Cecilia e Davi, Nelsão Blues, risoto de brie com pera e uma pista de dança. Diário de um mundo que acabou.

O que é relevante. O que não é relevante. O que importa para mim, o que importa para você.

Estamos beirando os cem mil mortos e, ao mesmo tempo, seguem nossas vidas. Comprei tapetes para a cozinha. Mandei operar de urgência uma gata. Um gasto e um susto que não estavam nos planos. Me apaixonei pelas ervilhinhas que a Suzi colheu no quintal. Esperei um telefonema que não veio. Me afligi com alunos e datas. Recomecei a ver um seriado boboca que adoro.

Cem mil mortos. Ontem, fiz o melhor risoto do mundo e bebi vinho pensando em quem, definitivamente, não deveria ocupar meus pensamentos.

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The umbrella academy. Sim, meu seriado boboca. Vi a primeira temporada mas, com a graça dos céus, não me lembro de patavina. De modos que estou revendo a primeira temporada para, depois, começar a segundona, que tá aí, nova em folha.

Adoro, adoro.

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O presidente é um desclassificado. Só isso mesmo.

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Eu não tenho mais meu pai. Nunca ligamos pra datas, nunca demos a mínima, pra ser bem franca, mas agora que não tenho mais meu pai, todos os dias do pais, há quase vinte anos, são feitos de: eu não tenho mais meu pai. Hoje me emocionei quando soube duma amiga que tem a delicadeza de mandar feijoada para os amigos que não têm mais pai – um presentinho de dias dos pais. Ela envia um almoço especial para os solitários de pai neste mundo. Moro longe demais para uma quentinha, mas me considerei alimentada.

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É julho, ventilador ligado, dou aulas sem meias, bebendo chá gelado. Sou contra demais este estado de coisas.

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Nos últimos tempos, tenho o privilégio de conviver com uma meninazinha de sete anos, um menino de doze. Amo todos os meus alunos, mas os dias dessas crianças são, de longe, os melhores da semana. De longe. Não tem competição.

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A cirurgia da gata foi horrorosa e o cara ainda era bem barbeiro. Ela tá se recuperando, mas eu, não. Não tenho mais idade pra nada disso.

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Achei um uísque do meu pai, aqui. Tá velho, velhíssimo, o rótulo é só uma lembrança, quase 1/3 da garrafa evaporou, a cor é laranja-avermelhado agora e o gosto é como se satanás, pessoalmente, me beijasse na boca e me tirasse para dançar.

Diário de um mundo que acabou: ervilhas, genocídios e cadeados

Às vezes a pessoa é desnecessariamente grosseira para que você deixe de procurá-la, mas olha, não precisa. Mesmo. A dor dá conta demais desse recado. Você não precisa nem piscar, meu caro.

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Perdi alguém na semana passada. Querido. Amigo, inimigo, bom de briga, bom de cama, bom de dividir livro e projeto.
Perdemos alguém hoje, Maliu e eu. Querido. Jovem. Todo sarado. Feliz, apaixonado.

Perdemos, em menos de uma semana, dois alguéns para essa maldita pandemia que os bobos alegres de plantão minimizam aos gritos, berrando na av. Paulista e no meu ouvido, sendo completamente idiotas como, aliás, seu líder máximo.
Minha dor só não é maior do que meu ódio por esse governo homicida. E minha indignação com os que o apoiam, minha decepção e minha tristeza com essa gente, não cabem no peito.
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Assisti Leave No Trace (Sem rastros) e fiquei muito encantada com a história, com a fotografia, com a construção do relacionamento daquele pai, daquela filha, com a vida deles. E também tou aqui pensando que aquela comunidade no meio do nada, com aqueles bicho-grilos velhos, tocando violão sem afinação e vivendo cada um em sua cabaninha, seria a única comunidade de carne e osso da qual me encantaria participar.

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“Vocês não têm ideia da importância das…” “Vocês não sabem do…” “Vocês não têm noção do que é…”. É, lindão, não temos, você é mesmo o dono lacrador da realidade. Ilumine nossas pobres mente, imploramos.
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“O cadeado”, diz minha mãe, “tem duas chaves” e aí eu começo a rir e aí ela começa a rir, porque nós duas sabemos que vou perder as duas chaves.
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“Silenciar o perfil” é um gesto lindo que significa “quero continuar te amando apesar da sua afeição por genocidas”. As pessoas não me dão o devido valor.
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O Brasil me obriga a concordar com o Rodrigo Maia. Nem sei mais quem sou.
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A quarentena parece tanto com a minha vida normal que evito reclamar.
Meu medo do futuro por viver sob uma pandemia e sob um governo que não tem qualquer interesse em cuidar de mim, da minha saúde ou das minhas contas a pagar, somatiza-se numa alergia misteriosa que corrói minha pele nos antebraços e colo.
Meu sono, porém, minha velha e boa fuga, está cada dia mais profundo.

Morro a cada noite, renasço (mais ou menos) a cada manhã. Sonho com você na maior parte das madrugadas, apesar de todas as suas demonstrações de “Desapareça”. Como explicar seu nojo pro meu inconsciente?
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Maliu estava trocando os canais da tevê e caiu no sono, controle remoto em punho. A tevê num canal daqueles que tem gente em diferentes janelinhas cantando gritado. Deus me livre. Troquei pro canal do Bobigorén.
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Estou assistido tanta coisa boa, tanta, que vou voltar a fazer listas.
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Vizinhos em rodinhas, vizinhos em lambretas, vizinhos jogando vôlei no meio da rua. É o maravilhoso mundo da negação.
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Tenho feito tortas de cebola e queijo cada dia mais lindas e fofas. Não melhora em nada a vida do país, mas dá um alento enorme.
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Leio aqui que “o novo ministro da Saúde não vai participar do anúncio dos dados atualizados do novo coronavírus em Brasília”.
Como elegeram essa escrotidão de governo? Como?
Irresponsáveis.
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Não, gente, água tônica antártica não vai salvar a vida de ninguém.
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Quando a dinâmica se perde, a dinâmica se perde. As pessoas são boas e gentis (quando não estão em grupo) e tentam, mas a dinâmica se foi.

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Os minutos, miados, sachê de ração dum gatinho desdentado, os baldes de água com cândida, freelas, aulas, projetos, amigos, as perdas irreparáveis, fileirinhas de ervilha em lata, ovos fritos cenográficos, teorias da conspiração, copos de suco de uva, a imensa falta que sinto do que não fomos, panos de prato fervidos e quarados, potes de geleia, sprays de SBP, galhos de eucalipto, gotinhas de vapor, sanduíches de queijos, escritos do Allan, sustos petiticos e enormes, dorzinhas finas no meio do peito.

Os instantes de cada dia, de cada cor, da espera, do inevitável, do que é cruel e irrevogável.

Os dias aqui.

Neste mundo que, sim, acabou.

Diário de um mundo que acabou 2

O Brasil elegeu um homem que aparece em rede nacional distorcendo falas do presidente da Organização Mundial da Saúde – e isso bem no meio duma pandemia.

Eu nem sei mais.

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Laranjas. O que seria de nós sem elas? Os marinheiros sabem disso há séculos. Eles sonhavam com sereias? Sonhavam. Mas ah, as laranjas.

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Estou perdida e consumida por esse lava-lava. O chão tudo bem, lavar chão é lavar chão, não tem grandes atropelos. Mas esse miudinho de lavar copo de iogurte, uvinha, folhinha de couve, pelamordedeus.

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Os dias tem passado absurdamente rápido. Absurdamente, absurdamente.

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De quando em vez, não ria, abro uma clandestina foto sua. Ninguém tem nada a ver com isso. Abro, olho pra sua cara, fecho a foto, volto pro serviço. Há algo de confortável e familiar em seu rosto que, se formos parar pra pensar, vi poucas vezes ao vivo e a cores para todo o Brasil. Pensei em cometer um “olhar pra você é como voltar para casa”, mas tenho muita vergonha de ser tão ridícula.

Ai.

Agora já foi.

De qualquer forma, lembro do Snoopy citando Thomas Jefferson, “Não se pode voltar para casa” e, no nosso caso, estão ambos cruelmente certos.

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Quando com medo de morrer coletivamente e sem muita coisa para pensar além disso, as pessoas revelam sua fragilidade em minúsculos movimentos, minúsculas deixas, palavras soltas, um suspiro no fim do áudio, um parágrafo desnecessário num e-mail perdido, a indicação dum filme que, se não fosse o apocalipse zumbi, jamais faríamos.

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Ovos fritos. O que seria de nós sem eles? Ovos fritos são o Brasil que deu certo.

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Acabei Ozark com enorme dor no coração. Não queria que acabasse. Mas que série, que série.

Comecei outra, chata, chata, ruim, ruim, parei. Volto para los nouregos que, mesmo reprisados, são sensacionais.

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Mamãe fez bacalhau à gomes de sá, eu abri uma garrafa de vinho e foi esse o almoço-em-meio-ao-caos. Porque vamos mesmo morrer, mas olha, cercadas de glamour.

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Alguém me disse que viu estrelas da janela do quarto, em plena São Paulo. Corri para o meu próprio céu e elas estavam lá. Que coisa mais triste ser preciso uma pandemia preu ver meia dúzia de estrelas. Que coisa mais linda a minha particular meia dúzia de estrelas.