Sol

Algumas coisas a gente nao deve escrever nem no diário.

Em Melbourne há um apartamento e um gato

Alguns dias são especialmente longos e o fim de semana promete ser insuficiente pro tanto de treta pra resolver.

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Se existe coisa melhor do que trabalhar ao som de um bom filme de porrada, desconheço.

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Sempre que eu decidisse “vou tirar um livros das prateleiras, dar uma limpada e rearrumar”, devia sair um amigo dalgum lugar e gritar “MIGA, NÃO!!!”,

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Você nunca foi com a cara da pessoa e um belo dia ela escreve uma crônica bem da imbecil sobre cães e donos de cães e seu cérebro sussurra “Arrá!”.

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Balas de cereja sem açúcar. na prateleira do “o que temos”.

Uma casa em Paris, uma declaração fundamental, o armário do banheiro alheio, Matisse, suco de maracujá

Vou escrever, de agora em diante e, para sempre, como se você me lesse. Antes, como se me enxergasse. Antes, ainda, como se você se importasse. Eu me dei conta de que não escrevia aqui porque aqui você não vem e escrevia lá porque lá você vai. Raramente, mas vai, e eu, tola, tola, queria que você me visse. Espero um dia, parar de falar a seu respeito. Por enquanto, não posso. É como se, ao parar de falar de você, eu deixasse de ser quem sou. Vou escrever aqui, e não lá, como se, para além do Claudio e a Nepomuceno, você viesse aqui. Vou manter isso aqui como se fizesse sentido escrever. Para você.

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Dos meus muitos voyeurismos, espiar a casa dos outros é das cousas que mais amo. A casa alheia e seus cantinhos, toalhas, boxes, pias, armário, nichos e escadas. Onde ficam suas canecas bonitas? A cafeteira de D. mora na estante de livros na sala. A Bea serve a comida da gata na varanda. A Nepomuceno tem paredes coloridas. Meus livros de moda agora ficam na sala. Como cada um arruma seus pertences, como cada um espera o fim, seja ele a o envelhecimento sem dignidade, o apocalipse zumbi ou a morte do amor. Como arrumam seus armários da cozinha, como esperam que seus dentes caiam.

Quem são as pessoas, criaturas estranhas, e suas casas, espaços cheios de milagres e encantamento.

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O calor voltou, não tive nem dois meses de pausa. Roí todas as minhas unhas, cantei em voz alta, sorri para o espelho do banheiro e para as minhas minhas rugas (gosto delas) e para a minha papada (odeio ela) e vi coisas que jamais acontecerão e coisas que acontecem todos os dias.

Rosaceae

– Permita que o homem cego lave suas feridas – ele me disse ao perceber a dor em minha voz. Tomávamos café num balcão anônimo, falávamos da vida e o assunto era vago, quase impessoal. Com um gesto, ele pegou o biscoitinho de amêndoas do pires dele e o ofereceu, assim, no ar. Aproximei minha boca de sua mão e aceitei a prenda. Quase engasguei com o sabor amargo das amêndoas, a surpresa, a urgência na voz dele e com o tesão. O meu. Sacudi a cabeça, como se ele pudesse me ver. Segurando meu braço, ele nos tirou da cafeteria e de lá para o táxi e de lá para a cama dele, onde suas mãos fizeram o melhor que podiam para acalmar minha dor.

Gozei aquela noite olhando nos olhos de um homem que não me via, olhando nos olhos de um homem que me viu como se eu sempre estivesse ali, como se eu fosse boa, como se eu merecesse ser vista.

Ele gozou dizendo meu nome, com a boca em meus cabelos, as mãos na minha bunda.

Vem cá, meu bem

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