Então nós também não nos incomodamos

É possível que um dia eu ligue aí no seu telefone cantando baixinho eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema. Você, do seu lado da linha fique firme, nem pisque.

O seu nome, não sei, babe, mas seu maldito número? Não consigo esquecer.

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Loja de unicórnios é uma daquelas bobagens que você sabe muito bem como vai terminar. Você sabe, sim. O filme é cheio de clichês, first world problems, o mundo é injusto e não entende a minha arte e tal e tal. E apesar disso você assiste, ama, bate palmas porque acredita em fadas, torce pro Samuel L. Jackson mandar uma cartinha lá no emprego que você odeia e também torce pro Josh, do The west wing, ser seu amigo de canoagem (amigo, né, genza, que ele não poderia ser o pai de yours truly).

O filme é uma droga, o filme é lindo.

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– Mã, vou logo avisando que essa nova arrumação dos livros, os Eco vão todos juntos: crítica, ensaio, memórias e ficção.

– Você acha que o velho ia se importar?

– Claro que não.

– Então nós também não nos incomodamos.

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Limpar geladeira, essa arte perdida. Como é que uma pessoa que faz faxina há décadas pode ainda ser tão ruim nisso? Quero dizer, achei que a prática trouxesse, esqueça a perfeição, mas uma desenvoltura razoável na atividade. Mas não. Continuo péssima como no primeiro dia. Tropeço no balde, perco a garrafinha de Veja, espirro lustra-móveis no olho, bato com a cabeça na vassoura e caio no mesmo ponto do quintal, batendo o mesmo ponto da coluna na mesma quina do mesmo degrau. Sou meu próprio Buster Keaton, se ele fosse um imbecil.

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E digo mais: se houver um campeonato de manchar a blusa de cândida, me inscrevam, apostem na minha pessoa e vejam o dinheiro de vocês se multiplicando. É impressionante. Se houver uma gotícula de cândida flutuando no universo, ela vai achar a camisa minha.

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Em compensação a minha torta de cebola e queijo é de chorar de tão maravilhosa. Fiz duas, só porque sim.