Uma palavra tão definitiva

Uma palavra tão definitiva
Perda.
É assim mesmo, né?
Definitiva.
Final.
Sem direito a qualquer recurso.
E está certo quem crê nisso.
A perda é sempre definitiva, ainda que pareça insignificante, ainda que um clips, um elástico de cabelo, um suspiro, uma ilusão petitica.

Perda. Perda.
Até o jeito que nós a dizemos é mortalmente sério.
Não admite discussão, não dá espaço para manobra.
Fala comigo: per-da.
Não há o que fazer.
Cabô.

Nas raras vezes em que o perdido é encontrado, volta mudado, volta outro, porque nós mudamos no processo de não mais tê-lo nas mãos, sob a vista, no lugar onde costumava ficar.
O clips foi encontrado, nós não somos os mesmos.
Cabô.

E passados os anos de pensamento mágico, conforme a realidade estilhaça nosso queixo vezes sem fim, aprendemos que:
Sim, toda perda é, a seu próprio modo, definitiva.
Não, não tem volta.
Sim, dói. Quase sempre, dói.
Não, nada ocupa o lugar do que foi perdido.
Quando muito, o novo cavuca um lugarzinho para si mesmo, um novo lugarzinho.

Aprendemos, também, que se pode perder de um tudo: reinos, rumo, cães felpudos, o amor da nossa vida, o cartão do banco, o RG (eu, três vezes), o novo amor da nossa vida, a hora, o papelzinho com o endereço, o medo, a coragem.

E, assustados, mais para perto do fim do que do começo, nós nos damos conta de que somos, ahá, perdíveis.
Nós.
Cada um de nós a seu tempo, ou todos no mesmo segundo (caso nos tome de assalto o apocalipse zumbi).

A perda, diz nossa tia-avó, com seu cabelo em variados tons de lilás, pince-nez na ponta do nariz e xale de tricô (a tia-avó de vocês, não sei, a minha tia-avó imaginária é assinzinha) nos levará a todos e nos perderemos uns dos outros.

Quando faço uma pausa no trabalho, eu me sento nos degraus da garagem tomando chá e fingindo que sei fumar meu mentolado.
Quase sempre é madrugada, quase sempre a rua está quieta e, olha, perda é a última coisa na qual quero pensar.
Fabrico uma velha tia-avó e seus ditados, sopro o chá, o cigarro se queima sozinho, choraminga a gatinha selvaginha, roncam o gatão pelancudo e a gatona tartaruga, saltita o gatinho maluquinho e penso no resto: as cidades pronde eu gostaria de ir, as tarefas de amanhã, se comprei limão, qual era mesmo o nome da música e, antes que eu me dê conta, penso em você.
Que está e não está. Essa perda tão profunda, tão definitiva, tão minha.
Minha tia-avó tem toda razão: nós nos perderemos uns dos outros de novo e novo e novo.

Domingo Caderninho 11

Domingo Caderninho 11
De muitos pedacicos e colagens e histórias e fazeres e papelitos coloridos e embalagens de mequidônis se conta uma história como a nossa. Rótulos dos vinhos que não bebemos, histórias de infância que não compartilhamos, telefonemas interrompidos e pastilhas para dor de garganta. Sinto sua falta, mas a tristeza é tão maior. Hoje chorei no meio da rua, como não fez a mocinha da música do Vanzolini. Vim andando, chorando, alarmando os moradores pacatos deste bairro surreal. Decidi com quem me é mais cara e próxima que vamos trabalhar com colagens, uma forma bonitinha e bem-humorada de colar pedaços dolorosos, quase invisíveis de tão dolorosos, quase azuis de tão dolorosos, de tanto que queimam e trepidam e levitam e suspendem.

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Ainda é manhã de terça-feira, Batman.

Alguma coisa tem me incomodado profundamente. Nem estou falando do Brasil, porque o Brasil e eu desistimos um do outro faz tanto tempo. Num universo minúsculo, caseiro, pessoal e absolutamente limitado, tenho me sentido incomodada. Como se a gola da vida raspasse em meu pescoço. Meu blog. Meu blog tem me incomodado profundamente. As coisas que digo me incomodam. As escolhas que fiz. Que faço. Seu nome na boca de pessoas que eu nem gosto tanto assim? Me incomoda demais. Os horários. Os horários me incomodam. As mudanças. Alterações. A enorme quantidade de coisas em que devo me concentrar me incomoda muitíssimo. Não enxergar o essencial? Ah, incomoda sim. Velhos refrões, jargões e frases cretinas de propagandas dos anos 1990 me incomodam como se fossem moscas azuladas nojentas. Não me lembrar quando foi a última vez que nos vimos me incomoda demais. Quase certeza de que foi na casa dos amigos. Foi? Eu não me lembro. As coisas que não mudam me incomodam tanto quanto as que mudam. O momento da revelação. Amizades terceirizadas. O lacre da garrafa de leite. As garantias, a falta delas. Os vasinhos novos dos cactus. A inclusão dos outros na história. Os barquinhos. Palavras que não são minhas me deixam sem voz. Ando triste e cansada E sem voz. E incomodada.

Tanta gente gravou essa canção. Pra citar alguns, The meters, Johnny Cash, D. Brown, Keith Urban, Cassandra Wilson, W. Hutch, Kool &The Gang, Smokey Robinson and the Miracles Ray Charles, Andy Williams King Harvest e até o Ray Conniff, pelamor. Bom. O que o Conniff não gravou?

Mas minha versão preferida é essa, para todo o sempre. Com o Campbell.

and I need you more than want you

and I want you for all time

Isso é triste e lindo. E não tem solução.

Domingo Caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engraçadinho rolando na tevê, trabalhando.
Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores.
Bem mesmo.


#DropsdaFal_DomingoCaderninho