Rosaceae

– Permita que o homem cego lave suas feridas – ele me disse ao perceber a dor em minha voz. Tomávamos café num balcão anônimo, falávamos da vida e o assunto era vago, quase impessoal. Com um gesto, ele pegou o biscoitinho de amêndoas do pires dele e o ofereceu, assim, no ar. Aproximei minha boca de sua mão e aceitei a prenda. Quase engasguei com o sabor amargo das amêndoas, a surpresa, a urgência na voz dele e com o tesão. O meu. Sacudi a cabeça, como se ele pudesse me ver. Segurando meu braço, ele nos tirou da cafeteria e de lá para o táxi e de lá para a cama dele, onde suas mãos fizeram o melhor que podiam para acalmar minha dor.

Gozei aquela noite olhando nos olhos de um homem que não me via, olhando nos olhos de um homem que me viu como se eu sempre estivesse ali, como se eu fosse boa, como se eu merecesse ser vista.

Ele gozou dizendo meu nome, com a boca em meus cabelos, as mãos na minha bunda.

4 comentários em “Rosaceae”

  1. mãos que fazem o melhor que podem. a gente tem que saber valorizar esse tipo de iniciativa.
    eu adoro esse texto, todas as vezes que leio é como se ele tivesse muito mais a me dizer do que eu sou capaz de entender e por isso devo relê-lo sempre.

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