Um Saturno definitivo

Bancos de imagens, a tinta na pele dos outros, ideias vagas,
velhas gravuras, rascunhos, “Fulano tem o braço fechado, pede a ele uma opinião”, antigas fixações. Roubei até um gatinho da Iara. E a conclusão é sempre a mesma, a única coisa que posso suportar em mim é você.

#domingo-caderninho

Tintureiro blues



W., quase tudo, sempre. Sherlock Holmes, livros de paleontologia de meu pai, você trabalhando em silêncio comigo no skype de microfone aberto, como se fosse na mesma sala, mas eu não tenho que pentear o cabelo. Ricota, salsinha, melão. Brigadeiro, jabuticaba, limão. Pilhas AAA, peça pro DVD, mil saquinhos de cravo. Chuva, não muita. Calor, muito. Dor no coração. Fones, lenços, um presente para o Tavo. Falta do que não existe, como escreveu a moça, aquela, sobre a eterna ausência que está lá. Célia, esmalte, um livro do Almeida Reis. Cigarros, brinquedos para o gatinho. Saudade de você. Doces no japonês. Caramelos. Recarregador do celular que some, que reaparece, que some, que some. Tradução de cenas que fariam corar um fiscal de saúde pública. Viúvas idosas e senis não deveriam sequer ler, que dirá traduzir tais coisas. Você cantou para mim no dia do meu aniversário e eu chorei em silêncio com a boca no telefone. Mouse vermelho quebrado, água tônica gelada, filme do Toranques dez mil vezes por dia. A promessa de um almoço dia 9, com abraços e suspiros. Tintureiro (quem me vê escrevendo procê, W., vai logo pensar que vivo em bailes, reparou que sempre te conto que tou, fui ou vou ao tintureiro?). Frases novas do velho Frost, porque sem ele não dá nem para começar, como me lembrou  V. Rugas nos cantos dos meus olhos, manchas senis, poros aberto, um inventário de fatalidades. Choro no travesseiro de quando em vez, de manhã finjo que não. Choro no ônibus, três dias atrás, uma senhora gorda (nós duas naquele banco era coisa de se ver), parecida com minha Dada, colocou a mão sobre a minha na Paulista e só tirou na Estação São Judas. Descemos, ela perguntou se eu ia direito para casa, e eu menti que sim. Ela fez um sinal da cruz na minha testa. Quando estranhos piedosos começam a encomendar sua alma numa calçada imunda da avenida Jabaquara é hora de deixar os negócios em ordem. Esperei que ela descesse a escada no metrô. Cirurgia na gata, banho no cachorro. Um tinteiro de cristal. Relógio. Falei da água tônica? Falei da dor no coração? Me dá pela milésima vez seu celular e me diz que posso ligar uma vez a cada morte de papa na hora do seu almoço (se é que vocês, os guerreiros da liberdade, almoçam).

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Nunca liguei. Nunca. Quer dizer, liguei sem querer, meio tropeçando, descendo a escada de soquinhos, carregando celular, três canecas e o restinho da minha dignidade, batendo nos móveis, tropeçando nas flores do tapete, protagonizando cenas de humor físico que fariam o velho e bom pai Freud reescrever uns três ou quatro livros. Mas nunca liguei de propósito. Gosto de dizer que era “medo de incomodar”, mas ambos sabemos, era medo da inevitável rejeição.

Nunca liguei, mas escrevi para você. Por anos.

Teve um tempo em que eu escrevia para você, como se isso fosse uma coisa que alguém como eu pudesse fazer. Hoje, a consciência da minha falta de noção naquela época me faz encolher os dedos dos pés. Eu não enxergava o ridículo, mesmo, nunca me dei conta.

Eu tinha um apelido pra você naquele tempo, devidamente roubado pelo ladrão de biografias, um apelido que deixei de usar no mesmo instante em que notei o latrocínio. Agora você é W., um codinome de espião da Segunda Guerra, não parece? .


Mudei a trilha sonora do blog, mudei seu nome na lista do gerenciador (o único ato de rebeldia que posso bancar no momento), mudei a eterna cor do esmalte e o lugar da cama do cãozinho. Chegou a hora de produzir ficção, diria um velho treinador de textos que tive há muito tempo. No meu caso, chegou a hora de produzir uma ficção que não envolva você e as coisas que escrevi para você.

O que é e o que não é nosso dever

A canção dos anos 1980, a década da qual jamais nos livraremos, pergunta se você ainda pensa em mim. Sei que não e te odeio por bem mais de um segundo, meu bem, bem mais.

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suportes materiais que registram, de forma indelével, meu pasmo, minha irrelevância, meu pavor diante da vida, meu imenso amor por você

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Zotto acolá esmerilhando numa milonga, e eu aqui, procurando por adjetivos que sei que não existem.

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Péssimo momento histórico pra começar a ler O conto da aia, dona Fabia.

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Rio em setembro (talvez), Curitiba em junho (bota talvez nisso) e já é quase segundo semestre desse ano irreal.

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Escolher é o verbo mais cruel. E o mais necessário.

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Pera e gorgonzola numa varanda que não é minha. A colcha cheira a Anais Anais e mal posso acreditar que ela seja necessária em algum lugar de São Paulo num abril que mal começou. Escolhi uma caixa cheia de saquinhos de chá, dei aula, contei o número de comprimidos na latinha, quase fiquei enjoada e não disse uma palavra sequer. A mão morena de alguém colocou mel no fundo da xícara. Em algum lugar da casa, Vinícius morre de amores, palmas marcam o ritmo e acho que ouvi uns latidos. Mas até domingo, nada disso é problema meu.


foto de: Ferdinand Schmutzer, 1905 . Como sempre, desconhecemos o nome da modelo. Pra que saber o nome da mulher, né, gente. Se alguém souber, me ensina.




Bom dia, seus lindos.

Ela, sim, a semana, começou.

E nós, sim, você e eu, começamos também.

Vamos ver que surpresas o país governado pelo twitter nos trará essa semana.

Coragem, gente. Muita.

Uma revista é uma revista é uma revista

Devagar, o Drops em Revista vai ficando com a cara que deve ficar. Toda vez que me enfio num negócio novo sou obrigada a admitir o tanto que não sei. É confortável ficar andando em torno do que eu-sei-que-eu-sei, se achando a boona (não que eu me ache, dr. Luiz Estevão, Mariana Aldrigui e eu concordamos que tenho o amor-próprio dum lagarto morto pela roda da carroça). Ou, vejo muito, fácil também é brincar de “ah, não, sou importante DEMAIS pra participar”.
Mas quando se mete a mão na argila para se arriscar de novo (isso deveria ir escrito na minha lápide se um dia eu morresse), é que fica claro: você é um ursinho-panda-bebê, não sabe nada, seus olhos estão fechados, você não tem pelos, história, acervo, não sabe andar, nem ler, nem escrever e se pá, mal consegue rastejar sobre o corpo da sua mãe em busca da teta perdida. Você é um zé mané, ursinho-panda-bebê-burrinho, não se meta a fazer revistas. Você não sabe nada, camarada. Você não sabe selecionar imagem, não sabe fazer editorial (para isso, pelo menos, temos Claudio Luiz pra roubar o mote), não sabe definir linha editorial. É mais ou menos isso. Mas eu vou aprender. Tou aprendendo. Pelo menos, até aqui, já aprendi que não sei quase nada.
Ah, sei uma coisa: tenho temos (vamos botar Suzi Márcia nesse B.O.) uma dívida de coração para com os excelentes colaboradores que toparam, como sempre, participar da primeira edição de um projeto ainda sem grandes definições, um experimento que vai se desenhar lentamente. O que o vulgo chamaria de roubada.
Priscila, Claudio Luiz, Mariana, Renata, Ricardo, Ana Paula, Luciana: vocês são nossa tropa de choque emocional, nossos paraquedistas do infinito, nossos stalones-achando-a-saída-do-túnel. Somos imensamente gratas. Não vamos esquecer nunca de que vocês estiveram na primeira edição, e esperamos que aceitem quando forem convidados de novo. Perdoem a inexperiência e a total leseira das editoras. Estamos aprendendo e, na próxima vez em que vocês forem chamados, estaremos mais espertonas. Obrigada, obrigada, obrigada.

PS: queridos se ofereceram para escrever no Drops em Revista, o que nos alegra e emociona. As próximas edições estão alinhavadas e vamos devagarim fazendo os convites .