A palavra é o que fica

por Fal Azevedo

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
E eu sei que é preciso matar

É um tempo de guerra

É um tempo sem sol

Da canção Eu vivo num tempo de guerra,

de Guarnieri e Edu Lobo

O casal Guarnieri, ele, maestro, ela, harpista, não gostava nadinha das propostas fascistas do governo da Itália na década de 1930. Um pouco alarmados, um tanto apavorados (aliás, em quase todas as situações da vida, quem declara “Não sinto medo”, ou é bobo-alegre ou é filho do rei. O medo mantém a gente vivo e quicando, amigos), pegaram o filhinho de dois anos e rumaram para no Brasil, em 1936. No que fizeram muitíssimo bem.

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Este se revelou um texto muito difícil de fazer.

Eu me arrastei por mais de um mês. Atrasei o lançamento do Drops em Revista, deixei os gentis-patrocinadores da Guilda do Drops na mão, enervei a Suzi Márcia como poucas vezes Suzi Márcia foi enervada e não dei conta desse trem.

Ah, e veja bem, fui eu que escolhi o tema. Escolhi Gianfrancesco Guarnieri como tema da revista. Vi um documentário maravilhoso sobre ele no Canal Curta, e achei que esse cara seria uma grande personagem. Eu-que-quis. Ainda assim, que inferno fazer esse texto.

Daí que fiz o que sempre faço: tergiversei. Daí que danei a me perguntar: por que tão difícil falar do velho Guarnieri, Fal?

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O colégio carioca Santo Antônio Maria Zacarias não estava lá para lidar com aluno subversivo. Quando o aluno Gianfrancesco – nascido em Milão, em 1934, mas brasileiro por adoção desde os dois anos e alfabetizado em português – escreveu uma peça falando mal do vice-reitor da escola, foi expulso. Nem o padre que cuidava do teatro da escola pôde protegê-lo. Gianfrancesco aprendeu cedo que pagamos um preço por cada palavra. Sombras do Passado foi um tremendo sucesso e alunos de todos os anos aplaudiram e gritaram o nome do vice-reitor durante o espetáculo. A produção, em sua breve temporada, deixou saudades.

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Botei um espumante no freezer. Escrever de fogo talvez seja um caminho.

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Escrevo e encho a cara ao mesmo tempo. Se dava certo pro Hemingway, dará certo para mim. (eu sei, eu sei, me deixe)

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Gianfrancesco escolheu continuar a escrever e, apesar de se meter com política estudantil – foi presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários –, em vez de seguir carreira política, resolveu se concentrar nas palavras.

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Hoje é dia das mães e escrevo aqui na sala, com minha mãe fazendo comentários pouco elogiosos ao governo, aos animais que apoiam esse governo desastroso, a ministros e ex-ministros e penso, de novo, na vida da minha personagem. O que diria Guarnieri do mundo em que vivemos? Ele estaria com nojo, permitam-me arriscar. Nojo do presidente e da presidência, nojo dos relativistas das mortes, nojo de quem não uivou com as mortes de Aldir e do Migliaccio e do Santana e da Lúcidi e dos outros mais de onze mil mortos (até agora, leitor, até agora). Ele estaria horrorizado com os caras de direita que não respeitam o isolamento social – que não passa duma invenção para reinstalar o comunismo no Brasil (???) –  e da classe média de esquerda, muito ciosa dos perigos da pandemia, que quebra o isolamento a cada dois dias pra viver aventuras essenciais, tipo andar de bicicleta por Ipanema, visitar a madrinha, comprar aquela massinha que só tem naquela rotisserie-que-não-faz-entrega, sabe, naquela ruazinha fofa porque afinal estamos do lado dos bons. Guarnieri, quero crer, cuspiria em todos nós. Ou, melhor ainda, faria uma peça foda, achincalhando geral.

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Não me parece possível encontrar um ponto onde se diga “Aqui, bem aqui, Gianfrancesco optou pela arte popular. Ele optou, neste momento, falar do povo e suas dores, do povo e suas vivências, do povo e da vida do povo. Era um menino de classe média que não se escondeu atrás do discurso, ainda em voga, nós os italianos. Menino europeu, filho de maestro e harpista, que poderia tranquilamente vestir a capa do italianinho que vê graça no cotidiano dos trópicos, mas não foi isso que fez Gianfrancesco. Ele desde cedo que identificou fortemente com a classe operária e a transformou em sua principal bandeira.

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Quando se trata de um autor da grandeza de Guarnieri, é injusto destacar só uma obra do cara, afinal, são tantas grandes obras. Por outro lado, é injusto citar O jardim do diabo, quando se fala de Luis Fernando Verissimo, ou Anarquistas graças a Deus, quando se fala de Zelia Gattai? Ou será que escolher uma, entre uma porção de obras genais, é também um gesto de amor? A tentativa honesta, ainda que reducionista, de condensar o que um autor que amamos tem de melhor?

Enfim, quando tratamos da obra de Guarnieri, é difícil, demais mesmo, escolher. Mas se você pedisse e só porque você pediu, sempre elegerei Eles não usam black-tie como a melhor coisa, dentre tantas tão boas, que o velho escreveu.

Nessa peça, temos um operário em cena. Pela primeira vez, o teatro brasileiro tem um cara pobre, não caricato, em cena. E ele sofre e briga com o pai e descobre que vai ser pai também e perde e se frustra e oscila entre dois polos bem na frente do público que, usando seus melhores vestidos e sapatos, nunca tinha visto nada parecido. Palavras como “patrão” e “greve” e sindicato” explodem em cena e, quando nos damos conta, estamos ali testemunhando mais conflitos de classe do que conflitos românticos. É uma obra enorme, ainda mais se tivermos em mente a época em que foi pensada, escrita e posta nos palcos, por um menino de 22, 23 anos. Mas sua grandeza independe da época ou da idade do autor. Ela é importante porque fala dum pedaço suro e lindo da nossa história, dum jeito suro e lindo. Guarnieri capturou o espírito de sua época em falas, atitudes e fez isso alicerçado em diálogos muito bem estruturados e numa sequência de acontecimentos de gelar a espinha e de deixar boquiaberto qualquer professor de literatura, crítico ou escritora apaixonada por ele, seja lá em que época for.

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A peça, Eles não usam black-tie, contava com elenco formado por Leia Abramo, Eugênio Kusnet, Guarnieri, Riva Nimitz, Miriam Mehler, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e Chico de Assis. A direção foi de José Renato. O texto é incrível, mas vamos combinar: difícil não dar certo com esse elenco.

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Gianfrancesco dizia que entender o mundo se dá de duas formas: pelos olhos de quem domina ou de quem é dominado.

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Leio os planos da amiga-da-amiga de reunir, hoje mesmo, três gerações da família num almocinho, “afinal não nos vemos há trinta e cinco dias”. Minha filha, isso não é um almoço de dia das mães, é um pacto de suicídio.

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Todo comunista e fazia novela, o Guarnieri? Pois. Fazia. Para além das contas a pagar, Guarnieri acreditava que o povo merecia diversão. Entretenimento. Fantasia. Fuga. Fazia novela, sim, como quem faz um menino rir, uma senhora dar uma fungadela numa cena muito sentida, um cara sonhar com mundos outros. Ele era um grande ator, cheio de recursos, autodidata e feroz em seu próprio método (o arrepio de Gianfrancesco à academia, mesmo reconhecendo seus méritos e valor, de alguma forma nos aproxima ainda mais).

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O povo que ele queria que risse e sonhasse está sendo dizimado, espremido entre um governo acéfalo, feito de e para imbecis, negacionistas burros, negacionistas imbecis e negacionistas burros and imbecis, que pra mal dos nossos pecados inda se acham grandes analistas da realidade brasileira. Hoje é domingo e temos mais de onze mil mortos pelo Covid-19, vírus que o brasileiro batizou de Coronga. Guarnieri adoraria o apelido. Aliás, meu pai também.

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Gianfrancesco veio para São Paulo em 1952, aos dezoito anos, porque já sabia que não teria opção além de ser ator e escritor. Ajudou a fundar o Teatro Paulista do Estudante, uma companhia teatral que, em 1955, fundiu-se com outra companhia, o Teatro de Arena. Sob esse nome, a companhia definiu os rumos do novo teatro brasileiro e fez frente ao regime militar com grande dignidade.

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“A gente tem de ser firme”, me diz a Andréa Natal, querida demais. Gianfrancesco concordaria com ela.

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Em 1956, a montagem da peça Eles não usam black-tie, apresenta ao público de São Paulo, e depois do Brasil, à persona que Gianfrancesco cultivaria por toda a vida: o intelectual de esquerda. Mais ou menos malvestido, mais ou menos impaciente, profundamente humano, ligado às causas sociais, aliás, atuante nas causas sociais, e sempre com um Hollywood no bico.  

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Camisa social de listras, xadrez ou com estampas malucas, calça social vincada, usada com cinto, meia fina e sapato. Às vezes, um terno mal-ajambrado. Cigarro numa das mãos, sempre gesticulando. Voz rouca (o que aconteceu com os homens de voz rouca?). Olho no olho do interlocutor, certezas. Alguns palavrões. Risadas. Biritas até o porrezinho suave. Cabelo penteado para trás. A estética dos anos 1950/1970, a fumaça do cigarro, as discussões. Tudo isso fala demais ao meu coração, o que só me faz gamar mais em Guarnieri.

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A linguagem que permeia a obra de Guarnieri é realista. É direta, é a língua que se fala nas ruas. Guarnieri se preocupa, e muito, em ser entendido. Em alcançar as pessoas nos morros e nos botecos, nas salas de aula, nos sofás de veludo, nos bancos das praças. Guarnieri não inventa um Brasil, ele apenas o encara e registra.
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Eu disse pro meu amigo Char que a palavra dos dias, para mim, tem sido “ignorância”. A incontornável, imposta pela vida, pelos meios e a opcional. Daí ele me disse que não existe ignorância opcional, que isso é só calhordice.

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Guarnieri, mais maduro, fazia o papel do velho bonzinho. Sempre. Ele dizia que era o escolhido para viver qualquer senhor romântico e bonachão nas novelas, mas não parecia ressentido. Ria disso.

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Aqui na nossa rua, onde antes funcionava o consultório do psiquiatra marreta, agora vive uma senhora que faz refeições para uma empresa. O cheiro que toma o Brócolis, nosso querido bairro, é de fazer chorar. Domingo, fim de tarde, ela está a todo vapor, fazendo um peixe dos deuses e testando a minha falta de fé.

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Filho de músicos, Guarnieri adorava orquestras e amava o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi um menino encantado com o maquinário que mantinha as peças em cena.  Em uma entrevista para o programa da TV Cultura, o Roda Viva, contou que, muito pequeno, não podia assistir da plateia as apresentações da orquestra regida por seu pai, o maestro, Edoardo Guarnieri. Por isso, ficava em pé no fosso da orquestra sobre uma caixa de instrumento, acompanhando as óperas.

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O universo dos operários, dos trabalhadores, das pessoas comuns que limpavam casas e faziam carros. Esse era o universo que Guarnieri queria imortalizar e que perseguiu por toda sua carreira de dramaturgo, em peças como A semente, Gimba, Marta Saré.

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Entrevista do ex-ministro da Saúde na tevê e, pelas bochechas, Mandetta está quarentenando aqui em casa. Temos nada menos de cinco bolos deliciosos disponíveis para nossa alegria.

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Será que está difícil falar de Guarnieri porque ele é dolorosamente parecido com meu finado pai? Vamos garrar na mão de Freud. Sim, ele é. Mesma geração, mesmas referências literárias (pelo que pude ler sobre o velho Gianfrancesco), bom de copo, bom de garfo, dentes ruins (não péssimos, mas certamente não os teclados de hoje em dia), corte de cabelo horroroso, bigode padrão anos 1970, voz meio suja de cigarro e birita, bom pai, pai foda (ser filho de homens geniais é muito duro, muito mesmo), algo impaciente, algo bondoso, vaidoso demais e ciente de suas próprias qualidades e talentos.

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Guarnieri gostava da dramaturgia por sua permanência. Dizia que o que fica da produção teatral é a palavra.

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Até 1972, quando chega ao fim a companhia Teatro de Arena, Guarnieri esteve lá. A cada montagem. Escrevendo e atuando e repensando um país que, algumas décadas depois, saudaria um bando de analfabetos funcionais como seus salvadores. O Brasil não mereceu a vida e a arte Guarnieri, músico, ator e dramaturgo premiado. Nunca mereceu seu esforço, sua abnegação. Nós, você e eu, não merecemos. Sou feliz por tê-lo e me sinto privilegiada por contar com sua obra no meu repertório, mas olha, que desperdício de talento.

Fal Azevedo, 49 anos, é editora da Drops em Revista e autora dos melhores risotos do território nacional.

Rosa e Vermelho

por Krysse Barros

Vênus no espelho – Diego Velásquez

Um quadro pintado há séculos. Nosso cérebro precisa compreender o que nossos olhos veem. Começa a trabalhar com as informações recebidas pelos olhos que perscrutam a tela em busca de formas conhecidas, detalhes já vistos, posturas ou paisagens antes tentadas por outros artistas. Muitos pontos podem atrair nosso olhar. Invariavelmente o artista escolhe o ponto focal que será o objeto principal da sua obra e concentra neste objeto o que deseja transmitir aos seus futuros observadores.

Analisamos toda obra que vemos segundo critérios estritamente próprios, criados e amadurecidos de acordo com os padrões culturais que cada uma das pessoas ao redor do mundo pôde ou escolheu manter. Ou seja, cada livro lido, filme assistido, peça teatral aplaudida, exposição vista, museu visitado, viagem feita e curso finalizado.

Desenvolvemos opiniões únicas a respeito de tudo na vida, inclusive cultura. Cada um de nós é um espectador único e nos colocamos de frente para uma obra de arte com toda a nossa bagagem cultural.

De frente para a Vênus ao Espelho, de Diego Velásquez, vemos um quadro de nudez, produzido no século XVII em plena Espanha católica de Felipe IV, um país enriquecido pelas viagens exploratórias do século anterior.

Ali, o espectador consegue se transportar, com seu cabedal de conhecimentos, ao tempo histórico em que Diego Velásquez pintou essa mulher nua, reclinada em seu récamier (ou canapé – olha que palavra linda). Posicionando-a desse modo, o artista aumentou suas curvas e as destacou como se fossem uma insensata linha do horizonte. O que nos leva ao objetivo principal da obra: retratar de modo pessoal o clássico tema da Vênus. Velásquez dividiu o quadro entre a tentação em marfim e rosa do corpo desnudo de sua Vênus e o vermelho da cortina, um dramático pano de fundo para o Cupido que segura o espelho, nos atraindo para o rosto da Vênus que nos encara.

O que a Vênus diz com seu olhar refletido que não pode ser totalmente visto, uma vez que o artista utilizou sua técnica de chiaroscuro para obter esse efeito de intangibilidade na mirada que apenas adivinhamos? Essa mulher em sua nudez tão diferente dos padrões vigentes e considerados belos à época realmente nos vê?

Qual seria a história da Vênus desnuda? Que, revolucionária, desafia os padrões de seu tempo com seu corpo magro e sua nudez de costas – não frontal, como era habitual e que observa o espectador de um ângulo impossível devido à posição em que Cupido segura o espelho.

Por que Velásquez, diferente de outros artistas que criaram suas Vênus, não a retratou num opulento nu frontal, como era o usual? Ele compôs um nu sensual e calipígio, escandaloso, mas nada vulgar. Maravilhoso! Há documentos em que constam outros quadros com nus que ele pintou. Nenhum deles, porém, alcançou os séculos posteriores. Teria sido a esperteza em retratar uma mulher fora do padrão de beleza da época que salvou esse quadro da destruição?

 Velásquez teve uma vida confortável desde o nascimento. Desde cedo demonstrou aptidões artísticas e seus pais o colocaram sob a tutela de um mestre que o ensinou as técnicas de pintura por seis anos, dos onze aos dezessete. Com dezoito anos, prestou um exame que o habilitou a pintar obras sacras e obteve licença para atuar como pintor profissional. No ano seguinte casou-se com a filha do seu professor e já fazia retratos em sua cidade natal, Sevilha. Sua habilidade fez com que se tornasse rapidamente conhecido e com vinte e três anos foi para Madri pintar o retrato de um nobre que o recomendou ao rei. Este se fez retratar por Velásquez e teve tanta estima por seu retrato que o tornou um dos pintores da corte.

Velásquez não apenas era um mestre do Barroco, um virtuose do chiaroscuro (claro/escuro), um excepcional retratista. Era também uma pessoa de modos sociáveis, inteligente e com uma veia irônica e profundamente orgulhoso de sua carreira e trabalho. O espírito amigável do pintor pode ser constatado em diversos, senão na maioria de seus trabalhos, nos quais há amiúde a presença de um personagem a observar o espectador a partir da obra. Por vezes é o próprio Velásquez quem nos observa, como que a indagar se porventura está você admirado com a obra que ele produziu.

Krysse Barros tem 53 anos, quatro filhos e dois cães resgatados. Aprendeu Direito na faculdade e a ser de esquerda em 1978 assistindo à “propaganda eleitoral” na TV. Gosta de praia, cinema, literatura e teatro. Acredita que a única filosofia possível é viver cada dia que se apresenta e sonha, ah, Deus, que um dia ainda vai conseguir morar sozinha.

Como limpar janelas de vidros

por Suzi Márcia Castelani

Para limpar uma janela de vidro é necessário que se tenha uma janela, que a mesma seja de vidro e que os vidros estejam sujos.

Caso tenha uma janela de vidro e ela esteja limpa, convém aguardar umas três semanas. Neste tempo, certamente, se formará uma película de poeira em todos os vidros da janela de maneira uniforme. Pronto. Agora você tem uma janela de vidros sujos e já podemos retomar o projeto.

Um material excelente para limpar janelas de vidros sujos é camiseta velha. É importante que seja velha pois o uso deixa o tecido mais macio, livre de gomas e permite limpar todos os cantinhos de poeiras resistentes.

Caso possua somente camisetas novas, é imperativo que aguarde um tempo de uso que comporte muitas lavadas, que as muitas lavadas desbeicem as costuras deixando-a no ponto correto de maciez adequado à limpeza de vidros sujos.

Esse tempo servirá para acumular ainda mais poeira nos vidros já sujos de sua janela, possibilitando até que pequenas aranhas teçam teias nos cantos de alguns vidros.

No caso disso acontecer saiba: o ciclo normal de vida de uma aranha pequena, se ela não tiver um encontro fatal com uma chinelada é de cerca de um ano. Tempo mais que suficiente para eclodir seus ovos e os filhotes deixarem a ninhada.

Pense bem. Na impossibilidade temporária de limpar os vidros por falta de camiseta velha, sendo a sua ainda nova, e tendo que esperar que o tempo e as lavagens ajam sobre o tecido, essa ninhada pode ser muito útil devorando outros pequenos insetos que se aventurem pela casa.

Portanto, durante este tempo, evite matar moscas, grilos e qualquer outro inseto de pequeno porte que apareça em qualquer dos cômodos pois há uma família de pequenas aranhas habitando temporariamente sua janela de vidros sujos e seria uma lástima eles não terem o que comer, sob a sua jurisdição.

Se possível, estenda fitas adesivas dupla face em todas as superfícies antes de dormir para aprisionar pequenos insetos e levá-los, ainda vivos, à pequena teia na janela. Hospitalidade. Já que você ainda não tem uma casa de janelas limpas vamos pelo menos manter o ambiente saudável.

Uma vez eclodidos os ovos e tendo as pequeninas aranhas abandonado a teia-mãe, certamente sua camiseta, que era nova, já chegou no ponto que desejávamos e podemos iniciar os trabalhos.

Para retirar o grosso do pó que se formou nesses vários meses antes de poder usar a camiseta, agora velha, recomendo um pincel do tipo achatado. Varra com ele todos os vidros, por dentro e por fora da janela, parapeito inclusive.

Nesta parte da tarefa recomendo que use um avental já que a única camiseta velha que você tinha será usada para a limpeza do vidro e não queremos sujar sua roupa ainda nova, ou queremos?

Um método eficiente de não sujar a roupa na hora de limpar os vidros sujos da janela é tirar toda a roupa e realizar a tarefa nu.

Para a eficácia desse método é necessário que planeje com cuidado o tempo de envelhecimento da camiseta para calhar no verão. Não que não seja possível executar a tarefa nu, no inverno. Sim, é possível, mas desconfortável. Fica a critério de cada um.

Encha um borrifador com vinagre branco. Borrife sobre cada vidro, passando a seguir a camiseta velha, esfregando com força e mudando para uma parte limpa da camiseta a cada novo vidro.

Ao final do processo, sua janela de vidros sujos se transformará em uma janela cristalina diante de seus olhos. A janela de vidros limpos filtrará os raios de sol, uma beleza de se ver pelo lado de fora!

Perceba que é recomendável que vista sua roupa, caso tenha realizado a tarefa nu, antes de sair pra apreciar o resultado do trabalho. Mas caso não se importe em flanar ao ar livre exibindo suas partes pudendas, nada contra.

Mas se nu, talvez fumando um cigarrinho, apreciando o bom trabalho alguém passe e leve a mão à boca numa expressão de espanto, evite a frase ficou limpinho, né? Você pode ser mal interpretado.

É tempo, então, de jogar fora a camiseta velha, agora velha e imunda, no lixo e recomeçar todo o processo.

Suzi Márcia Castelani é artesã de flores e palavras.

A arte não tem simpatia pelo humano

por Suzi Márcia Castelani

Photo by Steve Johnson 

Nossa rotina esmigalha nossa capacidade de concentração e contemplação. Temos obrigação de ser livres, de escolher todo o tempo e o futuro é sempre incerto.

A angústia é dado originário da condição humana e construímos uma forma de sociedade que a aprimora a cada dia.

Vivemos presos em hipnóticas ocupações e no falatório superficial da cotidianidade. É uma angústia sem objeto, de uma realidade sem rosto, o lamento profundo pelo nosso destino de sempre morrer no final.

Vivemos constantemente preocupados sobre nossa permanência no mundo. Batalhamos diariamente por sucesso mas o chegar lá é tão vago que nos sentimos permanentemente derrotados.

Para sermos, precisamos primeiro entender nosso lugar no mundo. Na sequência, conhecê-lo e as estruturas que o sustentam. A ansiedade acontece quando entendemos que nossa atuação neste mundo é parte do que determinará as mudanças desejadas.

Só nos angustiamos quando somos. A existência pressupõe o sofrimento pois só há tranquilidade na ignorância e na cegueira social.

A ansiedade não pode ser afastada inteiramente. O que a psicoterapia pode fazer é nos ajudar a ter uma perspectiva sobre ela de modo que não sejamos apenas vítimas mas também observadores que entendem a tormenta.

A arte também é feita de angústia e não precisa ter simpatia pelos humanos. Nem acolher. Deleuze afirma que a grande arte olha para o mundo como se fosse pré-humano.

A proposta do novo requer imaginação. Para imaginar é necessário pressupor o que ainda não há.

A arte, diante da impossibilidade de segurar o tempo, aprisiona e marca uma época, identifica um período. É uma das respostas do homem ao determinismo do tempo, que o premia com a morte.

É sempre um grito, um rasgo individual. O lado criativo é feito de dor e angústia. O artista rende-se à ela como centelha criadora, o desejo da própria imortalidade.

Em um primeiro momento, a obra de arte constrói-se com base no ponto de vista interno do autor. A arte influencia o mundo muito mais do que é influenciado por ela. Quando nasce não pretende explicar qualquer coisa que não seja ela mesma.

Uma obra pode ter uma originalidade tão esmagadora a ponto de assombrar sua época e fazer com que gerações futuras se debrucem sobre seus signos fundantes sem nunca mais ser capaz de escapar seja pela negação ou concordância.

O sublime, para Harold Bloom é o fracasso do pensamento lúcido e sempre supre sua ausência.

Qualquer coisa que nos tira da esfera humana, que nos relativiza, seja por grandiosidade ou beleza, que nos coloca em contato com algo maior, tem o poder de restaurar a perspectiva e nos acalmar.

Que seja a arte essa coisa. Forjada na dor e na angústia que em todos é matéria, mas só a genialidade é capaz de traduzi-la em obra perene, captando o etéreo, o desejo de fuga de uma lucidez aprisionante para a materialização do sublime, essa arte que, quando ocorre, é imortal.

Suzi Márcia Castelani é editora e artesã de flores e palavras.

Abra suas asas

por Lucas Pedroso

Quando me pediram para criar um drink que representasse minhas impressões sobre os anos 1970, fiquei bastante inseguro. Como homenagear um período que eu não vivi? Certamente vou acabar me agarrando aos lugares comuns. Aliás, o simples ato de escrever algumas linhas sobre essa década beira a prepotência, e sei que vou ficar com a impressão de que escrevi um texto episódico e óbvio, como uma redação de um adolescente pouco inspirado em uma sala de aula. 

Fiquei um pouco mais otimista quando me dei conta de que mesmo as lembranças dos anos que vivi são todas retratadas na minha mente com cores fortes e pinceladas apaixonadas. Provavelmente me esqueci de fatos importantes que presenciei e atribuo relevância quase fanática a detalhes insignificantes que, no final das contas, compõem os quadros na parede da memória.

Em resumo, representar uma década, mesmo pra quem a viveu, é uma tarefa que nasce incompleta, pois nossos olhos têm lentes distorcidas e nossa memória nos trai de acordo com o que o coração sugere.

Mas tanto li, dancei, assisti e ouvi sobre os anos 1970 que é como se eu tivesse presenciado tudo. É um grande baú de sentimentos e sensações que eu vivi mesmo sem ter conhecido. Ou que eu conheci mesmo sem ter vivido, não sei ao certo.

Se escrever é se expor, elaborar um drink não é diferente, acreditem. Sei que exagero um pouco ao escrever isso, mas o fato é que a receita acaba sendo fruto tanto do autor quanto de seu tempo. Já adianto que criei duas receitas para escolher a melhor e acabei me apegando a ambas. Isso já mostra algumas características minhas, como a precaução e a indecisão. Os ingredientes que consegui comprar e mesmo os adereços usados nas fotos foram adaptados para a realidade que enfrentamos de isolamento social, como se 2020 quisesse se impor sobre 1970. Tentei não permitir e é claro que, em parte, falhei. Acrescento que, se o cenário político atual remonta a fatos aterradores da década homenageada, cabe a nós buscarmos na mesma década as diversas referências de alegria, resistência, tolerância e liberdade.

Mas voltemos à minha influência sobre o que eu mesmo criei (pensando agora, não havia como ser diferente, não é mesmo?). Um dos drinks devia ter sido feito com vodca, mas usei gin. Não se bebia muito gin nos anos 1970, a bebida saiu recentemente do ostracismo após um longo período. É que, bem, eu adoro gin. Não haveria como não usá-lo. E vodca não tem gosto de nada, só de álcool (porém não se enganem, bebo drinks de vodca muito feliz).

Esse drink de que falo é uma releitura do Hi-fi. Isso mesmo, a famosa mistura de Fanta laranja com vodca. Era combinação obrigatória em festas dos anos 1970, e me lembro de minhas tias comentando saudosas de quando tomavam alguns copos e dançavam e paqueravam a noite toda. Confesso que eu achei por muitos anos que o nome da bebida era High Five, motivo pelo qual esse será o nome da minha versão. Eu podia ter escolhido algo homenageando a Cuba Libre, também bastante apreciada. Como um drink que tem Cuba no nome leva o refrigerante símbolo do capitalismo? Aí está algo que sempre me intrigou. Mas não foi isso que me fez escolher outro caminho, e sim o fato de que a receita deixa, penso eu, pouco espaço para a criatividade. O outro drink, que nomeei Frenético, lembra um ponche de frutas, também muito popular à época, e o concebi de modo que visualmente remetesse às cores de um globo de discoteca. Ficou delicioso. O gelo vai derretendo e o drink vai ficando cada vez melhor conforme o tempo passa. Como os próprios anos 1970.

High Five

Esprema frutas cítricas de sua preferência. Usei uma laranja Bahia, uma laranja pera, uma tangerina e um limão siciliano. É o que tinha em casa. Meça o suco e ferva brevemente com o mesmo volume de açúcar. Coloquei também um pedaço de gengibre, que eu adoro. Especiarias certamente trariam nuances interessantes de sabor. Quase coloquei um anis estrelado, mas descobri a tempo que só em 1982 a Rita Lee chupava drops de anis no escurinho do cinema, então a referência perdeu sentido e eu desisti. Voltemos à receita. Espere esfriar um pouco e bata no liquidificador por 1 minuto com as raspas das frutas alaranjadas. Coe bem e guarde em uma garrafa na geladeira. Esse xarope conserva-se bem por aproximadamente um mês e pode ser usado para fazer soda italiana ou adoçar chá. Tenho sempre algum xarope de fruta guardado. Admito que acrescentei um pouco de xarope artesanal de framboesa ao de laranja, mas só porque eu tinha na geladeira e achei ajudaria na coloração sem alterar o sabor. Totalmente estético e dispensável. Num copo alto com gelo, despeje 45ml de xarope de laranja, 60ml de gin e um dash de Angostura. Complete com água com gás e misture levemente com uma bailarina.

Frenético

Faça gelos coloridos saborizados com frutas. Há vários modos possíveis de se fazer isso, por exemplo simplesmente batendo as frutas com água e açúcar no liquidificador. Eu escolhi ferver as frutas com água e açúcar e depois coar. Isso deixa as cores mais vivas e, espero eu, ajuda na conservação. Os gelos podem ser dos sabores que se preferir, os da foto são: morango com framboesa (que eu tinha no freezer), laranja Bahia, abacaxi com laranja pera e gengibre, kiwi com limão posteriormente batido com (muita) hortelã. Para a montagem, complete um copo alto com gelos saborizados, despeje 60ml de rum, um dash de bitter de laranja e complete com água tônica. Mexa suavemente com uma bailarina e sirva. Saúde!

Fotos de Fernando Passarini

Lucas Pedroso é doutor em Matemática Aplicada. Não que importe, mas é a isso que se resume seu currículo. De típica personalidade taurina, não acredita em signos. Consegue discorrer sobre qualquer assunto por não mais do que três minutos.

Black-tie, privacidade e um universo confinado

por Cyntia Menezes

Foto de Nestor Morales

No primeiro ato de “Eles não usam black tie”, Guarnieri assim descreve a cena: “Barraco de Romana. Mesa ao centro. Um pequeno fogareiro, cômoda, caixotes servem de bancos. Há apenas uma cadeira. Dois colchões onde dormem Chiquinho e Tião.” No filme, onde o roteiro permite outros espaços, vemos que Maria divide um pequeno quarto com o irmão. Há pouca privacidade no universo de Black-Tie.

Diz-se que o anseio humano pela privacidade tem várias origens. Vergonha, medo, identidade. Se Adão e Eva cobrem a sua nudez por vergonha, pedem a Deus uma privacidade que até aquele momento era irrelevante, talvez até inexistente. Talvez tenha nascido aí, na nossa caída do paraíso, a ideia de que há algumas coisas que são melhores quando escondidas. Cobrimos nossos corpos não apenas para nos proteger do frio, do calor, do sol ou do vento. Cobrimos principalmente a nossa nudez, ou as nossas vergonhas, no linguajar antigo das bisavós. Cobrimos, finalmente, o nosso desejo e o desejo do outro.

E se o primeiro julgamento vem de Deus, o segundo vem de nós mesmos. Julgamos os nossos corpos e os alheios, e aceitamos mostrar apenas o que consideramos belo. E ainda assim, uma modéstia nascida da vergonha nos faz relutar em aceitar até mesmo os elogios: escondemos nossa alegria em um rubor do rosto e um sorriso sem graça, talvez até mesmo em uma bronca – como faz Maria quando se despe diante de Bié, e ele diz que ela está ficando boa. Não podemos mostrar o feio por feio, mas tampouco podemos mostrar o bonito: nos dá vergonha sabermo-nos belos, e por não aceitarmos a eventual beleza evidente, limitamos nossa capacidade de perceber o belo invisível. A vergonha da beleza natural dos corpos nos limita. E chamamos de privacidade a nossa vergonha. E quem tem corpo, tem vergonha.

Mais adiante na história criada e filmada por Guarnieri, Tião e um amigo discutem uma divergência política em vozes baixas e corpos curvados sobre a pequena mesa de boteco. Aqui a privacidade é limitada pelo espaço público: um bar. E se antes a necessidade do espaço privado nascia da vergonha dos corpos, agora nasce do medo. Não apenas do medo de divergir, mas do medo de assumir mesmo uma opinião própria. Há sempre alguém à espreita, de um lado ou de outro, impondo um limite ao nosso pensar.

Para nos mantermos no universo de Black-Tie, Tião é contra uma greve. Não apenas contra a greve, mas pretende ativamente colaborar para que ela fracasse. Do outro lado, seu pai é membro do sindicato e um dos que estará a favor quando os braços se cruzarem. Tião tem medo de colaborar com os chefes e medo de contrariar o pai. Tião tem medo porque vai ter um filho, porque prometeu a si mesmo dar uma vida melhor para Maria e para o rebento, porque é mais jovem e, portanto, mais cínico que o pai. Tião tem medo, principalmente, da pobreza, dos barracos em que está destinado a viver, dos poucos cômodos compartilhados. Tião tem medo de passar a vida nesta quase total ausência da privacidade que cobre as nossas vergonhas e aplaca os nossos medos. E o medo pede a privacidade dos pensamentos, opiniões e decisões. Tião conversa em privado e decide em segredo. Nem mesmo seu pai, com quem divide o barraco, nem mesmo o seu irmão, com quem divide o cômodo, sabem de sua decisão. Nem mesmo Maria. Tião tem medo, e o medo pede segredo. E um segredo pede privacidade. O medo dos nossos segredos nos limita. E chamamos o medo de privacidade. E quem tem segredo, tem medo.

No filme, vemos cenas na fábrica onde trabalham quase todas as personagens. Chegam todos juntos no mesmo horário, trocam de roupa no vestiário coletivo, usam o mesmo macacão azul. Na hora do almoço, todos juntos na cafeteria da fábrica, todos comem a mesma comida nas coletivas mesas iguais, nos seus idênticos macacões azuis. A tomada de longe do ambiente dá uma impressão de presídio. Talvez fosse esta a intenção de Guarnieri.

Mas um presídio não marca só pela ausência de liberdade. Um presídio é também uma ausência de identidade. Vestimentas iguais, comidas iguais, espaços iguais. Não há possibilidade de escolha, e sem escolha não há identidade. Nos identificamos pelas nossas escolhas internas e externas. Nossas comidas, nossa forma de viver, nossas roupas, nossos gostos. Tudo é parte de uma identidade criada por pensamentos e escolhas privadas, ainda que inconscientes. Não preciso ser consciente de uma escolha ou das razões para tal escolha, para que ela exista, e para que ela me defina em uma identidade.

Quando de nós é retirada a escolha, abrimos mão da identidade que decidimos por nós mesmos na privacidade do nosso existir. Penso, logo, existo. Penso, logo, escolho. A ausência de escolha nos limita. E chamamos nossa identidade de privacidade. E quem pode escolher, pode ter identidade.

Já hoje distante do universo de Guarnieri nos anos 1970, nossa crise da privacidade é outra. Já não temos tanta vergonha, nem dos nossos corpos, nem da nossa nudez, nem dos nossos desejos. Já nos acostumamos às câmeras constantes: às vezes até reclamamos um pouco e fingimos alguma indignação, mas na verdade ninguém mais se importa em ser filmado ou fotografado todo o tempo. Na verdade, fazemos isso voluntariamente, e colocamos em redes sociais esperando ansiosamente que mais gente nos veja e mais gente coloque um coraçãozinho na nossa foto. Nossa vergonha, agora, parece de outra natureza: a vergonha de ter pouca gente invadindo a nossa privacidade. O pouco de nudez que Maria se incomoda de mostrar para o irmão é hoje moeda corrente no Instagram.

Também o medo dos nossos segredos foi sendo, pouco a pouco, manipulado e transformado em outro medo. O que nos resta de medo de ter nossas opiniões e pensamentos monitorados, vai sendo pouco a pouco diluído pelo medo do terrorismo, da violência e, agora, da doença. Já quase temos a sensação de que é preciso, necessário até, permitir que o estado e o meu vizinho monitorem os meus movimentos, as minhas opiniões e as minhas escolhas, para garantir, vejam vocês, a minha própria segurança e saúde. Fomos pouco a pouco aceitando pequenas erosões dos espaços físicos e psíquicos, porque parece que há sempre um mal maior a ser combatido. Que este mal maior eventualmente seja a privacidade em si parece nos escapar.

Não poucas vezes ouvi no próprio universo acadêmico que hoje me cerca, variações surpreendentes do bom e velho “quem não deve, não teme”, no que me parece um desvio do próprio conceito de privacidade. Estamos equalizando a privacidade com a necessidade de esconder algo que é necessariamente mau, errado, até mesmo ilegal. E que, portanto, somente alguém mal-intencionado ou criminoso teria necessidade de privacidade. E nesta simplificação infantil das nossas vidas, nos esquecemos que todos vivemos experiências que eventualmente são melhores quando vividas em privado, talvez até mesmo em segredo. Às vezes amamos em segredo, e desamamos também em segredo. Ficamos tristes e doentes, e às vezes a melhor maneira de lidar com isso é na privacidade dos nossos sentimentos. Há também, às vezes, momentos de infinita alegria e felicidade que, por serem tão especiais e delicados, só sobrevivem quando experimentados a sós, quando vividos intensamente por dentro, sem palavras, textos, fotos ou vídeos. Sem qualquer interferência externa neste espaço tão raro da plenitude da vida. Transformamos a nossa vida em um grande big brother voluntário e esquecemos que nós, humanos, somos mais, muito mais, do que este teatro de intimidade forçada que nos venderam como um “show de realidade”.

Porque agora, enquanto escrevo este texto, e enquanto estamos confinados em nossas casas, e os espaços públicos foram radicalmente diminuídos, nos damos conta de que este big brother não nos alimenta como indivíduos. Não importa quantas fotos e pensamentos compartilhemos nas redes sociais, ainda nos faltam abraços. Não importa quantas receitas novas inventemos na cozinha, nos faltam as escolhas diárias que nos definem. Construímos uma nova identidade em confinamento, uma privacidade ao mesmo tempo devastada pela doença, mas recriada pelo isolamento. Nunca estivemos tão próximos dos nossos pensamentos. Nunca estivemos tão conscientes da nossa identidade, ou da falta dela. Nunca a nossa superexposição virtual nos pareceu tão banal e sem sentido.

Confrontados com um mundo onde tudo parecia compartilhado o tempo inteiro, e onde a privacidade parecia uma palavra distante em algum regulamento esquisito, nos demos conta: ainda temos vergonha, ainda temos medo, e ainda temos, incrivelmente, identidade.

Cyntia Menezes é brasileira, advogada, eterna estudante, candidata a blogueirinha e cantora de quarentena. Atualmente mora em Barcelona e tenta inutilmente concluir um Doutorado em cibercriminalidade e Inteligência Artificial. Quando sair do confinamento, irá à praia.

Onde o verbo se faz carne

por Suzi Márcia Castelani

Pertenço a uma geração que sabe que perdeu.

Não há tempo suficiente em nossas vidas para o longo exercício de virada que possibilitará o retorno à civilidade.

Porém, trabalhamos com a linguagem e ela nos possibilita o registro do tempo atual que hoje reflete nosso absoluto contraponto ao discurso oficial.

O poder responsivo da linguagem é a única arma da qual dispomos e faremos uso dela como tantos outros o fizeram antes de nós. Para esta tarefa, a importância dos saberes que nos precederam é gradativa em escala ascendente e só poderemos dizer o nosso tempo lançando um olhar de genuíno interesse sobre quem já viu o mundo e o retratou em diferentes épocas e nas várias linguagens da subjetividade humana.

O teatro é uma dessas linguagens e seu poder de alcance pode ser medido pela violência com que o autoritarismo sempre o atacou. O dramaturgo tem o poder de propor realidades e os atores de encená-las. Uma nova época, um novo mundo, uma nova forma de convivência acontecendo no palco, aos olhos do público que acessa a ideia posta e, perigosamente, pode se perguntar:

E, se…?

O autoritarismo reconhece na arte mais que uma forma de saber. Intuitivamente, pois carece de estrutura para um pensamento formal, entende sua capacidade de mobilização e age da única maneira que conhece, reprimindo.

Todas as vezes que a repressão, o conservadorismo do atraso e o pensamento obscuro tomaram o poder, o teatro brasileiro se impôs em absolutas obras primas escritas por autores nacionais.

Foi assim em 1943 com Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues:

Eles Não Usam Black Tie em 1958 de Gianfrancesco Guarnieri:

O Rei da Vela escrito por Oswald de Andrade em 1933 e encenada em 1967 no teatro Oficina por José Celso Martinez Corrêa.

Três peças que promoveram mudanças importantes na linguagem teatral do país, colocou a gente brasileira no palco com suas mazelas, sua moral cotidiana e suas discutíveis relações de classe e trabalho.

A muitos autores, atores e diretores desta época, o fazer teatral com opinião e subjetividade custou o exílio e a consequente derrocada dos espaços da arte que ressurgiram nos anos 1980 com grupos de artistas de grande talento mas não mais dispostos a pagar tão alto preço por denunciar as dores do seu tempo.

Passamos então a falar de juventude, bom humor, interpretação despojada e criação coletiva. Jovens desconstruindo textos clássicos para falar de si mesmos numa bela e necessária maneira de existir naquele momento.

Já falamos de flores num recorte temporal que permitia. A proposta agora é absorver a realidade massacrante dos nossos dias e devolver, em linguagem, um mundo como gostaríamos que fosse. Fundado em saberes, confrontado por evidências e buscando uma direção que comporte a caminhada de todos, no mesmo passo. O momento da denúncia passou. Nossa geração precisa encontrar uma forma de registrar, para as gerações seguintes, que nem tudo neste momento é pulsão de morte, barbárie e afronta. Que alguém, ao se debruçar sobre nosso tempo, encontre, nas muitas expressões da nossa subjetividade, desejo de vida, de igualdade e de justiça que, enfim, sobreviva a todos nós.

Suzi Márcia Castelani é artesã de flores e de palavras.