Uma casa em Paris, uma declaração fundamental, o armário do banheiro alheio, Matisse, suco de maracujá

Vou escrever, de agora em diante e, para sempre, como se você me lesse. Antes, como se me enxergasse. Antes, ainda, como se você se importasse. Eu me dei conta de que não escrevia aqui porque aqui você não vem e escrevia lá porque lá você vai. Raramente, mas vai, e eu, tola, tola, queria que você me visse. Espero um dia, parar de falar a seu respeito. Por enquanto, não posso. É como se, ao parar de falar de você, eu deixasse de ser quem sou. Vou escrever aqui, e não lá, como se, para além do Claudio e a Nepomuceno, você viesse aqui. Vou manter isso aqui como se fizesse sentido escrever. Para você.

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Dos meus muitos voyeurismos, espiar a casa dos outros é das cousas que mais amo. A casa alheia e seus cantinhos, toalhas, boxes, pias, armário, nichos e escadas. Onde ficam suas canecas bonitas? A cafeteira de D. mora na estante de livros na sala. A Bea serve a comida da gata na varanda. A Nepomuceno tem paredes coloridas. Meus livros de moda agora ficam na sala. Como cada um arruma seus pertences, como cada um espera o fim, seja ele a o envelhecimento sem dignidade, o apocalipse zumbi ou a morte do amor. Como arrumam seus armários da cozinha, como esperam que seus dentes caiam.

Quem são as pessoas, criaturas estranhas, e suas casas, espaços cheios de milagres e encantamento.

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O calor voltou, não tive nem dois meses de pausa. Roí todas as minhas unhas, cantei em voz alta, sorri para o espelho do banheiro e para as minhas minhas rugas (gosto delas) e para a minha papada (odeio ela) e vi coisas que jamais acontecerão e coisas que acontecem todos os dias.

2 comentários em “Uma casa em Paris, uma declaração fundamental, o armário do banheiro alheio, Matisse, suco de maracujá”

  1. Eu não sou muito de reclamar da temperatura, calor ou frio, porque não sou muito de reparar nela. Mas, né, até eu tenho limite. Aqui fez um calor essa semana que me fez chorar. Sem brisa. Senti falta da ignorância, sabe? Vejo as pessoas falando em primavera (coerentemente) mas outubro, pra mim, será sempre outono, castanhas assadas, folhas vermelhas, vinhos mais encorpados. Aqui eu só tinha a estação praia, só aprendi os demais ritmos com sotaque luso e, suspeito, será sempre assim que lembrarei. eu nunca falo em voz alta e raramente canto, mas também gosto das minhas rugas – e das suas. Gostaria de reparar mais nos detalhes das casas e ruas e vidas das pessoas. Pretendo melhorar. Por enquanto, apenas sinto ~o clima~. O que lembro das casas é se me senti bem, se tiraria o sapato, se é formal, chique, risonha, saborosa, abraçante e outros adjetivos que nem existem num dicionário sério, muito menos relacionados a casas. Disse o Caio: “queria tanto que alguém me amasse pelo que escrevi”. Por muito tempo foi uma espécie de farol meio inconsciente, presente sempre que eu começava a digitar. Um alguém é qualquer um e, eventualmente, até mesmo uma ausência. Tinha e não tinha um leitor ideal(izado) #Schrödingerfeelings. Mas a maré enche e seca e deixa coisas na areia além de conchas ocas. Alguém agora tem endereço, barba e tristeza no olhar. Tem sotaque e blusas de botão. Boletos. Tem até rima e rival. E eu, modesta, um pouco tímida, nem fico querendo ser amada pelo que escrevi, eu fico cantarolando como uma atrasada Mutante “eu só quero que ele me queira” pelo que escrevi ou por qualquer outro motivo trivial, sei lá, porque meus dedos médios tem uma curvinha charmosa.

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