Uma casa em Paris, uma declaração fundamental, o armário do banheiro alheio, Matisse, suco de maracujá

Vou escrever, de agora em diante e, para sempre, como se você me lesse. Antes, como se me enxergasse. Antes, ainda, como se você se importasse. Eu me dei conta de que não escrevia aqui porque aqui você não vem e escrevia lá porque lá você vai. Raramente, mas vai, e eu, tola, tola, queria que você me visse. Espero um dia, parar de falar a seu respeito. Por enquanto, não posso. É como se, ao parar de falar de você, eu deixasse de ser quem sou. Vou escrever aqui, e não lá, como se, para além do Claudio e a Nepomuceno, você viesse aqui. Vou manter isso aqui como se fizesse sentido escrever. Para você.

*

Dos meus muitos voyeurismos, espiar a casa dos outros é das cousas que mais amo. A casa alheia e seus cantinhos, toalhas, boxes, pias, armário, nichos e escadas. Onde ficam suas canecas bonitas? A cafeteira de D. mora na estante de livros na sala. A Bea serve a comida da gata na varanda. A Nepomuceno tem paredes coloridas. Meus livros de moda agora ficam na sala. Como cada um arruma seus pertences, como cada um espera o fim, seja ele a o envelhecimento sem dignidade, o apocalipse zumbi ou a morte do amor. Como arrumam seus armários da cozinha, como esperam que seus dentes caiam.

Quem são as pessoas, criaturas estranhas, e suas casas, espaços cheios de milagres e encantamento.

*

O calor voltou, não tive nem dois meses de pausa. Roí todas as minhas unhas, cantei em voz alta, sorri para o espelho do banheiro e para as minhas minhas rugas (gosto delas) e para a minha papada (odeio ela) e vi coisas que jamais acontecerão e coisas que acontecem todos os dias.

Rosaceae

– Permita que o homem cego lave suas feridas – ele me disse ao perceber a dor em minha voz. Tomávamos café num balcão anônimo, falávamos da vida e o assunto era vago, quase impessoal. Com um gesto, ele pegou o biscoitinho de amêndoas do pires dele e o ofereceu, assim, no ar. Aproximei minha boca de sua mão e aceitei a prenda. Quase engasguei com o sabor amargo das amêndoas, a surpresa, a urgência na voz dele e com o tesão. O meu. Sacudi a cabeça, como se ele pudesse me ver. Segurando meu braço, ele nos tirou da cafeteria e de lá para o táxi e de lá para a cama dele, onde suas mãos fizeram o melhor que podiam para acalmar minha dor.

Gozei aquela noite olhando nos olhos de um homem que não me via, olhando nos olhos de um homem que me viu como se eu sempre estivesse ali, como se eu fosse boa, como se eu merecesse ser vista.

Ele gozou dizendo meu nome, com a boca em meus cabelos, as mãos na minha bunda.

Um sujeito falando em alemão

Coloca a mão na minha bunda, por favor.

Vocês ali, quase dormindo, quase com tesão, quase assistindo ao filme, envoltos naquela bruma entorpecida de quem está de barriga cheia, tonto de vinho, quentinho. Ele coloca a mão na curva da sua bunda, você se estica para alcançar a taça, um peito escapole para fora da colcha, um cão late lá no fim da rua, o fio da meada do filme perdido há muito, vocês querem ir para a cama, mas pelo amor de Deus, quantos passos até lá, uns vinte? Sem condições. Parece que tem um sujeito falando em alemão no filme, vamos prestar atenção que ainda dá pra recuperar, ele dá meio que um ronco quando ri, você bate o dente na taça e dói um pouco, sua nuca cabe direitinho no peito dele, a sala parece um velho navio flutuando a esmo num mar gentil e tem uma mão morna sobre a sua bunda.

bom dia, Iugoslávia

Vem cá, meu bem

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