Diário de um mundo que acabou: calor, Valadares, camisetas, sumiu uma das fronhas do conjunto cor-de-rosa

Um amigo carioca chamado Valadares. Um amigo carioca chamado Valadares que me ligasse uma vez por semana ou pra quem eu pudesse ligar de quando em vez, a cada dez dias, que me fizesse rir, que risse do que digo, que me dissesse coisas engraçadas. Não quero sexo (calma, brasil), não quero romance, não quero morar com ninguém ou, Deus me ajude, enfiar alguém aqui em casa. Mas queria um amigo carioca (gosto do sotaque), chamado Valadares, que faça pausas nas frases pra tragar o cigarro e que odeie o governo. Sinceramente, não é pedir demais.

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Talvez eu tenha cometido o melhor patê de alho do Brasil. A modéstia me impede de afirmar. Mas é. É sim.

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O calor deste setembro serve a quem? Quem se beneficia com minha pele arranhada no tecido da camiseta mais fofa? Num guento mais.

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Eu tive um amigo que amava café. Ganhei um daqueles trequinhos que moem grãos e estou me sentindo a pessoa mais cool do mundo. Queria contar pra ele, não posso. Sentimos que nunca acaba de caber mais dor no coração, não é assim a canção? Sentimos.

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Cê olha no relógio. 19h12. Ah, vai dar tempo de fazer tudo. Cê olha no relógio. Meu Deus do céu, 22h35, não fiz porra nenhuma.

Domingo-caderninho

Letras, ideias, suspiros, um golpe bem dado, fotos perdidas, uma ideia que não tinha mesmo como dar certo, a grade vermelha, a espera dos dias, outro golpe, um apelido secreto, torta de limão da padaria, caneta verde, golpe, golpe, golpe, desvio do golpe, golpe.

Domingo Caderninho 11

Domingo Caderninho 11
De muitos pedacicos e colagens e histórias e fazeres e papelitos coloridos e embalagens de mequidônis se conta uma história como a nossa. Rótulos dos vinhos que não bebemos, histórias de infância que não compartilhamos, telefonemas interrompidos e pastilhas para dor de garganta. Sinto sua falta, mas a tristeza é tão maior. Hoje chorei no meio da rua, como não fez a mocinha da música do Vanzolini. Vim andando, chorando, alarmando os moradores pacatos deste bairro surreal. Decidi com quem me é mais cara e próxima que vamos trabalhar com colagens, uma forma bonitinha e bem-humorada de colar pedaços dolorosos, quase invisíveis de tão dolorosos, quase azuis de tão dolorosos, de tanto que queimam e trepidam e levitam e suspendem.

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Ainda é manhã de terça-feira, Batman.

Alguma coisa tem me incomodado profundamente. Nem estou falando do Brasil, porque o Brasil e eu desistimos um do outro faz tanto tempo. Num universo minúsculo, caseiro, pessoal e absolutamente limitado, tenho me sentido incomodada. Como se a gola da vida raspasse em meu pescoço. Meu blog. Meu blog tem me incomodado profundamente. As coisas que digo me incomodam. As escolhas que fiz. Que faço. Seu nome na boca de pessoas que eu nem gosto tanto assim? Me incomoda demais. Os horários. Os horários me incomodam. As mudanças. Alterações. A enorme quantidade de coisas em que devo me concentrar me incomoda muitíssimo. Não enxergar o essencial? Ah, incomoda sim. Velhos refrões, jargões e frases cretinas de propagandas dos anos 1990 me incomodam como se fossem moscas azuladas nojentas. Não me lembrar quando foi a última vez que nos vimos me incomoda demais. Quase certeza de que foi na casa dos amigos. Foi? Eu não me lembro. As coisas que não mudam me incomodam tanto quanto as que mudam. O momento da revelação. Amizades terceirizadas. O lacre da garrafa de leite. As garantias, a falta delas. Os vasinhos novos dos cactus. A inclusão dos outros na história. Os barquinhos. Palavras que não são minhas me deixam sem voz. Ando triste e cansada E sem voz. E incomodada.

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A volta triunfante dos bolinhos da Telinha, as cousas das quais não damos conta, zup, um vício novo e malvado, um patíbulo ao sol, meu marido Oscar e a melhor louça em que eu puder pôr as mãos

Porque a vida é complexa e múltipla, eis que me vejo na necessidade de ir atrás de programas sobre restauro de carros.

Quem me conhece, sabe: não dou a mínima para carro algum. Quando a vida financeira capotou, abri mão do meu (que, né, é de 1997) e não pretendo ter carro nunca mais, a não ser que meus mais profundos desejos de viver no meio do mato se realizem.

Mas, amigo internauta, eis aqui yours truly completamente apaixonada por programas de carros sendo restaurados.

Se eu preciso de mais um vício malvado? É evidente que não. Mas arrumei este e, aiaiai, que delícia.

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Sua pele já não é mais o que era, sua voz já não é mais o que era, sua fé para com as amizades já não é mais o que era e sua tolerância para com o objeto do amor já não é mais o que era. Sejam bem-vindos ao limiar da quinta década de vossas vidas, onde a-dor-ainda-dói, mas a paciência, ah, a paciência para com a babaquice definitivamente é coisa do passado.

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Porque a vida é um horror e tudo dói e nada, nada, nada vai melhorar, encomendei bolinhos da Telinha. Como você sobrevive sem eles, não consigo compreender.

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Tenho, com uma amiga, um grupo de Whats que se chama RUA (Roedores de Unha Anônimos). Fazemos reuniões para nos penitenciar de nossa vacilante força de vontade e para compartilhar sucessos. É claro que não tenho sucesso para compartilhar porque regredi aos meus doze anos, mas ainda assim, boto fé em grupos de suporte emocional. Recomendo para alguns, inclusive, a criação dos Comentaristas Calhordas e Escrotos Anônimos. Assim como eu, vocês não vão melhorar, mas ter consciência do problema é sempre um adianto.

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Pessoas que dão conta da vida. Elas me deprimem. Elas me encantam. Elas me fazem querer desistir de tudo. Elas me dão forças para continuar. Depende, sempre, da fase. A minha. Atualmente, elas me intrigam. Seriam as listas delas melhores do que as minhas? Elas têm mais brios? Mais força de vontade? Mais concentração, mais fé? (Bom, qualquer um tem mais fé do que eu, não pode ser só isso). Elas têm expectativas e, portanto, remam com maior vigor?

Não sei. RG e kindle sumidos, as coisas de pernas para o ar, devo dez mil textos pra Suzi, banheiro parecendo um brejo, cozinha-desespero e, olha, pessoal dando conta de filho, marido, mulher, cozinha, emprego, unhas bem-feitas e casa em ordem. Sei lá. Não consigo entender como faz.

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Alguém mais tem a fantasia da Grande Guilhotina? Tipo, o cara tenta entrar no elevador antes que a turma saia e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara faz um comentário que já era inaceitável no século XVIII e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara posta um absurdo na rede social e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara é malvado com um cãozinho e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara faz um comentário babaca que estilhaça o seu coração em milhões de pedacinhos e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. O cara está lá falando em público coisas que não devia falar nem no banho e, do nada, zup, a Grande Guilhotina corta a cabeça dele. Jornalistas em surto, telespectadores urrando, as comentaristas da Globonews sem reação e a cabeça do cara rolando no carpete do que foi a sala da coletiva e agora é um imenso cadafalso. Mais alguém? Porque eu penso na Grande Guilhotina o tempo todo.

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Na treta sobre mesas arrumadas ou não, direitinho-ou-não e meu-jogo-americano-é-mais-bonito-do-que-o-seu, o que me pega, fiquei pensando, nem é o lance de arrumar mesa pra marido. Já fiz muito isso. Não faço mais porque meu marido, hélas, morreu. Quero dizer, faço, porque todas as noites (e, olha, jantamos sopa, inverno ou verão), boto mesas ainda mais lindas para jantar com minha mãe. Nossas louças são especiais, nossos guardanapos, bordados, e nossas taças, ah, nossas taças. Representantes da aristocracia urbana decadente que somos (e, meu bem, bota decadente nisso), nós nos mantemos apegadas a pequeninos rituais sem importância para qualquer um que não seja nós, movimentos que, acreditamos, definem a nós e a nossas vidas minúsculas – gestos tolos que geram um montão de louça suja. Assim sendo, sou ninguém para falar da mesa de quem quer que seja.

O que me pega é o deslumbre com o cargo do marido – escrito em caixa alta para aumentar a importância.  Não ficou claro se ele é cuidado por ter o cargo que tem ou se porque é o marido, mas a insistência em lembrar as amigas do cargo do sujeito (amigas que, nossa, já devem estar carecas de saber disso) é reveladora. O cargo do marido parece ser, neste pedaço da história do casal, parte integrante da identidade de ambos. Quão importante me torno, tendo o meu marido o cargo que tem? O que diz de mim ter um marido “importante”? Eu me torno mais digna, mais bem-sucedida, também mais importante. Por isso, me refiro a ele pelo cargo. Ele não tem nome, não precisa de um nome. Ele não tem, sequer, um daqueles apelidos constrangedores (disse a mulher que chamava o marido de “Vida”). Ele é o cargo dele, eu sou a mulher cujo marido tem esse cargo e abençoados, definidos e extremamente importantes, seguimos.

Tomando sopa, porque sopa é vida.

Um Coltrane da Flavia Penido, uma Maliu esotérica numa república morta

Achei um “menta-alecrim” bão de substituir o Bulgari de limão que não fabricam mais. Não que eu fosse ter grana prum Bulgari a essa altura da minha assustadora vida financeira, mas né.

Enfim, ganhei um vidro da minha educadíssima anfitriã e agradeci porque também sou algo educada, mas sem esperança em meu coração calejado pela dor e saudade de meu amado Bulgari Vert. Porém, contudo, todavia, eis que com garbo e elegância ranco a tampa e, voilà, é um cítrico muitíssimo digno. Eita Granado que não nos falha.

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Aquele amigo que vai embora sem se despedir. Não somos (ou, pelo menos, eu não sou, malandragem) dignos da despedida, da atenção, do gesto, da delicadeza do “Meu bem, chegou a hora, adeus”.

“Já bebi, já comi, quiéquieu tou fazendo aqui?”, nos ensinava a declamar o nosso bárbaro pai ante o olhar horrorizado de nossa mãe, a grega.

Num determinado momento da noite, você olha em volta e quedê o amigo, o motivo – não raras vezes – de você estar ali naquela balbúrdia (olááááá, desgoverno brasileiro), cercada de gente que você gosta-mais-ou-menos (bem feito), de rímel, cinta, sutião MASP e, Deus que me perdoe, corretivo.

Sim, ele foi embora e inda te restam horas de socialização. Graçadeus que egípcios e mesopotâmicos e os caras espertos que vieram antes deles inventaram o álcool.

Me lembrei disso porque esse sábado tive a oportunidade de ver uma moça – que nao é minha amiga, só conhecida de olás – passar por isso. Dessa vez, eu era a balbúrdia, o povaréu, as gentes de quem ela não gosta, o pano de fundo que justificou que ela enfrentasse spandex, salto e sombra com glitter para se encontrar – com o coração aos pulos – com um lamentável e emasculado primata. Me vi de fora da cena e doeu para caráleo, torcida brasileira. Ele chegou, foi simpático com ela por bem uns douuuze segundos, se afastou, circulou por umas cinco rodinhas de parvos e zás, foi-se, desaparecido no éter. E eu, na encolha, covardemente testemunhei o e-x-a-t-o momento em que ela se deu conta de que ele tinha ido embora sem se despedir. Protagonizei a mesma patetice umas duas ou três vezes em bares d’outrora, quero acreditar que para nunca mais. Se ela reclamar com ele amanhã (cabe aqui um imenso “se”, além da nossa proverbial covardia, realmente cremos não ter esse direito), ele vai dizer que a. foi distração b. não queria incomodá-la, ela parecia tão feliz com os outros amigos c. ele teve uma semana infernal, blablablá, estilo “filha, você teve sorte de eu ter aparecido”.

Não confirmo e não nego que umas lagriminhas me assombraram quando vi a cena. Eu devia ter sido uma pessoa melhor, ido até ela e dito alguma coisa do tipo “Querida, é um covarde, parta para outra, ou, se você estiver na mesma situação que eu, para nenhuma”, mas já contei que sou uma covarde. Catei minha linda (linda, linda) bolsa, acenei pro meu amigo carona, um gesto sutil e doce e meigo e discreto que quer dizer mais ou menos “Vamos embora daqui, caralho” e, indo até ela, passei a mão em suas costas e disse: “Minha querida, preciso voltar para São Paulo, mas não podia ir sem me despedir” – porque posso não ser boa, mas não fui criada por lobos.

Identificação, sua danadinha.

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A Flavia Penido ensinou a fazer download do Coltrane e agora preciso urgentemente que Leandro&Leonardo arrume meu celular preu entupir minha Barbie Fada com o som do velho. Não quero mais ouvir tracousa.

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Alexandre adorava Djavan. Como é que pode, né gente? Um homem culto daqueles? Poeta maravilhoso, ouvido absoluto, cheio de delicadezas. E adorava Djavan, meu Deus do céu. De quando em vez, a Verô e eu paramos para nos lembrar disso, para nos abraçar e rir da cara dele. Djavan, puta que pariu.

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O frio voltou. Sequer tenho palavras para agradecer pelo momento. Estou usando duas meias em cada pé, calça de lã e camisa de lenhador. Camisa xadrez, em mulheres da minha feiura, costuma ser um atentado estético, mas no inverno, podemos. No inverno e na casa vazia, evidentemente.

Bebo chá mate morno com leite, vestida como uma mendiga e feliz como uma… o que é feliz, ainda, neste mundo horrendo? Bem, seja lá o que for, neste frio sou feliz como essa coisa feliz que desconheço.

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A república acabou. Minha mãe me perguntou quando cheguei se podemos chamar de ditadura ou se inda tem algum protocolo a ser seguido antes da liberação do termo. Ela enfrentou uma. Foi espancada e quase morreu.

Maliu reconhece cada sinal e tem cantado antecipadamente cada passo dessa gente escrota com semanas de antecedência. Chegada fosse a uma picaretagem, podia abrir um express do “Mãe Maliu: presente, passado e futuro” e ganhar uma grana com seus poderes premonitórios.

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A casa tem dado de dez a zero em mim e não é de hoje. Impraticável chamar gente aqui pura e simplesmente porque não dou conta. De gente, da casa, de mim. Aprender a desamar aos cinquenta, senhores, é coisa que não recomendo. Sofremos mais do que adolescentes e não temos ninguém para preparar nosso jantar.

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Tenho uma médica daquelas chegadas à sinceridade. Ela me aconselhou a fazer planos de oito meses no máximo. E eu adoro gente assim, que chega e “Pá!”. Ao menos quando dentro dum consultório.

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Curto a segunda temporada de Trapped com moderação que é para fazer durar. No intervalo vi Case, excelente e que, ora, tinha escapado do meu radar.

Horóscopo Drops do Dias das Mães

O filho de Áries é um incompreendido. Usa o pijama um dia do avesso outro do direito por uma questão de liberdade e menor esforço. Poupa energia para tarefas mais nobres, como videogames, por exemplo. É quase uma filosofia.

Filho de Virgem, quando a mãe chamar para almoçar, não vai na primeira chamada que é golpe. É para pôr a mesa.

O filho de Gêmeos é conectado com a natureza. Na necessidade de um despertador, ele compra um galo. E tendo a casa furtada, providencia um ganso. Glória do Greenpeace.

O filho de Aquário vira vegano de repente e daí liga pra mãe pra choramingar que tá com o freezer cheio de carneiro e leitão.

A filha de Câncer, depois de anos e anos de conselhos que diziam “não se case com ele, é roubada”, se casa, sim, com ele, entra na maior roubada e, depois de se separar, vira pra mãe e diz “POR QUE VOCÊ NÃO ME AVISOOOOOU?”.

O filho de Leão é acima de tudo, honesto. À meia noite de domingo liga do colégio interno a cobrar, claro, para a mãe, avisando: “Mãe, amanhã o diretor vai te ligar e, ó: fui eu.”

O filho de Capricórnio é narrador e crítico da direção da mãe.  “Por que essa pista?”, “Nossa, que devagar!”, “É assim que você usa o freio de mão?”. Cuidado, pois, se a mãe for de Peixes, periga você ser largado a dez quilômetros da escola numa manhã de inverno. Lei do retorno que chama.

O filho de Escorpião liga da faculdade a cobrar, claro, para a mãe e manda: “Mãe, a Marina tá grávida e arrumei um emprego de garçom pois a família dela quer que a gente case. E tranquei a matrícula. Mas fica feliz que são gêmeos!”. Enquanto o cérebro da mãe ainda processa as informações, o fedazunha grita: “Mentirrraaaa, mããeeee!! Tirei 1,5 em cálculo!!”.

O filho de Touro não liga no Natal, não liga no aniversário, não liga na Páscoa, não liga no Dia das Mães. Claro que o filho de Touro é o filhinho preferido.

O filho de Libra ao receber a polícia que foi acionada pelos vizinhos, às duas da manhã, temperatura dois graus, por som alto na festa da república, bate palmas devagar e berra pro oficial que entrou no carro e desligou o som: “Parabéns, sargento! O senhor sabia que não pode entrar num carro sem mandado?”.  A seguir, para a mãe, ligando da delegacia: “Meus direitos, você que me ensinou!”. Filho de Libra, na ditadura, não dura dez minutos.

A filha de Sagitário considera brigadeiro e Yakult doses únicas. Não peça uma mordida e um gole que ela não dá. Nem pra mãe.

O filho de Peixes tem amigos em todos os bairros da cidade e depois do treino promete carona para geral. No carro da mãe, com a mãe de motorista. Sem avisar, claro.