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Diário de um mundo que acabou: Guitarra, ossos, gargalhadas e louça combinando

Falo com a Cyntia ouvindo, lá no fundo, o Carlos tocar guitarra.

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Carlos nos deu a felicidade de algumas sessões ao vivo ao longo da pandemia. E ela canta e tudo neste mundo parece bem.

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Às vezes, no meio da conversa com o Renato, o Gi vem dar um oi e eu choro um pouquinho. Às vezes ouço o Gi gargalhando lá da sala enquanto lutamos com pronomes e, na hora de contar o que teve de bom no dia para minha mãe, é da risada do Gi que falo.

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Às vezes a Carol para o que estamos fazendo para me contar de pessoas que viveram há milênios, de peixes que estão em algum lugar, de flores que não existem mais e que, no entanto, espalharam outras flores por aí. Às vezes, a Carol me fala do que nunca pôde ser, do que foi e continua, do que inexiste e, mesmo assim, renasce nas páginas que ela produz.

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Às vezes penso em você. E admiro sua resolução em me manter o mais afastada que conseguir, seja me ignorando totalmente, seja me permitindo – de forma muito cruel, mas extremamente eficiente – pequenos e breves vislumbres do universo que não habito, das coisas que não faço, das aventuras que jamais dividiremos. Você é bom nisso, cada história, cada causo, cada comentário são afogamentos no seco. Guantánamo está contratando.

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Tenho cozinhado como se minha vida tivesse realmente mudado durante essa quarentena (fora o medo de que minha mãe morra, estamos na mesma). Tenho feito coisas lindas, com e sem molho, com e com vinho, com cremes deliciosos, queijos que transbordam, tomatinhos picados, pimentões de cores brilhantes. Depois me sento com o guardanapo no colo, como se comer de garfo e faca numa mesa arrumada, organizasse a vida. Talvez. Eu não sei.

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Meio viciada em giz de cera, nas cores granuladas, em como segurá-los para que o papel me obedeça.

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Arrumei o quintal, pendurei plantas, empilhei livros, fiz uma passarela pro Chico ir lá pro alto (a bebezinha também vai, ela adora um arzinho).  Ganhamos um freezer, adoramos, temos cadeiras e mesa e ficamos lá, duas senhoras muito gagás, tomando café em xícaras bonitas, sentindo o vento, brincando de casinha. Os vizinhos devem rir de nós, mas né, e daí.

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O Julio publica fotos da casa e das gatas e do mato e dos passeios e do céu, da forma como gosto de pensar que faria se pudesse fazer, se tivesse como, se tivesse feito as escolhas certas.

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Desenho muitíssimo agora que entendi que desenho para mim e que só eu mesma tenho de gostar (ou não) do que faço.

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Escuto Arturo Cardelús desesperadamente, porque cada acorde me faz lembrar de você. Ele me faz sofrer no meio da música e demora séculos para me dar qualquer alívio. Escuto Carfelús como se minha vida dependesse disso.

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Sigo entorpecida pela tristeza de me deparar com a ignorância orgulhosa, combativa, a ignorância que bate no peito e grita do alto do prédio mais alto “eu não quero mesmo saber, fodam-se os fatos”. Meu coração morre um pouquinho a cada vez, escolho não ler, não saber e, sinceramente, não testemunhar.

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Quando nada mais pode indicar a direção, a Andréa me encontra e me diz o que é preciso. Eu penso, ela aparece, é como uma mágica pequeninha para alguém que não acredita em mágica e que, portanto, nem mereceria essa gentileza.

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Estou a um passo de fazer uma fontinha pros meus gatos no quintal, mas a bendita borrachinha do compressor está no meio do meu caminho. Haveremos de resolver isso essa semana.

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Se bem que essa semana, inconformado com minha queda para transformar a vida no ferro-velho do seu João, um amigo rico mandou uma fontinha toda ela de plástico branco e laranja pros felinos que, claro, então loucos com a água-que-se-mexe-sozinha. Eles também ganharam duas casinhas de fazer xixi. As casinhas têm portinhas de vai-e-vem e isso irrita meus pobres gatos caipiras. Eles ainda não entenderam bem como a banda toca.

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Lendo e assistindo o que há de melhor no universo que me é permitido alcançar. Bebendo coisas boas também, por que o que mais há além?

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A Renata me manda fotos de canecas cheias de chá ou café, coisa que alegra demais meu coração. O café, as canecas, a Renata.

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Unhas roídas até que a carne se torne sangue, dedos que latejam, coração que dói, colo que coça coberto de placas de alergia, the same old same old. Você já viu esse filme e se mantém misericordiosamente afastado.

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