Volto para você como quem volta para um velho hábito malvado. Volto, volto. Volto a falar com você como quem pisa em ovos, mas também em flocos de algodão. Volto a falar com você como quem volta aos soquinhos, aos soluços, aos sorrisos. Volto a falar com você como quem volta quase sem querer e a toda velocidade, com cuidado e esbarrando nas coisas, derrubando pratos, tropeçando nas flores do tapete, desmaiando de calor, fazendo um barulhão e acordando o cãozinho. Volto para você baixando as músicas que adoro, sem conjugar o verbo “nosso”, sem pensar no que encontrarei. Volto a falar com você, com você, com você, bebendo café pelando de quente, ligando aí sem apertar o botão de “complete a ligação, por favor”, fazendo risotos lindos que não dividimos, lavando a louça quando é tarde da noite e a Marli chora de dor nas costas, alimentando o gatinho doente e pedindo baixinho que ele fique bem, fique bem. Volto à ideia que tenho de você, ao nada, ora, aos muitos nadas, celebrando a vitória do candidato com todo mundo, menos com você, medindo a temperatura da água com a ponta do pé e me tacando na piscina sem tirar a viseira. Volto a falar com você, e apenas com você, enquanto coleciono coelhinhos e rinocerontes e passarinhos e melhoro a receita da caponata, enquanto sinto frio aos trinta e quatro graus (é sério, estou de meias), enquanto não faço planos e, ainda assim, traço rotas minuciosas para lugar absolutamente nenhum. Volto, volto, volto. Volto a falar com você todos os dias, a cada momento, enquanto planejo a dominação mundial e mantenho Antão e Peixoto abastecidos de balas de menta e biscoitos, enquanto compro flores e pastéis toda semana, enquanto atraso o envio do texto, enquanto este país me desespera um tanto e me cansa mais ainda. Volto a falar com você e o Drexler canta e o seriado dos zumbinhos acaba outra temporada e as folhas do caderninho se soltam e um novo capítulo chega e eu, olha só, eu realmente não deveria.

Domingo-caderninho

Semana, dor, programação, fim, vermelho, todo um novo livro para escrever, flores e um macaco, no último caderninho que você me deu.

Uvas no congelador, sua voz na minha caixa postal, os planos para Buenos Aires em agosto, a dedicatória no livro do Eco, cheiro de alecrim, a última foto com as cachorras, a lista de coisas na gaveta de cima, o nome de todas as estrelas, um telescópio na varanda, o edredom de cavalinhos, um beijo no cabelo, a cobertura da piscina, um novo lar para um velho cãozinho, nossas impressões digitais, a gaveta de cuecas, seu Neroli da Bvlgari na minha pele, as questões não resolvidas, os documentos dos carros, um buraco na cerca, seus pés quentes nos meus, gelados, a chave nas mãos da prima Elisa, as futilidades necessárias, a prancha de desenho, uma ponte romana na Alemanha, seus olhos e mãos, a papelada na mesinha de centro, a cafeteira nave-espacial, as gatas amontoadas no vitrô, sanduíche de queijo e salame, os CDs da Salmaso, água gelada, chá morno, café pelando, uma colcha boliviana, doce de leite do Uruguai, seu esnobismo e seus queijos italianos, as lombadas dos livros tão velhos, o vento da serra, a voz do Vanzolini enquanto jantávamos, os lacinhos do cabelo da menina, as dúvidas existenciais da terceira garrafa de vinho, os labirintos borgianos dos quais dependemos por tanto tempo, perdendo e encontrando o que sequer procurávamos, macarrão ao sugo, sorvete de creme com anis estrelado, todo um universo, todo um universo perdido e disforme, ausente, que ecoa e não sei mais o que fazer dele. A sua falta é minha, o seu nome é meu choro e minha raiva e todos esses anos são, mesmo, todos esses anos. Se eu pudesse acreditar num lugar melhor, numa vida melhor, eu poderia acreditar que você está lá e que a paz é algo que nos encontra.

A triste verdade sobre mim, minha vida profissional, é que se eu estou indo a algum lugar, é porque a Suzi Márcia me arrasta. Ela é pequenina, eu sou enorme, me arrastar não é fácil.

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O inferno de cozinhar extraordinariamente bem (modéstia, querida, foda-se), é que eu viro a mala que passa pelo mundo comendo comida de restaurante e gralhando “não vale o preço, não vale o preço, não vale o preço”.

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Na total impossibilidade de falar do fundo do coração, retribui-se o feliz ano-novo da maneira mais distante que nos é possível, rezando para que este inferno termine logo. Sim, eu usei o verbo “rezar”. Acaba, mundo.

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Rede social é aquilo. Quer me seguir, segue, mas não me peça para testemunhar seu assombroso universo.

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Bordertown, que série do caralho.

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As goiabinhas do pacote ao meu lado são um instrumento dos céus para testar meu ateísmo.

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Minha amiga outrora assustada e miserável, sem trabalho num país estranho, já está ótima, tranquila, realizada, morando numa casa que parece um conto de fadas, com coelhinhos – sim, você entendeu bem – soltos pela propriedade. Ou seja, ela arranjou um cara pra cuidar dela. Um cara com grana, claro, porque ela é muito linda. E não apenas isso, veio me dar uma aula particular sobre como a minha vida péssima pode melhorar se eu fizer isso e aquilo. As mulheres bonitas jamais, jamais entenderão como é para o resto de nós.

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Eu queria alcançar a excelência. Sequer consigo arrumar meia dúzia de roupas num armário.

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Entendi que vou acabar sozinha e sem qualquer um que deseje, mesmo, falar ou estar comigo, nem pra dar tchau da janela do carro.

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Tire a sua superioridade moral do caminho que eu quero passar com a minha dor.

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Tento ficar calma. Penso no corpo dele, deitado numa cama de hospital, sozinho, sozinho, e sei que todo o resto, inclusive a babaquice — a minha, a alheia — é bobagem a essa altura.

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Amo café. Passado no filtro de pano, no filtro de papel, o que recebo no balcão da padoca, o que tomo na cafeteria americana que “ai-fal-isso-não-é-caféééééééé”, daqueles filtrinhos hipster, filtrinhos de pano individual a-volta-da-cabocla-mas-só-para-um-gracias e tal e tal. Mas a alma que inventou a cafeteira de capisulinha, olha, o céu é pouco pressa pessoa. Espero do fundo do coração que ela esteja podre de rica.

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Novo horário pra parar de trabalhar aos domingos: 15h30. Vamos alcançar essa meta e depois dar um jeito de não trabalhar mais aos domingos. Essa é nossa mensagem institucional.

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Ano passado eu morri e em 2021 são grandes as chances de acontecer de novo.

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