tão zangada e tão indignada que tenho preferido não falar com eles até minha zanga passar. Os gatos, que vão para o portão chorar cada vez que minha mãe sai, estão felicíssimos com Maliu vinte e quatro horas por dia em casa, claro. Tenho feito muita salada com maçã porque Char mandou três sacos enormes de maçãs. Tenho chorado um bocado e ouvido mais Vanzolini e Salmaso do que a Convenção de Genebra aprovou, mas se eu esgotar toda a Salmaso do mundo, furar meus cedês, estragar os filminhos do Youtube e secar cada linque do spotifái, azar de vocês. Uns acumulam macarrão, eu acumulo Salmaso. A minha rua parece uma grande colônia de férias. Todo mundo passeando, curtindo, rodinha de vizinhos na calçada. O negacionismo do imbecil mór se espalha pelo asfalto ao que parece e eu nunca, nunca, nunca torci tanto pra estar errada como nesta semana. Hoje a Enel nos deixou sem luz por muitas horas, o que parece ter aumentado o desejo do brocolense de ficar zanzando debaixo do sol, em meio ao vírus. Um amigo aqui do feissy fez live falando de Itamar Assumpção, mas eu perdi, então ouvi um bocado de Nego Dito e Dúvida cruel enquanto o tempo passava bem devagar. Lavei louça, lavei roupa, escrevi, li, reguei plantas, desenvolvi uma nova coreografia de lutinha com Otelo, transferi mais uns livros para a sala e mudei uns vinhos de lugar. Fiz uma lasanha que deveria entrar pro Grande livro da culinária divina do mundo, sinceramente. Acendi um cigarro que se fumou sozinho nessa madrugada e fiquei ninando meu vinho cor-de-rosa enquanto espiava a rua do meu beiral, pensando em tudo o que nunca seremos, em todas as palavras que não dissemos e na trilha sonora que não ouvimos. Dá pra acreditar que um dia eu comprei um daqueles foninhos de saída dupla, crente que a gente inda ouvir muito Jenkins juntos? Mas olha que tonta, santo deus do céu. Penso muito mais em você do que deveria, o que não é bom, esperto, digno ou salutar. Desenhei e joguei um mundo de rascunhos fora. A terceira temporada de Ozark consegue ser ainda mais do caralho do que as duas primeiras e só deus é que sabe quando, e se, rodarão uma quarta. Estou economizando os episódios com grande muquiranagem. Minhas suculentas morreram (sim, mais um lote de suculentas mortas, eu sou o Hannibal das suculentas), o amor-agarradinho está meio hesitante, e aquela plantinha que foi da minha vó, logo, tem décadas, está mucho loca, brotando em tudo que é vaso, um amor. Ao que tudo indica, nunca mais teremos chuva, nunca, nunca mais. Meu cabelo, que já estava pedindo uma tesoura antes da quarentena, agora parece uma planta aquática e está oficialmente gigante. Eu não tinha cabelo nesse comprimento desde os dezesseis anos. Meu batom de melancia é meio viciante, roí todas as minhas unhas com requintes de crueldade e tenho lido Prado, porque ela me acalma e me parece sensata. Vi a monja Cohen dando um ataque de pelanca hoje, então não sou só eu que ando nervosa. Comprei toneladas de laranjas, lixei a porta da cozinha, escrevi mais uma carta que você nunca vai ler e dividi uma mexeriquinha azeda com o cãozinho. Ele adora.

Muda e ausente #bdd

Eu me tranco no quarto e canto e canto. Ainda canto razoavelmente depois de todos esses anos.

Razoavelmente.

Queria cantar para você, mas não farei isso, fique tranquilo. Meu amor por você já é bem constrangedor para nós dois sem cantoria da minha parte.

Eu, muda e ausente, já sou constrangedora o suficiente para mim mesma.

#bdd