EDITORIAL

Chico que amava Bibi que amava Paulo que amava Eurípedes que não amava ninguém

Queríamos falar de censura, de perda, de dor, de traição e autoritarismo, sem falar de nós. Sem falar tanto de nós.

Buscamos alguém que já havia feito isso muito bem.

Paulo Pontes e Chico Buarque, na década de 1970, buscaram no mais trágico dos poetas trágicos inspiração para compor uma pérola.

A peça Gota D’Água é uma releitura de Medeia de Eurípedes, que foi encenada a primeira vez em 431 a.C., em Atenas, nas vésperas da batalha do Peloponeso.

Medeia já fazia parte do repertório de mitos gregos, mas foi Eurípedes que redefiniu sua apoteose. Antes de Eurípedes, eram os cidadãos de Corinto que matavam os filhos de Jasão e Medeia, para puni-la e vingar a morte de seu rei.  A partir de Eurípedes, é Medeia que mata os próprios filhos para punir Jasão.

Numa época em que ainda não havia o conceito de bons e maus, céu e inferno que o cristianismo nos legaria séculos mais tarde, Medeia é feiticeira, amante apaixonada,  companheira de batalha com papel determinante na conquista do feito heroico que havia alçado Jasão à condição de herói, mas havia lhes exilado e tirado a cidadania.

Na busca da cidadania perdida, Jasão toma um atalho. Abandonar Medeia para se casar com a jovem princesa Glauce, filha do rei de Corinto.

A partir daí Medeia age, pela magia e pela palavra, para se vingar de Jasão.

Gota D’Água transporta a tragédia para o subúrbio do Rio de Janeiro. Bibi Ferreira faz Joana, no papel principal.

A peça foi censurada e para liberar o texto alguns cortes foram negociados. Foi premiada com o Prêmio Molière que os autores recusaram em sinal de protesto contra a proibição, no mesmo ano, de obras de outros autores, como O abajur lilás, de Plínio Marcos e  Rasga coração, de Oduvaldo Vianna Filho.

Pela palavra, no século V a.C., Eurípedes explora os limites da dor e do ódio, questiona o papel relegado ao feminino, mostra o avesso da lealdade e resgata Medeia num carro do deus Sol.

Somos aqui o coro, que acompanha, aprova, desaprova, se angustia e silencia no final.

Chico e Paulo beberam da melhor das fontes.

Queríamos falar de censura, de perda, de dor, de traição e autoritarismo, sem falar de nós. Sem falar tanto de nós.

Ao fim e ao cabo, Medeia somos todos nós.

As Editoras.

Ilustração de Sany Alice

Sany Alice é designer, ilustradora e pode ser encontrada aqui: https://www.behance.net/sanyalice

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