Livros ensopados, soluços, o Stra e a onipresente Salmaso

Né nada modesto isso que vou fazer. Mas eu tava tão triste. Nem sei mais o que é tristeza, o que é cansaço a essa altura de um domingo de trabalho pesado – e nada agradável. Joguei metade da casa fora, não porque sou desapegada de bens materiais e sim porque a chuva me obrigou (Oi, chuva, te amo, mas né, vai se danar).

E daí, fui ler emeinhos acumulados e tava lá o Stra. Sendo incrivelmente gentil com uma senhorinha cansada e meio solucenta.

Então é isso. Pedi autorização, ele deixou. Boto aqui o mais incrível dos elogios. Feito por um amigo de infância, esse caras que elogiam a gente para muito além do que a gente é ou é capaz, mas né, a gente deixa, porque está triste e cansada e é bom de ouvir e, por um segundo, acreditar .


“Que lindo link com o final do show do Lobo, Fal! Que lindo a música, a idade de todos (inclusive a nossa), a beleza da Salmaso (que linda que ela está! envelheceu embelezando, a cafa!).
Enquanto ouvia a música, embasbacado com a voz da Monica (como todas as vezes que a ouço), me veio a explicação do universo. Que tem a ver com uma queixa que ia fazer a ti, depois de ver seu site novo. Mas aí fui no Edu Lobo e tudo ficou claro.
A queixa que eu ia dizer era que não eres só escritora. Eres cantora e sabes disso e eu sei disso, e tenho toneladas de horas na vida e (ainda) na memória que comprovam isso. Tinha uma fita cassete sua que comprovava isso, mas sabes né? Tudo físico meu se perdeu por aí, inclusive meu corpitcho.
Mas voltando, ao ver teu link e Salmaso cantando, entendi tudo.
Porque eres uma artista completa, daquelas que nasceram pra ser artista, de circo, de róliud, da globo. Isso deverias dizer no teu site novo, quando em terceira pessoa tipo Pelé, dizes quem és. Eu tascava: artista. Mas entendo que soa raro, como se diz aqui. 
E em algum momento, ouvindo e vendo a Salmaso, tudo ficou claro pra mim. O universo te deu tudo pra ser a artista plena de todas as artes. E em algum momento tu disseste que cantora não. Sei lá porque e nem quero entrar nisso. Terás teus motivos e os respeito. Mas quando disseste isso pro universo, ele respondeu. “Ok, fellows, pois os tasco uma Monica Salmaso, que é igual de bom e o universo (eu mesmo, veja só), não posso ficar sem a musicalidade afinada e sentida dessas duas que são uma só.”
Então Salmaso surgiu no seu vácuo, porque tudo que existe precisa acontecer. E aconteceu a Monica cantora e a Fal escritora. E agora tudo fica claro e não preciso fazer a reclamação. Eres cantora, mas isso está em Monica. 
Um dia perguntaremos se o lado escritora da Monica gerou a Fal. Mas isso fica pra outro dia.
bj saudoso de dar abraço de 30 segundos.

Marcelo Estraviz

Si todo cambia

Há muito tempo, tive um amante que me ensinou com palavras e na prática: não existe amor sem ressentimento.

Amar, por mais maravilhoso e transformador que seja, cobra um preço. Nunca insignificante. Nunca em apenas uma prestação. Nunca sem juros e correção monetária e não, não aceitam esse cartão.

O Drops é meu amor. Meu grande amor.

Não vou explicar o que é um blog, todo mundo já sabe. Nem vou discutir se é possível fazer literatura em blog. Participei de uma jornada literária há quase vinte anos, na mesma mesa que os enormes Alexandre Inagaki e Idelber Avelar (eles, uns monstros da blogosfera, eu, um café-com-leite-babão) e já naquele tempo afirmávamos: o que se faz em blogs é literatura. O tempo, esse lindo, só nos deu razão.

Sigo no Drops, há dezessete anos, fazendo literatura. Boa literatura. Consistente, cuidada, boa mesmo. Hahahaha, não vou bancar a sonsa, adoro o que escrevo, pelamor. Produzo aqui no Drops a literatura que sei e posso produzir, a literatura que amo. E faço amigos. E aprendo coisas, e leio coisas novas que me chegam nessa prainha, há tantos, tantos anos.

Vou dizer: amo esse pedaço de chão. Adoro vir aqui. Seja lá onde “aqui” for. Passamos, Drops e eu, por mais mudanças e solavancos do que é humanamente possível explicar. Ele nunca falhou. Nunca titubeou, nunca hesitou.

Eu, às vezes, empaquei. E hei de empacar de novo e de novo no futuro. Errei, me perdi, esqueci a senha, taquei longe os dicionários. O Drops, nunca. Ele nunca falhou. Nunca deixou de estar.

Redes sociais vêm e vão, jornais, partidos, condomínios blogueiros, modinhas, coletivos de textos, todos esses trens passam e passam.

O Drops está aqui. O Drops não vai a lugar nenhum.

Temos fotos, turma. E canecas, e desenhos, revista com artigos dos queridos, sacolas, quadrinhos e folhetim assinado por convidada especial (em breve, aguardem), fotonovelas em portunhol (em breve, aguardem, de novo). Temos musiquinha (MUSIQUINHAAAAAA) e linques para outras casas lindas – fiquem de olho nessa barrinha lateral porque ela vai ser uma riqueza. E temos comentários em todos os posts! Sim, sim, falem comigo!

Mas antes de qualquer outra cousa, temos textos. Textos, sei que vocês se lembram. Textos.

E, ah, temos vida, temos vida, temos vida. Estamos atentos, fortões pra cacete e, como sempre, desbocados. Estamos firmes. Pode não parecer, porque essa vida nos quer de joelhos, mas estamos firmes. A cada dia, a cada instante. Firmes, firmes.

Vamos produzir. Vamos ser autorais. Vamos vamos colocar em palavras, vamos relembrar, afofar, destruir, definir, esquecer, confundir, avaliar, julgar, atacar e perdoar, vamos dar forma aos pensamentos e aos desejos e aos anseios e aos quereres.

Se havia ressentimento, nós o superamos.

E escrevemos, todos os dias, sempre, sempre, caneta tinteiro em punho, mãos manchadas de azul, municiados com teclados afiados, monitores radioativos, livrão de citações do Paulo Rónai, canetinhas de flamingo e cadernetas que a Telinha compra para nós na Casa Cruz.

Nossos corretores ortográficos em riste, chispas nos olhos, fúria no coração.

Ergamos o rosto para receber o vento e sigamos em frente.

Uma palavra de cada vez.

O Drops, como Minas, está onde sempre esteve. Ainda que o endereço, ali na barrinha de navegação, às vezes precise ser atualizado.

Vem cá, meu bem.

Faça um pé descalçar o outro, acomode-se com um gato no colo – tenho vários, pode escolher –, apanhe uma taça, dê um abraço na Suzi Márcia (ela merece todos os abraços) e brinde comigo pela vida: a sua, a minha, a do Drops.

Cent’anni.

Que vivamos cem anos.

Todos nós.

A vida cotidiana, essa fonte de lugares-comuns, chatices e horrores

Deus abençoe meu retraimento, minha desconfiança e minha timidez. Não necessariamente nessa ordem.

*

Brasil, tem quase dois meses que você se livrou do socialismo cruel, tá se sentindo melhor, amole? Mais free, mais fresh, mais in, mais cool?

Tá bão.

*

Leite em pó. Que morte horrível. O problema com leite continua nessa casa. Um litro – agora que Maliu não pode mais beber leite – é coisa demais pra mim, estraga direto, preciso de um tico no meu café com leite matinal e fim… Mas leite em pó nem pensar. Que troço odiento.

*

Segunda temporada de La trêve. Então. Não é a batatinha mais crocante do pacote, mas né, estou esperando pela nova temporada de The west wing, pela nova temporada de Mash.

Nunca mais vi meu amigo

Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo. Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.

Menu dégustation: abril

Coisas vistas & ouvidas & preparadas & assistidas & comidas & visitadas; mas não todas, não tudo, não todo o tempo.

Suzi Márcia, que tinha feito cartazes do Drops mês passado, nesse mês fez bonecos do Maximus e seus amiguinhos, bolsa linda e abriu grupo do Drops lá no feissy. Eu só fico olhando de boca aberta, achando tudo lindo demais. Estraçalhei meu braço dum jeito patético-burro-tonto-trapalhão-porrafal e Suzi também está cuidando da digitação geral e absoluta. Quem tem Suzi tem tudo.

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Graças a Fabiana Mesquita e Mariana Aldrigui, tem equipamento funcionando nessa casa.

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Fiz tortas salgadas lindas. Lindas. Elas ficam com o queijo derretidinho, com a crosta dourada, umas belezocas.

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Vi:

A série Happy, na Netflica. Que coisinha bem pensada e engraçada. 

A série Borderliner, também na Netflica, achei fuéééén.

A série Counterpart, em meio alternativo de entretenimento, oia, MUITO AMOR. 

E só. Não vi filmes, não vi coisa alguma além das séries supracitadas, porque a Netflica vai tirar Supernatural do ar H-O-J-E e eu fiquei maratonando e maratonando, com o coração cheio de saudade antecipada. Não tá certo isso, não.

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Li muita coisa sobre a vida de Monet. Achei que conhecia o cara e, como sói acontecer, constatei que não se sabe coisa alguma da vida dozotros. 

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Reli, cheia de assombro e o horror da total identificação, A invenção da solidão, do Auster. Pelamor.

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Dei uma parada com o livro do Peter Gay, mas já voltei pra ele.

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Li O buda no sótão. Que livro. /o\

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Graças ao meu amigo Sérgio e sua generosidade, estou lendo Rex Stout como uma viciada. No fim de maio eu faço a lista do que li, porque já comecei a me perder.

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Testemunhei o desmonte da casa de um amigo. Foi mais ou menos como o desmonte da minha. Odeio mudança. Mudanças.

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Minhas plantas tão crescendo que nem uns bebezinhos. Inclusive minhas suculentas, que chegaram aqui do tamanico de meio brigadeiro e quase mortas.

(chamo as suculentas de leguminosas, só pra fazer Maliu rir).

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Foi isso. Abril foi um mês lento.

Abril de 2018


Notas rápidas duma digitação errante

Deve haver alguma espécie de explicação pra sem-noçãozice, a sua, a minha, mas né, a NASA não liberou o material, de modos que só observo a pessoa circulando alegremente entre o resto do pessoal, fingindo que olha, tudo bem.

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A filha da amiga tem cinco anos e não se conforma quando vê a cena na casa dela ou aqui: um adulto, com a tevê desligada, lendo um livro feito de papel. Ela esteve aqui e não queria conversar ou fazer gracinha ao me cercar enquanto eu lia. Estava mesmo impressionada. “Você fica que nem a minha mãe, sem se mexer, lendo, lendo. O seu livro não pisca”. 

Não emito juízo de valor, quem ama o passado pelo passado e não as coisas legais do passado, que volte a tomar banho de canequinha, mas ler livros me parece ser uma daquelas atividades que, muito em breve, vai se unir a bater manteiga, acender o lampião, levantar-se pra torcar o canal da tevê (com bombril na antena), casar por procuração e fazer a América.

Eu e meus livros que não piscam, graças a Deus, em extinção acelerada. Que São Darwin nos abençoe.

*

Filmes velhos na Netflix. Obrigada, civilização ocidental.

*

Meu braço tá uma chatura e eu não quero mais falar dele.

Segundo semestre de 2018

Poeminha sobre velas de maçã; roupa de cama; bolachinhas de goiaba e a imensa falta que você me faz

Tudo quieto no meu quarto, 

tudo ali estava bem

nem um cisco se mexia, 

nem um rato, 

nem um trem,

mas ao me levantar, 

em busca de dicionário honesto

sou alarmada pela algazarra

coisa que, de hábito, detesto.

Para apanhar o meliante, 

viro-me de supetão,

e eis que constato aflita:

sobre minha cama, 

o cão.

É um cão novo, redondo, 

bobinho e feliz

que ama todo mundo, 

que suja de leite o nariz,

faz dos gatos, irmãozinhos,

gosta da Maliu e de mim

gosta de desenho animado,

de balas e chá de jasmim.

Ele está sempre alegre, 

está sempre agitado

está sempre com fome, 

nunca parece cansado.

E agora, em minha cama, 

late, se agita e brinca

como se fosse um dia gentil,

numa semana boa, 

num ano sensato,

como se não fosse o Brasil.