Domingo Caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engraçadinho rolando na tevê, trabalhando.
Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores.
Bem mesmo.


#DropsdaFal_DomingoCaderninho

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A volta triunfante dos bolinhos da Telinha, as cousas das quais não damos conta, zup, um vício novo e malvado, um patíbulo ao sol, meu marido Oscar e a melhor louça em que eu puder pôr as mãos

Porque a vida é complexa e múltipla, eis que me vejo na necessidade de ir atrás de programas sobre restauro de carros.

Quem me conhece, sabe: não dou a mínima para carro algum. Quando a vida financeira capotou, abri mão do meu (que, né, é de 1997) e não pretendo ter carro nunca mais, a não ser que meus mais profundos desejos de viver no meio do mato se realizem.

Mas, amigo internauta, eis aqui yours truly completamente apaixonada por programas de carros sendo restaurados.

Se eu preciso de mais um vício malvado? É evidente que não. Mas arrumei este e, aiaiai, que delícia.

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Sua pele já não é mais o que era, sua voz já não é mais o que era, sua fé para com as amizades já não é mais o que era e sua tolerância para com o objeto do amor já não é mais o que era. Sejam bem-vindos ao limiar da quinta década de vossas vidas, onde a-dor-ainda-dói, mas a paciência, ah, a paciência para com a babaquice definitivamente é coisa do passado.

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Porque a vida é um horror e tudo dói e nada, nada, nada vai melhorar, encomendei bolinhos da Telinha. Como você sobrevive sem eles, não consigo compreender.

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Tenho, com uma amiga, um grupo de Whats que se chama RUA (Roedores de Unha Anônimos). Fazemos reuniões para nos penitenciar de nossa vacilante força de vontade e para compartilhar sucessos. É claro que não tenho sucesso para compartilhar porque regredi aos meus doze anos, mas ainda assim, boto fé em grupos de suporte emocional. Recomendo para alguns, inclusive, a criação dos Comentaristas Calhordas e Escrotos Anônimos. Assim como eu, vocês não vão melhorar, mas ter consciência do problema é sempre um adianto.

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Pessoas que dão conta da vida. Elas me deprimem. Elas me encantam. Elas me fazem querer desistir de tudo. Elas me dão forças para continuar. Depende, sempre, da fase. A minha. Atualmente, elas me intrigam. Seriam as listas delas melhores do que as minhas? Elas têm mais brios? Mais força de vontade? Mais concentração, mais fé? (Bom, qualquer um tem mais fé do que eu, não pode ser só isso). Elas têm expectativas e, portanto, remam com maior vigor?

Não sei. RG e kindle sumidos, as coisas de pernas para o ar, devo dez mil textos pra Suzi, banheiro parecendo um brejo, cozinha-desespero e, olha, pessoal dando conta de filho, marido, mulher, cozinha, emprego, unhas bem-feitas e casa em ordem. Sei lá. Não consigo entender como faz.

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Alguém mais tem a fantasia da Grande Guilhotina? Tipo, o cara tenta entrar no elevador antes que a turma saia e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara faz um comentário que já era inaceitável no século XVIII e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara posta um absurdo na rede social e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara é malvado com um cãozinho e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara faz um comentário babaca que estilhaça o seu coração em milhões de pedacinhos e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara está lá falando em público coisas que não devia falar nem no banho e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. Jornalistas em surto, telespectadores urrando, as comentaristas da Globonews sem reação e a cabeça do cara rolando no carpete do que foi a sala da coletiva e agora é um imenso cadafalso. Mais alguém? Porque eu penso na Grande Guilhotina o tempo todo.

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Na treta sobre mesas arrumadas ou não, direitinho-ou-não e meu-jogo-americano-é-mais-bonito-do-que-o-seu, o que me pega, fiquei pensando, nem é o lance de arrumar mesa pra marido. Já fiz muito isso. Não faço mais porque meu marido, hélas, morreu. Quero dizer, faço, porque todas as noites (e, olha, jantamos sopa, inverno ou verão), boto mesas ainda mais lindas para jantar com minha mãe. Nossas louças são especiais, nossos guardanapos, bordados, e nossas taças, ah, nossas taças. Representantes da aristocracia urbana decadente que somos (e, meu bem, bota decadente nisso), nós nos mantemos apegadas a pequeninos rituais sem importância para qualquer um que não seja nós, movimentos que, acreditamos, definem a nós e a nossas vidas minúsculas – gestos tolos que geram um montão de louça suja. Assim sendo, sou ninguém para falar da mesa de quem quer que seja.

O que me pega é o deslumbre com o cargo do marido – escrito em caixa alta para aumentar a importância.  Não ficou claro se ele é cuidado por ter o cargo que tem ou se porque é o marido, mas a insistência em lembrar as amigas do cargo do sujeito (amigas que, nossa, já devem estar carecas de saber disso) é reveladora. O cargo do marido parece ser, neste pedaço da história do casal, parte integrante da identidade de ambos. Quão importante me torno, tendo o meu marido o cargo que tem? O que diz de mim ter um marido “importante”? Eu me torno mais digna, mais bem-sucedida, também mais importante. Por isso, me refiro a ele pelo cargo. Ele não tem nome, não precisa de um nome. Ele não tem, sequer, um daqueles apelidos constrangedores (disse a mulher que chamava o marido de “Vida”). Ele é o cargo dele, eu sou a mulher cujo marido tem esse cargo e abençoados, definidos e extremamente importantes, seguimos.

Tomando sopa, porque sopa é vida.

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Keaton, turquesa – o mais belo dos nomes do azul, Guernica, Kusama, o foco que não há, a loba, as muitas e muitas coisas que não me importam, aquarela, café, café, e mais café, sombrinhas, um lugar que reconheço, flores que se parecem com bucetas, uma escadaria, as passagens do metrô, estruturas de metal, Ipanema, Arpoador e Leblon (lugares cujo nome reconheço, mas não sei bem como chegar lá), os vários problemas em envelhecer, Barata Ribeiro. No título do projeto de que não tomo parte, as intenções são conjugadas no futuro do pretérito composto do indicativo.

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(em Apart-Hotel Do Conde Drácula)
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Ontem chorei até dormir. Não me orgulho, não me envergonho. Essa sou eu. Num país que fica menor e mais triste, mais sombrio e burro a cada instante que passa, acho mesmo que não podemos ter um João Gilberto. Você não precisa realmente concordar ou discordar. Esse é o meu registro, sugiro que você faça o seu. Prometo não ler. Chorei ontem até dormir, senti a morte dele como se sente a morte de alguém que fez parte da infância da gente. Alexandre imitava o João Gilberto cantando “Tim tim por tim tim” (lembra Ivanise Zel, querida?) e estaria devastado hoje. Talvez parte da minha tristeza, talvez parte da minha insistência com essa canção venham daí. Não sei. Esse é um registro, não uma análise. Chorei até dormir.

Os muitos nadas dessa vida

O erre do meu computador está emperrado. Como se minha digitação claudicante precisasse de mais boicote.

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Admitir em voz alta “não vou dar conta de tudo” é horrível, mas libertador.

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Estou dopando meu joelho. Dane-se.

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Conversa com J. Ele está em busca do tom exato pro texto exato, e essa é uma busca que sempre me comove. Falei com ele sobre leitura em voz alta e matraqueei sem parar sobre registro. Registro, registro, sou um disco riscado, a agulha pula e volta pro mesmo lugar.

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Programas de decoração. O youtube é um ninho deles. Eu, que mal ponho as lombadas dos livros pro lado certo, sou fascinada, sabe-se lá o motivo. O tom certo de cinza pra parede da cozinha alheia me consome. Vou montar um grupo de ajuda muito específico: Viciados em programas de decoração e em analgésico pro joelho e bagunceiros procrastinadores compulsivos anônimos. Serei o único membro, mas Chico, o gato, vai frequentar em solidariedade.

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“Olá, notamos que você tem um bloqueador de anúncios! Desabilite, para ter acesso às dez matérias desbloqueadas por mês e…”

Enfia essa reportagem no seu cu.

Grata.

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O décimo homem, na Netflica. Que filme maluco da caralha. Adorei, adorei.

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O melhor que podemos fazer uns pelos outros é não nos conhecer muito bem.

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A pessoa não sabe o que quer, mas espera que você não apenas saiba o que ela quer, mas faça do jeito que ela faria se soubesse o que quer.

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Depois de tantos, tantos anos no mesmo esquema, nossa romancista não sabe bem o que escrever quando não é para o seu olhar.

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Tenho quase cinquenta anos e minha mãe vai ao mercado e compra iacúlti pra mim. Eu me envergonho disso? Não.

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Tem coisa mais patética do que achar que o recado, a fofura, a graça, a foto, o comentário eram para você e descobrir que não, não eram? Até tem, assim, na vida em geral, mas no momento particular da descoberta, não, não tem. A pessoa só quer morrer.