Diário de um mundo que acabou: um cão aflito

De dois dias para cá, o tempo melhorou. Dormir coberta por uma manta é uma delícia. O calor histérico das últimas semana me deu erupções no colo e pescoço. Eu parecia uma velha nelsonrodrigueana. Estou um pouco melhor.

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Lutando com um conto novo. Ele está e não está, é e não é, ele existe, mas nem tanto assim. Passei a tarde toda presa na rede e ele e as palavras dele e a sombra dele se enredaram por entre meus tornozelos, como um cão aflito.

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 Acho que nunca mais vou falar com você. Não de verdade. Não além do hahah, obrigada por mandar para mim o mesmo meme impessoal e cretino que você manda para a sua timeline inteira, obrigada, eu ainda não estava me sentido humilhada o suficiente. 

Ás vezes, quando inspiro o ar, ele vem para dentro de mim como aquela respiração sincopada que damos aos soluços, sabe, no meio do choro. É isso. Choro por aí sem lágrimas, como uma boa soldadinha. Minha mãe certa vez elogiou minha imensa capacidade de recuperação e eu acreditei nisso. 

Como outros homens minúsculos e covardes, você a jogou para cima de mim. Mas eu não os amei. Nunca esperei coisa alguma deles e, se não pudemos ser amigos, ai, dane-se. Você eu amei imensamente. Foi mais um soco na boca sem necessidade. Eu já estava tão frágil. 

Minha pele vai parando de doer com a água do banho, o lençol, a camiseta cinzenta que adoro.

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Demoro para acusar cada golpe que recebo. Demoro para sentir. Demoro para entender. O golpe deferido sobre mim por um grupo de pessoas, todo um grupo de pessoas que realmente julguei amigas, me atingiu só essa semana, acho que mais de um anos depois do fato. Meu luto por cada um começou ontem. Meu luto por mim mesma deve demorar, ainda, algum tempo.

A sua perda se tornou mais real com a perda de todas essas pessoas me alcançando. Primeiro porque você está ali. E você escolheu ficar ali. Depois porque meus erros de julgamento me dilaceram. Eu me sinto tão tola.

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Escrevi um montão de coisas amargas e tristes, mas apaguei posts e posts e posts. Porque sou uma boa pessoa? Não. Por que nada faz sentido ou adianta ou fará diferença? Sim.

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O cheiro do bolo de chocolate faz meus joelhos tremerem e, como acabo de dizer, perfuma a casa, acalma o coração. Não traz de volta quem nunca esteve, mas nada trará.

6 comentários em “Diário de um mundo que acabou: um cão aflito”

  1. Eu passei um tempo sem vir visitar/ler porque tava meio borocoxô e não queria comentar (ainda mais) triste, mas teve efeito contrário, fiquei ainda mais borocoxô por não vir ler/visitar. Cheguei. Já ansiosa pelo conto novo, claro. Eu não sou muito de bolo, ainda menos de chocolate, mas andei fazendo refogados, nesse mesmo espírito de acalmar o coração.

    Queria dizer mais coisas, mas digo isso: tô aqui, baby.

  2. Fal! Há anos que não falo com você, e agora acabo de ter a grata surpresa de descobrir que vc abriu uma editora! Uma amiga mandou um vídeo que ela recebeu via redes sociais, em que a Marília Gabriela faz uma leitura, com altos elogios, do livro “A Canção da Borboleta Ausente”, de Paulo Cândido. Antes de declamar o poema, ela cita o nome da Drops, o seu e o de sua sócia. Que legal ver os Drops da Fal transformados em uma usina de belezas! Boa sorte, querida!
    Um beijo,
    Jayme Serva (do extinto blog Dito Assim Parece à Toa)

  3. “De dois dias para cá o tempo melhorou.” Infelizmente, lendo até o fim, confirmo Catherine Russell: “Outside is sunny, but that is a real bad sign.” 😿 Abraço tao saudoso, querida!

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