foto de: Ferdinand Schmutzer, 1905 . Como sempre, desconhecemos o nome da modelo. Pra que saber o nome da mulher, né, gente. Se alguém souber, me ensina.




Bom dia, seus lindos.

Ela, sim, a semana, começou.

E nós, sim, você e eu, começamos também.

Vamos ver que surpresas o país governado pelo twitter nos trará essa semana.

Coragem, gente. Muita.

Uma revista é uma revista é uma revista

Devagar, o Drops em Revista vai ficando com a cara que deve ficar. Toda vez que me enfio num negócio novo sou obrigada a admitir o tanto que não sei. É confortável ficar andando em torno do que eu-sei-que-eu-sei, se achando a boona (não que eu me ache, dr. Luiz Estevão, Mariana Aldrigui e eu concordamos que tenho o amor-próprio dum lagarto morto pela roda da carroça). Ou, vejo muito, fácil também é brincar de “ah, não, sou importante DEMAIS pra participar”.
Mas quando se mete a mão na argila para se arriscar de novo (isso deveria ir escrito na minha lápide se um dia eu morresse), é que fica claro: você é um ursinho-panda-bebê, não sabe nada, seus olhos estão fechados, você não tem pelos, história, acervo, não sabe andar, nem ler, nem escrever e se pá, mal consegue rastejar sobre o corpo da sua mãe em busca da teta perdida. Você é um zé mané, ursinho-panda-bebê-burrinho, não se meta a fazer revistas. Você não sabe nada, camarada. Você não sabe selecionar imagem, não sabe fazer editorial (para isso, pelo menos, temos Claudio Luiz pra roubar o mote), não sabe definir linha editorial. É mais ou menos isso. Mas eu vou aprender. Tou aprendendo. Pelo menos, até aqui, já aprendi que não sei quase nada.
Ah, sei uma coisa: tenho temos (vamos botar Suzi Márcia nesse B.O.) uma dívida de coração para com os excelentes colaboradores que toparam, como sempre, participar da primeira edição de um projeto ainda sem grandes definições, um experimento que vai se desenhar lentamente. O que o vulgo chamaria de roubada.
Priscila, Claudio Luiz, Mariana, Renata, Ricardo, Ana Paula, Luciana: vocês são nossa tropa de choque emocional, nossos paraquedistas do infinito, nossos stalones-achando-a-saída-do-túnel. Somos imensamente gratas. Não vamos esquecer nunca de que vocês estiveram na primeira edição, e esperamos que aceitem quando forem convidados de novo. Perdoem a inexperiência e a total leseira das editoras. Estamos aprendendo e, na próxima vez em que vocês forem chamados, estaremos mais espertonas. Obrigada, obrigada, obrigada.

PS: queridos se ofereceram para escrever no Drops em Revista, o que nos alegra e emociona. As próximas edições estão alinhavadas e vamos devagarim fazendo os convites .

Inventário

Minha caixa de cigarro tem 31 anos de uso

Saí hoje usando minha calça jeans. Na sala de espera, conversei com uma moça que precisa sair para comprar pijamas. Ela tem dezoito pijamas. Ela precisa de pijamas de inverno. Eu só tenho uma calça jeans. É uma pantalona e tem, sentem-se, vinte e dois anos. Usada, usadíssima. Tenho uma “bolsona”, daquelas gigantes, camurça (perdão aos amigos veganos que amo demais, mas é). Ela tem oito anos de uso comigo, mas antes disso, foi da minha mãe por doze anos. Tenho mais umas quatro, todas assim, velhonas. Tenho um par de saltos de inverno preto e dois marrons. Cada um deles, mais de quinze anos de uso (sei disso porque Alexandre era vivo quando os comprei e usei muito para sair com ele. Aliás, me desvio um segundo do assunto, para dizer que minha vida de viúva se divide em antes do Alê morrer / depois do Alê morrer. Não sei se isso é horrendo ou fofo ou patético, mas é assim). Minhas sapatilhas têm, com certeza, década e meia de uso. Tenho duas canetas tinteiro, uma que ganhei do Claudio Luiz, Ana Paula Medeiros e amigos (eles nem lembram disso mais) quando do lançamento do “Sonhei que a neve fervia”, em 2012, e uma que meu pai ganhou no ginásio, nos anos 1950. Uso as duas diariamente. Guardo o primeiro par de brincos que minha mãe me deu na terceira vez em que tentamos furar minha orelha, 1987, Lojas Americanas. Tenho catorze vestidos. Sim, o número me deixou aturdida. O mais novo foi comprado em 2000, o ano em que casei no papel, porque meu abençoado marido de Garanhuns não podia conceber “me tirar da casa de meu pai” e não me “dar uma situação”. Dar uma situação, pro Alê, era casar comigo no papel. O que fiz de vestido novo. Daí eu volto pra guria da sala de espera. Um amor de criatura. Não, esse não é um texto para “condenar o consumismo”, que não faço isso nunca, não panfleto nem quando sou paga. (Uma vez, numa mesa de bar, pensei alto sobre como me espanta ver crianças tão grandes andando de carrinho e que isso me parece um lance recente. Eu não estava criticando ninguém, nunca criei filhos, não entendo nada sobre isso. Só falei do que observo, vejo criançonas em carrinhos mais agora do que antes e me pergunto o motivo. Tinha um pai à mesa que, na defensiva, só faltou me bater. É isso, às vezes esqueço de explicar: sou uma observadora nessa vida, não estou falando mal, não estou julgando, não sei da vida de ninguém e uma mulher que tem a quantidade de livros que tenho, não pode falar do consumismo dos outros, ainda que fosse o caso). Mas, enfim, volto à minha amiguinha na sala de espera. Ela falou sobre os novos pijamas de que ela precisa (tudo bem, sou mala, critico um pouco nosso uso do verbo “precisar”: preciso de férias, preciso de pijamas, preciso de livros). De qualquer forma, fui escutando a guria e pensando que, do mesmo jeito que tem gente nesse mundo que ama uma coisa nova, deve ter toda uma categoria de gente que nem eu, que sente prazer em usar coisa velha. Não estamos certos, não estamos errados, só gostamos do que gostamos. Olho pra minha bolsa de vinte anos e sorrio quando me lembro que vou usá-la amanhã. Amos meus vestidos, amo ainda caber no meu jeans, porque, diabos, que alegria do caralho usar uma calça que ia comigo para a faculdade, para a produtora, para Barcelona, para os museus, para o Piccolo, para o ambulatório de Viagra (sou de humanas, tive empregos que vocês não acreditariam), para os shows do Premê. Amo minhas sapatilhas velhas e lindas e sofro quando cada uma delas morre e vai pro céu dos sapatinhos de lacinhos. Era isso só. Procura-se alma-gêmea pra ter com quem conversar sobre a imensa alegria que sentimos ao usar uma camiseta de 2008, ler um livro meio mofado dos anos 1960, sentar sob o sol usando a mesma saia que usávamos nos anos 1990 para ferver na Franz Schubert. Vou dormir agora (são 20h, não fervo mais um lugar algum), com um pijama que tem mais de onze anos. Amo vocês, estava com saudades. Devagar a vida volta.

PS: Nem perguntem sobre a situação dos meus pijamas. Vamos permitir que algum mistério sobreviva entre nós.

A primeira vez que fui à Europa e a cozinha de Monet

por Elaine Cuencas

Lendo assim um titulo desses, temos a impressão de que vamos ler um texto de uma moça de boa família que irá contar todas as suas aventuras de formação intelectual e de boas maneiras.

Mas, a primeira vez que fui à Europa, na realidade, estava me vingando do fim de um casamento, pensando nos anos de aposentadoria que viriam pela frente e de como iria sobreviver então, depois de gastar as economias na viagem. Pensava também que, finalmente, aquele sonho de visitar a Shakespeare & Cia, naquela ruazinha de Paris seria realizado.

Fui à França. Vi a Torre. Chorei na Notredame. Chorei em Chartes, porque vi a Senhora que Joseph Campbell descreve para Bill Moyers em O poder mito. E assim, todo o imaginário criado, desde menina, foi tomando forma na vida real.

Comilona, a viagem teve a receita ideal, com ingredientes incríveis! O macarron legítimo, a île flottante no café com todos aqueles espelhos, a baguete debaixo do braço, o café preto, no bairro dos cinemas, ao lado da fotografia de Yves Montand, a sopa de cebola no bairro boêmio, o crepe suzette! O século XIX da gastronomia de mentirinha, criado para alimentar nossos sonhos de turismo cultural.

Fomos passear em Giverny e o passeio foi uma das cerejas desse doce saborear os sonhos de menina.

O jardim, as flores, a ponte japonesa e aquele jardineiro caricatural que a casa mantém para alimentar a imaginação do turista, tudo isso e o céu azul foram perfeitos.

Na casa, percorremos os cômodos, tentando sentir presença do homem, da vida das pessoas, ouvir os sons daquele final de século XIX.

Até que entramos na cozinha… A alma da casa. Azul, cerâmica azul, toalha amarela, mesa posta, flores no vaso. Durante o devaneio, pensei em quantos cafés da manhã, almoços de família e jantares espetaculares saíram daquele fogão, foram àquela mesa ou à mesa de jantar.

Pude sentir os perfumes dos pratos suculentos, ouvir os talheres batendo na louça, o sorver dos sucos, água e vinhos. Uma delícia.

Algumas das minhas melhores memórias têm a ver com essa maravilha que é o ato de comer.

Um ano depois, ganho da filha um livro maravilhoso, À mesa, com Monet, texto de Claire Joyes; fotografias de Jean-Bernard Naudim e prefácio do chef Joel Robuchon, da editora Sextante. Uma beleza de publicação. Dessas que deixam a gente feliz como o diabo.

Que delícia, voltar a saborear as mesmas sensações que tive na casa em Giverny.

Penso em como as descrições da literatura do século XIX contribuíram para minha formação gastronômica e cultural. Em como o comer, solitário ou em grupo, à mesa do jantar ou na cozinha mal iluminada. Os chás na Paris de Swan ou no apartamento sujo na Petersburgo das personagens russas, a comida de rua da Itália dos romances que li. Os acepipes de Eça de Queirós que me levou um dia até Tormes a saborear as mesmas favas que Jacinto redescobriu.

Sem esses excertos literários, a casa em Giverny, a cozinha de Monet e o presente da filha não teriam o mesmo sabor.

Elaine Cuencas é professora e estudiosa da literatura brasileira.

A decadência elegante de Lucia Berlin

por Tina Lopes

Hoje quero contar as histórias dos malditos, dos esquecidos, dos que não eram pra ser ou dos que eram e falharam miseravelmente. Então falo novamente r Tina Lopesde Lucia Berlin e sua pequena grande obra. Quem me conhece já me ouviu/leu recomendar O Manual da Faxineira, única coletânea lançada no Brasil, em 2017, e que reúne os principais entre os 76 contos que publicou em vida – Lucia nasceu e morreu em 12 de novembro.

(Conselho para a faxineira: Aceite tudo o que a sua patroa te der e diga obrigada. Você pode deixar o que não quiser no ônibus, na fenda entre o encosto e o assento do banco)

Entre o primeiro e o último foram 68 anos de extremos, da formação em boas escolas e vida de filha de executivo a alcóolatra com quatro filhos para criar, de três casamentos diferentes que a levaram para o mundo da arte, das drogas e da pobreza – e até a viver de faxina, como conta o título. Morou no Alasca, no Texas, no Chile, na Califórnia; volta e meia surge uma expressão em espanhol, e seus textos emanam calor e suor.

(Faxineira: Tenha como regra nunca trabalhar para amigos. Mais cedo ou mais tarde eles acabam ficando ressentidos porque você sabe coisas demais sobre eles. Ou deixa de gostar deles, pela mesma razão)

“Até onde me lembro, eu sempre causei péssima impressão”, constata uma de suas personagens. Impossível, pois Lucia Berlin era linda, uma Liz Taylor – principalmente no set de Quem Tem Medo de Virginia Woolf. Encarnava inteligência e beleza, dom e maldição. Dizem que ela tinha compaixão por seus personagens, pois não os julga quando relata suas pequenezas e tragédias. Dizem também que nem todos os contos são autobiográficos, se é que isso é possível. Porém, apesar de descrever situações, sentimentos e atos terríveis, Lucia Berlin nunca chega ao desespero.

(Faxineira: Você inevitavelmente vai trabalhar para muita mulher liberada. O primeiro passo é uma terapia de grupo; o segundo, uma faxineira; o terceiro, o divórcio)

Suas personagens sobrevivem aos abusos, aos traumas, às clínicas sujas de aborto, às lavanderias, aos parentes doidos, às patroas arrogantes, aos amantes canalhas, à pobreza, à vontade de nunca ter tido filhos. Mas não se trata de resignação nem a tal resiliência, longe disso. Lucia Berlin não tem lições a ensinar: ela observa, conta, vive: simplesmente, é.

Tina Lopes é jornalista e trabalha como mercenária (frila de conteúdo) e pode ser encontrada aquihttps://twitter.com/TinahLopes

Clássico do coração: Maria Sybilla Merian

por Vera Guimarães

Por volta de 2004, inventei de ter aulas de ilustração botânica, uma expressão artística muitíssimo de meu agrado. As professoras que tive me deram a conhecer parte do universo dos grandes ilustradores e assim fiquei atenta a nomes.

Em 2008, em Amsterdam, sem que procurasse, entrei no Museu Casa de Rembrandt e estava acontecendo a exposição Maria Sibylla Merian & Filhas: Mulheres de Arte e Ciência. Em casa, procurei saber mais dela e meu queixo caiu e eu caí de amores por ela definitivamente. Espero aqui trazer a vocês todo meu espanto e encantamento com essa vida, arte, ciência, delicadeza e generosidade.

Maria Sibylla nasceu na Alemanha em família de artistas e editores. Com o pai e depois com o padrasto circulava pelo mundo das artes e das publicações.

Quando isso? Séculos XVII e XVIII.. De 1647 a 1717. Respirando. Longe, não?

Desde cedo se interessou pelo mundo natural e observava, coletava, registrava dados e pintava insetos e outros animais, plantas e tudo que a cercava na natureza.

Casou-se, teve duas filhas, divorciou-se e foi viver em Amsterdam, enorme centro comercial e artístico da época. Dava aulas e vendia suas aquarelas. Teve contato com material chegado do Novo Mundo via Cia. das Índias e se interessou pela natureza longínqua.

Espantem-se comigo! Aos cinquenta e dois anos, idade em que, àquela época, a pessoa já deveria ser considerada idosa, resolve partir em companhia da filha mais nova para a colônia holandesa no Caribe, o Suriname.

Com indígenas e africanos escravizados embrenhava-se na selva tropical em busca de exemplares da fauna e flora, que observava, pesquisava, registrava e transformava em desenhos.

Depois de dois anos contraiu malária e retornou à Europa, com vasto material para publicação.

Maria Sibylla só passou a ser conhecida em fins do século XX, um tanto por força do movimento feminista.

Em sua trajetória, alguns fatos e o caráter de seu trabalho a tornam maravilhosamente destacada.

GÊNERO: num ambiente totalmente dominado por homens, saiu do papel destinado às meninas/mulheres e fez algo além de ser esposa e mãe.

CURIOSIDADE INTELECTUAL: desde menina se interessou por desvendar o ciclo de vida dos insetos, não se conformando com a noção de geração espontânea, em vigor desde Aristóteles. Embora Lineu já houvesse descrito partes da metamorfose, foi ela a primeira a incluir a fase ovo, fechando o ciclo.

“AVENTURA”: no século XVII, lançou-se numa travessia oceânica e foi bater às portas de um mundo desconhecido, tropical, quente e úmido.

VER IN LOCO: cento e trinta anos antes de Darwin, cuja expedição científica revolucionou a ciência, Sibylla fez em silêncio a sua.

ESPÍRITO CIENTÍFICO: seus registros, não apenas cheios de beleza, são rigorosos.

ECOLOGIA: suas pesquisas e registros levam em consideração o meio em que os fenômenos ocorrem, não são soltos.

HUMANIDADE: inserida na comunidade de trabalhadores do Suriname, observava sua vida e valores. Na descrição de determinada planta, anotou que era abortiva e usada pelas mulheres escravizadas, que não desejavam que seus filhos tivessem o mesmo destino.

EDUCAÇÃO: quando junta arte e ciência, abre as portas para uma forma integrada de gerar conhecimento, pelo estímulo à observação e respeito à verdade factual.

NEGÓCIOS: voltando à Europa, ela mesma edita seus livros.

DELICADEZA: a descrição das plantas/insetos em suas pranchas revela pessoa sensível e delicada.

Querida Maria Sibylla Merian, você é meu CLÁSSICO DO CORAÇÃO.

Vera Guimarães, pacata e preguiçosa, vivendo a vida dos outros.

A chegada da Família Real no Brasil: transformações e crescimento desigual na cidade do Rio de Janeiro

por Ana Paula Medeiros

P.R. Príncipe Regente ou Ponha-se na Rua?

As primeiras histórias que circulam dão conta desta singela placa que era afixada na porta das casas requisitadas por decreto real para receber os membros da Corte portuguesa que chegaram ao Rio de Janeiro em 1808. Oficialmente, queria dizer que você estava sendo honrado com um pedido de despejo para que algum nobre passasse a morar ali, mas a sempre sábia e gaiata população traduziu melhor as iniciais. 

Todo mundo afiado com as aulas de História que contam como Napoleão dominava a Europa, ameaçava invadir Portugal e aí D.João veio com malas e cuias pro Brasil? Posso pular esse pedaço?

Bom, deixa eu contar um tiquinho como era o Rio de Janeiro naquele momento, pra vocês entenderem o tamanho das transformações. 

De 1565, quando foi fundada, a 1800, o Rio se limitava ao espaço existente entre quatro morros: Castelo, São Bento, Santo Antônio e Conceição, dos quais hoje apenas São Bento e Conceição ainda existem, além de uma pequena parte do Morro de Santo Antônio, onde se pode ver o convento de mesmo nome, no Largo da Carioca. Fora isso, tinha umas picadas que levavam às áreas rurais no interior. Mesmo entre os morros, predominavam terrenos encharcados, mangues, pântanos e lagoas, que foram, aos poucos, sendo drenados e se transformando em área urbana, com ruas, praças e casas. 

Ah, só pra lembrar também. Até 1763 a capital do Brasil era Salvador, na Bahia. O Rio tinha relativamente pouca importância no cenário nacional. Mas a descoberta do ouro em Minas Gerais, ali por meados do século XVIII tornou os portos do Rio estratégicos para o escoamento dessa produção, e o Rio virou capital. De um vilarejo que tinha casinhas térreas, umas poucas lojas, armazéns, açougues, trapiches, cocheiras, senzalas, casas de banho, pardieiros e depósitos, a cidade virou alvo de um monte de melhorias, com a construção de aquedutos, fontes, novas ruas, prédios e espaços públicos como praças e parques. Mesmo assim, ainda era uma cidadezinha acanhada, com ruas estreitas e sinuosas, e um modesto casario colonial espremido ali na meiuca dos morros. A Lapa e os campos de Santana e Lampadosa (atual Praça Tiradentes), bem como os caminhos em direção a São Cristóvão estavam recentemente e ainda de forma tímida se incorporando ao tecido urbano, enquanto Catete e Botafogo constituíam arredores rurais. 

Um autor que eu gosto muito, chamado Maurício de Abreu, mostra que a população do Rio, até o século XIX, era formada em sua maioria por escravos, e alguns poucos funcionários públicos, comerciantes, religiosos e nobres. Todo mundo muvucado no mesmo espaço urbano limitado. Não tinha isso de bairro de rico e bairro de pobre. A elite local diferenciava-se do restante da população apenas pela aparência de suas casas, e não pela localização. Dois motivos ajudam a explicar isso: a necessidade de defesa contra invasões estrangeiras e a falta de meios de transporte coletivo que permitissem à população mais pobre se deslocar para outras áreas. Além disso, lembra que eu falei que tinha monte de manguezal, pântano e morro no meio do caminho? Então, era difícil expandir o território pra fora desses limites. 

Tem um mapinha aqui que mostra como era o Rio no início dos anos 1800. Só pra esclarecer, chamava-se “freguesia” a uma espécie de recorte simultaneamente eclesiástico e administrativo do território da cidade, que comporta o agrupamento de algumas áreas. Uma mistura de paróquia com bairro, se podemos dizer assim. 

Aí, Napoleão pressionando de um lado, Inglaterra de outro, veio a Corte pro Brasil. De cara, o príncipe regente, D.João, vendo aquele pardieiro que era a cidade, tratou de fazer os esforços necessários para dar ares mais europeus e “civilizados”, dignos da sede de uma monarquia. Afinal, os recém-chegados, habituados aos padrões sociais europeus, estavam chocados. Bom lembrar que chegaram naqueles navios cerca de 15000 pessoas, entre nobres, funcionários públicos e empregados diversos. Numa cidade de cerca de 50.000 habitantes, isso representava um acréscimo, do dia para a noite, de 30% do total de sua população.

Parênteses: a rainha de Portugal, de verdade, era d. Maria I, mas ela tinha sido afastada do trono desde 1799, por demência, e vivia enclausurada, por isso d. João reinava. Assim que chegou e nos anos seguintes, d. João criou órgãos públicos, fundou a Casa da Moeda e o Banco do Brasil, revogou a proibição de se instalarem indústrias no país e, paulatinamente, estimulou a produção artística, científica e cultural, culminando com o patrocínio da vinda da Missão Francesa capitaneada  por Joaquim LeBreton, e da qual fizeram parte, entre outros, os pintores Jean Baptiste Debret e Nicolas Taunay, e o arquiteto Granjean de Montigny. Entre otras cositas igualmente importantes, nem dá pra citar tudo aqui. 

Por outro lado, os habitantes locais viram um rei de verdade de perto pela primeira vez, e foram apresentados a uma série de cerimônias e hábitos novos, criando na cidade uma nova urbanidade. Vocês acham que os nobres portugueses vieram só com seus paninhos de bunda? Bom, quase isso, mas ainda assim, a nobreza portuguesa certamente se fez acompanhar de toda a riqueza que coube em seus navios, o que gerou um afluxo de bens que sacudiu a atividade econômica da modorrenta capital do Brasil. Era gente com gostos mais sofisticados (eu rio sempre com isso, mas enfim) e se imbuíram da nobre missão de imprimir os códigos monárquicos europeus numa sociedade tropical, marcada pela diversidade racial e por costumes provincianos. Tradução: eles achavam que estavam trazendo a civilização para esse bando de pretos, índios e outros primitivos que viviam barbaramente neste muquifo. Oba, chegou o progresso: Conselho Supremo Militar, Academia da Marinha, uma fábrica de pólvora, junto à Lagoa Rodrigo de Freitas, Escola de Medicina, Imprensa Régia (não podia ter jornal local antes, sabia?). Quer mais? D. João não era um boboca fraco, não. Fundou o Jardim Botânico, um observatório astronômico, estimulou a construção de teatros e bibliotecas – um governante que preza as Artes e a Ciência, vejam vocês. 

Pois bem, nem cheguei na tese principal deste texto ainda, vamos a ela. Eu disse ali atrás que vivia todo mundo misturado no espaço urbano entre os quatro morros, mas na verdade tinha uma tênue diferenciação social as freguesias urbanas.  Olha lá no mapinha pra facilitar: enquanto Candelária e São José eram freguesias ocupadas preferencialmente pelas classes dirigentes (burocratas e pequenos comerciantes), tanto para suas residências de cidade quanto para os negócios, as parcelas mais pobres da população habitavam Santa Rita e Santana, que deram origem aos atuais bairros portuários da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Uma questão crucial era a mobilidade. Na ausência de meios coletivos de transporte, os pobres precisam morar perto dos locais onde se encontram as oportunidades de trabalho. 

Mas os poucos nobres têm suas próprias carruagens e escravos, e construíam, às vezes, residências de campo nos bairros distantes do Flamengo, Laranjeiras e Botafogo, que constituíam freguesias rurais. Com a vinda da família real, essa ocupação se intensificou, pois todos queriam seguir os passos da rainha Carlota Joaquina. d. Carlota era uma princesa espanhola da casa dos Bourbon casada com d. João, e portanto, rainha de Portugal e do Brasil a partir da ascensão ao trono do príncipe regente. Ela tem uma importante participação neste deslocamento parcial da cidade rumo ao sul. Conta-se que odiava o Brasil e que, nos 13 anos em que aqui viveu, construiu uma reputação bastante reprovável para alguém de sua estirpe. Enquanto d. João se acomodou no Paço da Boa Vista, em São Cristóvão, a rainha se instalou num amplo casarão nos confins da Praia de Botafogo, lugar mais ventilado e discreto, onde ela podia receber seus muitos amantes, longe dos olhares da corte.

A mesma lógica – estar próximo ao poder – levou parte das classes mais altas a se deslocar na direção de São Cristóvão, assim que d. João lá se instalou, no palacete que ganhou de presente de um rico comerciante. A ocupação desta parte da cidade só era viável para quem dispusesse de meios de locomoção e depois do aterramento de um grande braço de água que entrava pelo meio da cidade (ali onde hoje é a avenida Francisco Bicalho). No rastro da mudança de residência da família real para a Quinta da Boa Vista, portanto, São Cristóvão viu multiplicarem-se as moradias ricas e palacetes, sendo em seguida incorporado à zona urbana da cidade. Logo o bairro foi foco dos investimentos em infra-estrutura, sendo o primeiro da cidade a ser atendido por um serviço de diligências públicas, ainda na década de 1830.

Assim, podemos admitir que a instalação da família real no Rio de Janeiro lançou as bases para uma expansão da malha urbana da cidade, socialmente diferenciada, que se projetou em três eixos principais:

1 – Oeste 

Para além do Campo de Santana, em direção a São Cristóvão, seguindo os passos do imperador d. João VI, que lá foi morar. Ocupação prioritariamente de moradores mais ricos, com poder de mobilidade, instalados em palacetes e casarões senhoriais, cuja construção foi também estimulada pela isenção de alguns impostos urbanos concedida a sobrados ali edificados com dois ou mais pavimentos.  

2 – Sul

Na região já existiam muitas fazendas, mas essa ocupação se intensificou bastante após a mudança da rainha para lá, fugindo do tumulto e apinhamento do Centro. As fazendas foram retalhadas em chácaras, inicialmente reservadas para as atividades de fim de semana, mas aos poucos transformadas em residência permanente de nobres e burgueses ricos. O adensamento populacional dessas áreas até então rurais é notável no período de 1821 a 1838, justificando o desmembramento e criação de novas freguesias, incorporadas ao perímetro urbano, e que dão origem à primeira etapa do surgimento da Zona Sul (Glória, Catete, Laranjeiras, Flamengo e Botafogo)

3 – Noroeste

A parte da população mais pobre, que não tinha meios próprios de locomoção, ao se ver expulsa do Centro da cidade, que deve abrigar os funcionários e membros da corte recém-chegada, se muda para os bairros e morros próximos, adensando as freguesias de Santa Rita e Santana. 

Segue outro mapinha, indicando esses vetores de expansão urbana. 

A despeito das inevitáveis e saudáveis divergências de percepção sobre esse movimento, que aparecem na bibliografia sobre o assunto, uns defendendo que a vinda da família real não operou nenhuma transformação significativa sobre a estrutura urbana da cidade, outros garantindo que a chegada da corte deslocou o eixo da vida administrativa da cidade e sim, mudou a fisionomia da cidade, vou mandar a real sobre o que eu penso.

De fato, não há um plano organizado, que caracterize um conjunto de iniciativas sistêmicas, mas é nítido o surgimento ou consolidação de vetores que indicam a direção e a qualificação da expansão urbana que se vai verificar nas décadas seguintes, incluindo aí a priorização das áreas merecedoras do aporte de investimentos públicos. Para Maurício de Abreu, o fator mobilidade é crucial para entender isso. Fato é que a cidade se expande em território e importância econômica, social e política, e isso não se dá de maneira aleatória. A expansão é diferenciada, e tem, nessa expulsão inicial de parte da população do Centro da cidade, e na movimentação da corte nos anos seguintes, um marco que merece ser mais bem considerado. 

Ana Paula Medeiros é arquiteta, urbanista e narradora do cotidiano.

O que faz minha cabeça

por Flávia Guimarães

O que faz minha cabeça é, e sempre foi, uma boa história. Desde menina pequena. Desde os tempos que meu avô Fernando me contava a história do aniversário do elefante. Ele fazia a voz de cada animal e a voz do elefante era muito grossa e eu escutava fascinada, entrando pra dentro da floresta, caminhando ao lado do elefante que já era meu amigo. Sou feita todinha de histórias. Mas não me venha com muitas filosofias que não gosto. E deusmelivreguarde das teses e dos ensaios. Isso você deixa pra Ângela, aquela intelectual. Eu gosto mesmo é de histórias de gentes que me levam para seus lugares e gostos, que me apresentam suas famílias, seus amigos, seus amores. Não há nada melhor que um bom personagem. Só comida mesmo. E sexo, claro. Um bom personagem me conquista irremediavelmente e me arrasta com ele por sua vida que vira minha também. Talvez por isso eu esteja tão feliz por agora. Porque estou vivendo a realização de um grande sonho, aquilo para o qual venho me preparando desde pequena. Pois a menina que amava as histórias do avô Fernando agora vive de contar as suas. É sorte que fala, né? .

Flávia Guimarães é uma doce criatura e tem uma risada deliciosa. É atriz, produtora, roteirista, mãe de dois, mulher de uma.

Mais um dia nacional do livro?

por Ana Cristina Rodrigues

Todos os anos, as redes sociais são tomadas por uma série de efemérides (nem acredito que consegui usar essa palavra) ligadas ao mundo do livro. Dia Mundial do Livro, Dia do Leitor, Dia do Livro Infanto Juvenil… Quando chega outubro e começam a aparecer as postagens sobre o Dia Nacional do Livro, todos estão de saco cheio e resmungam sobre a necessidade de ter tantos “dias do livro” assim. Mas o dia 29 de outubro tem um bom motivo para ser comemorado no Brasil – e ser o nosso dia nacional do livro.

Sabem a Europa pós-Renascimento? Universidades florescendo, livros sendo impressos, o humanismo surgindo? Bem, a distribuição pelo tal “Novo Mundo” não foi muito igualitária. Portugal, preocupadíssimo em manter suas posses seguras e protegidas, não permitiu a abertura de universidades, não permitiu que a imprensa se estabelecesse aqui. A circulação de ideias dentro do Brasil era limitada e informações sobre o Brasil eram censuradas abertamente – um dos documentos mais reveladores sobre as estruturas econômicas do nosso país no século XVIII, Cultura e opulência do Brasil do jesuíta Antonil, teve todos os seus exemplares recolhidos e destruídos por ordem da Coroa.

Ou seja, éramos tão colônia, mas tão colônia que nem a Inquisição tinha filial aqui. Às vezes, mandava uns visitadores para vigiar se nossos genitais estavam sendo utilizados da forma certa, porque afinal existem prioridades, mas sem estabelecer tribunal aqui porque não era para tanto.

Acontece que um corso invocado assumiu o governo da França e resolveu invadir Portugal. A família real fez a coisa mais sensata no momento e fugiu para o Brasil em 1808. Só que isso inverteu a ordem natural que eles mesmos tinham estabelecido por séculos. A colônia oprimida e obscurecida virou metrópole. E aí?

Aí, foi correr para recuperar o tempo perdido. Pintar paredes, urbanizar a área do porto, expulsar as pessoas das suas casas… Deixar o Rio de Janeiro, nova residência da família real, com cara de Corte – no mínimo. E, claro, acomodar os pertences todos nos prédios a serem ocupados pelos nobres lusitanos. Em “pertences”, estavam incluídos aproximadamente sessenta mil itens de interesse “cultural”, entre livros, medalhas, mapas e moedas.

E você aí, reclamando da estante cheia.

Uma coisa curiosa é que boa parte da coleção de livros inclusa nessa contagem era uma aquisição relativamente recente da família real. O terremoto que acabou com uma boa parte de Lisboa em 1755 prejudicou muito a Biblioteca Real que ficava no palácio da Ajuda. Procurando restaurar a coleção, a Coroa adquiriu a coleção do abade Diogo Barbosa Machado, que incluía livros sobre os feitos de Portugal, vidas de santos e nobres – e uma coleção de gravuras cuidadosamente montada pelo próprio abade, que as recortava de outros livros para colar em volumes únicos e temáticos.

A coleção do abade atravessou o oceano encaixotada, junto com a nata da nobreza portuguesa. Mas ao chegar no Brasil, ficou sem teto, assim como seus companheiros, por algum tempo. Até que em 1810, arranjaram um porãozinho no Hospital da Ordem Terceira, ali no centro do Rio de Janeiro, para acomodar todas aquelas muitas peças. Assim, em 29 de outubro de 1810 foi inaugurada a Real Biblioteca, acessível apenas a estudiosos com autorização régia.

Então, isso mesmo: o nosso dia nacional do livro é o aniversário da Biblioteca Nacional – o nome definitivo veio em 1876, depois de várias aquisições, reformas e uma primeira mudança, para o prédio onde hoje é a Escola Nacional de Música. (Os cariocas conhecem o prédio como aquele que tem a parede pintada com a parede do prédio, ali entre a Lapa e o Passeio).

Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro

Mas como as coisas no Brasil são sempre complicadas quando se trata de cultura, a Biblioteca sofria com orçamentos apertados, falta de funcionários e instalações cheias de problemas. Sim, no século XIX os bibliotecários-chefes já reclamavam disso. Quanto mais as coisas mudam…

A segunda grande mudança da Biblioteca Nacional veio junto de uma grande mudança do próprio centro da cidade, agora já capital federal da República. A reforma de Pereira Passos deu à Biblioteca Nacional a sua sede até hoje, 2019 – um prédio arrojado e pensado para ser a casa de uma coleção bibliográfica gigantesca em 1910, mas que atualmente sofre para receber e acomodar a memória livresca nacional.

O prédio anterior estava mesmo pequeno, principalmente depois de receber a doação do imperador exilado – mais de cem mil volumes, na coleção que hoje é chamada de Coleção Teresa Cristina Maria. A Biblioteca Nacional não foi a única beneficiária desse ato, pois além desses livros, Pedro II deixou o palácio de Petrópolis com móveis e utensílios, base do atual museu imperial. E claro, a sua maior contribuição para a ciência brasileira foi a doação da coleção de artefatos históricos e arqueológicos que deram origem ao Museu Nacional: múmias, fósseis, meteoritos, peças da antiguidade clássica. Infelizmente, o republicanismo de resultados dos últimos anos deixou que essa parte do legado ardesse – e se o caminho continuar sendo o atual, nem a parte que sobrou está segura.

Nada mais justo que o aniversário da Biblioteca Nacional ser o dia nacional do livro. Além de ser parte fundamental da história da leitura e da literatura em nosso país, a Biblioteca é onde fica o registro oficial dos direitos autorais de obras literárias (através do Escritório de Direitos Autorais) e é a responsável pelo cumprimento da lei de Depósito Legal, que diz que todo o livro publicado no Brasil deve ter um exemplar enviado para o acervo da BN. Também já foi, por algumas vezes, parte da política nacional do livro e da leitura, mas essas iniciativas acabam sendo governadas mais pelos quereres políticos do que pelas demandas do Estado, e a Biblioteca perdeu boa parte desse projeto com a saída do Programa Nacional de Incentivo a Leitura e do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Mesmo com todas as dificuldades – lembram dos orçamentos apertados, da falta de funcionários e das instalações cheias de problemas – a Biblioteca resiste. Seu projeto de digitalização de obras é reconhecido no mundo todo e as fotos doadas pelo imperador são consideradas patrimônio cultural da humanidade. Pesquisadores usam suas obras para desvendar o passado e buscar respostas para o futuro. Escritores e cineastas protegem seus direitos autorais e guardam seus originais no depósito. Ela é o símbolo nacional do livro, uma pequena amostra da riqueza que geramos em pouco mais de dois séculos de liberdade de pensar (mesmo que por vezes limitada e censurada).

Ana Cristina Rodrigues é escritora, historiadora e tradutora, além de servidora da Biblioteca Nacional desde 2006. Seu primeiro romance, Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, fala de memórias, lembranças e uma cidade-biblioteca, podendo ser comprado em pré-venda no link https://www.lendaristore.com.br/atlas

Não vou mais levar você para ver um filme nacional

por Patricia Daltro

–  Você me trouxe para ver um filme nacional? Desde quando um filme nacional presta?” –  pergunta a personagem dentro do filme assistido pelas personagens do filme “Os Farofeiros.”

Como se dialogassem entre si. A personagem que assiste ao filme, representada pela atriz Danielle Winits completa:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real.

Imediatamente a personagem na tela repete a fala da primeira:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real. Não é verdade, gente? Hum?

Neste pequeno e metalinguístico diálogo vemos a essência do que o cinema nacional ainda representa no imaginário popular. Filmes brasileiros não prestam. Ou são tão autorais, que se restringem a um seleto publico que “os entende”, os famosos filmes “cabeças” ou se resume a putaria e palavrão. Esta mentalidade não surgiu do nada. Foi construída e pavimentada por décadas, regadas à falta de incentivo financeiro, censura e tecnologia obsoleta, além da competição injusta com as produções hollywoodianas.

Podemos dividir a história do cinema nacional em momentos distintos, até agora.

Por incrível que pareça, foi na década de 1970 que o cinema nacional alcançou seu auge. Embora tenha sido durante a ditadura que tenham sido criadas a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filme) e a Concine (Conselho Nacional de Cinema), que fomentaram a produção cinematográfica, a mesma, restringia, através da censura, a diversificação da produção. Restou aos cineastas nacionais burlarem o sistema com histórias ufanistas, bibliográficas, infantis (Os Trapalhões como grande expoente), e, é claro, a pornochanchada, que levou à população a lotar suas salas – embora restritas a uns poucos cinemas.

Com a retomada da democracia, era de se esperar que, assim como na música e em outras produções culturais, o cinema também se reestruturasse e trouxesse novos ares e temáticas. Mas, a crise econômica dos anos 1980 e a recessão que assolou o país durante os primeiros anos da década de 1990, ocasionou a quebra do cinema nacional. Salas foram fechadas, produções canceladas. O auge da crise aconteceu durante o governo Collor de Mello que suspendeu, através de medidas provisórias, quase todos os mecanismos de incentivo, extinguindo a Concine e a Embrafilme, ações que levaram a estagnação quase completa das produções nacionais.

Somente após a deposição do presidente Collor, a criação da Lei Audiovisual do presidente Itamar Franco, as políticas estatais de fomento à cultura do presidente Fernando Henrique e a lei Roaunet, promulgada pelo presidente Collor, mas que só veio a funcionar, mesmo timidamente, nos meados dos anos 1990, foram sem dúvida, as ferramentas propulsoras deste movimento de retomada do cinema nacional. O advento de novas tecnologias, de linguagens mais atraentes ao público em geral e a entrada em cena de novos cineastas, que trouxeram diversificação ao cinema, consolidaram esta etapa.

O filme tido como marco inicial deste período foi Carlota Joaquina, de Carla Camurati, lançado em 1995, primeiro filme nacional da década a levar mais de um milhão de pessoas ao cinema.

Imagem de divulgação do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil de Carla Camurati

O filme produzido com baixo orçamento, trazia uma nova forma de contar a história do Brasil. A chegada da corte portuguesa às terras brasileiras, tendo a princesa Carlota Joaquina como a protagonista e trazendo um d. João VI caricato e glutão, utilizou uma linguagem pautada no humor ácido, tão em alta nessa década, uma relação que flertava com a teledramaturgia do horário nobre das TVs, que caiu no gosto popular e abriu os portões para que outros explorassem esta e outras linguagens.

Encerraria esse texto aqui, desejando um final feliz para o nosso cinema, com quase duas décadas de sucesso, com produções chegando aos milhões de espectadores. Mas, a triste verdade, é que hoje vivemos novamente, um período obscuro, onde não apenas uma recessão e restrições financeiras ameaçam nossa história cinematográfica, mas também, restrições de ideias, mental e cultural, sem dúvida, esse é o período mais perigoso que nosso cinema já enfrentou até hoje.

Patricia Daltro é artesã e escritora. Ela pode ser encontrada aqui: http://avidasemmanual.blogspot.com/

Abigail, uma Andrade

por Rita Paschoalin

Oswald, Carlos, Mário. O sobrenome Andrade aparece fácil nos índices remissivos da arte brasileira. O culto pelos Andrades nasce cedo, lá no fundão da sala de aula. Sempre masculino, o sobrenome dita a trilha da leitura modernista do país: siga por Pindorama, insulte o burguês, tenha nas mãos o sentimento do mundo.

No entanto, anos antes de nascer o menino de Itabira ou de se acenderem os escândalos do amor intransitivo, e antes de clamarem que só a antropofagia nos salvaria, o nome Andrade já tinha feito casa nas artes deste país confuso. Num tempo em que os manifestos que inauguraram a modernidade por aqui ainda não tinham sido proclamados, o nome Andrade já traçava não o verso no jornal, mas o pincel nas telas, e deixava um rastro mais sutil do que a pedra no caminho.

Pode-se divagar livremente sobre as razões da invisibilidade feminina na história oficial da arte mundial no século XIX. O fato é que “o” Andrade que pisou o campo das artes antes de nossa tríade mais famosa era, na verdade, uma Andrade.

Quem circulou pela 26ª Exposição Geral de Belas Artes no Rio de Janeiro, em 1884, teve acesso a quase quatrocentas obras de setenta e cinco artistas. Era um ano de grandes transformações aqui e ali. Ceará e Amazonas aboliam a escravidão, o que só ocorreria quatro anos depois no restante do país; a Europa fatiava o continente africano. No Rio, a 26ª Exposição Geral foi a última — e a maior — realizada durante o Império, cinco anos antes da derrubada da Monarquia. A ocasião foi glamourosa, e o catálogo da exposição, custeado por uma renomada galeria de arte do Rio, foi ilustrado por esboços feitos pelos próprios artistas expositores. A grandiosidade do evento foi repercutida pelos principais jornais da época e prestigiada por notáveis críticos de arte.

Entre muitos outros, o elenco de artistas da grande exposição de 1884 incluía nomes como Pedro Américo, o paraibano que logo pintaria seu célebre Independência ou Morte, e Zeferino da Costa, autor das pinturas da cúpula na Igreja da Candelária. Abigail de Andrade, uma moça de apenas vinte anos, natural de Vassouras/RJ, foi uma das quatro mulheres entre os setenta e cinco artistas da exposição. Dentre pinturas, cópias e estudos de desenho, Abigail exibiu quatorze obras no maior evento de artes do Segundo Reinado.

Apenas oito anos depois, em 1892, as mulheres passariam a ter direito de frequentar a Academia Imperial de Belas Artes. Na época da exposição, Abigail estudava há dois anos no Liceu de Artes e Ofícios do Rio, que desde 1881 aceitava alunas na escola. Em linhas gerais, as mulheres artistas da época contavam apenas com aulas particulares ou eventuais aulas livres oferecidas pela AIBA.

Um canto do meu ateliê – Abigail de Andrade


Mesmo sem acesso à formação oferecida pela Academia Imperial, Abigail foi agraciada com a Primeira Medalha de Ouro da grande exposição de 1884, graças ao destaque conseguido pelas telas Cesto de Comprase Um canto do meu ateliê. Foi a primeira mulher a ganhar a medalha, e gosto de pensar que ela rompeu limites e abriu uma janela que nos mostraria, no século seguinte, as cores de nomes como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

Ainda que seu nome não apareça em nossos índices com a mesma assiduidade de outros Andrades que amamos, uma espiada em reproduções das telas de Abigail pode nos surpreender. É fácil imaginar que o silêncio em torno de seu nome reflita mais o espaço negado às mulheres nas academias de arte no século XIX do que a qualidade de seu trabalho.

Cesto de compras – Abigail de Andrade

Imagino os críticos de arte do salão em 1884 diante da variedade de materiais retratada em Cesto de Compras — a madeira da mesa, o metal das moedas, a palha do cesto, as raízes das hortaliças sobre a gaveta esquecida aberta por quem correu para pintar outra luz, uma paisagem, um retrato, romper outro limite. Abigail existiu, foi Andrade, pintou, desenhou e fez da arte profissão, um feito e tanto para uma mulher de seu tempo.

Abigail também amou. E escandalizou, como as personagens do amar intransitivo do outro Andrade. Mudou-se para Paris na companhia de um amor proibido e lá, na terra da arte e da luz, morreu em 1890. Tinha apenas vinte e seis anos. O alvoroço em torno do romance com o celebrado cartunista Angelo Agostini encerrou a convivência de Abigail com a comunidade artística e ajudou a apagar seu nome de nossos índices.

Mas sempre há tempo. Talvez mais humana do que a moral, a arte resiste. E aí penso no cinema, que adora nos jogar nos salões e suores do século XIX — que belo filme não daria a vida de Abigail?

***

Infelizmente, as telas de Abigail de Andrade atualmente compõem coleções privadas e se encontram (ainda) inacessíveis ao grande público.

Estendendo a roupa – Abigail de Andrade

Da união de Abigail de Andrade com Angelo Agostini, nasceu Angelina Agostini, também pintora (1888-1973). Angelina fixou-se em Londres a partir de 1914 e expôs em importantes galerias da Inglaterra e da França. Retornou ao Brasil na década de 1950 e foi agraciada com Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes de 1953. O quadro Vaidade, pintado por Angelina em 1913, integra o acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Rita Paschoalin lê, traduz e escreve. Acredita piamente que só a arte nos salva e nos justifica.

A volta triunfal da nossa proverbial mulher pelada das segundas-feiras

Foto de Henry B. Goodwin , 1920
Não sei o nome da modelo 😦

Vim só para dizer que a semana começou. E, com ela, volta a nossa proverbial mulher pelada das segundas-feiras.

Tem nada melhor do que ser dono do próprio site, seus lindos.

Bão, pelo menos até o WordPress resolver ser idiota também, feito o finado Tumblr.

Daí veremos pronde vamos levar nossos mamilos vintage.

Por ora, aqui estamos. 🙂

Livros ensopados, soluços, o Stra e a onipresente Salmaso

Né nada modesto isso que vou fazer. Mas eu tava tão triste. Nem sei mais o que é tristeza, o que é cansaço a essa altura de um domingo de trabalho pesado – e nada agradável. Joguei metade da casa fora, não porque sou desapegada de bens materiais e sim porque a chuva me obrigou (Oi, chuva, te amo, mas né, vai se danar).

E daí, fui ler emeinhos acumulados e tava lá o Stra. Sendo incrivelmente gentil com uma senhorinha cansada e meio solucenta.

Então é isso. Pedi autorização, ele deixou. Boto aqui o mais incrível dos elogios. Feito por um amigo de infância, esse caras que elogiam a gente para muito além do que a gente é ou é capaz, mas né, a gente deixa, porque está triste e cansada e é bom de ouvir e, por um segundo, acreditar .


“Que lindo link com o final do show do Lobo, Fal! Que lindo a música, a idade de todos (inclusive a nossa), a beleza da Salmaso (que linda que ela está! envelheceu embelezando, a cafa!).
Enquanto ouvia a música, embasbacado com a voz da Monica (como todas as vezes que a ouço), me veio a explicação do universo. Que tem a ver com uma queixa que ia fazer a ti, depois de ver seu site novo. Mas aí fui no Edu Lobo e tudo ficou claro.
A queixa que eu ia dizer era que não eres só escritora. Eres cantora e sabes disso e eu sei disso, e tenho toneladas de horas na vida e (ainda) na memória que comprovam isso. Tinha uma fita cassete sua que comprovava isso, mas sabes né? Tudo físico meu se perdeu por aí, inclusive meu corpitcho.
Mas voltando, ao ver teu link e Salmaso cantando, entendi tudo.
Porque eres uma artista completa, daquelas que nasceram pra ser artista, de circo, de róliud, da globo. Isso deverias dizer no teu site novo, quando em terceira pessoa tipo Pelé, dizes quem és. Eu tascava: artista. Mas entendo que soa raro, como se diz aqui. 
E em algum momento, ouvindo e vendo a Salmaso, tudo ficou claro pra mim. O universo te deu tudo pra ser a artista plena de todas as artes. E em algum momento tu disseste que cantora não. Sei lá porque e nem quero entrar nisso. Terás teus motivos e os respeito. Mas quando disseste isso pro universo, ele respondeu. “Ok, fellows, pois os tasco uma Monica Salmaso, que é igual de bom e o universo (eu mesmo, veja só), não posso ficar sem a musicalidade afinada e sentida dessas duas que são uma só.”
Então Salmaso surgiu no seu vácuo, porque tudo que existe precisa acontecer. E aconteceu a Monica cantora e a Fal escritora. E agora tudo fica claro e não preciso fazer a reclamação. Eres cantora, mas isso está em Monica. 
Um dia perguntaremos se o lado escritora da Monica gerou a Fal. Mas isso fica pra outro dia.
bj saudoso de dar abraço de 30 segundos.

Marcelo Estraviz

FELIZ ANIVERSÁRIO, DROPS!!



Hoje o Drops faz 17 anos e está de parabéns!
A alegria é tamanha que todos que comentarem no site, em qualquer post ou página, de ontem até a meia-noite de hoje, vão ganhar, por e-mail ou whatsapp, um destes cartazes comemorativos de 21x29cm em alta resolução, prontos para impressão.
Deixe seu recado e escolha seu mimo!

Si todo cambia

Há muito tempo, tive um amante que me ensinou com palavras e na prática: não existe amor sem ressentimento.

Amar, por mais maravilhoso e transformador que seja, cobra um preço. Nunca insignificante. Nunca em apenas uma prestação. Nunca sem juros e correção monetária e não, não aceitam esse cartão.

O Drops é meu amor. Meu grande amor.

Não vou explicar o que é um blog, todo mundo já sabe. Nem vou discutir se é possível fazer literatura em blog. Participei de uma jornada literária há quase vinte anos, na mesma mesa que os enormes Alexandre Inagaki e Idelber Avelar (eles, uns monstros da blogosfera, eu, um café-com-leite-babão) e já naquele tempo afirmávamos: o que se faz em blogs é literatura. O tempo, esse lindo, só nos deu razão.

Sigo no Drops, há dezessete anos, fazendo literatura. Boa literatura. Consistente, cuidada, boa mesmo. Hahahaha, não vou bancar a sonsa, adoro o que escrevo, pelamor. Produzo aqui no Drops a literatura que sei e posso produzir, a literatura que amo. E faço amigos. E aprendo coisas, e leio coisas novas que me chegam nessa prainha, há tantos, tantos anos.

Vou dizer: amo esse pedaço de chão. Adoro vir aqui. Seja lá onde “aqui” for. Passamos, Drops e eu, por mais mudanças e solavancos do que é humanamente possível explicar. Ele nunca falhou. Nunca titubeou, nunca hesitou.

Eu, às vezes, empaquei. E hei de empacar de novo e de novo no futuro. Errei, me perdi, esqueci a senha, taquei longe os dicionários. O Drops, nunca. Ele nunca falhou. Nunca deixou de estar.

Redes sociais vêm e vão, jornais, partidos, condomínios blogueiros, modinhas, coletivos de textos, todos esses trens passam e passam.

O Drops está aqui. O Drops não vai a lugar nenhum.

Temos fotos, turma. E canecas, e desenhos, revista com artigos dos queridos, sacolas, quadrinhos e folhetim assinado por convidada especial (em breve, aguardem), fotonovelas em portunhol (em breve, aguardem, de novo). Temos musiquinha (MUSIQUINHAAAAAA) e linques para outras casas lindas – fiquem de olho nessa barrinha lateral porque ela vai ser uma riqueza. E temos comentários em todos os posts! Sim, sim, falem comigo!

Mas antes de qualquer outra cousa, temos textos. Textos, sei que vocês se lembram. Textos.

E, ah, temos vida, temos vida, temos vida. Estamos atentos, fortões pra cacete e, como sempre, desbocados. Estamos firmes. Pode não parecer, porque essa vida nos quer de joelhos, mas estamos firmes. A cada dia, a cada instante. Firmes, firmes.

Vamos produzir. Vamos ser autorais. Vamos vamos colocar em palavras, vamos relembrar, afofar, destruir, definir, esquecer, confundir, avaliar, julgar, atacar e perdoar, vamos dar forma aos pensamentos e aos desejos e aos anseios e aos quereres.

Se havia ressentimento, nós o superamos.

E escrevemos, todos os dias, sempre, sempre, caneta tinteiro em punho, mãos manchadas de azul, municiados com teclados afiados, monitores radioativos, livrão de citações do Paulo Rónai, canetinhas de flamingo e cadernetas que a Telinha compra para nós na Casa Cruz.

Nossos corretores ortográficos em riste, chispas nos olhos, fúria no coração.

Ergamos o rosto para receber o vento e sigamos em frente.

Uma palavra de cada vez.

O Drops, como Minas, está onde sempre esteve. Ainda que o endereço, ali na barrinha de navegação, às vezes precise ser atualizado.

Vem cá, meu bem.

Faça um pé descalçar o outro, acomode-se com um gato no colo – tenho vários, pode escolher –, apanhe uma taça, dê um abraço na Suzi Márcia (ela merece todos os abraços) e brinde comigo pela vida: a sua, a minha, a do Drops.

Cent’anni.

Que vivamos cem anos.

Todos nós.

Alguns fatos sobre mim

Por ora, ao que tudo indica, aquele negócio deu certo.

Sob o patrocínio de você-sabe-quem, esteve aqui o sr. Aldenor, fazendo justiça com as próprias mãos. O portão tá uma lindura.

Ouvi mais Chico Buarque do que permite a Convenção de Genebra, mas em minha defesa quero dizer que não está fácil.

Dei aula para a Cláudia hoje. Ela vai para o Japão.

Sentada no jipe – e com um delicado e estranhamente calmo Chico no colo – ouvi a chuva rugir.

Tomei chá de hortelã.

Arrumei várias gavetas e separei três enormes caixas de livro para doação. Fiz um envelope pra Maloca.

Passei algum tempo com a Priscila na interneta, ela xingando a conexão de lá, eu reclamando da minha. Não foi produtivo, mas é sempre bom estar com ela.

Dei vários conselhos bobos para o Char sobre como ele deve cuidar do gatinho que caiu no quintal. Evidentemente que, como velho comunista que é, ele batizou a pobre criaturinha de Josef. Não sei porque me dou ao trabalho de falar com essa gente. Planejo intervir na criação do pequeno antes que seja tarde demais.

Ganhei um rímel chique toda vida.

– A Suzi me ensinou que “rasteira é sempre de amigo, porque inimigo a gente não deixa fazer isso com a gente”, mas eu ainda fiquei triste. Me sinto bem idiota, sabe, e em vez de ficar com raiva, que é o que eu devia mesmo fazer, fico triste. Sou aquele patinho gigantesco e obeso que anda atrás dos patinhos pequenos e bonitos, implorando para que alguém brinque com ele. Acho que o nome dele era Huguinho.

– Passei um tempão on-line com o Paulo e pensamos em muitas listas do que temos a fazer. Ele vai procurar mundos outros e eu vou investigar velhinhos de monóculo. Nem pergunte.

– O cara da água veio entregar… água, você acertou. 

– A Dani me mandou foto da gata dela enroladinha e eu queria estar lá, na casa da Dani, com a gata da Dani e lendo as cousas que a Dani escreve.

– Sinto horrivelmente, horrivelmente, horrivelmente falta sua. 

(Você não acha que se a gente repetir “horrivelmente” três vezes, bem rápido, devia, sei lá, acontecer um feitiço, abrir uma fenda estranho-temporal e a gente ir pruma dimensão paralela e fazer o que quisesse para sempre? Sei lá, é só uma ideia, nem precisa responder).

Março de 2019