Revista

Editorial

Carla e Carlota

Um jovem escocês procura à beira do mar, uma menina de dez anos: Yolanda.

Ela está zangada com seu tio porque ele riu dela quando dançavam. Para fazer as pazes, o jovem parente oferece-lhe seu exemplar de Robert Burns, mas ela não aceita. Ao ver então uma garrafa no mar, o tio vai pescá-la pois pode ser o caso dela conter um mapa para um tesouro e ficarem ricos.

A garrafa contém uma página de livro sobre Salvador Dali, que alude à existência de borboletas gigantes no Brasil que sugam o cérebro das pessoas. O jovem, brincando com a menina, insiste que de todos os problemas brasileiros, o das borboletas gigantes é o pior. E como sabe muitas histórias maravilhosas, decide contar para a sobrinha, a vida da princesa Carlota Joaquina, princesa do Brasil.

Esse é o argumento e início do filme Carlota Joaquina, princesa do Brazil de Carla Camurati, lançado em 1995 e marco zero da retomada do cinema nacional brasileiro.

Os tempos eram difíceis no início dos anos 1990, mas eu pergunto: quando não foram para a arte e a cultura?

Carla Camurati escreveu o roteiro em parceria, pesquisou, dirigiu, captou recursos e distribuiu seu filme.

Ao se decidir por Carlota, a cineasta escolheu uma época e definiu um caminho.

A montagem de uma história de época, com passagem por duas cortes é empreitada para milhões. Carla conseguiu alguns milhares e se lançou ao projeto.

Não há aqui nenhuma pregação de esforço individualista e premiação meritocrática. Produção cultural não é matéria que deva ser relegada unicamente à iniciativa individual. Uma cultura não se mostra sem autoconsciência.

E autoconsciência implica em trabalho perene, avanço constante e eliminação total do juízo de valor. E isso precisa de apoio estrutural. O olhar para o que somos e o que nos identifica requer distanciamento próprio daqueles que se entendem no mundo e não a serviço dele.

E é justamente a diversidade dos olhares que vai enriquecer esse caldo de cultura que não pode suportar outra temperatura que não seja a da constante ebulição.

Não há bom gosto e mau gosto em produção cultural. Pois o gosto não é uma propriedade inata dos indivíduos. O gosto é produzido e é resultado de uma série de condições materiais e simbólicas acumuladas no percurso de nossa trajetória educativa. O gosto cultural se adquire; mais do que isso, é resultado de diferenças de origem e de oportunidades sociais e, portanto, nenhuma produção cultural pode ser usada como padrão.

Pelo contrário, o incentivo da produção ampla, acessível e removida de qualquer censura vai resultar numa ampla oferta, um rico capital responsável pela formação do gosto cultural dos indivíduos. E a mesma abundância de ofertas se encarrega de selecionar a qualidade do que fica, do que perdura, do que identifica o indivíduo no grupo.

A produção cultural não pode pretender a hegemonia seja de conteúdo seja de estilo. Cada mensagem carece de veículo próprio que a defina.

Carla escolheu o cinema como veículo para registrar o seu olhar sobre nós mesmos. Um olhar de fora, a partir dos olhos de uma menina para quem se contava uma história.

Drops em Revista quis retomar esse olhar e relembrar esse momento.

Não vamos jamais deixar de reivindicar recursos, espaços e liberdade para todas as expressões. Mas hoje, celebraremos o ato de retomada tão bem realizado por Carla contando a história de Carlota.

Por isso também essa edição é formada só por mulheres, pois defender sua tribo e assumir seu lugar no processo é a forma mais bela de pertencer.

Salvador Dali dizia que no Brasil existiam borboletas gigantes que sugavam o cérebro das pessoas.

É verdade. Mas não sem muita luta.

 As Editoras


Abigail, uma Andrade

por Rita Paschoalin

Não vou mais levar você para ver um filme nacional

por Patricia Daltro



Mais um dia nacional do livro?

por Ana Cristina Rodrigues

O que faz minha cabeça

por Flávia Guimarães



A chegada da Família Real no Brasil: transformações e crescimento desigual na cidade do Rio de Janeiro

por Ana Paula Medeiros

Clássico do coração: Maria Sybilla Merian

por Vera Guimarães

A decadência elegante de Lucia Berlin

por Tina Lopes

Rádio Drops

A primeira vez que fui à Europa e a cozinha de Monet

por Elaine Cuencas

Expediente:
Editoras: Fal Vitiello de Azevedo e Suzi Márcia Castelani
Capa: Suzi Márcia Castelani
Colunistas: Patrícia Daltro, Vera Guimarães, Rita Paschoalin, Flávia Guimarães, Ana Cristina Rodrigues, Ana Paula Medeiros, Elaine Cuencas e Tina Lopes.

Ilustrações – Sany Alice que pode ser encontrada aqui: https://www.behance.net/sanyalice

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