Diário de um mundo que acabou: uma coisa patética demais demais para dizer por aí, tiaras, metáforas e zumbis

Mocinha dos anos 1980 que fui, usei tiaras. Gorduchas, de veludo, firmes e garradas nesse cabelo que não se apega a nada. Ontem descobri que elas voltaram. Minha amiga Patricia me mandou algumas – resultado de suas (maravilhosas) tentativas e experiências. Ela espera ampliar suas vendas de artesanato. Por mim, vai viver só disso. Sou agora a feliz proprietária de tiaras gorduchonas e coloridas, vindas direto dos anos 1980. É fútil e tolo, aos quase cinquenta anos acho que eu nem deveria usar tiaras, mas que se dane. O mundo chegando ao fim, vou para o céu com minha cabecinha adornada.

P.S.: Amo tiaras e cabelo preso porque eles evidenciam minhas orelhinhas semiabano, a única parte bonita e delicada em mim. Amo minhas orelhinhas dumbo.

*

O Amapá está sem água ou luz há quatro dias. Portanto, está quase impossível comprar comida, encher o tanque, manter conservada a comida que ainda se tem, olha, pesadelo nível apocalipse zumbi na vida real. O governo federal que não há, sendo a mesma massa acéfala e incompetente de sempre. Sempre.

*

Sente-se um desamparo tão grande quando se acorda no meio da madrugada. Não se tem o que fazer, voltar a dormir é uma impossibilidade, cedo demais para trabalhar, deprimente demais ficar vendo série e arrumando coisas. Não posso ligar para alguém, não às três da manhã. Bem, não para alguém com que eu queira falar, não para você. A comida – colo e conforto – está longe demais e, de qualquer maneira, tenho medo de andar pela casa escura (mesmo com as luzes acesas a casa é escura no meio da madrugada e eu tenho medo de andar por ela, tenho medo dos gatos, tenho medo do barulho da geladeira).

*

Eu me ofereço pra ajudar. Ele responde que sou linda. Quero responder que não, não sou linda, sou só uma velha gorda, grisalha, infeliz, muito solitária, terrivelmente apaixonada por ele. Também quero dizer que se ele pedir largo tudo, que se ele quiser mudo meu nome, meu cep, o nome do cãozinho, mas no fim respondo “O que é isso, imagina”.

*

Pessoas que não entendem e/ou não admitem o uso de metáforas. Vamos chamá-las de concretões idiotas e depois tacar fogo?

11 comentários em “Diário de um mundo que acabou: uma coisa patética demais demais para dizer por aí, tiaras, metáforas e zumbis”

  1. Eu amo tiaras, amo! Mas, não sei porque catzo não consigo mais usar. Nada que me prenda na cabeça! Dá uma dor horrível, enxaqueca de ver luzinha brilhando. Daí não posso mais usar. Triste ser uma cinquentona que não pode mais adornar a cabeleira.

    Acordar de madrugada é realmente angustiante. E tudo aquilo que a gente conseguiu sublimar durante o dia, juntam-se e aparecem para dar um alô.

  2. Alguém pensa coisa boa de madrugada? Credo, só penso em desgraça e sinto a falta de sentido da vida.
    Não que tenha algum sentido mesmo, mas durante o dia a gente se distrai. Bjo, Fal

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *