Drops em Revista

E D I T O R I A L

Por onde chegamos a Minas Gerais

Minas – Matizes Dumont

Minas Gerais é um pedaço de chão. Minas Gerais é o começo de um país. Minas é uma pátria. Mais do que tudo, Minas é uma ideia, a ideia. A ideia de que há vida além do reino, da monocultura, da dominação. A ideia de que há vida subindo e descendo o morro e escavando o chão, procurando pedacinhos preciosos de metal, de ideais, de noções legais sobre o que forma uma nação, de trabalho, de mistura de água, de floresta, de literatura. Minas Gerais é o primeiro amor de todo mundo porque Minas Gerais é o nosso começo. Foi ali, longe do mar, longe de continentes outros, que aprendemos que poderíamos ser, que poderíamos fazer, que poderíamos criar. Em Minas temos céu demais, verde demais, problemas demais, possibilidades demais, letras demais. Faltam palavras para definir a vida, o que somos e o que desejamos, mas não em Minas. Em Minas, minam os desejos, as possibilidades de um léxico próprio, as chances de levar a cada um e a nós mesmos a tradução do que carregamos no peito. A tradução do que carregamos no peito. A tradução do que carregamos no peito.

As vozes se erguem, em Minas, mais altas. E melhores, e mais límpidas. O que Minas fez por nossa literatura, lugar nenhum jamais fará. Minas nos deu amores, muitos, o Drops em Revista espera ter tempo e fôlego para falar de cada um deles.

Começamos com os três que, para nós, falam mais de Minas e mais ao nosso coração: Adélia Prado, Guimarães Rosa e Fernando Sabino. Cada um a seu tempo e com sua peculiar forma de se expressar, são eles que primeiro nos trazem Minas, em cada curva da estrada, em cada córrego ou estrofe, em cada ideia inconfidente, por vales e montanhas e sim, a cada pôr do sol.

Você é muito bem-vindo, bem-vinda à nova edição do  Drops em Revista. Receba nosso melhor abraço.

As Editoras

O Rosa

por Patrícia Daltro

João Guimarães Rosa

Trago hoje um reconto. Em prosa meio corrida, é a saga de um menino, que os homens deram por nome João Guimarães Rosa. Veio de trasdosmontes, de terra Codisburgo. Homem amante das línguas. Da escrita e da falada. Sabia mais que dez. E mesmo assim, não contente, trazia dentro de si, a falta dessa palavra.

Boquiaberte-se não, seu moço. Que lá o que falo tem raiz funda. Se digo que seu Rosa era um homem a quem faltavam palavras, não é falastrice da minha parte.

A prosa do seu Rosa não se cabia no abecedário que a gente aprende na escola. Ela é viva. Se apequena e agiganta naquilo que queria ser dito. É bicho rastejante no terreno áspero do nosso falar, ao mesmo tempo verdeja e explode sanhuda no nosso ouvir.

Ela é maior que eu, que vosmecê, maior até do que ele. Faz parte da história contada, não como parte daquilo, mas como se aquilo fosse.

Quem diria que um menino iria crescer um tanto. Destamanho que não se cabe nem dentro desse mundo enorme. Começou guri curioso, virou moço bem letrado, foi doutor e diplomata. Diz que levou o sertão pro mundo.

Mas.

Engana quem acha que o Sertão tava dentro dele. O Sertão está em toda parte. Disse, e redisse tantas vezes. E na querência de explicar o sentir sentido das emoções que nos faz esse bicho esquisito e a amplitude dessas veredas, ia lá no barro vermelho e era um tal de molha, aperta, estica, molda e esculpe tudo que queria dito.

Perceba que não é taramelagem da minha parte. Se faltavam dizeres, seu Rosa as modelavam. O escrito era reescrito e desescrito, de modo que luzluzissem e clareassem sua prosa.

O homem e o sertão são um só, circuntristes dentro de sua amplitude. Quase qual o sertanejo que se acanoa e segue rio acima e rio abaixo. Presente e à margem de si mesmo. A prosa de seu Rosa transformava o falado em personagem.

Mas, me perco de mim mesmo. É um tanto de dizer que nada digo. Entenda.

O rio que corre em mim é o mesmo sangue que esbombardeia a obra de Guimarães. Tem lá qual sua nascente, sinesguia-se pelas beiras, ora minguado, ora transbordante. Num fluxo desarrazoado, e no entanto, perene.

Também sou personagem dentre as sagas que ele conta. E quando aqui me aboletei, pedindo um naco de carne e um tique de bebida, danei a falar um tanto. É que esse homem me assombra, tenho cá os meus motivos. Já disse sou cria dele. E mais nem posso falar. É segredo inconfessável. Fui sinônimo de amor. Puro, forte, intenso e aflito. Amor que é. Neblina. De novo me labirinto. Perdoa em mim a safirentice que volto ao ponto do nó.  

    Glossário –  Guimarães Rosa:

Circuntristeza – Como a própria palavra sugere, refere-se à “tristeza circundante”. Ficou para o final por ser o meu neologismo favorito.

Luzluzir –  fazer reluzir

Safirento –  agitado, excitado, assanhado. Safirentice – ato ou efeito de agitar-se.

Sanhudo – furioso, insaciável

Taramelagem – tagaralice, falatório

Glossário – Patricia:

Sinesguia – algo sinuoso e esguio (neologismo)

Glossário

Esbombardear –  ato ou efeito de bombear.

Patricia Daltro é artesã e escritora. Ela pode ser encontrada aqui: http://avidasemmanual.blogspot.com/

Sabino no espelho

por Tatiana Yazbeck

Fernando Sabino

Foi em um domingo à tarde, um domingo gripado, frio e enjoado, que recebi um honroso, porém difícil convite. Escrever sobre Fernando Sabino. Sabino e sua mineirice, Sabino e seus livros e contos. Sabino, o menino no espelho.


Imediatamente lembranças surgiram. Foi como um brainstorming involuntário. Eu, ainda adolescente, me deparei com O menino no espelho, na estante de casa, e comecei a ler.

Eu devia ter uns onze anos. Lembro que me senti tão adulta, por ler um livro com poucas gravuras – ou nenhuma, não lembro ao certo – e entender exatamente o que o autor queria dizer! Mais do isso, eu conseguia me emocionar! Houve uma identificação imediata com aquelas histórias.


Eu era criança de brincar no quintal, de viver com os joelhos ralados, de comer galinha ao molho pardo feito pela minha avó, com a galinha morta pelas mãos da mesma (com o perdão dos protetores de animais!). Um pouco da minha infância estava naquele livro e eu fiquei meio pasma com aquilo!

Lembro também que, em seguida, li O encontro marcado. Ou teria sido o contrário? Sei dizer, com certeza, que os dois exemplares ficaram com vários grifos a lápis, destacando as frases que me marcaram.


Infelizmente, em umas das mudanças, os livros de Fernando Sabino se perderam, juntos com os de Drummond. Mas bastou um pedido para escrever sobre ele, que toda a memória afetiva aflorou.


Quase que no mesmo momento, em que todas as lembranças vinham à tona, recordei-me de que Sabino havia sido um dos grandes incentivadores de meu tio, o jornalista Ivanir Yazbeck, no início de sua carreira, como escritor de livros infanto-juvenis.


Num pulo, toquei o telefone pro meu tio, que imediatamente se dispôs a falar e assim o fez, com carinho, empolgação e saudade, de suas lembranças com o mineiro Fernando.


Meu tio costumava encontrar Sabino em reuniões de amigos em comum. Conversavam amenidades, Sabino sempre simpático, feliz por conversar com um conterrâneo. Apesar de meu tio ser de Juiz de Fora e Sabino ter nascido em Belo Horizonte, cidades que possuem uma rixa histórica – Juiz de Fora é mais próxima do Rio e os belo-horizontinos costumam nos
chamar de mineiros da gema ou cariocas do brejo – mineiros, quando fora do estado, acabam sempre se aproximando, como se assim ficassem mais perto de casa.


Ambos também trabalharam no extinto Jornal do Brasil e Ivanir teve a oportunidade de diagramar crônicas que Sabino escrevia para o Caderno B do jornal.


Em um desses encontros, já com o primeiro livro lançado O enigma do pássaro de pedra, Ivanir se encheu de coragem e contou a Sabino que estava escrevendo um novo livro. Dessa vez um suspense. Sabino perguntou o nome e diante da resposta, pediu que Ivanir contasse em linhas gerais a história de A noite em que Jane Russel morreu.

e
“Com uma gentileza da qual jamais me esquecerei, ele ouviu meu relato, expressando aprovação, e me orientou a enviar o original à editora Record. Ele se encarregaria de recomendar à pessoa responsável pelo recebimento que o lesse com atenção.” Além disso, ao saber que Ivanir estava usando o nome Ivan para assinar seus livros, aprovou a escolha, segundo ele, pela sonoridade.
Ivanir seguiu as instruções do mestre e, uma semana depois, recebeu cópias de um contrato de publicação a ser preenchido e devolvido o mais rápido possível. Quatro meses depois, A noite em que Jane Russell morreu, era lançado, com as bênçãos de Fernando Sabino.


Fernando Sabino morreu em outubro de 2004, deixando um legado enorme para os que viveram no seu tempo e para os que ainda virão. Não se vive completamente sem ler uma de suas obras.

Não se pode viver sem saber de Sabino.

Tatiana Yazbeck é psicóloga e jornalista. Gosta de falar e escrever. E, apesar dos pesares, continua gostando muito de gente! 

Declaração

por Sandra Spíndola

Adélia Prado

Sou muitas. A que mais gosto de ser é Adélia.

Andar “feito cavalo velho, procurando grota”; enlanguescer quando Jonathan se aproxima; abrir e fechar janelas, oscilando entre doida e santa e ver todos os moços, sempre, sempre, “entre moitas de murici”.

Quando sou Adélia o mundo me surpreende mais.  Penso coisas fora do meu comum. Outro dia mesmo encontrei pessoas que gostam de andar de montanha russa. Ai, é tão bom, elas diziam. É voo. Dá frio no estômago, o coração dispara e salta pra boca. A respiração perde o ritmo. É o susto, o corpo descontrolado…

E eu, “requintada e esquisita como uma dama” lembro da arvorinha da Adélia. Aquela que parece estar conversando pois a insetaria nela, em festa, “Tem zoado de todo jeito: tem do grosso, do fino, de aprendiz e de mestre.” E então penso: Amo e odeio. Preciso lá de montanha russa… É Adélia sentida por mim.

Se eu me aprimoro sendo Adélia, fico faminta. Sabe o prazer que pensa ser a mim interditado? Pois vou com garras, presas e volúpia. Saboreio. Essa moça lá de Minas me faz sair falando feito quem reza: “Ave, ávido. Ave, fome incansável e boca enorme, come.” Sou bicho voraz. Não conheço parcimônia. Quero tudo e no exagero. Tal qual ela, almejo mesmo todos os riscos “sem o perigo da morte” e uma única garantia: a de que “à noite estaremos juntos, a camisa no portal.”

 Quando sou Adélia ainda sou outra: a Agradecida.

Se escrevesse um bilhete pra ela seria assim:

Obrigada, Adélia

Fiz aquela sua receita de cataplasma de amor macerado no pilão com “cinza e grão de roxo”. Deu certo. Compartilhei com todo mundo.

Olha. Queria te pedir uma coisa. Sabe quando você bate “o osso no prato pra chamar o cachorro”? Sou eu quem atende. Jogue os restos pra mim.

E guarde um segredo, por favor: aqui também tem uns moços que esgravatam “meu coração de cadela”.

Ando triste, Adélia. Lembro. Você afirmou: Jesus “Brasileiro não é.” Desconfio agora de algo mais sério: Ele também nos abandonou. Apelo pra Mãe e ao final de cada telejornal, contrita, rezo aquela jaculatória, quando em momento de muita precisão por amor desatinado, você me ensinou:  Ó Virgem, volte à minha alma a alegria, também eu estendo a mão a esta esmola.”

Sem mais, espevito as palavras bem e desejo:

Seja sempre Maio pra você levantar “voo rua acima”.

E, Adélia, resisto à despedida e desejo mais ainda:

Que você encontre “um caminho de areia margeado de boninas, onde só cabem a bicicleta e seu dono.”

Que volte a morar numa casa “constantemente amanhecendo”;

Que Jonathan por fim cresça, e você não precise mudar para “alguém mais ladino.”

Desculpe as mal traçadas linhas.

Te amo

Sandra Spindola é retuitera aplicada. No deboche pode ser Sandroca mesmo.

Pausa para o reclame do Drops

Chica que manda

por Pedro Elói Rech

Foto divulgação do filme Xica da Silva de Cacá Diegues

A cidade de Diamantina sempre povoou meu imaginário.

Nele, sempre aparecia o presidente JK e, muito mais, a lendária e poderosa Chica da Silva. JK evocava sorriso, gosto por música e vida boêmia, em noites de inocentes serestas. Já Chica da Silva incendiava a curiosidade em
torno de seus reais poderes. Inspirado pela Vesperata, um de se seus atrativos atuais, fui conhecer a cidade.


Diamantina foi a antiga Arraial do Tijuco e foi a descoberta dos diamantes que a fez Diamantina, a última ou a mais recente das inigualáveis cidades históricas de Minas Gerais.


Tudo lembra brilho. Situa-se na Serra dos Cristais e é ornada por uma bela cachoeira, a Cachoeira dos cristais. Isso era lá pelos idos de 1730, em meio a uma paisagem árida e rochosa, hostil ao povoamento.


“É só apanhar no chão os diamantes, como quem apanha jabuticabas”, nos conta o médico e historiador das Minas Gerais, Agripa Vasconcelos, a quem, mais adiante, dedicaremos mais algumas linhas.

Esta abundância transformou o antigo e pacato Arraial. O rigoroso controle
português logo chegaria à cidade, junto com muita gente, alucinada com tanta riqueza.


João Fernandes de Oliveira chegava à cidade em 1753. Ali permaneceu até 1770. Era o todo poderoso Poder Real português, na qualidade de Contratador de Diamantes.

Simplesmente tornou-se o homem mais rico do Império mas não o mais poderoso. Este era o “déspota esclarecido”, o Marquês de Pombal. O olhar de João Fernandes tornou-se vivo e faiscava ao ver uma determinada mulata. Não era uma mulata qualquer. Tratava-se de Francisca da Silva Oliveira, ou Chica da Silva, simplesmente.

Os piedosos sentimentos de continência sexual do católico português foram
para o espaço. Aliás, nunca foram tão rígidos assim. Aos poderosos a moral imposta ao povo, era mais leve. Assim já ocorrera com o pai de Chica, um português. A mãe era uma de suas escravas. Chica, assim herdara a condição de escrava.


João Fernandes resolve comprá-la. Oferece preço bem acima do valor. O proprietário não quer vendê-la. Nada era difícil de resolver para o poderoso senhor. Chica passou a ser sua.

Chica o enfeitiçou. Cada desejo seu passou a ser um imperativo para João. O que o teria enfeitiçado? Quanto à sexualidade, deixemos para a imaginação. Ela sempre é mais fértil que o real.

Agripa Vasconcelos lhe atribuiu outras qualidades, como a determinação, a coragem e a altivez. A sua adaptação à nova realidade foi rápida. A todos ela encantava, tanto pelo seu fascínio pessoal, quanto pelos seus ornamentos, como joias, perfumes e vestimentas. Não faltava prodigalidade ao João.


Dois de seus desejos ganharam fama: a construção de um barco, para atender seu desejo de navegar e o de levar os sinos da igreja do Carmo, nas vizinhanças de sua casa, para os fundos da igreja e não em sua frente, para não incomodar o seu sossego. Um lago e uma caravela foram construídos e nem o vigário se opôs aos sinos no fundo da igreja.


Mas Chica também era má. Seus ciúmes eram para lá de doentios. Uma criança teve seus pés levados às piranhas, pelo simples motivo de ela ter desconfianças de sua mãe, com relação ao João. A outra menina, ela simplesmente mandou enterrar com vida.

João se tornou o homem mais rico de todo o império português e era muito bem quisto. A abundância era tal que permitiu o afrouxar do fisco. Não pagar tantos tributos sempre foi algo muito desejado. Mas o poder de sua riqueza incomodou ao astuto Marquês de Pombal.

As ideias de autonomia e liberdade assombravam a Europa. Poderiam chegar também aqui. Eram os tempos do Esclarecimento. João poderia ser protagonista. Era melhor tê-lo em Portugal.


Isso já era em 1770, lembrando que ele chegara em 1753. Um bom tempo para terem muitos filhos, todos reconhecidos por João. Um fato raro na época.


O Marquês bancou o malvado. Desfez uma das histórias de amor mais fascinantes de todos os tempos. Chica da Silva ficou em Diamantina e João Fernandes de Oliveira voltou para junto das cortes portuguesas, para usufruir de toda a sua riqueza, menos a maior de todas, a sua grande
paixão.


Visitei a casa da Chica. Ela é mais simbólica do que um museu propriamente dito. Poucas coisas do seu acervo estão ali. Mas existe uma evocação aos sete pecados capitais e, para um deles, uma lembrança muito particular. Uma bela mulata nua, num quadro na parede, é dedicada ao preferidos dos pecados de muitos, e não apenas do João e da Chica. A agradabilíssima luxúria.


Fui também à Vesperata. Trata-se de uma atração bem simples que recomendo muito. São bandas de música, uma da Polícia Militar e outra de meninos e meninas dos projetos sociais que tocam seus instrumentos a partir das janelas dos sobrados. Na rua, mesas são postas para
os turistas. Uma surpresa maravilhosa está reservada a todos. Chica e João aparecem em uma das janelas e depois descem e cumprimentam o público. A beleza de Chica me encantou, mas o poderoso João estava ao seu lado.


Já o presidente JK, deixa para uma outa oportunidade.

Quanto ao título – Chica que manda – é uma referência ao belo romance biográfico, de Agripa Vasconcelos.

Pedro Elói Rech é administrador de tempo livre e do http://www.blogdopedroeloi.com.br

O deus de Adélia

por Suzi Márcia Castelani

Bordado Matizes Dumont

O universo da poesia de Adélia Prado é de grandeza litúrgica e brota muito perto de onde ela está.

O apego a ritos e formas e o espanto genuíno diante do que é comezinho e banal dizem da poesia da Adélia cotidiana. Eu Prefiro confessional.

Não se furta à autoria nem nega a fome do corpo e da alma.

Aceita a fé como constitutiva de sua humanidade. Um elo secreto entre a poeta e uma fonte de beleza sagrada e exclusiva que ela nos traduz em poesia.

Eu faço poesia religiosa pois essa sou eu.

A poesia religiosa de Adélia nos dá vontade de pecar.

Diante da morte, o inimigo derradeiro, o último mistério, o total desespero, o Deus de Adélia a resgata para um mundo perfeito.  A vida eterna.

Adélia lê os Salmos e diz poesia.

Eu leio Adélia e também digo poesia.

Por toda a eternidade.

Suzi Márcia Castelani é artesã, editora e dona do seu quintal.

Alegrias, epifanias e alumbramentos

por Vera Guimarães

Bordado Matizes Dumont

Eu devia ter uns 4 anos. Morávamos num bairro afastado do centro da cidade ainda meio urbana, meio rural da década 1940. Nas idas ao comércio atravessávamos um largo, uma protopraça, um gramado quadrado, arborizado, sombreado pelas paineiras, ou barrigudas. Em certa época do ano, caíam suas flores, salpicando de rosa a verde grama. O dia em que peguei uma dessas flores, examinei de perto sua textura, senti seu cheiro, apreendi aquele rosa…ah, foi minha primeira consciência da beleza!

Nas férias de julho nós, os pequenos, éramos levados para alguns dias nas fazendas dos tios. Numa delas havia profusão de revistas, Seleções do Reader’s Digest, Cinelândia, Revista do Rádio, que eu levava para uma varanda lateral… Sinto até agora o calor do sol da manhã, a paz da solidão no enorme banco de madeira lavada, ouço os ruídos de grilos e cigarras, vejo ao longe a mata virgem evocando mistérios e perigos.

Na adolescência descobri a Praça de Esportes e ali construí um mundo de sonhos, desejos, atividades, amigos, flertes, vi atletas talentosos, quis entrar na roda. Entrei para o vôlei juvenil. Nunca fui uma boa jogadora. Um dia, num treino, consegui a impulsão necessária, subi, o cálculo mental de distância entre mão e bola estava certo, fiz o giro na hora certa e… foi perfeito. Foi a única vez.

Na hora-dançante, o inacreditável moço bonito e interessante me dando atenção e a ilusão de que eu pertencia àquele lugar, nós rindo e nos divertindo ao som de Jean-Paques et Sa Musique Douce.

Adulta já, fui a serviço a uma pequena cidade do interior de Minas. À noite, os anfitriões me convidaram para visitar uma das poucas atrações da cidade, uns telescópios instalados nos altos de uma casa. O encarregado me instalou na cadeira, focalizou um ponto e me passou o aparelho. Diante de meus olhos, na imensidão negra, me provocando arrepio “do cóccix até o pescoço”, Saturno em sua majestade.

Vera Guimarães é nascida em 1942 e até hoje perplexa. Como na foto aos 2 anos.

O Drops informa que na vitrola do Rádio Drops, nesse momento, toca Rua Ramalhete – de Ney Azambuja e Tavito.

Pra você que acessa pelo celular e não consegue clicar no Rádio Drops ali na lateral direita vamos deixar o link aqui porque acreditamos que você vai amar ouvir!

Voltamos agora à programação normal.

Quanto Vale Minas?

por Suzi Márcia Castelani

Bordado Matizes Dumont

As montanhas de Minas guardam riquezas imemoriais

A mineração faz parte de sua história desde que aventureiros se embrenhavam em trilhas portando bateias e carumbés. Mas mesmo estes não mineravam para o seu bem viver, tão somente. O Estado já lá estava a controlar o garimpo e exigir seu quinhão.

Os minérios retirados das montanhas fizeram a fortuna de muitos e a desgraça de muitos milhares. O propósito de retirar a riqueza do chão custa um preço. Esse custo já foi pago em servidão, sangue e derrama. Quando o mundo se comunicava por mar, o ouro saqueado de Minas abarrotou naus em caravanas cujo destino cumpria sonhos de glória e conquistas europeias.

Em 1942, Getúlio Vargas criou em Minas a estatal Companhia Vale do Rio Doce a partir de uma mineradora, já existente e que, tal qual o poeta, nascera em Itabira. As décadas seguintes foram dedicadas à modernização e conquista de mercados.

Em 1997, a empresa foi privatizada e a partir daí adquiriu e se associou a muitas outras empresas, tornando gigante o negócio. Nessa época, também, tirou o Rio Doce do nome, passando a se chamar apenas Vale.

Os números da Vale são impressionantes. Termos como diversificação e ampliação do escopo de trabalho, capacidade operacional e mentorias de empreendimento convivem com operações em destinos tão distantes como China e Omã.

Mas a origem de sua riqueza continua sendo a mesma dos tempos do Brasil colônia. A sua faina ainda se resume a retirar do solo o minério que será vendido como matéria-prima para que outros mercados o transformem.

Mas para que seja economicamente viável foi preciso ampliar a escala. Os rejeitos da mineração em gigantesca escala são acomodados em forma de barragens onde o nível da segurança é medido na proporção do lucro.

A interdependência econômica gerada pelas parcerias locais perpetua a perversidade do sistema.

Para a Vale, a riqueza está no subsolo. Tudo que há por cima dele, se destruído, pode ter seus efeitos mitigados em acordos, longas demandas e multas jamais pagas.

Minas está onde sempre esteve. Mariana e Brumadinho também. A lama que destruiu casas, rios, centenas de vidas e viveres também faz parte do seu chão.

A riqueza do subsolo é finita. Um dia deixará de ser um bom negócio. Quando isso acontecer, o que terá restado de Minas para além de sua paisagem? Mais que isso, quem pagará o preço do que então não haverá? E quem honrará os que se foram sem receber?

Suzi Márcia Castelani é artesã, editora e dona do seu quintal.

Aniversariantes de Junho

Paul Thomas Mann foi um escritor, romancista, ensaísta, contista e crítico social do império alemão. Tendo recebido o Nobel de Literatura de 1929, é considerado um dos maiores romancistas do século XX.
Nasceu em 6 de junho de 1875.
Teve mãe brasileira, Júlia da Silva Bruhns, foi fã de Wagner, flertou com homens, casou-se com uma mulher, defendeu a homossexualidade e caracterizou como personagens alguns de seus afetos.
Lá em Minas dele seria dito:”é bão pra daná!

Joaquim Maria Machado de Assis foi um escritor brasileiro, considerado por muitos críticos, estudiosos, escritores e leitores um dos maiores senão o maior nome da literatura do Brasil.
Nasceu em 21 de junho de 1839.
Neto de escravos, tradutor de Edgar Allan Poe, marido de Carolina, fundador da Academia Brasileira de Letras, dele um mineiro disse, em versos:
“…onde o diabo joga dama com o destino,
estás sempre aí, bruxo alusivo e zombeteiro,
que resolves em mim tantos enigmas
.”
Carlos Drummond de Andrade – A um bruxo, com amor.

Expediente:
Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Suzi Márcia Castelani
Colunistas: Patrícia Daltro, Tatiana Yazbeck, Sandra Spíndola, Vera Guimarães, Pedro Elói Rech e Suzi Márcia Castelani

Foto: Acervo Vera Guimarães

Ilustração da Capa e da revista: Bordados de Matizes Dumont http://www.matizesdumont.com.br

Ilustrações ao pé da página – Poty Lazzarotto para o universo de João Guimarães Rosa

Você acabou de ler a mais recente edição do Drops em Revista. O arquivo das edições anteriores está aqui:
https://dropsemrevista.home.blog/

65 comentários em “Drops em Revista”

  1. Parabéns meninas! O Drops em Revista ficou espetacular!
    Sensação de: “como assim já acabou?” Mesmo sabendo que podemos ir à todos os links.
    Encontrar esse povo tão bom num lugar onde já tenho caneca de café favorita e abro A geladeira sem parcimônia: seu força no meu dia.
    Obrigada, à todos vcs!

    Curtido por 2 pessoas

  2. Que bom! Que bom! Que bom que a vida inteligente se encontra, germina, cria raízes e brota em uma revista maravilhosa como essa. Tão necessária nesses tempos esquisitos, onde a ignorância e a insensatez prolifera. Que venham números infinitos!

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  3. Sempre foi meu melhor conselho… ocupem os espaços! Falei assim, uma centena de vezes para minhas melhores alunas. Não deixem o espaço da sala de aula vazio… os mediocres estão atentos! Obrigada pelos textos! Obrigada por ocupar meu tempo com eles!

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  4. Consegui! Acessei a revista!! Parabéns! Também gostaria de participar. Como? Fal, acabei de ler seu livro Minúsculos Assassinatos e Copos de Leite. Vc é uma escritora e tanto: originalidade, sensibilidade, auto-ironia. Depois comento. Já o Sonhei que a neve fervia vai indo aos poucos. Tão triste. Mas com amigos tão amorosos. Vcs me dão alento pra ter esperança neste pais.

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  5. Uma espera que sempre vale a espera. Reencontrar Utamaro, que me fez, aos 16 anos, pesquisar tímida e envergonhada sobre hedonismo na biblioteca da UnB é quase um bilhete dizendo: vai.

    Eu roubaria todos os cartazes de Lautrec das árvores, talvez bêbada dos Moulin Rouge do Lucas. E seria aluna devotada da catequese do Zéfiro, adorando o deus descoberto por Drummond.

    Obrigada a todos os envolvidos por me multiplicarem.

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  6. Drops de cultura, que delícia. Adorei.
    Sandra Spíndola, quanta intensidade em suas linhas.
    Mariana e Brumadinho sempre nos entristecem mas é preciso falar a respeito. Não esqueceremos.

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