é sempre o mesmo ano

A gatinha miminha (o nome dela é Pati, mas como ela é chorona, miminha), que fará um ano em maio, é completamente apaixonada por Bolero, que está com vinte anos, só tem um dente na boca, não tem mais forças pra miar ou pra correr e só come comida de saquinho. Ela anda atrás, lambe a cara dele, obriga ele a deitar junto do encosto do sofá e deita na frente dele pra protegê-lo dos outros gatos. Na hora de comer, ela empurra o Bobo pra cozinha e fica sentada ao lado enquanto ele come, sem relar na comidinha. De noite, ela espera o Bobo ir pra caminha (ele dorme no banco do jipe do meu irmão que fica aqui no nosso micro-mini-quintal desde que caiu uma árvore no carro). Assim que Bolero se acomoda, ela sobre pela frente do jipe e vai dormir no teto do carro, porque gosta da brisa.

Velhas sem rumo falam de seus gatos, dores e máquinas de lavar pratos – tão idosas quanto elas, sem peça de reposição.

Salve-se.

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Eu queria tanto ser o Bobigóren e acabou que virei a mulher-pequinês.

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Sonhei com você três noites seguidas. Eu ia começar a falar de você como um “ele”, mas é meio ridículo. Se meu inconsciente pudesse carregar armas, ele me esfaquearia nas costas, tenho certeza.

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Há um livro novo em algum lugar (e isso é o BDD), mas não sei como chegar nele a não ser assim, por nesgas e beiradas. Há um livro em algum lugar, mas não consigo juntar as partes e não receita e isso é um negócio muito horrível.

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Chegar em casa e colocar milhares de roupas na máquina. Tomar advil como quem come balinhas. Gritar com os gatos imundos no sofá. É sempre o mesmo ano.

Leite com caramelo e baunilha

At Middleton é bonitinho, mas podia ter acabado uns quarenta e cinco minutos antes. É óbvio que eu chorei. Não tenho a menor ilusão de que alguém um dia vai me olhar de novo como o Garcia olha para a Farmiga, odiei e adorei o final e lamento profundamente que a droga mais pesada que tenho em casa seja vodca.

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Fui casada oito anos, sou viúva há dez e meio e estou de coração partido há mais ou menos quatro. Tentei resolver com um gesto brusco, mas a quem estou enganando, não tenho caráter algum. Ele fala, eu respondo, depois choro baixinho, depois confiro mil e quinhentas vezes pra ver se tem recado novo, daí ele me ignora mais dois ou três meses, lava, enxágua, torce, pendura, repete. Se eu tivesse um amigo ele me daria uma sacudidela, mas isso não tenho mais.

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Um daqueles caras que derruba árvores na Sibéria e mora numa cabana, ou o sujeito que era o segurança do último rinoceronte negro do mundo, ou um monge tibetano que vive em contemplação no meio da neve e do silêncio, ou um pirata que, afundada sua nau, passa seus últimos dias à deriva nos mares do sul a bordo dum cotoquinho de madeira incendiada talvez sejam mais sozinhos do que eu, mas duvido. No campeonato de solidão, tou no top five.

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Sonhei com ele de 31.12 pra 01.01 e senti cada pedaço do sonho e ouvi cada palavra do sonho e acordei às quatro da manhã, escorreguei ligeira para fora da cama e agora, sinceramente, não acho que devo voltar para lá. “O Uruguai tem o melhor doce de leite do mundo” uma voz anunciava no sistema de som do meu sonho. Deitado com a boca no meu cabelo, ele dizia de olhos fechados “Não, não é, o argentino é melhor”.

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Segundo o Bourdain, comida de hotel é melhor do que a sua porque eles usam quilos e quilos de manteiga em tudo. Bourdain está sempre certo, claro.

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Leite com baunilha. Não ajuda a dormir melhor e meus sonhos provam isso, mas deixa você mais feliz e, acredita uma pessoa que conheço, com gênio mais gentil. Preciso das duas coisas.

Para o ano

O ano do Drops teve umas coisas lindas. Teve umas coisas cruéis de doer o coração. Teve horóscopos cientificamente aferidos. Teve perda, fuga, luzinha no corredor, bolo, brigadeiro, medo. Teve lasanha hippie e arroz de bicho-grilo, porque vocês sabem, tudo é força, mas só Maliu é poder.
O ano do Drops teve poesia, livro roubado, reencontros. Teve encontros que nunca, nunca mais vão acontecer. Crocodilagem, teve também, Umas canecas lindas. Um livro que eu queria fazer há anos, agora está no mundo. Um prêmio muito bacana. Soco na boca, opa, teve. Teve filmes, mas para ser franca, nenhum incrível. O Apart-hotel do conde Drácula e suas prateleiras inacreditáveis esteve no chão quase que doze meses. Teve jantar feito bem direitinho quase toda noite. Teve projeto desenhado, teve plano, teve shampoo com cheiro bom e a certeza de que tudo, tudo mesmo, acaba. Teve solidão, teve demais. Teve decisão de fechar a casa, descoberta, molho de tomate com matinho dentro. Teve Tim Maia e Tom Jobim todos os dias. Teve tanto, tanto livro lido e relido, teve um Bryson novo até. Teve vontade de chorar, teve choro no banho. Teve imbecis no poder e o aplauso dos injustificáveis. Isso não dá pra esquecer. Teve riso. Xícaras. Sopa, todas as noites. Teve o afastamento de alguns queridos e alguns até parecem eternos, mas estamos velhos e calejados pra saber, nada é definitivo. Teve muito Bach, muito, muito Chico. Teve Salmaso, porque o amor exige. Muito Chagall, muito Vermeer, umas Kusamas de respeito. Teve quase que uma imersão de Boudin, o mestre de Monet. Teve a aceitação, bem dolorosa, bem, bem dolorosa de que alguns não querem estar, nunca vão querer. Desenhos, teve pouquim, mas teve. Canetinhas e papeluchos? Teve. E teve menos Vanzolini do que o necessário, vamos arrumar isso para o ano.

Feliz 2020.

Até já.

Drops Proibidão

Queridos, finalmente volta o Drops em Revista, bimestral e no mesmo endereço.
A primeira edição sai em fevereiro.
Os textos já enviados dos colaboradores estão aqui, guardadinhos, e serão inseridos nas pautas ao longo do ano

Antes da revista de Janeiro/Fevereiro lançaremos o Drops Proibidão – com texto de Fabiano Camilo – que será publicado em fascículos semanais, a partir de domingo dia 05/01
Tire as crianças da sala, vire o computador pra parede e acenda o abajour lilás.
Drops Proibidão vem aí.