Diário de um mundo que acabou: 675 quilômetros

Lido com a dor imensa trazida pela percepção tardia da perda como lido com qualquer dor: dormindo. Há quem coma, lute, faça esportes, chore ou beba. Eu durmo. Dormi você o domingo todo. Aproveitei e dormi a perda do marido da amiga.

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Filme excelente, de tão ruim, passou pelo tempo/espaço e eu não vi; o vilão, de suástica no peito, é o Bobby Goren, o Toby é o advogado dele, aquele bonitinho segurança no velho seriado de cassinos é o mocinho e o onipresente Bruciulins é o mocinho-auxiliar. A única tristeza do filme é pensar que, se fosse feito hoje, talvez o Bobby Goren fosse o mocinho. Pessoal anda apegado à suástica.

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Amiga perdeu marido na mais dolorosa das épocas e, de longe, Marli e eu choramos abraçadas, porque é só isso mesmo que é possível.

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Continua o tempo agradável. Calor ainda, moro num país tropical, esquecido por Deus e horrendo por natureza – mas a temperatura se aproxima da civilização, pelo que agradeço.

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Entro dez vezes por dia na casa que desejo. Ando por cada cômodo por meio das fotos, sei dos detalhes, sei dos cantos do minúsculo jardim, planejo onde comprar lenha para o fogão, sei das redes que subirão os muros para os gatos, sonho com prateleiras e poltrona de escritório. No primeiro dia, com o google maps, aprendi a ir e vir da padaria e da sorveteria (minhas prioridades, como você sabe, são irretocáveis.) Não vou dizer que por uns dez segundos, não pensei que você caberia ali, seus livros, cafeteiras e biblioteca, mas parei imediatamente com isso. Me concentro nos meus livros, nas minhas cafeteiras e na minha biblioteca.

Colocarei 675 quilômetros em linha reta entre nós. Pode ser que, lá, eu esteja a salvo.

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Frango xadrez: não é meu lance, realmente.

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Água gelada: meu lance, totalmente.

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Acabou o bolo de chocolate. Vida longa ao bolo de chocolate.

8 comentários em “Diário de um mundo que acabou: 675 quilômetros”

  1. O quanto entendo de planejar os lugares das coisas, pesquisar por sofás, cadeiras e poltronas.
    Andar pelas ruas através do Google Mapas até saber de cor onde está cada loja de que gostarei.
    Saudade do que não aconteceu.

  2. Eu choro, de vez em quando. Vejo séries como CSI. E, quando era possível, procurava beijar na boca / Filme excelente de tão ruim, série uó, essa é minha vibe atual / Choro a perda dos queridos não como se fosse eles, mas com eles, com certeza/ Calor, calor, calor e sorvetes/ Eu faço viagens pelo google maps. A tal linha reta: 2430km/ Não sou muito de frango nem de xadrez, prefiro damas, mas como nessa combinação aí (não é dos favoritos, mas)/água gelada e bolo de chocolate não é muito a minha, mas tal como o frango aí, encaro.

    Amei o guarda-roupa da Berenice.

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