Domingo-caderninho 1
Keaton, turquesa – o mais belo dos nomes do azul, Guernica, Kusama, o foco que não há, a loba, as muitas e muitas coisas que não me importam, aquarela, café, café, e mais café, sombrinhas, um lugar que reconheço, flores que se parecem com bucetas, uma escadaria, as passagens do metrô, estruturas de metal, Ipanema, Arpoador e Leblon (lugares cujo nome reconheço, mas não sei bem como chegar lá), os vários problemas em envelhecer, Barata Ribeiro. No título do projeto de que não tomo parte, as intenções são conjugadas no futuro do pretérito composto do indicativo.

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(em Apart-Hotel Do Conde Drácula)
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Ontem chorei até dormir. Não me orgulho, não me envergonho. Essa sou eu. Num país que fica menor e mais triste, mais sombrio e burro a cada instante que passa, acho mesmo que não podemos ter um João Gilberto. Você não precisa realmente concordar ou discordar. Esse é o meu registro, sugiro que você faça o seu. Prometo não ler. Chorei ontem até dormir, senti a morte dele como se sente a morte de alguém que fez parte da infância da gente. Alexandre imitava o João Gilberto cantando “Tim tim por tim tim” (lembra Ivanise Zel, querida?) e estaria devastado hoje. Talvez parte da minha tristeza, talvez parte da minha insistência com essa canção venham daí. Não sei. Esse é um registro, não uma análise. Chorei até dormir.

Drops em Revista

O lançamento da revista seria essa semana.
Mas dia 30, quinta feira, teremos as manifestações e a internet inteira só vai falar disso.
E queremos que a internet inteira só fale MESMO disso.
Aliás, nós também só iremos falar disso.
Então , fiquem com essa capa linda, que promete delícias de texto e costuma cumprir com o prometido e prepare a beberagem: domingo, dia 02, no café da manhã, TEM!

https://dropsdafal.com.br/drops-em-revista/

Tintureiro blues



W., quase tudo, sempre. Sherlock Holmes, livros de paleontologia de meu pai, você trabalhando em silêncio comigo no skype de microfone aberto, como se fosse na mesma sala, mas eu não tenho que pentear o cabelo. Ricota, salsinha, melão. Brigadeiro, jabuticaba, limão. Pilhas AAA, peça pro DVD, mil saquinhos de cravo. Chuva, não muita. Calor, muito. Dor no coração. Fones, lenços, um presente para o Tavo. Falta do que não existe, como escreveu a moça, aquela, sobre a eterna ausência que está lá. Célia, esmalte, um livro do Almeida Reis. Cigarros, brinquedos para o gatinho. Saudade de você. Doces no japonês. Caramelos. Recarregador do celular que some, que reaparece, que some, que some. Tradução de cenas que fariam corar um fiscal de saúde pública. Viúvas idosas e senis não deveriam sequer ler, que dirá traduzir tais coisas. Você cantou para mim no dia do meu aniversário e eu chorei em silêncio com a boca no telefone. Mouse vermelho quebrado, água tônica gelada, filme do Toranques dez mil vezes por dia. A promessa de um almoço dia 9, com abraços e suspiros. Tintureiro (quem me vê escrevendo procê, W., vai logo pensar que vivo em bailes, reparou que sempre te conto que tou, fui ou vou ao tintureiro?). Frases novas do velho Frost, porque sem ele não dá nem para começar, como me lembrou  V. Rugas nos cantos dos meus olhos, manchas senis, poros aberto, um inventário de fatalidades. Choro no travesseiro de quando em vez, de manhã finjo que não. Choro no ônibus, três dias atrás, uma senhora gorda (nós duas naquele banco era coisa de se ver), parecida com minha Dada, colocou a mão sobre a minha na Paulista e só tirou na Estação São Judas. Descemos, ela perguntou se eu ia direito para casa, e eu menti que sim. Ela fez um sinal da cruz na minha testa. Quando estranhos piedosos começam a encomendar sua alma numa calçada imunda da avenida Jabaquara é hora de deixar os negócios em ordem. Esperei que ela descesse a escada no metrô. Cirurgia na gata, banho no cachorro. Um tinteiro de cristal. Relógio. Falei da água tônica? Falei da dor no coração? Me dá pela milésima vez seu celular e me diz que posso ligar uma vez a cada morte de papa na hora do seu almoço (se é que vocês, os guerreiros da liberdade, almoçam).

*

Nunca liguei. Nunca. Quer dizer, liguei sem querer, meio tropeçando, descendo a escada de soquinhos, carregando celular, três canecas e o restinho da minha dignidade, batendo nos móveis, tropeçando nas flores do tapete, protagonizando cenas de humor físico que fariam o velho e bom pai Freud reescrever uns três ou quatro livros. Mas nunca liguei de propósito. Gosto de dizer que era “medo de incomodar”, mas ambos sabemos, era medo da inevitável rejeição.

Nunca liguei, mas escrevi para você. Por anos.

Teve um tempo em que eu escrevia para você, como se isso fosse uma coisa que alguém como eu pudesse fazer. Hoje, a consciência da minha falta de noção naquela época me faz encolher os dedos dos pés. Eu não enxergava o ridículo, mesmo, nunca me dei conta.

Eu tinha um apelido pra você naquele tempo, devidamente roubado pelo ladrão de biografias, um apelido que deixei de usar no mesmo instante em que notei o latrocínio. Agora você é W., um codinome de espião da Segunda Guerra, não parece? .


Mudei a trilha sonora do blog, mudei seu nome na lista do gerenciador (o único ato de rebeldia que posso bancar no momento), mudei a eterna cor do esmalte e o lugar da cama do cãozinho. Chegou a hora de produzir ficção, diria um velho treinador de textos que tive há muito tempo. No meu caso, chegou a hora de produzir uma ficção que não envolva você e as coisas que escrevi para você.