Chica que manda

por Pedro Elói Rech

Foto divulgação do filme Xica da Silva de Cacá Diegues

A cidade de Diamantina sempre povoou meu imaginário.

Nele, sempre aparecia o presidente JK e, muito mais, a lendária e poderosa Chica da Silva. JK evocava sorriso, gosto por música e vida boêmia, em noites de inocentes serestas. Já Chica da Silva incendiava a curiosidade em
torno de seus reais poderes. Inspirado pela Vesperata, um de se seus atrativos atuais, fui conhecer a cidade.


Diamantina foi a antiga Arraial do Tijuco e foi a descoberta dos diamantes que a fez Diamantina, a última ou a mais recente das inigualáveis cidades históricas de Minas Gerais.


Tudo lembra brilho. Situa-se na Serra dos Cristais e é ornada por uma bela cachoeira, a Cachoeira dos cristais. Isso era lá pelos idos de 1730, em meio a uma paisagem árida e rochosa, hostil ao povoamento.


“É só apanhar no chão os diamantes, como quem apanha jabuticabas”, nos conta o médico e historiador das Minas Gerais, Agripa Vasconcelos, a quem, mais adiante, dedicaremos mais algumas linhas.

Esta abundância transformou o antigo e pacato Arraial. O rigoroso controle
português logo chegaria à cidade, junto com muita gente, alucinada com tanta riqueza.


João Fernandes de Oliveira chegava à cidade em 1753. Ali permaneceu até 1770. Era o todo poderoso Poder Real português, na qualidade de Contratador de Diamantes.

Simplesmente tornou-se o homem mais rico do Império mas não o mais poderoso. Este era o “déspota esclarecido”, o Marquês de Pombal. O olhar de João Fernandes tornou-se vivo e faiscava ao ver uma determinada mulata. Não era uma mulata qualquer. Tratava-se de Francisca da Silva Oliveira, ou Chica da Silva, simplesmente.

Os piedosos sentimentos de continência sexual do católico português foram
para o espaço. Aliás, nunca foram tão rígidos assim. Aos poderosos a moral imposta ao povo, era mais leve. Assim já ocorrera com o pai de Chica, um português. A mãe era uma de suas escravas. Chica, assim herdara a condição de escrava.


João Fernandes resolve comprá-la. Oferece preço bem acima do valor. O proprietário não quer vendê-la. Nada era difícil de resolver para o poderoso senhor. Chica passou a ser sua.

Chica o enfeitiçou. Cada desejo seu passou a ser um imperativo para João. O que o teria enfeitiçado? Quanto à sexualidade, deixemos para a imaginação. Ela sempre é mais fértil que o real.

Agripa Vasconcelos lhe atribuiu outras qualidades, como a determinação, a coragem e a altivez. A sua adaptação à nova realidade foi rápida. A todos ela encantava, tanto pelo seu fascínio pessoal, quanto pelos seus ornamentos, como joias, perfumes e vestimentas. Não faltava prodigalidade ao João.


Dois de seus desejos ganharam fama: a construção de um barco, para atender seu desejo de navegar e o de levar os sinos da igreja do Carmo, nas vizinhanças de sua casa, para os fundos da igreja e não em sua frente, para não incomodar o seu sossego. Um lago e uma caravela foram construídos e nem o vigário se opôs aos sinos no fundo da igreja.


Mas Chica também era má. Seus ciúmes eram para lá de doentios. Uma criança teve seus pés levados às piranhas, pelo simples motivo de ela ter desconfianças de sua mãe, com relação ao João. A outra menina, ela simplesmente mandou enterrar com vida.

João se tornou o homem mais rico de todo o império português e era muito bem quisto. A abundância era tal que permitiu o afrouxar do fisco. Não pagar tantos tributos sempre foi algo muito desejado. Mas o poder de sua riqueza incomodou ao astuto Marquês de Pombal.

As ideias de autonomia e liberdade assombravam a Europa. Poderiam chegar também aqui. Eram os tempos do Esclarecimento. João poderia ser protagonista. Era melhor tê-lo em Portugal.


Isso já era em 1770, lembrando que ele chegara em 1753. Um bom tempo para terem muitos filhos, todos reconhecidos por João. Um fato raro na época.


O Marquês bancou o malvado. Desfez uma das histórias de amor mais fascinantes de todos os tempos. Chica da Silva ficou em Diamantina e João Fernandes de Oliveira voltou para junto das cortes portuguesas, para usufruir de toda a sua riqueza, menos a maior de todas, a sua grande
paixão.


Visitei a casa da Chica. Ela é mais simbólica do que um museu propriamente dito. Poucas coisas do seu acervo estão ali. Mas existe uma evocação aos sete pecados capitais e, para um deles, uma lembrança muito particular. Uma bela mulata nua, num quadro na parede, é dedicada ao preferidos dos pecados de muitos, e não apenas do João e da Chica. A agradabilíssima luxúria.


Fui também à Vesperata. Trata-se de uma atração bem simples que recomendo muito. São bandas de música, uma da Polícia Militar e outra de meninos e meninas dos projetos sociais que tocam seus instrumentos a partir das janelas dos sobrados. Na rua, mesas são postas para
os turistas. Uma surpresa maravilhosa está reservada a todos. Chica e João aparecem em uma das janelas e depois descem e cumprimentam o público. A beleza de Chica me encantou, mas o poderoso João estava ao seu lado.


Já o presidente JK, deixa para uma outa oportunidade.

Quanto ao título – Chica que manda – é uma referência ao belo romance biográfico, de Agripa Vasconcelos.

Pedro Elói Rech é administrador de tempo livre e do http://www.blogdopedroeloi.com.br

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