Horóscopo Drops da Quarentena

Áries, veja bem. Eu concordo ser prudente medir constantemente a temperatura em tempos de coronavírus mas, bem, termômetro não é de borracha, não tem esse tamanho nem esse formato.

Sim, Touro, estamos em quarentena há mais de quarenta dias. Sim, a gente sabe que você está seguindo todas as normas da OMS e mesmo assim sua rotina não se alterou. Como sabemos? Sua última saída foi pra ver Batman. Do Tim Burton. No cinema.

Virgem, sim. Higienizar as compras ao chegar em casa é importante. Mas você não acha que depilar os morangos com pinça e bater o abacaxi na máquina de lavar na velocidade de centrifugação pode parecer exagero?

Sagitário. Sagitário! Ah, desculpa, volte a dormir. Quando acabar a quarentena a gente te chama.

Tudo bem, Câncer, a gente sabe como é importante fazer estoque pra não precisar ir pra rua com frequência mas essa semana já é a terceira vez que você repõe o estoque de vinho pro mês.

Não, Capricórnio. Uma dieta à base de sorvete não significa uma dieta sem calorias.

Ficamos felizes em ver a sua preocupação com sua mãezinha idosa, Leão. Mas você tem certeza quanto ao banho de cloro e a envolvê-la em plástico filme?

Sim, Peixes. Concordamos que as folhas são parecidas. Mas você não acha que a fumaça diária que sai da sua janela e o consequente cheiro não inutilizam a plaquinha no vaso dizendo: “plantação de quiabo”?

Libra, nós entendemos o espírito de competição quando você propôs ao vizinho do apartamento de baixo um campeonato onde ganhasse quem tivesse mais louça suja. Mas a gente achava que depois que você ganhou, com fotos da casa toda para comprovar, você LAVARIA os trem.

 Escorpião, a venda de produtos pela internet é uma prática recomendável na quarentena mas acho, SÓ ACHO, que não inclui sua sogra. E, não, mandar de SEDEX não atenua.

Aquário, o porteiro mandou perguntar se o lixo diário de garrafas e latinhas da senhora ainda não desceu e que tem três moços da reciclagem lá em baixo cada um gritando “da dona Carol é meu!”

Não, você não é imune a nada, Gêmeos, seu doido. Não, ninguém quer ir com você na manifestação “Reabram a 25 de março, preciso comprar tranqueiras pro cabelinho”. Não, ninguém quer fazer churras na laje. Não, ninguém quer seu abraço de ursinho carinhoso. Amigo, perca o número do nosso telefone.

Contrate um escritor


Quando falo isso – e sempre falo isso – amigos reviram os olhinhos, dão fungadelas e têm fantasias sobre me atirar no poço do elevador. Eles sabem, porém, que tenho razão.
Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.
Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar (não fazer por você, antes que os afoitinhos de plantão venham me procurar com tochas acesas) na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas primeiras anotações, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.

Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas notas, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Domingo-caderninho

Caderninhos cheios de memória (e fúria e som), da minha letra irregular, da chuva que o domingo promete, de vírgulas malucas, de parágrafos sem rumo, do seu apelido secreto que me tomaram, então inventei outro, mas agora não tenho coragem de usar, porque tudo mudou. Caderninhos que chegam ao fim e não acabam nunca, como tudo que sinto.

Diário de um mundo que acabou: ervilhas, genocídios e cadeados

Às vezes a pessoa é desnecessariamente grosseira para que você deixe de procurá-la, mas olha, não precisa. Mesmo. A dor dá conta demais desse recado. Você não precisa nem piscar, meu caro.

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Perdi alguém na semana passada. Querido. Amigo, inimigo, bom de briga, bom de cama, bom de dividir livro e projeto.
Perdemos alguém hoje, Maliu e eu. Querido. Jovem. Todo sarado. Feliz, apaixonado.

Perdemos, em menos de uma semana, dois alguéns para essa maldita pandemia que os bobos alegres de plantão minimizam aos gritos, berrando na av. Paulista e no meu ouvido, sendo completamente idiotas como, aliás, seu líder máximo.
Minha dor só não é maior do que meu ódio por esse governo homicida. E minha indignação com os que o apoiam, minha decepção e minha tristeza com essa gente, não cabem no peito.
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Assisti Leave No Trace (Sem rastros) e fiquei muito encantada com a história, com a fotografia, com a construção do relacionamento daquele pai, daquela filha, com a vida deles. E também tou aqui pensando que aquela comunidade no meio do nada, com aqueles bicho-grilos velhos, tocando violão sem afinação e vivendo cada um em sua cabaninha, seria a única comunidade de carne e osso da qual me encantaria participar.

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“Vocês não têm ideia da importância das…” “Vocês não sabem do…” “Vocês não têm noção do que é…”. É, lindão, não temos, você é mesmo o dono lacrador da realidade. Ilumine nossas pobres mente, imploramos.
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“O cadeado”, diz minha mãe, “tem duas chaves” e aí eu começo a rir e aí ela começa a rir, porque nós duas sabemos que vou perder as duas chaves.
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“Silenciar o perfil” é um gesto lindo que significa “quero continuar te amando apesar da sua afeição por genocidas”. As pessoas não me dão o devido valor.
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O Brasil me obriga a concordar com o Rodrigo Maia. Nem sei mais quem sou.
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A quarentena parece tanto com a minha vida normal que evito reclamar.
Meu medo do futuro por viver sob uma pandemia e sob um governo que não tem qualquer interesse em cuidar de mim, da minha saúde ou das minhas contas a pagar, somatiza-se numa alergia misteriosa que corrói minha pele nos antebraços e colo.
Meu sono, porém, minha velha e boa fuga, está cada dia mais profundo.

Morro a cada noite, renasço (mais ou menos) a cada manhã. Sonho com você na maior parte das madrugadas, apesar de todas as suas demonstrações de “Desapareça”. Como explicar seu nojo pro meu inconsciente?
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Maliu estava trocando os canais da tevê e caiu no sono, controle remoto em punho. A tevê num canal daqueles que tem gente em diferentes janelinhas cantando gritado. Deus me livre. Troquei pro canal do Bobigorén.
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Estou assistido tanta coisa boa, tanta, que vou voltar a fazer listas.
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Vizinhos em rodinhas, vizinhos em lambretas, vizinhos jogando vôlei no meio da rua. É o maravilhoso mundo da negação.
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Tenho feito tortas de cebola e queijo cada dia mais lindas e fofas. Não melhora em nada a vida do país, mas dá um alento enorme.
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Leio aqui que “o novo ministro da Saúde não vai participar do anúncio dos dados atualizados do novo coronavírus em Brasília”.
Como elegeram essa escrotidão de governo? Como?
Irresponsáveis.
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Não, gente, água tônica antártica não vai salvar a vida de ninguém.
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Quando a dinâmica se perde, a dinâmica se perde. As pessoas são boas e gentis (quando não estão em grupo) e tentam, mas a dinâmica se foi.

*
Os minutos, miados, sachê de ração dum gatinho desdentado, os baldes de água com cândida, freelas, aulas, projetos, amigos, as perdas irreparáveis, fileirinhas de ervilha em lata, ovos fritos cenográficos, teorias da conspiração, copos de suco de uva, a imensa falta que sinto do que não fomos, panos de prato fervidos e quarados, potes de geleia, sprays de SBP, galhos de eucalipto, gotinhas de vapor, sanduíches de queijos, escritos do Allan, sustos petiticos e enormes, dorzinhas finas no meio do peito.

Os instantes de cada dia, de cada cor, da espera, do inevitável, do que é cruel e irrevogável.

Os dias aqui.

Neste mundo que, sim, acabou.

Minhas estantes possíveis

O afago às vezes não vem. Simples assim. É preciso que, em algum momento, você se pergunte se o outro é incapaz do gesto ou se você é incapaz de merecê-lo. Isso, porém, é assunto para depois. Agora você tem de lidar com ausência do afago. Com a não existência do gesto. Há que se trincar os dentes e cerrar os punhos. Tornar os passos ainda mais pesados. É preciso respirar fundo, se essa for uma possibilidade. É preciso continuar. Não, não virá. Sim, você vai sobreviver. Sim, é uma droga.

Seja um gentil patrocinador do Drops

A incerteza é a tônica dos nossos dias.

Sabemos que a angústia é o sentimento que nos atinge a todos, em diferentes níveis.

Cada um de nós está fazendo o que pode dentro de suas circunstâncias.

O Drops, como Minas, está onde sempre esteve e pretende ficar.

Para que o Drops permaneça e cresça cada vez mais na produção de conteúdo, precisamos de ajuda. Neste momento difícil, se você puder contribuir com uma assinatura mensal, a partir de 10,00, será lindo. Se você não puder, tudo bem.  Nós entendemos, demais.

O financiamento continuado do Drops se chama Guilda.

Escolhemos este nome pois Guilda significa “associação que agrupava, em certos países da Europa durante a Idade Média, indivíduos com interesses comuns (negociantes, artesãos, artistas) e visava proporcionar assistência e proteção aos seus membros.”

Cada assinante da Guilda receberá um envelope mensal com um mimo. O de março já foi enviado. Poderá também, se quiser, participar do Grupo de whatsApp da Guilda.

É como um guarda-chuva do amor em tempos de tormenta. Tudo isso vai passar um dia.

Sabemos.

Fal e Suzi

O link para o Catarse é este: https://www.catarse.me/guilda_do_drops_e45a?project_id=111183&project_user_id

 Assim que clicar em “Assinar este projeto” abrirá uma página onde vc deve clicar em “Apoiar sem recompensa”
NADA TEMA!
Seu envelope será enviado todo mês e a garantia somos nós.

Fal e Suzi

Diário de um mundo que acabou 2

O Brasil elegeu um homem que aparece em rede nacional distorcendo falas do presidente da Organização Mundial da Saúde – e isso bem no meio duma pandemia.

Eu nem sei mais.

*

Laranjas. O que seria de nós sem elas? Os marinheiros sabem disso há séculos. Eles sonhavam com sereias? Sonhavam. Mas ah, as laranjas.

*

Estou perdida e consumida por esse lava-lava. O chão tudo bem, lavar chão é lavar chão, não tem grandes atropelos. Mas esse miudinho de lavar copo de iogurte, uvinha, folhinha de couve, pelamordedeus.

*

Os dias tem passado absurdamente rápido. Absurdamente, absurdamente.

*

De quando em vez, não ria, abro uma clandestina foto sua. Ninguém tem nada a ver com isso. Abro, olho pra sua cara, fecho a foto, volto pro serviço. Há algo de confortável e familiar em seu rosto que, se formos parar pra pensar, vi poucas vezes ao vivo e a cores para todo o Brasil. Pensei em cometer um “olhar pra você é como voltar para casa”, mas tenho muita vergonha de ser tão ridícula.

Ai.

Agora já foi.

De qualquer forma, lembro do Snoopy citando Thomas Jefferson, “Não se pode voltar para casa” e, no nosso caso, estão ambos cruelmente certos.

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Quando com medo de morrer coletivamente e sem muita coisa para pensar além disso, as pessoas revelam sua fragilidade em minúsculos movimentos, minúsculas deixas, palavras soltas, um suspiro no fim do áudio, um parágrafo desnecessário num e-mail perdido, a indicação dum filme que, se não fosse o apocalipse zumbi, jamais faríamos.

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Ovos fritos. O que seria de nós sem eles? Ovos fritos são o Brasil que deu certo.

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Acabei Ozark com enorme dor no coração. Não queria que acabasse. Mas que série, que série.

Comecei outra, chata, chata, ruim, ruim, parei. Volto para los nouregos que, mesmo reprisados, são sensacionais.

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Mamãe fez bacalhau à gomes de sá, eu abri uma garrafa de vinho e foi esse o almoço-em-meio-ao-caos. Porque vamos mesmo morrer, mas olha, cercadas de glamour.

*

Alguém me disse que viu estrelas da janela do quarto, em plena São Paulo. Corri para o meu próprio céu e elas estavam lá. Que coisa mais triste ser preciso uma pandemia preu ver meia dúzia de estrelas. Que coisa mais linda a minha particular meia dúzia de estrelas.

Nunca mais nos veríamos #bdd

Sonhei com W. De novo. Ele tinha um gatinho numa das mãos e meio que estendia o gato pra mim, como se o bicho fosse um presente. Eu estava longe demais pra pegar o gato no colo. Gritei Obrigada, e ele respondeu alguma coisa que não entendi. Ele não me ouvia, nenhum dos dois conseguia se mexer. No sonho eu sabia que nunca mais íamos conseguir nos mover de verdade um na direção do outro e que, se saíssemos de onde estávamos, nunca mais nos veríamos.

Diário de um mundo que acabou

Não saímos há mais de quinze dias, Maliu e eu. Rimos, cozinhamos, esfrego o chão com cloro puro o tempo todo, ela me chama de louca, alimentamos os gatos, assistimos séries, vemos uns programas-cabeça dela, ela assiste reprises de Bóbins Gorens de dez anos atrás comigo e tudo bem. Não cortei relações com meus #ocoisoruimtemrazao, pelo menos não com todos. Mas sabe, alguns deles têm pais vivos e eu me pergunto se beijam a mãe com a mesma boca que defendem que tudo bem se morrem “uns 5 mil, 7 mil velhinhos, afinal de contas…”. Estou tão zangada e tão indignada que tenho preferido não falar com eles até minha zanga passar. Os gatos, que vão para o portão chorar cada vez que minha mãe sai, estão felicíssimos com Maliu vinte e quatro horas por dia em casa, claro. Tenho feito muita salada com maçã porque Char mandou três sacos enormes de maçãs. Tenho chorado um bocado e ouvido mais Vanzolini e Salmaso do que a Convenção de Genebra aprovou, mas se eu esgotar toda a Salmaso do mundo, furar meus cedês, estragar os filminhos do Youtube e secar cada linque do spotifái, azar de vocês. Uns acumulam macarrão, eu acumulo Salmaso. A minha rua parece uma grande colônia de férias. Todo mundo passeando, curtindo, rodinha de vizinhos na calçada. O negacionismo do imbecil mór se espalha pelo asfalto ao que parece e eu nunca, nunca, nunca torci tanto pra estar errada como nesta semana. Hoje a Enel nos deixou sem luz por muitas horas, o que parece ter aumentado o desejo do brocolense de ficar zanzando debaixo do sol, em meio ao vírus. Um amigo aqui do feissy fez live falando de Itamar Assumpção, mas eu perdi, então ouvi um bocado de Nego Dito e Dúvida cruel enquanto o tempo passava bem devagar. Lavei louça, lavei roupa, escrevi, li, reguei plantas, desenvolvi uma nova coreografia de lutinha com Otelo, transferi mais uns livros para a sala e mudei uns vinhos de lugar. Fiz uma lasanha que deveria entrar pro Grande livro da culinária divina do mundo, sinceramente. Acendi um cigarro que se fumou sozinho nessa madrugada e fiquei ninando meu vinho cor-de-rosa enquanto espiava a rua do meu beiral, pensando em tudo o que nunca seremos, em todas as palavras que não dissemos e na trilha sonora que não ouvimos. Dá pra acreditar que um dia eu comprei um daqueles foninhos de saída dupla, crente que a gente inda ouvir muito Jenkins juntos? Mas olha que tonta, santo deus do céu. Penso muito mais em você do que deveria, o que não é bom, esperto, digno ou salutar. Desenhei e joguei um mundo de rascunhos fora. A terceira temporada de Ozark consegue ser ainda mais do caralho do que as duas primeiras e só deus é que sabe quando, e se, rodarão uma quarta. Estou economizando os episódios com grande muquiranagem. Minhas suculentas morreram (sim, mais um lote de suculentas mortas, eu sou o Hannibal das suculentas), o amor-agarradinho está meio hesitante, e aquela plantinha que foi da minha vó, logo, tem décadas, está mucho loca, brotando em tudo que é vaso, um amor. Ao que tudo indica, nunca mais teremos chuva, nunca, nunca mais. Meu cabelo, que já estava pedindo uma tesoura antes da quarentena, agora parece uma planta aquática e está oficialmente gigante. Eu não tinha cabelo nesse comprimento desde os dezesseis anos. Meu batom de melancia é meio viciante, roí todas as minhas unhas com requintes de crueldade e tenho lido Prado, porque ela me acalma e me parece sensata. Vi a monja Cohen dando um ataque de pelanca hoje, então não sou só eu que ando nervosa. Comprei toneladas de laranjas, lixei a porta da cozinha, escrevi mais uma carta que você nunca vai ler e dividi uma mexeriquinha azeda com o cãozinho. Ele adora.