dia 25

Foi um Natal de perdas – um dia, alguém me ensinou duas coisas: que não existe amor sem ressentimento e que todo Natal é de perdas porque, ao longo do ano, qualquer ano, são muitas e definitivas as promessas não cumpridas, os caminhos que não podem ser retomados, as histórias não concluídas, ou, meu Deus, dolorosamente concluídas. Foi um Natal de perdas porque é delas, sempre, quase sempre, sempre, sempre, que a vida é feita.
Foi um Natal de sorrisos também, mesa finalmente instalada na cozinha, garrafas – quase todas – no lugar, grande parte das prateleiras presinhas às paredes e a manutenção, para a alegria dos fãs do esporte, do mistério caberão as prateleiras de detrás da mesa realmente detrás da mesa? Tcharãããããã. Aguardem o episódio A volta do querido sr. Andrade.
Foi um Natal de perdas, de arrumação, de chester ao molho pesto (faça, é maravilhoso), de vinho finalmente bebido em taças lindas e antigas, de muitas desistências, de algumas fichas caindo e esmagando meu peito, de saleiro&pimenteiro de papai-noel-e-homem-de-neve, tradução do livro, ventilador, chocolates da Ana Paula, ricota defumada, café com leite no copo mais lindo, ah, e garrafinhas de azeite postas no lugar, quase que não-para-você.

Somov, prateleira de livraria, o ministério de Dolores Umbridge, você adora uma calhordice, existe alguém mais burra do que eu?

Lovers, 1933 – Konstantin Somov, russo (1869-1939)

Olha, a Vale fazendo propaganda das cestas-básicas que distribui. Deus de misericórdia.

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Diz que começou ontem a consulta pública do Ministério da Saúde desse governo inominável, a respeito de vacina. Imbecis de toda sorte dizendo se são “contra” ou “a favor” da vacinação das crianças de cinco a onze anos contra a COVID. O ministro da Saúde que, até onde se sabe, tem diploma de medicina, disse que espera o resultado da consulta pública para incluir ou não a vacina no PNI.

Às vezes eu acho que tou só num pesadelo, mas daí me lembro que aquele escroto foi eleito e desacredito, de novo, da humanidade.

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Uma história inventada para que ela se sinta melhor a respeito do que não tem.

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Há todo um braço da literatura atual que não é exatamente autoajuda, é uma espécie de literatura-upa-lá-lá, um literatura feita para você se sentir linda e fresca, com a pele boa e cheia de esperança, histórias-fofas-e-catitas-sobre-como-viver-bem-e-tal-e-tal-sua-fofita. Sinto muita inveja de quem escreve esse tipo de coisa. Deve ser uma delícia de fazer. E deve vender. Já perdi tantos bondes na minha vida, eis que perco mais este.

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Guardei uma história para contar a você caso, um dia,você volte a falar comigo.

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Como o Thomas Edison era calhorda, meu Deus. Os calhordas sempre, sempre, sempre se dão bem? Se ele fosse uma mulher e estive entre nós, você gostaria de passar o Natal com ele lá na casa da sua mãe, você comendo bacalhau, ele não dando a mínima para você, você feito um imbecil. Olha, certeza.

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Ela sonhou, por longas semanas, com esse Natal. Ele se materializaria no portão com as roupas numa mochila. Filmes demais, roliúde demais, vinho demais, falta de consciência e, sabemos, dum espelho. Mas ela sonhou com isso e não se envergonha. Um pouquinho, talvez.

Manteiga, endereço, coisas boas de falar, rainha Vitória, rainha Vitória, onde estás que não respondes?

A quantidade de manteiga que a minha blogueira preferida bota na comida é um exemplo para as futuras gerações.

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Um dia você se dá conta de que ele sequer lhe deu o novo endereço dele.

Sabe, a vida cheia de recados e você nada de abrir os envelopes, querida?

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As minhas noites têm sido assustadoras. Eu sonho pra valer.

Meu inconsciente, a única parte de mim que não é sedentária.

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Se você não estiver pesquisando laços de gravata da era vitoriana, nem fala comigo. Victorian puff tie. Como será o nome desse negócio em português?

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Depois de aprovado o orçamento de 2022, técnicos em cargos de chefia por toda Receita Federal entregaram seus postos. Daí acontece o que, a milícia assume geral?

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O Octávio Guedes, coberto de razão, tá na Globonews dizendo que o presidente declarou guerra ao próprio povo. Que país assustador.

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Whether feast or famine – que jeito maravilhoso de escrever.

Hoje

Falar com D. me deixava eufórica e triste, a desatenção (que não, não era uma fase, foram anos e anos) acabava comigo, fotos me deixavam triste e a foto derradeira, de repente, mostrou o que ele me diz há cinco anos: querida, não estou aí pra isso e, veja bem, de todas as maneiras possíveis isso lhe foi dito. Qual a parte que você não entendeu?

Eu entendi, mas não entendi, até entender. Sempre uma educação.

Estou muito mais triste do que nos últimos cinco anos juntinhos e acumulados. Ontem chorei até dormir e sonhei com D. e o apartamento de D.

Acordei assustada, às duas e meia da madrugada e fui dobrar roupas e devolver livros às estantes, me sentindo um inseto repelente. Fiz chá, fiz outro chá, não chorei, lavei a cabeça, não chorei. Fiz um café, bem lentamente, sentindo o calor do vapor, o cheiro de cada centímetro cúbico do pó escuro. Um dia eu fiz um áudio lindo para D. sobre isso, sobre as manhãs e seus vagares. Nenhuma resposta. Lembrei disso enquanto respirava meu café na casa em silêncio. Eu enchi o saco da criatura que não me queria por perto. Deve estar aliviado. Eu, sinceramente, me colocando no lugar dele, também estaria.

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Na prática, a vida realmente não muda, e é nisso que eu devo me concentrar: ele não me lia, vai continuar não lendo. Não perguntava se eu tinha melhorado, vai continuar não perguntando. Não me queria por perto, vai continuar não querendo. Jamais encararia a Dutra por mim etc. etc. etc.

A diferença é que eu, que sempre soube disso, agora sei mesmo-realmente-para-caralho disso.

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Acho que, apesar da imensa dor, vai sarar. Se o Drexler não me mentiu, vai sarar. Alguma hora, de algum jeito, vai sarar. O Drexler jamais me mentiria. Acho.

Vem cá, meu bem

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