Passei horas no hospital essa semana. Muitas horas. O ser humano é um negócio horrendo e quem diz que a natureza não comete erros, devia se olhar no espelho.
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Cartas e postais para a Luciana. Os assuntos variam (não, não variam) do meu combalido coração partido ao clima, passando por como estou incapaz de escrever o que quer que seja. A paciência de Luciana para com os idosos é algo a ser estudado.
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Meu corretor deseja que eu mude “clima” para “crime”. Está errado? Claro que não.
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Jantar sozinha. Gente em volta, barulho, beijocas e conversa. Chet Baker já tinha avisado a você sobre isso. Segura, fia.
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Envelhecer é, também, aprender a desistir. Cada vez mais, menos condição. Desqualificam minha opinião, dou de ombros. Não tenho mais condição de discutir.
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A ricota defumana desta semana está absolutamente defumada. A semana foi horrenda, mas olha só, a ricota não se deixa abater.
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Tenho aproximadamente vinte tesouras (sem brincadeira). Não acho uma nessa casa.
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Brasil, este país ridículo, caminha, mis uma vez, bem juntinho do precipício. Não tenho mais pena, paciência ou esperança. Tenho garrafas de vinho para me sustentar até meu amargo fim¿ Acho que não, vou providenciar mais.
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Fones de ouvido: devem estar lá junto das tesouras.
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Às vezes, você diz a si mesma: Olha que belo momento seria esse preu sair de cena. Você inda tem mãe e um cãozinho, as cousas que mais nos prendem a esse planeta, mas olha só, às vezes há consolo nas constatações mais simples.
Pagodespell – Chico Buarque, Caetano Veloso e João Bosco
Palavras do coração – Bruna Caram
Palco – Gilberto Gil
Patrão, prenda seu gado – Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Almirante, Alfredinho do Flautin, Jota Cascata, Jacob Palmieri, Benedito Lacerda, Joel De Almeida
Peixe vivo – Milton Nascimento
Pelo Telefone – Martinho da Vila, Nelson Sargento e Diogo Nogueira
Phineas and Ferb theme song
Piano Concerto #2 in C Minor, Op. 18, de Rachmaninoff – Yefim Bronfman e Philharmonica Esa-Pekka Salonen
Pierrot apaixonado – Joel e Gaúcho
Ponta de areia – Esperanza Spalding
Por causa desta cabocla – Jards Macalé
Porque era ela, porque era eu – Chico Buarque
Proibida pra mim – Charlie Brown Jr. e Zeca Baleiro
Puff, the Magic Dragon – Peter, Paul and Mary
Putting it together – George Hearn, Carol Burnett, John Barrowman, Ruthie Henshall e Bronson Pinchot.
Quem sabe isso quer dizer amor – Paulinho Moska
Querer – Francesca Gagnon
Quizas quizas quizas – Ibrahim Ferrer e Omara Portuondo
Recuerdos de Ypacaraí – Ainda Dúo
Recuerdos de Ypacaraí – Jorge Cafrune
Recuerdos de Ypacaraí – Maya Belsitzman e Matan Ephrat
Recuerdos de Ypacaray – Perla
Resistiré – Adriana Calcanhotto
Rio Bravo – Dean Martin e Ricky Nelson e Walter Brennan
Sábado em Copacabana – Dorival Caymmi
Sabiá – Nara Leão
Saturno – BIN
Se ela quisesse – Toquinho e Vinícius de Moraes
Sea of love – Phil Phillips
Secrets, accusations e charges – McAlmont e Nyman
Sei dos caminhos – Itamar Assumpção
Sem Destino – Luiz Tatit
Sexual Healing – Hot 8 Brass Band
Shelter from the storm – Bill Murray
Should I stay or should I go – Mario Manga
Si tu vois ma mère – Sidney Bechet
Ska – Os Paralamas Do Sucesso, George Israel
Soledad y el mar – Natalia Lafourcade e Los Macorinos
Solitude – Ben Webster
Stand by me – The Muppets
Ständchen – Anne Gastinel e Claire Désert
Star Wars Theme – Bill Murray no SNL
Stuck in the middle – Tai Verdes
Suite Paysanne Hongroise – Jasper Goh e Mao Hayakawa
Summer of 69 – Choir Choir Choir!
Sundown – Gordon Lightfoot
SUNNY – Bobby Hebb e Ron Carter
Sway – Puppini Sisters
Sweet transvestite – Tim Curry, da trilha The Rocky Horror Picture Show
Symphony No. 9 – Beethoven – Daniel Barenboim e the West-Eastern Divan Orchestra
Tarde vazia – Ira e Samuel Rosa
Tchan Na Selva – É O Tchan
Te recuerdo, Amanda – Mercedes Sosa
Thank you for the music – Ukulele Orchestra of Great Britain
The boxer – Simon & Garfunkel
The firebird – The YouTube Symphony Orchestra
The fosse – Wim Mertens
The ladies who lunch – Carol Burnett
The Shoop Shoop Song – Cher
The swan – Yo– Yo Ma e Kathryn Stott
The thrill is gone – B.B. King
The walking dead theme song
tic-tac do meu coração, O – Ná Ozzetti
Tim tim por tim tim – João Gilberto em Roma
Todo o sentimento – Chico Buarque
Tom’s Diner –AnnenMayKantereit e Giant Rooks
Travessia do Araguaia – Tião Carreiro e Pardinho
Tua cantiga – Chico Buarque
Tube Snake Boogie – ZZ TOP
Um gosto de sol / Solar – Gal Costa e Milton Nascimento
Umbrella – Choir! Choir! Choir!
Under Pressure – Queen e David Bowie
Uno – Carlos Gardel
Valsa Brasileira – Bruno Alcalde
Vida de artista – Itamar Assumpção
Violin Concerto in e op.64, de Mendelssohn – Euregio Academy Orchestra, Judith Stapf, Peter Bogaert
Vira Virou – MPB4
Você Não Soube Me Amar – Blitz
Você só… mente – Aurora Miranda e Francisco Alves
Vogue – Madonna
Vois sur ton chemin – trilha do filme Les Choristes
Walk on the wild side – Tok Tok Tok
Way Down We Go – KALEO
When the party’s over – Billie Eilish
Xote de Navegação – Chico Buarque
Ya Rayah – Rachid Taha
Yellow Submarine – The Beatles
You don’t know me – Ray Charles
You make me wanna…, Superstar, U don’t have to call, Nice & Slow, Confessions part II, My way – Usher
Há muito, muito tempo, escrevi que às vezes o amor não nos alcança e, caras, como eu tinha razão. Devo, porém, fazer um adendo: às vezes um filme nos alcança.
Tenho vagado pela selva cerrada de streamings, canais e, arrã, sites de entretenimento alternativo em busca de algo para ver – nada me toca. Então nesta madrugada, com os olhos fixos no escuro, pensando no porquê faço as coisas que faço (não recomendo a prática), encontrei esse filme.
Werk ohne autor é um filme sobre arte. Um filme sobre a busca de um pintor pela própria expressão.
Quem é você? O que é você? Por fim: que arte você é capaz de produzir?
Nosso herói – um alemão oriental que cresceu durante a guerra, passa as primeiras décadas de sua vida em busca das respostas. Na melhor tradição dos artistas plásticos alemães, ele experimenta e experimenta e experimenta. O que nos fala demais sobre método. Talento não nasce pronto e, antes disso, método não aparece do nada. É preciso tentar e tentar, insistir e insistir, doer e doer, cansar e cansar. É desesperador e nunca tem fim.
Um dia, o meu é um filme feliz, ele encontrará a sua voz, sua expressão, seu veículo e começará a trabalhar de verdade.
Mas mais importante do que tudo isso, o meu é um filme que fala a respeito de sobreviventes.
O meu é um que filme que fala a respeito de sobreviventes. Porque era exatamente um filme que fala a respeito de sobreviventes que eu precisava tanto, tanto assistir.
O meu, é um filme sobre pessoas que sobrevivem à guerra, ao fogo, a bebês perdidos, ao pai suicida, a árvores muito altas, a ecos de buzinas em pátios cimentados, a tias malucas, a tias – vá lá – não tão malucas, à dor, ao medo, a Hitler, a apartamentos feios e apertados, ao não entendimento dos próprios sentimentos, a sentimentos demais, à dança de salão, ao socialismo, ao nazismo, a tudo, tudo, tudo o que fizeram conosco. Eu precisava ver um filme sobre uma garota que assiste um filme de mãos dadas com o pai, um pai horrível, e que, por algum estranho motivo d’alma, não busca, como eu busco, o desamor em seus homens. Eu precisava ver um filme sobre aqueles que sobrevivem porque ontem tentei, com sucesso, boicotar a mim mesma e me magoar de novo. Nalguma coisa eu haveria de ter sucesso nessa vida, pois não?
Eu precisava ver um filme a respeito de sobreviventes, a respeito de desamor, a respeito de encontrar voz e veículo e método, porque eu precisava, mesmo, sobreviver. Preciso.