Nunca mais vi meu amigo

Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo. Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.

Menu dégustation: abril

Coisas vistas & ouvidas & preparadas & assistidas & comidas & visitadas; mas não todas, não tudo, não todo o tempo.

Suzi Márcia, que tinha feito cartazes do Drops mês passado, nesse mês fez bonecos do Maximus e seus amiguinhos, bolsa linda e abriu grupo do Drops lá no feissy. Eu só fico olhando de boca aberta, achando tudo lindo demais. Estraçalhei meu braço dum jeito patético-burro-tonto-trapalhão-porrafal e Suzi também está cuidando da digitação geral e absoluta. Quem tem Suzi tem tudo.

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Graças a Fabiana Mesquita e Mariana Aldrigui, tem equipamento funcionando nessa casa.

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Fiz tortas salgadas lindas. Lindas. Elas ficam com o queijo derretidinho, com a crosta dourada, umas belezocas.

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Vi:

A série Happy, na Netflica. Que coisinha bem pensada e engraçada. 

A série Borderliner, também na Netflica, achei fuéééén.

A série Counterpart, em meio alternativo de entretenimento, oia, MUITO AMOR. 

E só. Não vi filmes, não vi coisa alguma além das séries supracitadas, porque a Netflica vai tirar Supernatural do ar H-O-J-E e eu fiquei maratonando e maratonando, com o coração cheio de saudade antecipada. Não tá certo isso, não.

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Li muita coisa sobre a vida de Monet. Achei que conhecia o cara e, como sói acontecer, constatei que não se sabe coisa alguma da vida dozotros. 

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Reli, cheia de assombro e o horror da total identificação, A invenção da solidão, do Auster. Pelamor.

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Dei uma parada com o livro do Peter Gay, mas já voltei pra ele.

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Li O buda no sótão. Que livro. /o\

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Graças ao meu amigo Sérgio e sua generosidade, estou lendo Rex Stout como uma viciada. No fim de maio eu faço a lista do que li, porque já comecei a me perder.

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Testemunhei o desmonte da casa de um amigo. Foi mais ou menos como o desmonte da minha. Odeio mudança. Mudanças.

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Minhas plantas tão crescendo que nem uns bebezinhos. Inclusive minhas suculentas, que chegaram aqui do tamanico de meio brigadeiro e quase mortas.

(chamo as suculentas de leguminosas, só pra fazer Maliu rir).

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Foi isso. Abril foi um mês lento.

Abril de 2018


Notas rápidas duma digitação errante

Deve haver alguma espécie de explicação pra sem-noçãozice, a sua, a minha, mas né, a NASA não liberou o material, de modos que só observo a pessoa circulando alegremente entre o resto do pessoal, fingindo que olha, tudo bem.

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A filha da amiga tem cinco anos e não se conforma quando vê a cena na casa dela ou aqui: um adulto, com a tevê desligada, lendo um livro feito de papel. Ela esteve aqui e não queria conversar ou fazer gracinha ao me cercar enquanto eu lia. Estava mesmo impressionada. “Você fica que nem a minha mãe, sem se mexer, lendo, lendo. O seu livro não pisca”. 

Não emito juízo de valor, quem ama o passado pelo passado e não as coisas legais do passado, que volte a tomar banho de canequinha, mas ler livros me parece ser uma daquelas atividades que, muito em breve, vai se unir a bater manteiga, acender o lampião, levantar-se pra torcar o canal da tevê (com bombril na antena), casar por procuração e fazer a América.

Eu e meus livros que não piscam, graças a Deus, em extinção acelerada. Que São Darwin nos abençoe.

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Filmes velhos na Netflix. Obrigada, civilização ocidental.

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Meu braço tá uma chatura e eu não quero mais falar dele.

Segundo semestre de 2018

Poeminha sobre velas de maçã; roupa de cama; bolachinhas de goiaba e a imensa falta que você me faz

Tudo quieto no meu quarto, 

tudo ali estava bem

nem um cisco se mexia, 

nem um rato, 

nem um trem,

mas ao me levantar, 

em busca de dicionário honesto

sou alarmada pela algazarra

coisa que, de hábito, detesto.

Para apanhar o meliante, 

viro-me de supetão,

e eis que constato aflita:

sobre minha cama, 

o cão.

É um cão novo, redondo, 

bobinho e feliz

que ama todo mundo, 

que suja de leite o nariz,

faz dos gatos, irmãozinhos,

gosta da Maliu e de mim

gosta de desenho animado,

de balas e chá de jasmim.

Ele está sempre alegre, 

está sempre agitado

está sempre com fome, 

nunca parece cansado.

E agora, em minha cama, 

late, se agita e brinca

como se fosse um dia gentil,

numa semana boa, 

num ano sensato,

como se não fosse o Brasil.

Caldo

Queria falar sobre a dor do que é contínua, definitiva, invariável. Sobre a dor do que se pode ter, não se pode ter, existe e não existe, como o gato na caixinha. Sem gradação. Sem alívio, sem começo ou fim, sem abinha para puxar, sem “ligue para o nosso SAC”, sem “abra o pacote na linha pontilhada”. Queria falar sobre a dor que está lá todos os dias, todos, esperando por você dentro das crocs brancas, esperando, e que quando você se senta na cama e desliza os pés pra dentro delas, é tomado por aquela sensação de conforto, de morno, de reconhecimento, de enfiar os pés não nas crocs, mas nas crocs recheadas pela lama primordial da dor ininterrupta e, então, vem a lembrança. E cheio de dor da dor que a dor causa, você revive, antes de sair da cama, fazer xixi, escovar os dentes e amaldiçoar o dia, a lama de onde se arrastou ainda um organismo patético, sem rabo, sistema nervoso central digno desse nome e cílios. Você, sim, veio dela, ainda um nada, sem pelos, sem conta no insta, sem caixa de anéis, meias na gaveta. Não tinha qualquer coisa a não ser dor. E você rastejou para fora do poço da dor para criar membros, andar de quatro, escalar árvores, andar de dois, aprender a matar tigres, simbolizar com sangue e suco de frutinha, registrar a vida, matar Aníbal, construir Paris, telefonar para a sua mãe, comer no coreano, torcer pelo time, checar o celular e parar de doer tanto, o que se mostrou impossível. Um caldo primordial de dor e desistência do qual jamais nos livraremos, era sobre isso que eu queria falar. Não tem perfume francês, shampoo recomendado pela blogueira, esponja esfoliante do catálogo da vizinha que nos afaste desse cheiro, dessa lama, desse pegajoso em nossa pele morta, da dor. Queria falar sobre os pequenos gestos impregnados de dor, os sorrisos dolorosos, as respostas rápidas e silenciosas no gerenciador de mensagens, ah, sim, o silêncio, o silêncio da dor, o silêncio, sua respiração, a respiração do gato, a lambreta que passa na rua, é silenciosa a dor, sempre, não há dor no barulho, ainda que ela exista em todas as partes (e não exista, como o gatinho na caixa), ela é silenciosa, fluida, adaptável, sorrateira, a dor. Ela não vai a lugar algum e viaja, rápida como a luz. Ela não vai a lugar algum. Você vai, em breve, ir é seu destino, ela fica aqui, esperando por você, espreitando a mangueira na janela do carro ligado, o nó na corda, as pílulas coloridas, o despencar no abismo, o saco plástico, a pólvora, os cortes transbordantes, o gás. E não, não importa que você não volte, ela sabe que nunca mais o verá e não se aflige, porque você a verá todos os dias, sentirá a respiração dela sobre sua pele todos os dias, mesmo depois de morto, mesmo depois que tudo isso acabar, mesmo depois de sempre, mesmo com os carros voadores, teletransporte e Marte conquistado, a dor, a dor, mesmo depois de morto.

(da newsletter Noticinhas do Drops 11 – se você quiser assinar, fala comigo no dropsdafal@gmail.com)

Vaidade, Moby Dick, a Veronica tendo um ataque apoplético, quitandas mineiras, postais da Anlene, e um pouco de apocalipse zumbi 

Inda tá em tempo de vocês votarem em mim, fios. Meu governo será animadíssimo: dia sim, dia também, teremos surra de rabo de tatu em público. Minha lista é sensacional, bobagem de vocês não me alçarem ao poder em meio dum banho de sangue.

Dá tempo.

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Negócio que me deixa fula é esse tal de “apoio crítico”. “Apoio, sim, mas com restrições porque…”. Vai se foder, amigue. Apoia ou não apoia, sério, mas não vem com “mas”. Pode me odiar loucamente, fala mal de mim  pra minha irmã (que certamente vai concordar com você), mas não vem com essa coalhada de “restrição”. No seu cu a sua restrição.

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Sim, é com esse espírito gentil e bonachão que mergulho as pontas dos pés na grande piscina da vida (caraio, Fal).

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Minha alergia misteriosa? Voltou bombando. O mundo me dá urticária.

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Para variar, devo texto para metade da interneta brasileira. Não é que os dias são curtos, eu é que sou lerda.

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Informada pela Veronica, a minha diagramadora, que o livro novo ia ficar com quase quinhentas páginas, só não surtei porque a pobre Vero estava com o surto em curso. Quinhentas páginas, meu pai eterno. Na prateleira dos meus três leitores seríamos eu e Moby Dick, versão especial de luxe, com desenhos e ensaios. Aquela mesma. Tudo bem, baleia nós temos (porra, Fal), mas, né, ninguém aguenta quinhentas páginas de me, myself and I falando sozinha, num exercício constante de neurose irreversível.

Cortar aquilo foi cortar na carne. Ah, literatura (ou, no caso de yours truly, esse negócio aqui) é vaidade, vaidade, vaidade.

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Não seja o cara que liga pra uma mulher para perguntar sobre a outra. Não seja, não faça isso. Contrate um detetive particular, a CIA, instale grampos no celular da presa, compre um satélite, mas não mande um “Oi Fal, e Fulana, sabe dela?”, assim, como quem não quer nada, no meio da conversa, depois que sua amiga, toda felizinha, se enrolou no travesseiro achando que você realmente queria ficar de conversê. 

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Anlene me mandou um envelope de cartões postais mais lindos do universo. Vou fazer quadrinhos, é fácil me fazer feliz.

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Se essa eleição não te deixou descaralhado das ideias, você é um ser superior e imbatível. Manda seu currículo pro Tibete, cê é o próximo Dalai Lama. Pode dar meu nome de referência.

De vídeos de sexo a suásticas, defesa da KKK, amiga judia sendo ameaçada na base do “Sua puta da Bíblia, em janeiro a gente vai fazer fogueira com você e seus livros” (”puta da Bíblia”? De onde vêm essas pessoas, meu Deus?), amigos gays sendo espancados no meio da rua (não um, não dois, antes que você venha bancar o superior ao falar de “fanfic, blablablá exagero”), amigos curtindo páginas inomináveis e achando que “ah, é isso aí mesmo” (gente que, certamente, acha que minha mãe devia ter apanhado até morrer em 1970 e que nem tenta esconder isso de mim por, sei lá, decoro), amigo de fé e ex-colega de trabalho branco, hetero, careta, pai de três, todo o figurino classe média churrascão-de-bermuda sendo recebido aos gritos de “Cata aquele comunista do caralho e corta as bolas dele” (sic) em reunião de condomínio porque se recusou a assinar abaixo-assinado que pedia a proprietário de apartamento para não alugar o imóvel para “família de pretos suspeitos e escrotos” (sic. Pai, mãe, avozinha meio zureta e dois meninos, um de 3 anos, um de 5 anos, era essa a galere suspeita, escrota), gente muito pia e religiosa comemorando print FAKE de restaurante indo à falência, morte, fim de banheiros de gênero neutro, e compartilhando mais trocentos posts fakes, todos de .moral abjeta.

Acho que toda a miséria humana passou pela tela do meu computador, meu telefone, minha caixa de e-mails. Toda.

 E gente que acredita em Deus, vê bem, gente que, ao contrário de mim, crê que vai morrer e prestar contas.

Vocês estão de parabéns. 

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Turma no bar. Geral tomando cerveja, eu na cacacola.

Nasci pra matinê, não tem jeito.

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Acaba a luz. Fico sem ventilador. Começo de choramingar imediatamente. Eu não ia durar nem vinte minutos num apocalipse zumbi.

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Biscoitinhos mineiros. Dá a chave do mundo pra Minas Gerais, gente. 

agosto/2018

Preparo a chaleira, separo as páginas, afio o lápis.

Armo as palavras, apuro o olhar, mergulho o infusor.

Desenho a intenção , sorvo o calor, repenso o argumento.

Contrabandeio seu nome, conjugo  sentidos, pouso xícara no pires.

Quer meu livro novo? Escreve pra mim: comoensinarumidiotaadancar@gmail.com