Chá de hortelã para doer menos

Tudo bem que todo mundo fala sobre o próprio tempo, ainda que falando do passado, ainda que falando do futuro. Com David Hockney não seria diferente. Acontece que tenho pensando demais em você (quando não, buliçosa criatura?) e, enquanto fazia isso, li este delicioso volume que me caiu nas mãos, menos por mérito e mais porque sou muitíssimo bem relacionada. Sei que você gosta dele, moço-bom-do-juízo-que-és. Bom, mas quem não gosta? (Sim, sei que tem quem não goste, mas olha, essa gente não conta).

Fui lendo e pensando no impensável, porque Hockney não é fácil. As formas gentis e coloridas nos enganam. Batemos o olho em suas telas para dar um sorriso “Ah, isso aí eu…”. Não, não, você coisa alguma. O que há ali é sofisticação de traço, de entendimento, de investigação.

Pensei que também não somos, você, eu, tão fáceis de entender? Claro que sim.

Hockney nasceu em 1937 (e está entre nós) e fez parte da turma que, de olhos bem atentos, desenhou a arte do século XX. Não o que a arte do século XX poderia ser, mas o que ela foi. Ele estava lá, ele fez. Não previu, não esboçou, não achou. Viu, desenhou, fotografou, gravou. Ah, e pintou.

As curvas do caminho que leva à garagem, as paredes escarpadas do despenhadeiro e os barquinhos que não vão voltar: o universo mais cotidiano e, por isso mesmo, grandioso do que nos cerca, está entremeado aos pincéis, aos potes de tinta, às telas esticadinhas.

O azul tão azul das piscinas que um dia haveremos de ter, os rosa tão rosadinho do pôr do sol, o talento para capturar o cinza das pedrinhas no chão de uma tarde de verão e o tom da pele do nariz meio esquisito de alguém que amamos (acho que ele um dia deveria pintar suas orelhinhas): as cores de Hockney estão nas telas e nele (joga o véio no Google e olha as cores que ele veste).

O que o imenso Livingstone alcança, em cada um de seus ensaios neste livro tão bonito, é a observação da versatilidade, análise do extraordinário realismo e um cuidadoso esmiuçar dos detalhes que partem nosso coração, das muitas obras, das muitas vidas de David Hockney. Que não, não poderiam ser nossas. Porque, meu bem, não somos mesmo fáceis. Mas não somos Hockney.

David Hockney – Marco Livingstone

Thames and Hudson

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