Uma ponte romana na Alemanha

Uvas no congelador, sua voz na minha caixa postal, os planos para Buenos Aires em agosto, a dedicatória no livro do Eco, cheiro de alecrim, a última foto com as cachorras, a lista de coisas na gaveta de cima, o nome de todas as estrelas, um telescópio na varanda, o edredom de cavalinhos, um beijo no cabelo, a cobertura da piscina, um novo lar para um velho cãozinho, nossas impressões digitais, a gaveta de cuecas, seu Neroli da Bvlgari na minha pele, as questões não resolvidas, os documentos dos carros, um buraco na cerca, seus pés quentes nos meus, gelados, a chave nas mãos da prima Elisa, as futilidades necessárias, a prancha de desenho, uma ponte romana na Alemanha, seus olhos e mãos, a papelada na mesinha de centro, a cafeteira nave-espacial, as gatas amontoadas no vitrô, sanduíche de queijo e salame, os CDs da Salmaso, água gelada, chá morno, café pelando, uma colcha boliviana, doce de leite do Uruguai, seu esnobismo e seus queijos italianos, as lombadas dos livros tão velhos, o vento da serra, a voz do Vanzolini enquanto jantávamos, os lacinhos do cabelo da menina, as dúvidas existenciais da terceira garrafa de vinho, os labirintos borgianos dos quais dependemos por tanto tempo, perdendo e encontrando o que sequer procurávamos, macarrão ao sugo, sorvete de creme com anis estrelado, todo um universo, todo um universo perdido e disforme, ausente, que ecoa e não sei mais o que fazer dele. A sua falta é minha, o seu nome é meu choro e minha raiva e todos esses anos são, mesmo, todos esses anos. Se eu pudesse acreditar num lugar melhor, numa vida melhor, eu poderia acreditar que você está lá e que a paz é algo que nos alcança.

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