Ontem chorei até dormir. Não me orgulho, não me envergonho. Essa sou eu. Num país que fica menor e mais triste, mais sombrio e burro a cada instante que passa, acho mesmo que não podemos ter um João Gilberto. Você não precisa realmente concordar ou discordar. Esse é o meu registro, sugiro que você faça o seu. Prometo não ler. Chorei ontem até dormir, senti a morte dele como se sente a morte de alguém que fez parte da infância da gente. Alexandre imitava o João Gilberto cantando “Tim tim por tim tim” (lembra Ivanise Zel, querida?) e estaria devastado hoje. Talvez parte da minha tristeza, talvez parte da minha insistência com essa canção venham daí. Não sei. Esse é um registro, não uma análise. Chorei até dormir.

Os muitos nadas dessa vida

O erre do meu computador está emperrado. Como se minha digitação claudicante precisasse de mais boicote.

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Admitir em voz alta “não vou dar conta de tudo” é horrível, mas libertador.

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Estou dopando meu joelho. Dane-se.

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Conversa com J. Ele está em busca do tom exato pro texto exato, e essa é uma busca que sempre me comove. Falei com ele sobre leitura em voz alta e matraqueei sem parar sobre registro. Registro, registro, sou um disco riscado, a agulha pula e volta pro mesmo lugar.

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Programas de decoração. O youtube é um ninho deles. Eu, que mal ponho as lombadas dos livros pro lado certo, sou fascinada, sabe-se lá o motivo. O tom certo de cinza pra parede da cozinha alheia me consome. Vou montar um grupo de ajuda muito específico: Viciados em programas de decoração e em analgésico pro joelho e bagunceiros procrastinadores compulsivos anônimos. Serei o único membro, mas Chico, o gato, vai frequentar em solidariedade.

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“Olá, notamos que você tem um bloqueador de anúncios! Desabilite, para ter acesso às dez matérias desbloqueadas por mês e…”

Enfia essa reportagem no seu cu.

Grata.

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O décimo homem, na Netflica. Que filme maluco da caralha. Adorei, adorei.

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O melhor que podemos fazer uns pelos outros é não nos conhecer muito bem.

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A pessoa não sabe o que quer, mas espera que você não apenas saiba o que ela quer, mas faça do jeito que ela faria se soubesse o que quer.

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Depois de tantos, tantos anos no mesmo esquema, nossa romancista não sabe bem o que escrever quando não é para o seu olhar.

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Tenho quase cinquenta anos e minha mãe vai ao mercado e compra iacúlti pra mim. Eu me envergonho disso? Não.

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Tem coisa mais patética do que achar que o recado, a fofura, a graça, a foto, o comentário eram para você e descobrir que não, não eram? Até tem, assim, na vida em geral, mas no momento particular da descoberta, não, não tem. A pessoa só quer morrer.

Durante quatro semanas, a newsletter do Drops, Noticinhas do Drops, mandou para os assinantes esquemas enxutos de aula de redação para concursos e Enem. Foi uma nova experiência, num novo formato, dentro da news do Drops, que sempre foi mais literária e metida a diarinho.

Adoramos a disponibilidade de vocês, o acolhimento de escritores experientes como a Vera Guimarães, o olhar querido com que vocês se dispuseram a receber essa nossa invenção e as indicações muitas, que nos trouxeram um monte de novos assinantes.

Foi divertido e outras viagenzinhas virão.

A última newsletter dessa sequência era um presente e a querida Renata Lins, a leitora mais rápida do Velho Oeste, levou. 🙂

Obrigada a todo mundo pelo carinho.

Quarta-feira a newsletter do Drops alcança vocês de novo.

Quem quiser assinar, vem cá: https://tinyletter.com/DropsdaFal

Fal&Suzi

Análise das Capas – Fal Azevedo – Um estudo de caso

por Suzi Márcia Castelani

Por ocasião do lançamento do livro Todo Mundo Adora Saturno, indagada se a Fal estaria transmutando para a poesia minha resposta foi que na minha concepção a única transmutação que a Fal estaria operando seria a sexual mesmo.

Acompanhem pois é científica a coisa.

Considerando que o nome Fal transcende questões de gênero, a escritora cansou de ser rotulada como mulher e ter sua obra confinada a um gueto dito literatura feminina e está se preparando para alçar voos maiores.

Basta uma análise breve e superficial das capas dos seus últimos livros, a partir de Minúsculos Assassinatos e Alguns Copos de Leite, que já percebemos ali uma ânsia evolutiva, um fervor contido, o desejo de transmudar-se adiado pelo meão cotidiano representado pela sempre presente figura da caneca de café.

Já no Minúsculos ela lá está, ao pé da capa, uma velha e carcomida caneca de ágata tombada e vazia. É a escritora demonstrando sua insatisfação com amarras sociais assaz limitantes e, na ausência de balde, tomba a caneca.

No Sonhei Que A Neve Fervia a prosaica caneca já centraliza a capa mas o primeiro verbo e as cores diáfanas da arte já nos remete a uma realidade quase etérea, sugerindo que a escritora iniciou sua jornada de transmutação, senão corpórea, pelo menos já no uso de substâncias.


Quando então ela chega em Todo Mundo Adora Saturno, a caneca está em negativo, evaporando amor pelo universo e, do espaço, livre de amarras, solta no mundo como quem acaba de tirar o sutiã, a sua linguagem só pode ser em verso.

Versos livres de quem tem voz de algodão doce e eleva a palavra à categoria do sagrado. A prosa da Fal sempre guardou cadência, conteúdo e ritmo. Mesmo que fosse pra dar bom dia. Portanto, a Fal não transmudou para a poesia. Pois não há como mudar-se para um lugar do qual você nunca saiu.

E vocês? Têm uma análise de alguma obra da Fal sob qualquer aspecto?

Compartilha com a gente!

Drops em Revista

O lançamento da revista seria essa semana.
Mas dia 30, quinta feira, teremos as manifestações e a internet inteira só vai falar disso.
E queremos que a internet inteira só fale MESMO disso.
Aliás, nós também só iremos falar disso.
Então , fiquem com essa capa linda, que promete delícias de texto e costuma cumprir com o prometido e prepare a beberagem: domingo, dia 02, no café da manhã, TEM!

https://dropsdafal.com.br/drops-em-revista/