A maravilhosa safadeza de Carlos Zéfiro

por Suzi Márcia Castelani

“Carlos Zéfiro tinha uma safadeza tipicamente carioca. Se Nelson Rodrigues conduzia o público até a porta da alcova, era Zéfiro quem deixava a porta escancarada” — define o jornalista baiano Gonçalo Junior.

 [NILDA] . In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

Dos anos 1950 aos 1990, quem era Carlos Zéfiro foi uma pergunta sem resposta.

Em 1991, o jornalista Juca Kfouri anunciou nas páginas da revista “Playboy” da qual era o editor, que Zéfiro era, na verdade, o funcionário público aposentado Alcides Aguiar Caminha, que vivia anônimo, cercado de filhos e netos, no bairro carioca de Anchieta.

Mas nas décadas 1950 a 1970 com o pseudônimo de Carlos Zéfiro ele foi muito popular na literatura erótica brasileira com suas revistas chamadas de “catecismo”.

Com títulos sensacionais como O Médico da Roça e muitas com nomes de mulheres como Nilda Odaléa as revistinhas eram produzidas à noite, enquanto sua mulher dormia, desenhadas a pincel bico de pena e  impressas em preto e branco, sendo importante ajuda no orçamento de Alcides, que morria de medo de ser descoberto e exonerado do cargo público que ocupava no setor de imigração do Ministério do Trabalho.

Esse medo fez com que ele não guardasse nenhum original. Num período de muito pouca liberdade sexual, as revistinhas eram em formato que permitiam caber no bolso e comercializadas em bancas onde o jornaleiro as vendia de forma dissimulada, dentro de outra publicação.

[O Beijo]. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras. São Paulo: Itaú Cultural, 2019.

Após a revelação da sua identidade em 1991, ele viveu apenas mais nove meses. Nesse curto período recebeu reconhecimento em forma de entrevistas para jornais e televisão, foi homenageado numa Bienal de Quadrinhos e em 1992 recebeu o Troféu HQ Mix.

Embora autodidata e tendo desenvolvido sua arte da forma como quase todos começam, ou seja, copiando seus ídolos, o traço de Carlos Zéfiro é inconfundível. Imperfeito, forte, direto ao ponto. É a fantasia de alguém com pouca escolaridade e sensibilidade de sobra na forma de desenho.

Mas sua obra não se limita às artes gráficas. Alcides compôs três sambas, em parceria com Nelson Cavaquinho: A flor e o espinho, Capital do samba e Notícia e tenho certeza que você conhece esses versos:

Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu so errei quando juntei minh’alma a sua
O sol não pode viver perto da lua

A flor e o espinho está tocando ali ao lado no Rádio Drops e alguns estudos de sua obra estão na Prateleira da Fal, também ali ao lado pra quem quer saber mais sobre o artista.

É uma obra notável de um artista que manteve sua arte no anonimato por quase uma vida. Uma arte que falava de sexo, de desejo, de encontros. Algo tão profundamente humano que sobreviveu ao anonimato e pode se reencontrar com seu autor, ainda em vida, por falar exatamente disso: vida.

Suzi Márcia Castelani é artesã, editora e mediadora do impossível. Não necessariamente nessa ordem.

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