Reunião de pauta

Jacob Jordaens, Os quatro evangelistas, 1625-1630

–  Preciso de um texto. Pode ser um release, uma sinopse, uma porra de um cordel, uma peça de teatro, vocês façam como quiserem, mas escrevam essa história de uma vez por todas! O que eu não aguento mais é estar nas portas das sinagogas falando, empolgado, sobre conversão e batismo e um meliante erguer a mão e perguntar: mas quem é esse Jesus, afinal? NÃO AGUENTO MAIS!

– Calma, Paulo. Vamos escrever. Mas como é que você quer a coisa? Biografia tá autorizada, bendita seja a Carmem Lúcia!

– Biografia não, Mateus! Deus me livre de biografia. Vocês se empolgam e daqui a pouco tem relato de Jesus condenando à morte aquele moleque que derrubou ele, lembra? Tivemos que pegar todos os pergaminhos que Pedro escreveu e enfiar naquela caverna do Mar Morto, ninguém nunca vai achar aquilo, se Deus quiser. O que eu preciso é de histórias curtas, relatos fortes, pra galera contar em mesa de taberna. Assim o pessoal já vai conhecendo a história e facilita meu trabalho.

–  Pode ter enredo? Sou lou-co por enredo!

–  João. Nem vi que você estava aqui. Quem chamou o João? João, eu preciso de concisão.  Setup e punch, manja? A história tem que grudar que nem chiclete e qualquer um deve ser capaz de contar. As tuas histórias começam sempre com um balé, dá uma volta no Egito e acaba numa dança com todo mundo fantasiado. Dessa vez eu preciso de verossimilhança.

–   Tá bom, tá bom, já entendi. Lucas vai escrever também?

–   Sim, Lucas tá com uma sinopse linda que ele está desenvolvendo que eu tô botando a maior fé. Começa com um anjo que anuncia para a Maria que ela vai engravidar do Espírito Santo em forma de uma pomba. Ela engravida, virgem, conta para o noivo, José, que aceita numa boa e os dois fogem do Herodes, que quer matar a criança, para o Egito. Olhaí, Egito. Egito pode, João!

–  Deixa eu ver se eu entendi, Paulo: Maria, virgem, engravida duma pomba. Verossimilhança, que você quer né? Fica aqui você com Mateus, Marcos e Lucas que eu vou pairar espíritos por cima das águas o tan-to-que-eu-qui-ser, Paulo. Ninguém vai me segurar!

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