Escrevendo cartão de Natal para os queridos. Não fazia isso há uns quinze anos.

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Encomendei mais figos, mais uvas. Tenho bebido um bocado de vinho, jogado um monte papel fora, escrito os textos que posso escrever, lido os livros que dou conta e visto séries ruins (os amigos me recomendam altos lances culturais e eu ali, vendo série de assassinos seriais e febeinhos e quejandos). Tenho também pensado demais em você e me repreendido por isso, muito mesmo. Por outro lado, por mais paradoxal que pareça, venho tendo algum sucesso em não pensar em você. Ás vezes, passam-se dois, três dias sem que você, seu rosto, sua voz, sua graça, me venham à mente.

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A minha geração, além de pensar que vai viver até os cento e quarenta e nove anos – então, tudo bem, se aos cinquenta e tantos ainda não comecei meu livro – não vê a si mesma como parte do grupo de risco nessa pandemia. Somos imortais, inatingíveis e extremamente burros. É o que posso depreender.

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Estranho demais quem diz que estamos vivendo sem um governo central, que somos uma país largado. Temos, sim, um governo central, que atrapalha para cacete, que deseja que a gente morra, que odeia cada um de nós.

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Ocorreu-me essa semana que, em estando vacinada e zerada, lá pelo fim do ano, devo fazer um bate-e-volta ao Rio, envolvendo um total de zero conhecidos cariocas no projeto, para visitar a Casa Rui Barbosa, antes que os crentes detonem de vez com ela.

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O Tiago Cordeiro, nosso próximo autor a ser lançado, deu uma entrevista deliciosa sobre seu livro. Vale, de verdade.

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Tenho uma editora. Nem falo em voz alta, parece mentira. Mas é isso. Uma editora.

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Cheiro de café. Que delícia de vida.

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Queijo gorgonzola é a resposta. Qual foi a pergunta?

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Sinto sono, fome e raiva vinte e quatro horas por dia, o que deixa pouco espaço para outros sentimentos.

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Tenho três anáguas novas. Vem, vacina.

A pessoa não tem pronde ir, fica tendo ideia e infernizando a vida da costureira e o resultado é que tenho vestidos prontos e lindos para ir a lugar nenhum e uma costureira exausta e infeliz que já avisou que passará os próximos quatro meses na praia.

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Dois mil e vinte e um quase ali e ainda tem homem nesse mundo bancando o idiotinha.

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Ora, meu amigo, eu na iminência dos cinquenta, você galopando para os sessenta, por favor – disse ela antes de aceitar o convite de um estranho.

Ah, a vida.

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Comprei uma caixa de maracujás. No que fiz muito bem.

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Contratada fui para escrever sobre um dos autores que mais amo na vida. Politicamente discordamos de tudo. Tudo. E ele escreve como um Deus. Como pode, né, o amor. Desde a primeira vez que o li, rezo para escrever como ele, coisa que jamais acontecerá, você sabe, eu sei.

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Livros nojentos com capas incríveis. Que desperdício.

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Eleição, ou você perde ou ganha. Não existe campeão moral.

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Cada panaquice que eu ouço, mais vontade me dá de morrer.

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Por dever de ofício (sério mesmo) tenho visto um montão de documentários de medicina. Meus pesadelos estão de categoria internacional.

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A tempô dos figos começou. Não há motivo para tristeza. Quase.

Bolero faz 21 anos.

Isso é um bocado de tempo para um gato.

Na verdade, acho que também é um bocado de tempo para gente. Lembro-me de me sentir completamente esgotada aos 21 anos.

Por favor, permita-me agora louvar as muitas qualidades de Bolero.

 Bolero é um gato bom.

Ele é um gato gentil. E foi calmo a vida toda.

Sempre gostou de brincar.

Sempre gostou de outros gatos.

Talvez por ter sido muito bem-cuidado pela gata adulta que tínhamos quando ele chegou, Bolero foi um gato muito querido com bebês gatinhos. Nunca bateu, nunca ameaçou, nunca se mostrou impaciente com as brincadeiras dos pequenos.

Bolero também gosta de cães – com alguma reserva. Se o cão é mais na dele, como era nosso Baco, Bolero fica de boa.

Se o cão é alegrinho e amiguinho, como é nosso Otelo, Bolero conversa um pouquinho, dá umas lambidinhas e dorme junto. Sempre banhado em graça e dignidade.

Bolero é, também, um gato que gosta de pessoas, mas não foi sempre assim. Durante muitos anos ele se escondia quando visitas chegavam. Não sei como, mas ele se fazia caber debaixo do fogão. Tive um grupo de amigas que o chamava de gato invisível.

Com a idade, isso mudou e, de muitos anos para cá, ele se senta no sofá com as visitas. Ainda banhado em dignidade e graça troca algumas palavras com os visitantes e, se a pessoa for muito educada e gentil, Bolero permite que ela o alimente com biscoitinhos com patê.

Quando nos mudamos para essa casa, Bolero descobriu a rua e, durante anos e anos, fui obrigada a dividir sua guarda com o vizinho que mora três casas abaixo, porque ele amava passar temporadas lá. O moço o alimentava com peixe cru e tocava Chopin para ele. Juro. Ele voltava de lá gordinho, mimado, com o pelo brilhando e usando colarzinhos verdes ou cor-de-rosa ou alaranjados.

Bolero sempre foi um gato de turminha. No apartamento onde vivíamos, ele e os irmãos faziam bolinho e passavam a tarde toda dormindo em nossa cama. Com a morte do Alexandre, mudamos de casa, mas a turma não se desfez. Acontece que, com o passar dos anos, os gatinhos, todos mais velhos do que Bolero, foram morrendo.

Sobrou Bárbara Manteiguinha Batatinha Maluquinha, sua irmã preferida. Eles foram uma dupla feliz por anos e viviam à parte dos outros gatos da casa, num mundo deles.

Quando ela morreu, temi por Bolero. Achei que ele fosse ficar sozinho em seus últimos anos.

Acontece que ele é querido e bonzinho e tem um cheiro delicioso. (Bolero parece ter caído num caldeirão de colônia Contouré quando era pequeno).

Por isso, os gatinhos mais novos da casa, especialmente a mais bebezinha, são apaixonados por Bolero. Para não mencionar o cãozinho, que é louco por ele.

Eles adotaram Bolero e o transformaram no chefe da matilha (gato em matilha? Uai, os meus, sim).

Eles se deitam em volta de Bolero para esquentá-lo. E lambem sua carinha e seu pescoço e brincam com ele, ainda que ele não esteja mais para altas brincadeiras, e fazem aqueles barulhinhos de gato para ele. Bolero não fica sozinho porque os bebês (que não são, absolutamente, bebês), fazem bolinho em torno dele. Bolero é um gato-ilha cercado de gatos por todos os lados.

Bolero jamais come sozinho, porque Chico vai com ele e nem sonha em roubar sua comidinha-de-gatinho-velhinho-e-sem-dentes. Ele vai com Bolero só para fazer companhia. Quando Marli entra na cozinha e vê os dois juntos, ela pergunta “Ei, Chico, está fazendo ato de presença? ”.

Bolero é especial também porque ele é o último dos gatinhos de Alexandre. Alexandre adorava gatos. E Bolero é o último de seus gatos vivo. Ele é o último gato que conheceu Alexandre e dormiu em seu colo e foi batizado por Alexandre (que batizava todos os bichos com nome começados por “B” para que fossem todos “B de Bibi”). Bolero conhece a Riviera de São Lourenço como ninguém, porque foi o único gato que Alexandre levava conosco para as viagens para a praia, primeiro porque ele era o bebezinho da casa (Bolero já foi o bebezinho) e tínhamos medo de deixá-lo com os grandes – “E se eles baterem em Bolero?” “E se ele sentir medo sozinho no apartamento (com mil outros gatos) todo o fim de semana?” Depois, porque Bolero se tornou uma excelente companhia para viagens. Era ótimo tê-lo conosco e ele gostava de andar na praia e se enfiar na areia.

Quando Bolero chegou dentro de uma caixa de sapatos, Alexandre abriu a tampa e fez um barulho não humano do tipo nhóóóóóiiiiim. Ele dormiu na nossa cama naquela noite (e nas muitas noites depois dessa, mamando no cabelo de Alexandre e falando “miu, miu, miu”).

Eu poderia continuar contando como ele comia manteiga de amendoim no colo de Alexandre durante o café da manhã, ou como ele se deitava na barriga do Alexandre para ouvir música, ou como ele ficava deitado ao lado do box enquanto Alexandre tomava banho, miando desesperado porque o pai estava preso naquela caixa envidraçada, cheia de vapor e água quente.

Bolero faz 21 anos hoje. Ele é um gato muito querido. Tem olhos feitos de montes de camadas de azul e uma manchinha branca na boca e no peito e pezinhos de meia. Ele gosta de sachê, agora que não tem mais dentes, mas amava ração dura quando era mais novinho. Ele ainda gosta de salsicha, se eu amassar no garfo. Ele gosta de andar entre os pés da minha mãe e não se importa quando ela o xinga por isso. Bolero está bem surdo.

Umas tristezinhas, uma dor enorme, um susto, uma morte injustificada debaixo de porradas injustificadas, uma leve irritação, uma enorme irritação, clientes que me fizeram desligar o computador tremendo (mesmo) de indignação, um pudim que nem sei descrever, uma coquinha gelada, planos, zero você.

Vem cá, meu bem

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