Domingo-caderninho: eu lhe falei, certa vez, sobre a natureza das palavras

As pessoas me contratam porque não conseguem escrever. Querem escrever melhor. Querem escrever e não encontram o caminho. Querem escrever e querem um novo caminho. Pessoas me contratam, pagam minhas contas, os remédios da minha mãe, a ração do meu gatinho de vinte anos, “Fal, preciso escrever/quero escrever um livro, uma tese, uma carta de amor”, para que eu as ajude a encontrar um meato particular, suas próprias palavras, a mina de sua fonte pessoal. Ah, e eu as ajudo. Gosto de pensar que as ajudo. Eu as ajudo para que encontrem em suas próprias palavras, não as minhas. Suas próprias histórias, não as minhas. Para que descubram como dar voz à própria voz, por mais estranha que seja essa frase. Ajudo quem me procura e juntos encontramos a trilha para que sigam, primeiro comigo, depois sozinhos. Este é meu cotidiano há muito tempo. Agora, eu que faço da minha vida tomar os outros pela mão e acompanhá-los ao longo do sendero das palavras, não tenho conseguido encontrar meu carreador. As palavras têm me fugido, escapado, traído, recusado. Eu queria colocar a culpa em você. Queria dizer que sem você, sem palavras, sem ter o que dizer, sem tema, sem mote. Mas seria mentira, seria injustiça. As palavras não me vêm e a culpa é minha. As palavras não me veem e a culpa é de ninguém. Talvez tenham outros galhos para pousar. Talvez eu tenha usado a minha cota delas nessa vida, desperdiçado algumas, deixado que rolassem pelo balcão e, por isso, os privilégios me tenham sido tirados. Talvez as palavras, as minhas, voltem assobiando na próxima semana ou na outra, como quem não quer nada, colarinho sujo de batom, marmita debaixo do braço. Talvez. Um dia eu lhe disse que voltar para nós é da natureza das palavras. Falei para acalmá -lo, falei porque acreditava nisso, falei porque amo você quando não deveria e quero que você se sinta bem. Agora digo a mesma coisa a mim mesma e torço para ter razão.

Diário de um mundo que acabou: Guitarra, ossos, gargalhadas e louça combinando

Falo com a Cyntia ouvindo, lá no fundo, o Carlos tocar guitarra.

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Carlos nos deu a felicidade de algumas sessões ao vivo ao longo da pandemia. E ela canta e tudo neste mundo parece bem.

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Às vezes, no meio da conversa com o Renato, o Gi vem dar um oi e eu choro um pouquinho. Às vezes ouço o Gi gargalhando lá da sala enquanto lutamos com pronomes e, na hora de contar o que teve de bom no dia para minha mãe, é da risada do Gi que falo.

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Às vezes a Carol para o que estamos fazendo para me contar de pessoas que viveram há milênios, de peixes que estão em algum lugar, de flores que não existem mais e que, no entanto, espalharam outras flores por aí. Às vezes, a Carol me fala do que nunca pôde ser, do que foi e continua, do que inexiste e, mesmo assim, renasce nas páginas que ela produz.

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Às vezes penso em você. E admiro sua resolução em me manter o mais afastada que conseguir, seja me ignorando totalmente, seja me permitindo – de forma muito cruel, mas extremamente eficiente – pequenos e breves vislumbres do universo que não habito, das coisas que não faço, das aventuras que jamais dividiremos. Você é bom nisso, cada história, cada causo, cada comentário são afogamentos no seco. Guantánamo está contratando.

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Tenho cozinhado como se minha vida tivesse realmente mudado durante essa quarentena (fora o medo de que minha mãe morra, estamos na mesma). Tenho feito coisas lindas, com e sem molho, com e com vinho, com cremes deliciosos, queijos que transbordam, tomatinhos picados, pimentões de cores brilhantes. Depois me sento com o guardanapo no colo, como se comer de garfo e faca numa mesa arrumada, organizasse a vida. Talvez. Eu não sei.

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Meio viciada em giz de cera, nas cores granuladas, em como segurá-los para que o papel me obedeça.

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Arrumei o quintal, pendurei plantas, empilhei livros, fiz uma passarela pro Chico ir lá pro alto (a bebezinha também vai, ela adora um arzinho).  Ganhamos um freezer, adoramos, temos cadeiras e mesa e ficamos lá, duas senhoras muito gagás, tomando café em xícaras bonitas, sentindo o vento, brincando de casinha. Os vizinhos devem rir de nós, mas né, e daí.

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O Julio publica fotos da casa e das gatas e do mato e dos passeios e do céu, da forma como gosto de pensar que faria se pudesse fazer, se tivesse como, se tivesse feito as escolhas certas.

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Desenho muitíssimo agora que entendi que desenho para mim e que só eu mesma tenho de gostar (ou não) do que faço.

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Escuto Arturo Cardelús desesperadamente, porque cada acorde me faz lembrar de você. Ele me faz sofrer no meio da música e demora séculos para me dar qualquer alívio. Escuto Carfelús como se minha vida dependesse disso.

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Sigo entorpecida pela tristeza de me deparar com a ignorância orgulhosa, combativa, a ignorância que bate no peito e grita do alto do prédio mais alto “eu não quero mesmo saber, fodam-se os fatos”. Meu coração morre um pouquinho a cada vez, escolho não ler, não saber e, sinceramente, não testemunhar.

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Quando nada mais pode indicar a direção, a Andréa me encontra e me diz o que é preciso. Eu penso, ela aparece, é como uma mágica pequeninha para alguém que não acredita em mágica e que, portanto, nem mereceria essa gentileza.

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Estou a um passo de fazer uma fontinha pros meus gatos no quintal, mas a bendita borrachinha do compressor está no meio do meu caminho. Haveremos de resolver isso essa semana.

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Se bem que essa semana, inconformado com minha queda para transformar a vida no ferro-velho do seu João, um amigo rico mandou uma fontinha toda ela de plástico branco e laranja pros felinos que, claro, então loucos com a água-que-se-mexe-sozinha. Eles também ganharam duas casinhas de fazer xixi. As casinhas têm portinhas de vai-e-vem e isso irrita meus pobres gatos caipiras. Eles ainda não entenderam bem como a banda toca.

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Lendo e assistindo o que há de melhor no universo que me é permitido alcançar. Bebendo coisas boas também, por que o que mais há além?

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A Renata me manda fotos de canecas cheias de chá ou café, coisa que alegra demais meu coração. O café, as canecas, a Renata.

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Unhas roídas até que a carne se torne sangue, dedos que latejam, coração que dói, colo que coça coberto de placas de alergia, the same old same old. Você já viu esse filme e se mantém misericordiosamente afastado.

Horóscopo Drops da Quarentena

Áries, veja bem. Eu concordo ser prudente medir constantemente a temperatura em tempos de coronavírus mas, bem, termômetro não é de borracha, não tem esse tamanho nem esse formato.

Sim, Touro, estamos em quarentena há mais de quarenta dias. Sim, a gente sabe que você está seguindo todas as normas da OMS e mesmo assim sua rotina não se alterou. Como sabemos? Sua última saída foi pra ver Batman. Do Tim Burton. No cinema.

Virgem, sim. Higienizar as compras ao chegar em casa é importante. Mas você não acha que depilar os morangos com pinça e bater o abacaxi na máquina de lavar na velocidade de centrifugação pode parecer exagero?

Sagitário. Sagitário! Ah, desculpa, volte a dormir. Quando acabar a quarentena a gente te chama.

Tudo bem, Câncer, a gente sabe como é importante fazer estoque pra não precisar ir pra rua com frequência mas essa semana já é a terceira vez que você repõe o estoque de vinho pro mês.

Não, Capricórnio. Uma dieta à base de sorvete não significa uma dieta sem calorias.

Ficamos felizes em ver a sua preocupação com sua mãezinha idosa, Leão. Mas você tem certeza quanto ao banho de cloro e a envolvê-la em plástico filme?

Sim, Peixes. Concordamos que as folhas são parecidas. Mas você não acha que a fumaça diária que sai da sua janela e o consequente cheiro não inutilizam a plaquinha no vaso dizendo: “plantação de quiabo”?

Libra, nós entendemos o espírito de competição quando você propôs ao vizinho do apartamento de baixo um campeonato onde ganhasse quem tivesse mais louça suja. Mas a gente achava que depois que você ganhou, com fotos da casa toda para comprovar, você LAVARIA os trem.

 Escorpião, a venda de produtos pela internet é uma prática recomendável na quarentena mas acho, SÓ ACHO, que não inclui sua sogra. E, não, mandar de SEDEX não atenua.

Aquário, o porteiro mandou perguntar se o lixo diário de garrafas e latinhas da senhora ainda não desceu e que tem três moços da reciclagem lá em baixo cada um gritando “da dona Carol é meu!”

Não, você não é imune a nada, Gêmeos, seu doido. Não, ninguém quer ir com você na manifestação “Reabram a 25 de março, preciso comprar tranqueiras pro cabelinho”. Não, ninguém quer fazer churras na laje. Não, ninguém quer seu abraço de ursinho carinhoso. Amigo, perca o número do nosso telefone.

Contrate um escritor


Quando falo isso – e sempre falo isso – amigos reviram os olhinhos, dão fungadelas e têm fantasias sobre me atirar no poço do elevador. Eles sabem, porém, que tenho razão.
Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.
Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar (não fazer por você, antes que os afoitinhos de plantão venham me procurar com tochas acesas) na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas primeiras anotações, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

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Por favor, por você, contrate um escritor.

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Domingo-caderninho

Caderninhos cheios de memória (e fúria e som), da minha letra irregular, da chuva que o domingo promete, de vírgulas malucas, de parágrafos sem rumo, do seu apelido secreto que me tomaram, então inventei outro, mas agora não tenho coragem de usar, porque tudo mudou. Caderninhos que chegam ao fim e não acabam nunca, como tudo que sinto.