Domingo-caderninho

Caderninho gasto, uns rabiscos verdes, quadriculados, uma sequência de pensamentos (que, sinceramente, não servem para grande coisa), uma chuva, um pastel de ontem, suco de uva, série dublada na televisão.

Hoje é domingo e eu imagino as risadas, as fotos, a angústia fininha, os bares nessa Copa chuvosa e incerta, a vida e a decisão de ficar.

Quase chorei, mas Bolero precisa duma caminha. E o gato branco ainda não tomou remédio.

Quase chorei, mas, né, sabemos, você e eu, que não vai adiantar.

Uma palavra tão definitiva

Uma palavra tão definitiva
Perda.
É assim mesmo, né?
Definitiva.
Final.
Sem direito a qualquer recurso.
E está certo quem crê nisso.
A perda é sempre definitiva, ainda que pareça insignificante, ainda que um clips, um elástico de cabelo, um suspiro, uma ilusão petitica.

Perda. Perda.
Até o jeito que nós a dizemos é mortalmente sério.
Não admite discussão, não dá espaço para manobra.
Fala comigo: per-da.
Não há o que fazer.
Cabô.

Nas raras vezes em que o perdido é encontrado, volta mudado, volta outro, porque nós mudamos no processo de não mais tê-lo nas mãos, sob a vista, no lugar onde costumava ficar.
O clips foi encontrado, nós não somos os mesmos.
Cabô.

E passados os anos de pensamento mágico, conforme a realidade estilhaça nosso queixo vezes sem fim, aprendemos que:
Sim, toda perda é, a seu próprio modo, definitiva.
Não, não tem volta.
Sim, dói. Quase sempre, dói.
Não, nada ocupa o lugar do que foi perdido.
Quando muito, o novo cavuca um lugarzinho para si mesmo, um novo lugarzinho.

Aprendemos, também, que se pode perder de um tudo: reinos, rumo, cães felpudos, o amor da nossa vida, o cartão do banco, o RG (eu, três vezes), o novo amor da nossa vida, a hora, o papelzinho com o endereço, o medo, a coragem.

E, assustados, mais para perto do fim do que do começo, nós nos damos conta de que somos, ahá, perdíveis.
Nós.
Cada um de nós a seu tempo, ou todos no mesmo segundo (caso nos tome de assalto o apocalipse zumbi).

A perda, diz nossa tia-avó, com seu cabelo em variados tons de lilás, pince-nez na ponta do nariz e xale de tricô (a tia-avó de vocês, não sei, a minha tia-avó imaginária é assinzinha) nos levará a todos e nos perderemos uns dos outros.

Quando faço uma pausa no trabalho, eu me sento nos degraus da garagem tomando chá e fingindo que sei fumar meu mentolado.
Quase sempre é madrugada, quase sempre a rua está quieta e, olha, perda é a última coisa na qual quero pensar.
Fabrico uma velha tia-avó e seus ditados, sopro o chá, o cigarro se queima sozinho, choraminga a gatinha selvaginha, roncam o gatão pelancudo e a gatona tartaruga, saltita o gatinho maluquinho e penso no resto: as cidades pronde eu gostaria de ir, as tarefas de amanhã, se comprei limão, qual era mesmo o nome da música e, antes que eu me dê conta, penso em você.
Que está e não está. Essa perda tão profunda, tão definitiva, tão minha.
Minha tia-avó tem toda razão: nós nos perderemos uns dos outros de novo e novo e novo.

Horóscopo Drops de Carnaval

Touro – Não importa se você passa o dia todo no trabalho e bebe água lá. O valor do galão d’água da república em que você mora com três amigos deve ser dividido entre to-dos. E “ser limpinho” não é motivo para querer pagar valor menor na divisão da compra dos produtos de limpeza da casa. Arrume outra forma de economizar para o carnaval!

Libra – Entendemos que você precisava de um tempo para se decidir se queria ou não namorar o Zé. Agora que você decidiu que quer, precisamos te contar: o Zé casou no carnaval de 2009 depois de esperar três anos pela sua resposta.

Escorpião, veja bem. “Testador de Lua de Mel” pode até ser fantasia, mas acho que não de carnaval.

Considerando que um pisciano, em condições normais, é feito de trouxa dez vezes por dia, se ele começar a beber no sábado de carnaval e parar só na quarta-feira de cinzas, quantas vezes ele pode ser feito de trouxa no período?

Leão, vem cá. Na casa da Talita você não pode ir nesse carnaval. A família dela ainda não se recuperou da última vez que você esteve lá, no aniversário da avozinha. A coitada da velhinha ainda chora quando lembra de você correndo com ela no colo em roda da piscina berrando: “Corre, vó” quando o pessoal chamou pra apagar a velinha.

Gêmeos, tá certo que os bombeiros da cidade são lindos. Mas você não acha que tascar seu carro dentro da vala, em frente à sua casa, telefonar pra eles em pleno sábado de carnaval, recebê-los vestida de Vedete Esquecida (esqueci a saia, ui!), com a mesa posta para quatro, o Netflix no ponto e o ar condicionado ligado não foi bandeira demais, não?

Sagitário, sagitário! SAGITÁRIO! Uia, desculpa. Pode voltar a dormir. Quando acabar o carnaval eu te aviso.

Câncer, sei não. Pode ser que você tenha problemas com esse bauro embrulhado em jornal. Dificilmente os policiais vão acreditar que faz parte da sua fantasia “baseado em fatos reais”.

Áries, nem disfarça que não precisa mais. Tua pose de phyno não resiste a dois acordes de Evidências, olha lá. Não falha. Todo carnaval é a mesma coisa.

Aquário, o pessoal tá perguntando quando é que o teu “fim de ano” acaba, pois você chegou na casa deles, sem avisar, em 10 de dezembro pra passar o “fim de ano”, o carnaval chegou e ninguém vê providências.

Virgem, na casa que a gente alugou na praia para o carnaval tem oitenta e duas pessoas e um só banheiro. É banhar e sair molhado, na toalha. Levar pro banho as roupas, cremes, pinça, cortador de unha e três playlist de música encarreada não é jogo. O Bob ter feito xixi no teu sapato saiu barato, vai. Admite.

Capricórnio, além de capricórnio, tu ainda é paulista. A vida é mesmo muito triste. Como é que a gente sabe? QUEM MAIS estaria sentado no muro duma casa, vendo a multidão frevando em Olinda para, a certa altura, virar pra colega de muro (e também irmã) e: “Bi, são três da tarde. Esse pessoal não almoça?”.

Joker

Dou um puta valor pra quem faz essas coisas, sabe? Ninguém mais faz.

Há uns anos, alguém me disse “não sei pra que colocar dedicatória/agradecimento nos seus livros, Fal, todo mundo acha uma chatice e ninguém se importa”. Bom, a moça não está errada, não.

Mas eu, eu dou valor presse tipo de coisa.

(Pode ser só blablablá pra  angariar simpatia? Claro que sim. Mas eu não acho, não.)