Domingo Caderninho 11

Domingo Caderninho 11
De muitos pedacicos e colagens e histórias e fazeres e papelitos coloridos e embalagens de mequidônis se conta uma história como a nossa. Rótulos dos vinhos que não bebemos, histórias de infância que não compartilhamos, telefonemas interrompidos e pastilhas para dor de garganta. Sinto sua falta, mas a tristeza é tão maior. Hoje chorei no meio da rua, como não fez a mocinha da música do Vanzolini. Vim andando, chorando, alarmando os moradores pacatos deste bairro surreal. Decidi com quem me é mais cara e próxima que vamos trabalhar com colagens, uma forma bonitinha e bem-humorada de colar pedaços dolorosos, quase invisíveis de tão dolorosos, quase azuis de tão dolorosos, de tanto que queimam e trepidam e levitam e suspendem.

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Ainda é manhã de terça-feira, Batman.

Alguma coisa tem me incomodado profundamente. Nem estou falando do Brasil, porque o Brasil e eu desistimos um do outro faz tanto tempo. Num universo minúsculo, caseiro, pessoal e absolutamente limitado, tenho me sentido incomodada. Como se a gola da vida raspasse em meu pescoço. Meu blog. Meu blog tem me incomodado profundamente. As coisas que digo me incomodam. As escolhas que fiz. Que faço. Seu nome na boca de pessoas que eu nem gosto tanto assim? Me incomoda demais. Os horários. Os horários me incomodam. As mudanças. Alterações. A enorme quantidade de coisas em que devo me concentrar me incomoda muitíssimo. Não enxergar o essencial? Ah, incomoda sim. Velhos refrões, jargões e frases cretinas de propagandas dos anos 1990 me incomodam como se fossem moscas azuladas nojentas. Não me lembrar quando foi a última vez que nos vimos me incomoda demais. Quase certeza de que foi na casa dos amigos. Foi? Eu não me lembro. As coisas que não mudam me incomodam tanto quanto as que mudam. O momento da revelação. Amizades terceirizadas. O lacre da garrafa de leite. As garantias, a falta delas. Os vasinhos novos dos cactus. A inclusão dos outros na história. Os barquinhos. Palavras que não são minhas me deixam sem voz. Ando triste e cansada E sem voz. E incomodada.

Tanta gente gravou essa canção. Pra citar alguns, The meters, Johnny Cash, D. Brown, Keith Urban, Cassandra Wilson, W. Hutch, Kool &The Gang, Smokey Robinson and the Miracles Ray Charles, Andy Williams King Harvest e até o Ray Conniff, pelamor. Bom. O que o Conniff não gravou?

Mas minha versão preferida é essa, para todo o sempre. Com o Campbell.

and I need you more than want you

and I want you for all time

Isso é triste e lindo. E não tem solução.

Domingo Caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engraçadinho rolando na tevê, trabalhando.
Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores.
Bem mesmo.


#DropsdaFal_DomingoCaderninho

Um Coltrane da Flavia Penido, uma Maliu esotérica numa república morta

Achei um “menta-alecrim” bão de substituir o Bulgari de limão que não fabricam mais. Não que eu fosse ter grana prum Bulgari a essa altura da minha assustadora vida financeira, mas né.

Enfim, ganhei um vidro da minha educadíssima anfitriã e agradeci porque também sou algo educada, mas sem esperança em meu coração calejado pela dor e saudade de meu amado Bulgari Vert. Porém, contudo, todavia, eis que com garbo e elegância ranco a tampa e, voilà, é um cítrico muitíssimo digno. Eita Granado que não nos falha.

*

Aquele amigo que vai embora sem se despedir. Não somos (ou, pelo menos, eu não sou, malandragem) dignos da despedida, da atenção, do gesto, da delicadeza do “Meu bem, chegou a hora, adeus”.

“Já bebi, já comi, quiéquieu tou fazendo aqui?”, nos ensinava a declamar o nosso bárbaro pai ante o olhar horrorizado de nossa mãe, a grega.

Num determinado momento da noite, você olha em volta e quedê o amigo, o motivo – não raras vezes – de você estar ali naquela balbúrdia (olááááá, desgoverno brasileiro), cercada de gente que você gosta-mais-ou-menos (bem feito), de rímel, cinta, sutião MASP e, Deus que me perdoe, corretivo.

Sim, ele foi embora e inda te restam horas de socialização. Graçadeus que egípcios e mesopotâmicos e os caras espertos que vieram antes deles inventaram o álcool.

Me lembrei disso porque esse sábado tive a oportunidade de ver uma moça – que nao é minha amiga, só conhecida de olás – passar por isso. Dessa vez, eu era a balbúrdia, o povaréu, as gentes de quem ela não gosta, o pano de fundo que justificou que ela enfrentasse spandex, salto e sombra com glitter para se encontrar – com o coração aos pulos – com um lamentável e emasculado primata. Me vi de fora da cena e doeu para caráleo, torcida brasileira. Ele chegou, foi simpático com ela por bem uns douuuze segundos, se afastou, circulou por umas cinco rodinhas de parvos e zás, foi-se, desaparecido no éter. E eu, na encolha, covardemente testemunhei o e-x-a-t-o momento em que ela se deu conta de que ele tinha ido embora sem se despedir. Protagonizei a mesma patetice umas duas ou três vezes em bares d’outrora, quero acreditar que para nunca mais. Se ela reclamar com ele amanhã (cabe aqui um imenso “se”, além da nossa proverbial covardia, realmente cremos não ter esse direito), ele vai dizer que a. foi distração b. não queria incomodá-la, ela parecia tão feliz com os outros amigos c. ele teve uma semana infernal, blablablá, estilo “filha, você teve sorte de eu ter aparecido”.

Não confirmo e não nego que umas lagriminhas me assombraram quando vi a cena. Eu devia ter sido uma pessoa melhor, ido até ela e dito alguma coisa do tipo “Querida, é um covarde, parta para outra, ou, se você estiver na mesma situação que eu, para nenhuma”, mas já contei que sou uma covarde. Catei minha linda (linda, linda) bolsa, acenei pro meu amigo carona, um gesto sutil e doce e meigo e discreto que quer dizer mais ou menos “Vamos embora daqui, caralho” e, indo até ela, passei a mão em suas costas e disse: “Minha querida, preciso voltar para São Paulo, mas não podia ir sem me despedir” – porque posso não ser boa, mas não fui criada por lobos.

Identificação, sua danadinha.

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A Flavia Penido ensinou a fazer download do Coltrane e agora preciso urgentemente que Leandro&Leonardo arrume meu celular preu entupir minha Barbie Fada com o som do velho. Não quero mais ouvir tracousa.

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Alexandre adorava Djavan. Como é que pode, né gente? Um homem culto daqueles? Poeta maravilhoso, ouvido absoluto, cheio de delicadezas. E adorava Djavan, meu Deus do céu. De quando em vez, a Verô e eu paramos para nos lembrar disso, para nos abraçar e rir da cara dele. Djavan, puta que pariu.

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O frio voltou. Sequer tenho palavras para agradecer pelo momento. Estou usando duas meias em cada pé, calça de lã e camisa de lenhador. Camisa xadrez, em mulheres da minha feiura, costuma ser um atentado estético, mas no inverno, podemos. No inverno e na casa vazia, evidentemente.

Bebo chá mate morno com leite, vestida como uma mendiga e feliz como uma… o que é feliz, ainda, neste mundo horrendo? Bem, seja lá o que for, neste frio sou feliz como essa coisa feliz que desconheço.

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A república acabou. Minha mãe me perguntou quando cheguei se podemos chamar de ditadura ou se inda tem algum protocolo a ser seguido antes da liberação do termo. Ela enfrentou uma. Foi espancada e quase morreu.

Maliu reconhece cada sinal e tem cantado antecipadamente cada passo dessa gente escrota com semanas de antecedência. Chegada fosse a uma picaretagem, podia abrir um express do “Mãe Maliu: presente, passado e futuro” e ganhar uma grana com seus poderes premonitórios.

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A casa tem dado de dez a zero em mim e não é de hoje. Impraticável chamar gente aqui pura e simplesmente porque não dou conta. De gente, da casa, de mim. Aprender a desamar aos cinquenta, senhores, é coisa que não recomendo. Sofremos mais do que adolescentes e não temos ninguém para preparar nosso jantar.

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Tenho uma médica daquelas chegadas à sinceridade. Ela me aconselhou a fazer planos de oito meses no máximo. E eu adoro gente assim, que chega e “Pá!”. Ao menos quando dentro dum consultório.

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Curto a segunda temporada de Trapped com moderação que é para fazer durar. No intervalo vi Case, excelente e que, ora, tinha escapado do meu radar.

Querido diário Querida Dani

Querida minha: 20 de maio. O frio chegou, mas nem tão convicto. A alergia misteriosa vai e vem. Como o seu, meu corpo também está tentando se livrar de alguma coisa. Acho que é de mim. Continuo tristonha. Amiga tá meio estranha e eu, com a minha sensibilidade nula, não sei se ela está gentilmente me dizendo que nao quer mais ser minha miga. Odeio não entender sinais. Que bom que a discussão sobre Kafka foi boa, de verdade. Tou que nem você, sem paciência, sem coragem e, Deus por minha testemunha, sem condição nem de brigar. Sim, tou um cado mais ativa no grupo. Longe do ideal, mas é o que tenho dado conta. No tuinto também. Opa, pausa pra eu reclamar: todo dia o caminhão do reciclado passa tardão. Hoje que eu enrolei, ele tá passando nesse instante. Como meu joelho direito (que se chama Herodes) e eu não daremos conta de nos arrastar até o portão em tempo, reclamo aqui com você. Tá. Voltando. Pessoas, opiniões, gentes, você sabe. E apesar de ser um trator, eu não quero ser um trator. Quero ser uma pessoa doce e primaveril, quero sorrir, quero lançar gentilezas ao redor, quero ser querida. Mas como isso não passa de ilusão, refreio minha vontade de dar opinião sobre tudo. Menos no Drops, porque é para isso que ele existe e aqui, porque essa é a sua cruz, hahahaha. E sobre a endorfina: ela é uma danadinha 🙂 Falta muito para o Natal?