O banquete de Ester

The Banquet of Esther and Ahasuerus, 1640s, Jan Victors (Dutch Baroque Era Painter, ca.1619-1676

A história de Salomão vocês conhecem, né?

Pensa numa treta. A história de Salomão é cheia de treta, a maioria herdada de seu pai, Davi.

Por ora, para a história de hoje, basta mencionar que, para a construção do famoso templo de Salomão e as demais edificações reais, que levou treze anos para serem concluídas, Salomão escravizou uma galera.

Milhares de judeus foram obrigados a trabalhos forçados para que a bunita tivesse o palácio, a casa para si e outra casa para sua esposa, que era ninguém mais ninguém menos que a filha do Faraó, e mais uma porção de prédios administrativos, tudo na base da pedra talhada revestida de cedro coberto de ouro.

Lembra das doze tribos de Israel? Cada tribo sendo um clã formado por um dos filhos do Jacó? Pois é. Salomão priorizava sua atenção em três delas: a tribo de Levi, de Judá e de Benjamin. Os descendentes destas três tribos tinham cargos de comando, eram guerreiros ou sacerdotes. Os descendentes das nove tribos restantes, todos no trabalho forçado. Não deu outra: guerra civil.

As nove tribos formaram o reino do Norte, de Israel, com seu próprio rei e o rei descendente de Salomão ficou com o reino de Judá, ao sul, formado por três tribos e o pau comeu entre eles por décadas.

Isso deu uma enfraquecida no poderio de ambos e acabaram por ser conquistados pelo rei Nabucodonosor, da Babilônia, que não quis nem saber e tornou seus escravos os judeus dos dois reinos.

Mas como no mundo animal sempre há um predador maior que você, Nabucodonosor deu uma vacilada e a Babilônia foi conquistada pela Pérsia. O rei persa, Ciro, decretou a permissão de retorno dos judeus ao seu território e restituiu a eles os bens que haviam sido confiscados.

Depois que Ciro morre, Assuero se torna o rei da Pérsia. É aqui que estamos.

Assuero reinava sobre cento e vinte e sete províncias. Era um império que ia do Egito até a Índia. No terceiro ano do seu reinado ele resolveu curtir a vida.

Deu um banquete para o qual convidou todos os nobres e príncipes das províncias do seu reino e seus servos. Aproveitou para ostentar. Linhos finos, almofadas púrpuras, argolas de prata, colunas de alabastro. Parecia casamento de blogueira de moda.

O rei Assuero tinha uma esposa linda, a rainha Vasti, que ofereceu uma festa paralela, também na casa real, para as mulheres dos convidados.

No sétimo dia de festa, já torto de tanto vinho, o rei tem uma ideia excelente, como são todas as ideias que o bêbado tem, e pede aos eunucos que tragam a rainha, coroada, para que ele a exiba aos convidados. A algazarra foi geral.

Vasti, ouvindo os urros que vinham dos aposentos onde acontecia a festa masculina, respondeu: Mas nem morta!

Ao receber a resposta, trazida pelo mensageiro, Assuero indignou-se. Inflamou-se de ira. Aproveitando a presença dos ilustres convidados fez a pergunta: Faço o que, agora?

Memucã, um dos príncipes presentes, mandou a real: A rainha Vasti não ofendeu somente o Rei. Minha mulher está na festa dela vendo isso tudo. Comé que vai ser lá em casa agora? Ou melhor, comé que vai ser agora na casa de cada um de nós, que trouxemos nossas esposas? As princesas de toda Pérsia estão aqui, mermão! Isso é uma crise nacional sem precedentes, nossa supremacia masculina foi atacada e precisa ser dada a resposta!

Testosterona, por si só, já é uma merda. Misturada com álcool então, imagina! O rei mandou escrever um decreto e assinou com o selo real do seu anel. Na quarta tentativa, claro, pois nas três primeiras ele errava o papel, borrava tudo, caía do divã de tanto rir e tinha que começar tudo de novo.

O decreto destituía Vasti do posto de rainha e dizia que todo macho manda SIM na sua casa e cabô!

Como ele garantiu obediência a este decreto em todo reino não sabemos, mas o fato é que a solidão um dia bateu.

Tal qual um BBB, ele ordenou que virgens formosas de todo reino fossem selecionadas e confinadas no seu harém, guardadas por eunucos.

Elas passavam por um ritual que incluía banho de loja, de sais, perfumes e especiarias e cada uma era apresentada ao rei na esperança de ser escolhida.

Uma dessas virgens era Ester. Judia, órfã, criada pelo tio, Mordecai.

A tradição judaica não permitia casamento com povos pagãos, mas a beleza de Ester chamava tanta atenção que os funcionários do rei vieram buscá-la. Cachorro amarrado tem medo até de salsicha, modos que Mordecai nem tentou impedir. Mas ficou veiaco.

Ele ia todo dia na porta do palácio assuntar as fofocas e saber se alguma tinha sido eliminada, como tinha sido a prova da líder e bater uma aposta sobre para quem ia o anjo.

Não teve que esperar muito. Ester foi escolhida e virou rainha.

Mordecai, agora com vida bem mais mansa, manteve o hábito e, um dia, sentado à porta do palácio, trocando uma ideia com seus considerados, ouviu dois guardas tramando a morte do rei. Não teve dúvidas. Levou o fato ao conhecimento de Ester, que contou ao rei. O caso foi investigado e comprovado. Os traidores foram mortos na forca e o fato registrado no Livro dos feitos memoráveis.

Nesse ínterim, o rei promoveu um dos príncipes, Hamã, acima de todos os outros príncipes e conferiu-lhe uma espécie de dom divino, que fazia com que todas as pessoas tivessem que se curvar diante dele.

Mas todo dia que ele passava pela porta do palácio tava lá Mordecai, que não se inclinava. Se estivesse sentado fazia questão de se levantar, na maior marra.

Hamã procurou saber quem era o marrento e soube que era judeu. O fiasco tava feito. Matar Mordecai para Hamã parecia pouco. Decidiu que iria dizimar todos os judeus que havia no reino de Assuero.

Misericórdia como genocida se repete.

Hamã foi direto ao rei e disse: Tem por aí um povo que cumpre uma lei que não é a tua. Se o rei achar por bem dizimá-los eu faço um aporte nos cofres do rei de trezentos e setenta e cinco toneladas de prata.

Diante de argumento tão bem fundamentado, o rei nem se interessou em saber que povo era, deu a Hamã seu anel (uia, calma!) onde estava o selo oficial, equivalente à assinatura real, e a permissão de fazer tudo que quisesse ao povo e suas propriedades.

O edito foi redigido e as cartas foram enviadas imediatamente por um sistema postal que empregava cavaleiros estacionados a intervalos variados, os quais transmitiam mensagens de um a outro, permitindo assim que as cartas chegassem às partes mais remotas do império.

Guarde bem esse esquema que, em breve, não havendo melhoria no quadro de ocupantes do nosso governo federal, tão firmemente decididos em destruir nossas instituições, será assim que serão feitos os envios do país.

A execução dos judeus foi então marcada para 07 de março de 473 a.C. Março, gente.

Março de 1991 – confisco da poupança pelo Collor

Março de 2016 – vaza o áudio da Dilma

Março de 2020 – início da quarentena.

É oficial: nada vindo de março presta.

Mordecai ficou sabendo do decreto e contou à Ester. A rainha pediu a Mordecai que fizesse umas macumba, usasse umas guia, sei lá, torcesse por ela que ela iria pensar numa solução.

Sem muito tempo para agir, Ester convidou o rei e Hamã para um jantar. O rei aceitou, encantado. Durante o jantar, como de costume, perguntou se ela queria algum presente.

Como Ester não tinha tido ideia nenhuma ainda, disse que o pedido era repetir o jantar com os três no dia seguinte. O rei topou.

Hamã não se cabia de contente. Tivera um jantar na companhia do rei e da rainha e fora convidado novamente para o dia seguinte.

Na saída do palácio topa com quem? Ele mesmo. Mordecai, que não moveu um músculo à sua passagem. Hamã chegou em casa puto! Sua mulher então tem uma brilhante ideia: Manda fazer uma forca imensa amanhã pela manhã e vá dizer ao rei que enforque Mordecai nela. Desnecessário dizer que Hamã amou a ideia.

Naquela noite o rei não conseguia dormir e pediu que lessem para ele. Trouxeram o Livro dos feitos memoráveis e leram o trecho do Mordecai caguetando os malaco que queriam matar o rei.

Então disse o rei: Que honras foram feitas a Mordecai? Ao que responderam: Honra nenhuma, meu senhor.

Mas não é possível! Pensou o rei antes de adormecer profundamente.

Na manhã seguinte quem vem lá, lépido e fagueiro? Cheio de ideia? Hamã, aquele doce de pessoa. O rei, ao vê-lo, prontamente pergunta:

Hamã, que se fará ao homem a quem o rei deseja honrar?

Porra, de quem mais estaria o rei falando senão dele mesmo, o mais catito dos príncipes, muleke zueira das festas reais?

Então respondeu Hamã ao rei: Quanto ao homem a quem agrada ao rei honrá-lo tragam-se as vestes reais que o rei costuma usar, o cavalo em que o rei costuma andar montado e a coroa real. Vistam-no. Que o cavalo seja levado pela praça conduzido pelo mais nobre dos príncipes apregoando: “assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar!”

Hamã, tu é um porreta! Disse o rei. Faz isso tudo direitinho que nem você falou com o judeu Mordecai que tá ali, ó. Sentado na minha porta. Tudinho, não esquece nada.

A cara do Hamã só não era melhor que a cara do Mordecai enfatuado, em cima do cavalo puxado por Hamã repetindo sem parar: Assim se faz ao homem a quem o rei deseja honrar!

Terminado o martírio, Hamã correu para casa, angustiado. Contou o acontecido à sua mulher e seus amigos. O consenso foi geral: A casa caiu e foi pro seu lado, Hamã.

Mas ainda tenho o banquete com o rei e a rainha! Disse Hamã. Hei de me reestabelecer!

Durante o banquete, o rei faz de novo a pergunta: Qual é o teu pedido, minha rainha?

Ester deu a letra: Meu pedido é minha vida e meu desejo, a vida do meu povo. Fomos vendidos para que nos destruíssem.

Oxe! Mas quem é a muléstia que ameaça a MINHA rainha e seu povo?

A cabecinha de Ester virou-se para Hamã vagarosamente. O beicinho tremia: Meu inimigo é Hamã.

O rei virou no Jiraia. O que eu faço com você, Hamã??

O eunuco Harbona, que servia o rei, aproveitou a deixa: Em frente ao palácio tem uma forca e-nor-me que Hamã mandou fazer para enforcar Mordecai.

A rainha, reclinada no divã, só levantou o copo de vinho em um brinde silencioso enquanto Hamã era arrastado para fora aos berros.

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