Quem melhor nos retratou na literatura do século XIX?

por Elaine Cuencas

Faço uma busca no Google e encontro o titulo Para traduzir o século XIX, Machado de Assis, de Eliane Fernanda Cunha Ferreira que, segundo a resenha, trata do Machado tradutor. Não falo nem de um, nem de outro. A pesquisa era só o fruto de um minuto de insegurança, por ter pensando em falar a respeito de Machado de Assis.

Gosto tanto dele, mas como não sou especialista em nada, tenho sempre esse fatídico minuto de insegurança intelectual que me joga, às vezes, nos livros que tenho por aqui, outras, confesso, nessa bendita muleta chamada Google.

O que me atraiu no título que provavelmente não lerei foi o tamanho da ideia. Quem lê os contos, as crônicas, os romances do nosso Machado tem essa impressão mesmo. Ele escreve a respeito de temas tão incríveis que traduzem o século XIX e os homens que agora já estão quase na metade do XXI.

Lembro sempre das reações que a leitura dos contos provoca em mim. Não é incomum acabar conversando com as personagens, me mordendo de raiva ou pensando nessa fatalidade que é o ser humano.

Lendo Causa secreta, senti o mal estar de quem sofre e sabe, sem admitir, que a causa do sofrimento é alguém que está mais próximo do que seria louvável que estivesse. Aquele homem que tem prazer em provocar dor em toda criatura viva é uma representação violenta do que somos.

Lendo Pai contra mãe, senti o mal estar de reconhecer que “nem todas as crianças vingam”. Retrato de uma relação social injusta que não muda nunca.

Lendo Teoria do medalhão, senti o mal estar de entender tim tim por tim tim como a sociedade vai incorporando seus janjões. Tema atual, não é?

Lendo Um homem célebre, me comovi com Pestana que tenta fugir da indústria cultural, sem conseguir.

Lendo Cantiga de Esponsais encontro o Machado poético, tão poético que até dói.

Lendo os romances, vejo nossa vida interior descoberta, nossa vida social escancarada, nossa sociedade esquadrinhada, todas as mazelas reveladas.

Não faço critica literária, não quero saber mais do que ninguém, falo como a leitora que descobriu, nos exemplares do Clube do Livro deixados pelo pai que abandonou a casa, uma maneira de identificar sentimento, lugar social, o país e seus homens poderosos.

Desde de a leitura daquele exemplar de capa mole, que ficava na gaveta nem sei porque, Machado de Assis é meu mestre, me ensina a pensar.

Machado de Assis, tradutor do século XIX, profeta do XXI. Companheiro de sempre.

Elaine Cuencas é professora e estudiosa da literatura brasileira.

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