Por que não agora?

A Dúvida de Tomé, 1599 Caravaggio, Stiftung Schlösser und Gärten Postdam-Sanssouci, Postdam, Alemanha.

Não aceitamos a nossa própria finitude. Encarar o fato de que nosso destino e o das folhas que varremos diariamente no quintal é exatamente o mesmo, nos assusta.

Temos ânsia em explicar o mundo e os maravilhosos mecanismos das leis que regem o Universo mas, para esta tarefa, só podemos contar com a inteligência da nossa espécie, a única consciente em um planetinha de quinta grandeza numa galáxia periférica que circula uma estrela que nem é das maiores já identificadas e que há trezentos e noventa anos (um sopro no tempo histórico) não sabia nem que o sangue circulava pelos corpos.

Tudo que ainda não conseguimos explicar preenchemos com a ideia de Deus, inferno e paraíso.

Mas enquanto a morte não chega, temos que lidar, não com a vida em sentido extenso, poético e profundo. Mas com o dia a dia, as pouquíssimas escolhas que nos cabem e todas as injustiças e absurdos do cotidiano decorrentes da maneira perversa com que muito poucos de nós decidem como a maioria deve e pode viver e morrer.

Neste contexto, a crença em uma vida após a morte é muito útil. Implica em acreditar que existe uma parte invisível e imortal em cada um de nós e que este ser etéreo sobrevive à destruição do corpo. Até aqui a maioria das religiões caminham juntas mas a partir deste ponto há uma bifurcação de duas grandes ideias: a reencarnação que prega o retorno da alma em um outro corpo e a ressurreição que pode acontecer na Terra ou em outros mundos.

Estas duas concepções já existiam muito antes de Jesus nascer, então nada disso é invenção do cristianismo ou inaugurado pelos textos bíblicos. A punição ou recompensa de cada indivíduo, como consequência de sua conduta em vida, já existia na Grécia antiga.

É uma forma muito eficiente de mitigar o impacto do sofrimento do inocente ou do êxito do homem mau. Acreditar que exista uma justiça superior que agirá em minha defesa depois da minha morte é uma aposta extremamente eficaz na perpetuação das injustiças terrenas. Essa organização da vida terrena com expectativas em uma outra vida após a morte é defendida sempre por quem explica o mundo através de verdades absolutas.

O grande problema das verdades absolutas é que elas não existem. Nenhum conceito é absoluto em se tratando de vida em sociedade. Toda convivência gera não só desejos opostos e direitos conflitantes mas o próprio ato de desejar é distinto em cada um de nós.

Cada desejo visa sua efetividade absoluta e a luta entre as forças de dominação e liberdade é perpétua. Não há modelo de solução total com pronta aplicabilidade. Tudo é processo, tudo é caminho. O modo de vida coletivo não frui com simplicidade.

Nenhum conceito universal pode ser aplicado a todos os indivíduos pois o homem é ele e sua circunstância.

Mas se é tão importante para nossa espécie que haja uma justiça que nos contemple após a morte, que seja eterna, premie os bons e castigue os maus, por que não batalhar para que ela aconteça também no mundo dos vivos, enquanto ainda estamos aqui?

Textos religiosos são produções humanas elevados à condição de sagrados de acordo com os interesses de cada denominação religiosa pertinente.

Pode ser que a justiça após a morte exista, pode ser que não. É sempre uma aposta. Mas para admitir o debate, vamos partir então da ideia de que todos os textos sagrados estão certos e que haverá um julgamento dos nossos atos determinado a decidir nosso destino após a morte.

Se a justiça divina premia conforme os atos de cada um, não haverá no céu uma hierarquia de bons? Não seria a perpetuação (aí, pra valer) da desigualdade entre os homens?

Prefiro lutar por justiça enquanto ainda posso fazer uso da minha subjetividade terrena. Essa eu conheço, acontece agora e tenho treinado diariamente a não fechar os olhos diante do que fere a mim e ao meu semelhante. Seria isso um demérito?

Procurar ser generoso, lutar contra preconceitos, buscar conhecer antes de julgar, buscar conhecer sem julgar, encarar cada ser humano  como portador dos mesmos direitos de todos, não aceitar a miséria como fato natural, entender que o mais fraco necessita de maior apoio e que o coletivo se impõe sobre o individual aqui na Terra, enquanto vivos, inviabiliza o paraíso?

Sei não. Talvez o apego a uma realidade que ainda não acontece e corre o risco de nunca acontecer seja uma forma cômoda de não assumir seu papel, não se importar, delegar responsabilidades prementes e esconder o próprio egoísmo em um invólucro de falsa respeitabilidade pretensamente superior.

Se as regras da justiça pós morte guardar alguma racionalidade, se esconder da vida num escudo religioso pode ser uma aposta muito, muito errada.

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