Mais um dia nacional do livro?

por Ana Cristina Rodrigues

Todos os anos, as redes sociais são tomadas por uma série de efemérides (nem acredito que consegui usar essa palavra) ligadas ao mundo do livro. Dia Mundial do Livro, Dia do Leitor, Dia do Livro Infanto Juvenil… Quando chega outubro e começam a aparecer as postagens sobre o Dia Nacional do Livro, todos estão de saco cheio e resmungam sobre a necessidade de ter tantos “dias do livro” assim. Mas o dia 29 de outubro tem um bom motivo para ser comemorado no Brasil – e ser o nosso dia nacional do livro.

Sabem a Europa pós-Renascimento? Universidades florescendo, livros sendo impressos, o humanismo surgindo? Bem, a distribuição pelo tal “Novo Mundo” não foi muito igualitária. Portugal, preocupadíssimo em manter suas posses seguras e protegidas, não permitiu a abertura de universidades, não permitiu que a imprensa se estabelecesse aqui. A circulação de ideias dentro do Brasil era limitada e informações sobre o Brasil eram censuradas abertamente – um dos documentos mais reveladores sobre as estruturas econômicas do nosso país no século XVIII, Cultura e opulência do Brasil do jesuíta Antonil, teve todos os seus exemplares recolhidos e destruídos por ordem da Coroa.

Ou seja, éramos tão colônia, mas tão colônia que nem a Inquisição tinha filial aqui. Às vezes, mandava uns visitadores para vigiar se nossos genitais estavam sendo utilizados da forma certa, porque afinal existem prioridades, mas sem estabelecer tribunal aqui porque não era para tanto.

Acontece que um corso invocado assumiu o governo da França e resolveu invadir Portugal. A família real fez a coisa mais sensata no momento e fugiu para o Brasil em 1808. Só que isso inverteu a ordem natural que eles mesmos tinham estabelecido por séculos. A colônia oprimida e obscurecida virou metrópole. E aí?

Aí, foi correr para recuperar o tempo perdido. Pintar paredes, urbanizar a área do porto, expulsar as pessoas das suas casas… Deixar o Rio de Janeiro, nova residência da família real, com cara de Corte – no mínimo. E, claro, acomodar os pertences todos nos prédios a serem ocupados pelos nobres lusitanos. Em “pertences”, estavam incluídos aproximadamente sessenta mil itens de interesse “cultural”, entre livros, medalhas, mapas e moedas.

E você aí, reclamando da estante cheia.

Uma coisa curiosa é que boa parte da coleção de livros inclusa nessa contagem era uma aquisição relativamente recente da família real. O terremoto que acabou com uma boa parte de Lisboa em 1755 prejudicou muito a Biblioteca Real que ficava no palácio da Ajuda. Procurando restaurar a coleção, a Coroa adquiriu a coleção do abade Diogo Barbosa Machado, que incluía livros sobre os feitos de Portugal, vidas de santos e nobres – e uma coleção de gravuras cuidadosamente montada pelo próprio abade, que as recortava de outros livros para colar em volumes únicos e temáticos.

A coleção do abade atravessou o oceano encaixotada, junto com a nata da nobreza portuguesa. Mas ao chegar no Brasil, ficou sem teto, assim como seus companheiros, por algum tempo. Até que em 1810, arranjaram um porãozinho no Hospital da Ordem Terceira, ali no centro do Rio de Janeiro, para acomodar todas aquelas muitas peças. Assim, em 29 de outubro de 1810 foi inaugurada a Real Biblioteca, acessível apenas a estudiosos com autorização régia.

Então, isso mesmo: o nosso dia nacional do livro é o aniversário da Biblioteca Nacional – o nome definitivo veio em 1876, depois de várias aquisições, reformas e uma primeira mudança, para o prédio onde hoje é a Escola Nacional de Música. (Os cariocas conhecem o prédio como aquele que tem a parede pintada com a parede do prédio, ali entre a Lapa e o Passeio).

Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro

Mas como as coisas no Brasil são sempre complicadas quando se trata de cultura, a Biblioteca sofria com orçamentos apertados, falta de funcionários e instalações cheias de problemas. Sim, no século XIX os bibliotecários-chefes já reclamavam disso. Quanto mais as coisas mudam…

A segunda grande mudança da Biblioteca Nacional veio junto de uma grande mudança do próprio centro da cidade, agora já capital federal da República. A reforma de Pereira Passos deu à Biblioteca Nacional a sua sede até hoje, 2019 – um prédio arrojado e pensado para ser a casa de uma coleção bibliográfica gigantesca em 1910, mas que atualmente sofre para receber e acomodar a memória livresca nacional.

O prédio anterior estava mesmo pequeno, principalmente depois de receber a doação do imperador exilado – mais de cem mil volumes, na coleção que hoje é chamada de Coleção Teresa Cristina Maria. A Biblioteca Nacional não foi a única beneficiária desse ato, pois além desses livros, Pedro II deixou o palácio de Petrópolis com móveis e utensílios, base do atual museu imperial. E claro, a sua maior contribuição para a ciência brasileira foi a doação da coleção de artefatos históricos e arqueológicos que deram origem ao Museu Nacional: múmias, fósseis, meteoritos, peças da antiguidade clássica. Infelizmente, o republicanismo de resultados dos últimos anos deixou que essa parte do legado ardesse – e se o caminho continuar sendo o atual, nem a parte que sobrou está segura.

Nada mais justo que o aniversário da Biblioteca Nacional ser o dia nacional do livro. Além de ser parte fundamental da história da leitura e da literatura em nosso país, a Biblioteca é onde fica o registro oficial dos direitos autorais de obras literárias (através do Escritório de Direitos Autorais) e é a responsável pelo cumprimento da lei de Depósito Legal, que diz que todo o livro publicado no Brasil deve ter um exemplar enviado para o acervo da BN. Também já foi, por algumas vezes, parte da política nacional do livro e da leitura, mas essas iniciativas acabam sendo governadas mais pelos quereres políticos do que pelas demandas do Estado, e a Biblioteca perdeu boa parte desse projeto com a saída do Programa Nacional de Incentivo a Leitura e do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Mesmo com todas as dificuldades – lembram dos orçamentos apertados, da falta de funcionários e das instalações cheias de problemas – a Biblioteca resiste. Seu projeto de digitalização de obras é reconhecido no mundo todo e as fotos doadas pelo imperador são consideradas patrimônio cultural da humanidade. Pesquisadores usam suas obras para desvendar o passado e buscar respostas para o futuro. Escritores e cineastas protegem seus direitos autorais e guardam seus originais no depósito. Ela é o símbolo nacional do livro, uma pequena amostra da riqueza que geramos em pouco mais de dois séculos de liberdade de pensar (mesmo que por vezes limitada e censurada).

Ana Cristina Rodrigues é escritora, historiadora e tradutora, além de servidora da Biblioteca Nacional desde 2006. Seu primeiro romance, Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, fala de memórias, lembranças e uma cidade-biblioteca, podendo ser comprado em pré-venda no link https://www.lendaristore.com.br/atlas

Não vou mais levar você para ver um filme nacional

por Patricia Daltro

–  Você me trouxe para ver um filme nacional? Desde quando um filme nacional presta?” –  pergunta a personagem dentro do filme assistido pelas personagens do filme “Os Farofeiros.”

Como se dialogassem entre si. A personagem que assiste ao filme, representada pela atriz Danielle Winits completa:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real.

Imediatamente a personagem na tela repete a fala da primeira:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real. Não é verdade, gente? Hum?

Neste pequeno e metalinguístico diálogo vemos a essência do que o cinema nacional ainda representa no imaginário popular. Filmes brasileiros não prestam. Ou são tão autorais, que se restringem a um seleto publico que “os entende”, os famosos filmes “cabeças” ou se resume a putaria e palavrão. Esta mentalidade não surgiu do nada. Foi construída e pavimentada por décadas, regadas à falta de incentivo financeiro, censura e tecnologia obsoleta, além da competição injusta com as produções hollywoodianas.

Podemos dividir a história do cinema nacional em momentos distintos, até agora.

Por incrível que pareça, foi na década de 1970 que o cinema nacional alcançou seu auge. Embora tenha sido durante a ditadura que tenham sido criadas a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filme) e a Concine (Conselho Nacional de Cinema), que fomentaram a produção cinematográfica, a mesma, restringia, através da censura, a diversificação da produção. Restou aos cineastas nacionais burlarem o sistema com histórias ufanistas, bibliográficas, infantis (Os Trapalhões como grande expoente), e, é claro, a pornochanchada, que levou à população a lotar suas salas – embora restritas a uns poucos cinemas.

Com a retomada da democracia, era de se esperar que, assim como na música e em outras produções culturais, o cinema também se reestruturasse e trouxesse novos ares e temáticas. Mas, a crise econômica dos anos 1980 e a recessão que assolou o país durante os primeiros anos da década de 1990, ocasionou a quebra do cinema nacional. Salas foram fechadas, produções canceladas. O auge da crise aconteceu durante o governo Collor de Mello que suspendeu, através de medidas provisórias, quase todos os mecanismos de incentivo, extinguindo a Concine e a Embrafilme, ações que levaram a estagnação quase completa das produções nacionais.

Somente após a deposição do presidente Collor, a criação da Lei Audiovisual do presidente Itamar Franco, as políticas estatais de fomento à cultura do presidente Fernando Henrique e a lei Roaunet, promulgada pelo presidente Collor, mas que só veio a funcionar, mesmo timidamente, nos meados dos anos 1990, foram sem dúvida, as ferramentas propulsoras deste movimento de retomada do cinema nacional. O advento de novas tecnologias, de linguagens mais atraentes ao público em geral e a entrada em cena de novos cineastas, que trouxeram diversificação ao cinema, consolidaram esta etapa.

O filme tido como marco inicial deste período foi Carlota Joaquina, de Carla Camurati, lançado em 1995, primeiro filme nacional da década a levar mais de um milhão de pessoas ao cinema.

Imagem de divulgação do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil de Carla Camurati

O filme produzido com baixo orçamento, trazia uma nova forma de contar a história do Brasil. A chegada da corte portuguesa às terras brasileiras, tendo a princesa Carlota Joaquina como a protagonista e trazendo um d. João VI caricato e glutão, utilizou uma linguagem pautada no humor ácido, tão em alta nessa década, uma relação que flertava com a teledramaturgia do horário nobre das TVs, que caiu no gosto popular e abriu os portões para que outros explorassem esta e outras linguagens.

Encerraria esse texto aqui, desejando um final feliz para o nosso cinema, com quase duas décadas de sucesso, com produções chegando aos milhões de espectadores. Mas, a triste verdade, é que hoje vivemos novamente, um período obscuro, onde não apenas uma recessão e restrições financeiras ameaçam nossa história cinematográfica, mas também, restrições de ideias, mental e cultural, sem dúvida, esse é o período mais perigoso que nosso cinema já enfrentou até hoje.

Patricia Daltro é artesã e escritora. Ela pode ser encontrada aqui: http://avidasemmanual.blogspot.com/

Abigail, uma Andrade

por Rita Paschoalin

Oswald, Carlos, Mário. O sobrenome Andrade aparece fácil nos índices remissivos da arte brasileira. O culto pelos Andrades nasce cedo, lá no fundão da sala de aula. Sempre masculino, o sobrenome dita a trilha da leitura modernista do país: siga por Pindorama, insulte o burguês, tenha nas mãos o sentimento do mundo.

No entanto, anos antes de nascer o menino de Itabira ou de se acenderem os escândalos do amor intransitivo, e antes de clamarem que só a antropofagia nos salvaria, o nome Andrade já tinha feito casa nas artes deste país confuso. Num tempo em que os manifestos que inauguraram a modernidade por aqui ainda não tinham sido proclamados, o nome Andrade já traçava não o verso no jornal, mas o pincel nas telas, e deixava um rastro mais sutil do que a pedra no caminho.

Pode-se divagar livremente sobre as razões da invisibilidade feminina na história oficial da arte mundial no século XIX. O fato é que “o” Andrade que pisou o campo das artes antes de nossa tríade mais famosa era, na verdade, uma Andrade.

Quem circulou pela 26ª Exposição Geral de Belas Artes no Rio de Janeiro, em 1884, teve acesso a quase quatrocentas obras de setenta e cinco artistas. Era um ano de grandes transformações aqui e ali. Ceará e Amazonas aboliam a escravidão, o que só ocorreria quatro anos depois no restante do país; a Europa fatiava o continente africano. No Rio, a 26ª Exposição Geral foi a última — e a maior — realizada durante o Império, cinco anos antes da derrubada da Monarquia. A ocasião foi glamourosa, e o catálogo da exposição, custeado por uma renomada galeria de arte do Rio, foi ilustrado por esboços feitos pelos próprios artistas expositores. A grandiosidade do evento foi repercutida pelos principais jornais da época e prestigiada por notáveis críticos de arte.

Entre muitos outros, o elenco de artistas da grande exposição de 1884 incluía nomes como Pedro Américo, o paraibano que logo pintaria seu célebre Independência ou Morte, e Zeferino da Costa, autor das pinturas da cúpula na Igreja da Candelária. Abigail de Andrade, uma moça de apenas vinte anos, natural de Vassouras/RJ, foi uma das quatro mulheres entre os setenta e cinco artistas da exposição. Dentre pinturas, cópias e estudos de desenho, Abigail exibiu quatorze obras no maior evento de artes do Segundo Reinado.

Apenas oito anos depois, em 1892, as mulheres passariam a ter direito de frequentar a Academia Imperial de Belas Artes. Na época da exposição, Abigail estudava há dois anos no Liceu de Artes e Ofícios do Rio, que desde 1881 aceitava alunas na escola. Em linhas gerais, as mulheres artistas da época contavam apenas com aulas particulares ou eventuais aulas livres oferecidas pela AIBA.

Um canto do meu ateliê – Abigail de Andrade


Mesmo sem acesso à formação oferecida pela Academia Imperial, Abigail foi agraciada com a Primeira Medalha de Ouro da grande exposição de 1884, graças ao destaque conseguido pelas telas Cesto de Comprase Um canto do meu ateliê. Foi a primeira mulher a ganhar a medalha, e gosto de pensar que ela rompeu limites e abriu uma janela que nos mostraria, no século seguinte, as cores de nomes como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

Ainda que seu nome não apareça em nossos índices com a mesma assiduidade de outros Andrades que amamos, uma espiada em reproduções das telas de Abigail pode nos surpreender. É fácil imaginar que o silêncio em torno de seu nome reflita mais o espaço negado às mulheres nas academias de arte no século XIX do que a qualidade de seu trabalho.

Cesto de compras – Abigail de Andrade

Imagino os críticos de arte do salão em 1884 diante da variedade de materiais retratada em Cesto de Compras — a madeira da mesa, o metal das moedas, a palha do cesto, as raízes das hortaliças sobre a gaveta esquecida aberta por quem correu para pintar outra luz, uma paisagem, um retrato, romper outro limite. Abigail existiu, foi Andrade, pintou, desenhou e fez da arte profissão, um feito e tanto para uma mulher de seu tempo.

Abigail também amou. E escandalizou, como as personagens do amar intransitivo do outro Andrade. Mudou-se para Paris na companhia de um amor proibido e lá, na terra da arte e da luz, morreu em 1890. Tinha apenas vinte e seis anos. O alvoroço em torno do romance com o celebrado cartunista Angelo Agostini encerrou a convivência de Abigail com a comunidade artística e ajudou a apagar seu nome de nossos índices.

Mas sempre há tempo. Talvez mais humana do que a moral, a arte resiste. E aí penso no cinema, que adora nos jogar nos salões e suores do século XIX — que belo filme não daria a vida de Abigail?

***

Infelizmente, as telas de Abigail de Andrade atualmente compõem coleções privadas e se encontram (ainda) inacessíveis ao grande público.

Estendendo a roupa – Abigail de Andrade

Da união de Abigail de Andrade com Angelo Agostini, nasceu Angelina Agostini, também pintora (1888-1973). Angelina fixou-se em Londres a partir de 1914 e expôs em importantes galerias da Inglaterra e da França. Retornou ao Brasil na década de 1950 e foi agraciada com Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes de 1953. O quadro Vaidade, pintado por Angelina em 1913, integra o acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Rita Paschoalin lê, traduz e escreve. Acredita piamente que só a arte nos salva e nos justifica.

A volta triunfal da nossa proverbial mulher pelada das segundas-feiras

Foto de Henry B. Goodwin , 1920
Não sei o nome da modelo 😦

Vim só para dizer que a semana começou. E, com ela, volta a nossa proverbial mulher pelada das segundas-feiras.

Tem nada melhor do que ser dono do próprio site, seus lindos.

Bão, pelo menos até o WordPress resolver ser idiota também, feito o finado Tumblr.

Daí veremos pronde vamos levar nossos mamilos vintage.

Por ora, aqui estamos. 🙂

Livros ensopados, soluços, o Stra e a onipresente Salmaso

Né nada modesto isso que vou fazer. Mas eu tava tão triste. Nem sei mais o que é tristeza, o que é cansaço a essa altura de um domingo de trabalho pesado – e nada agradável. Joguei metade da casa fora, não porque sou desapegada de bens materiais e sim porque a chuva me obrigou (Oi, chuva, te amo, mas né, vai se danar).

E daí, fui ler emeinhos acumulados e tava lá o Stra. Sendo incrivelmente gentil com uma senhorinha cansada e meio solucenta.

Então é isso. Pedi autorização, ele deixou. Boto aqui o mais incrível dos elogios. Feito por um amigo de infância, esse caras que elogiam a gente para muito além do que a gente é ou é capaz, mas né, a gente deixa, porque está triste e cansada e é bom de ouvir e, por um segundo, acreditar .


“Que lindo link com o final do show do Lobo, Fal! Que lindo a música, a idade de todos (inclusive a nossa), a beleza da Salmaso (que linda que ela está! envelheceu embelezando, a cafa!).
Enquanto ouvia a música, embasbacado com a voz da Monica (como todas as vezes que a ouço), me veio a explicação do universo. Que tem a ver com uma queixa que ia fazer a ti, depois de ver seu site novo. Mas aí fui no Edu Lobo e tudo ficou claro.
A queixa que eu ia dizer era que não eres só escritora. Eres cantora e sabes disso e eu sei disso, e tenho toneladas de horas na vida e (ainda) na memória que comprovam isso. Tinha uma fita cassete sua que comprovava isso, mas sabes né? Tudo físico meu se perdeu por aí, inclusive meu corpitcho.
Mas voltando, ao ver teu link e Salmaso cantando, entendi tudo.
Porque eres uma artista completa, daquelas que nasceram pra ser artista, de circo, de róliud, da globo. Isso deverias dizer no teu site novo, quando em terceira pessoa tipo Pelé, dizes quem és. Eu tascava: artista. Mas entendo que soa raro, como se diz aqui. 
E em algum momento, ouvindo e vendo a Salmaso, tudo ficou claro pra mim. O universo te deu tudo pra ser a artista plena de todas as artes. E em algum momento tu disseste que cantora não. Sei lá porque e nem quero entrar nisso. Terás teus motivos e os respeito. Mas quando disseste isso pro universo, ele respondeu. “Ok, fellows, pois os tasco uma Monica Salmaso, que é igual de bom e o universo (eu mesmo, veja só), não posso ficar sem a musicalidade afinada e sentida dessas duas que são uma só.”
Então Salmaso surgiu no seu vácuo, porque tudo que existe precisa acontecer. E aconteceu a Monica cantora e a Fal escritora. E agora tudo fica claro e não preciso fazer a reclamação. Eres cantora, mas isso está em Monica. 
Um dia perguntaremos se o lado escritora da Monica gerou a Fal. Mas isso fica pra outro dia.
bj saudoso de dar abraço de 30 segundos.

Marcelo Estraviz

Si todo cambia

Há muito tempo, tive um amante que me ensinou com palavras e na prática: não existe amor sem ressentimento.

Amar, por mais maravilhoso e transformador que seja, cobra um preço. Nunca insignificante. Nunca em apenas uma prestação. Nunca sem juros e correção monetária e não, não aceitam esse cartão.

O Drops é meu amor. Meu grande amor.

Não vou explicar o que é um blog, todo mundo já sabe. Nem vou discutir se é possível fazer literatura em blog. Participei de uma jornada literária há quase vinte anos, na mesma mesa que os enormes Alexandre Inagaki e Idelber Avelar (eles, uns monstros da blogosfera, eu, um café-com-leite-babão) e já naquele tempo afirmávamos: o que se faz em blogs é literatura. O tempo, esse lindo, só nos deu razão.

Sigo no Drops, há dezessete anos, fazendo literatura. Boa literatura. Consistente, cuidada, boa mesmo. Hahahaha, não vou bancar a sonsa, adoro o que escrevo, pelamor. Produzo aqui no Drops a literatura que sei e posso produzir, a literatura que amo. E faço amigos. E aprendo coisas, e leio coisas novas que me chegam nessa prainha, há tantos, tantos anos.

Vou dizer: amo esse pedaço de chão. Adoro vir aqui. Seja lá onde “aqui” for. Passamos, Drops e eu, por mais mudanças e solavancos do que é humanamente possível explicar. Ele nunca falhou. Nunca titubeou, nunca hesitou.

Eu, às vezes, empaquei. E hei de empacar de novo e de novo no futuro. Errei, me perdi, esqueci a senha, taquei longe os dicionários. O Drops, nunca. Ele nunca falhou. Nunca deixou de estar.

Redes sociais vêm e vão, jornais, partidos, condomínios blogueiros, modinhas, coletivos de textos, todos esses trens passam e passam.

O Drops está aqui. O Drops não vai a lugar nenhum.

Temos fotos, turma. E canecas, e desenhos, revista com artigos dos queridos, sacolas, quadrinhos e folhetim assinado por convidada especial (em breve, aguardem), fotonovelas em portunhol (em breve, aguardem, de novo). Temos musiquinha (MUSIQUINHAAAAAA) e linques para outras casas lindas – fiquem de olho nessa barrinha lateral porque ela vai ser uma riqueza. E temos comentários em todos os posts! Sim, sim, falem comigo!

Mas antes de qualquer outra cousa, temos textos. Textos, sei que vocês se lembram. Textos.

E, ah, temos vida, temos vida, temos vida. Estamos atentos, fortões pra cacete e, como sempre, desbocados. Estamos firmes. Pode não parecer, porque essa vida nos quer de joelhos, mas estamos firmes. A cada dia, a cada instante. Firmes, firmes.

Vamos produzir. Vamos ser autorais. Vamos vamos colocar em palavras, vamos relembrar, afofar, destruir, definir, esquecer, confundir, avaliar, julgar, atacar e perdoar, vamos dar forma aos pensamentos e aos desejos e aos anseios e aos quereres.

Se havia ressentimento, nós o superamos.

E escrevemos, todos os dias, sempre, sempre, caneta tinteiro em punho, mãos manchadas de azul, municiados com teclados afiados, monitores radioativos, livrão de citações do Paulo Rónai, canetinhas de flamingo e cadernetas que a Telinha compra para nós na Casa Cruz.

Nossos corretores ortográficos em riste, chispas nos olhos, fúria no coração.

Ergamos o rosto para receber o vento e sigamos em frente.

Uma palavra de cada vez.

O Drops, como Minas, está onde sempre esteve. Ainda que o endereço, ali na barrinha de navegação, às vezes precise ser atualizado.

Vem cá, meu bem.

Faça um pé descalçar o outro, acomode-se com um gato no colo – tenho vários, pode escolher –, apanhe uma taça, dê um abraço na Suzi Márcia (ela merece todos os abraços) e brinde comigo pela vida: a sua, a minha, a do Drops.

Cent’anni.

Que vivamos cem anos.

Todos nós.

A vida cotidiana, essa fonte de lugares-comuns, chatices e horrores

Deus abençoe meu retraimento, minha desconfiança e minha timidez. Não necessariamente nessa ordem.

*

Brasil, tem quase dois meses que você se livrou do socialismo cruel, tá se sentindo melhor, amole? Mais free, mais fresh, mais in, mais cool?

Tá bão.

*

Leite em pó. Que morte horrível. O problema com leite continua nessa casa. Um litro – agora que Maliu não pode mais beber leite – é coisa demais pra mim, estraga direto, preciso de um tico no meu café com leite matinal e fim… Mas leite em pó nem pensar. Que troço odiento.

*

Segunda temporada de La trêve. Então. Não é a batatinha mais crocante do pacote, mas né, estou esperando pela nova temporada de The west wing, pela nova temporada de Mash.

Nunca mais vi meu amigo

Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo. Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.

Menu dégustation: abril

Coisas vistas & ouvidas & preparadas & assistidas & comidas & visitadas; mas não todas, não tudo, não todo o tempo.

Suzi Márcia, que tinha feito cartazes do Drops mês passado, nesse mês fez bonecos do Maximus e seus amiguinhos, bolsa linda e abriu grupo do Drops lá no feissy. Eu só fico olhando de boca aberta, achando tudo lindo demais. Estraçalhei meu braço dum jeito patético-burro-tonto-trapalhão-porrafal e Suzi também está cuidando da digitação geral e absoluta. Quem tem Suzi tem tudo.

*

Graças a Fabiana Mesquita e Mariana Aldrigui, tem equipamento funcionando nessa casa.

*

Fiz tortas salgadas lindas. Lindas. Elas ficam com o queijo derretidinho, com a crosta dourada, umas belezocas.

*

Vi:

A série Happy, na Netflica. Que coisinha bem pensada e engraçada. 

A série Borderliner, também na Netflica, achei fuéééén.

A série Counterpart, em meio alternativo de entretenimento, oia, MUITO AMOR. 

E só. Não vi filmes, não vi coisa alguma além das séries supracitadas, porque a Netflica vai tirar Supernatural do ar H-O-J-E e eu fiquei maratonando e maratonando, com o coração cheio de saudade antecipada. Não tá certo isso, não.

*

Li muita coisa sobre a vida de Monet. Achei que conhecia o cara e, como sói acontecer, constatei que não se sabe coisa alguma da vida dozotros. 

*

Reli, cheia de assombro e o horror da total identificação, A invenção da solidão, do Auster. Pelamor.

*

Dei uma parada com o livro do Peter Gay, mas já voltei pra ele.

*

Li O buda no sótão. Que livro. /o\

*

Graças ao meu amigo Sérgio e sua generosidade, estou lendo Rex Stout como uma viciada. No fim de maio eu faço a lista do que li, porque já comecei a me perder.

*

Testemunhei o desmonte da casa de um amigo. Foi mais ou menos como o desmonte da minha. Odeio mudança. Mudanças.

*

Minhas plantas tão crescendo que nem uns bebezinhos. Inclusive minhas suculentas, que chegaram aqui do tamanico de meio brigadeiro e quase mortas.

(chamo as suculentas de leguminosas, só pra fazer Maliu rir).

*

Foi isso. Abril foi um mês lento.

Abril de 2018


Notas rápidas duma digitação errante

Deve haver alguma espécie de explicação pra sem-noçãozice, a sua, a minha, mas né, a NASA não liberou o material, de modos que só observo a pessoa circulando alegremente entre o resto do pessoal, fingindo que olha, tudo bem.

*

A filha da amiga tem cinco anos e não se conforma quando vê a cena na casa dela ou aqui: um adulto, com a tevê desligada, lendo um livro feito de papel. Ela esteve aqui e não queria conversar ou fazer gracinha ao me cercar enquanto eu lia. Estava mesmo impressionada. “Você fica que nem a minha mãe, sem se mexer, lendo, lendo. O seu livro não pisca”. 

Não emito juízo de valor, quem ama o passado pelo passado e não as coisas legais do passado, que volte a tomar banho de canequinha, mas ler livros me parece ser uma daquelas atividades que, muito em breve, vai se unir a bater manteiga, acender o lampião, levantar-se pra torcar o canal da tevê (com bombril na antena), casar por procuração e fazer a América.

Eu e meus livros que não piscam, graças a Deus, em extinção acelerada. Que São Darwin nos abençoe.

*

Filmes velhos na Netflix. Obrigada, civilização ocidental.

*

Meu braço tá uma chatura e eu não quero mais falar dele.

Segundo semestre de 2018

Poeminha sobre velas de maçã; roupa de cama; bolachinhas de goiaba e a imensa falta que você me faz

Tudo quieto no meu quarto, 

tudo ali estava bem

nem um cisco se mexia, 

nem um rato, 

nem um trem,

mas ao me levantar, 

em busca de dicionário honesto

sou alarmada pela algazarra

coisa que, de hábito, detesto.

Para apanhar o meliante, 

viro-me de supetão,

e eis que constato aflita:

sobre minha cama, 

o cão.

É um cão novo, redondo, 

bobinho e feliz

que ama todo mundo, 

que suja de leite o nariz,

faz dos gatos, irmãozinhos,

gosta da Maliu e de mim

gosta de desenho animado,

de balas e chá de jasmim.

Ele está sempre alegre, 

está sempre agitado

está sempre com fome, 

nunca parece cansado.

E agora, em minha cama, 

late, se agita e brinca

como se fosse um dia gentil,

numa semana boa, 

num ano sensato,

como se não fosse o Brasil.

Caldo

Queria falar sobre a dor do que é contínua, definitiva, invariável. Sobre a dor do que se pode ter, não se pode ter, existe e não existe, como o gato na caixinha. Sem gradação. Sem alívio, sem começo ou fim, sem abinha para puxar, sem “ligue para o nosso SAC”, sem “abra o pacote na linha pontilhada”. Queria falar sobre a dor que está lá todos os dias, todos, esperando por você dentro das crocs brancas, esperando, e que quando você se senta na cama e desliza os pés pra dentro delas, é tomado por aquela sensação de conforto, de morno, de reconhecimento, de enfiar os pés não nas crocs, mas nas crocs recheadas pela lama primordial da dor ininterrupta e, então, vem a lembrança. E cheio de dor da dor que a dor causa, você revive, antes de sair da cama, fazer xixi, escovar os dentes e amaldiçoar o dia, a lama de onde se arrastou ainda um organismo patético, sem rabo, sistema nervoso central digno desse nome e cílios. Você, sim, veio dela, ainda um nada, sem pelos, sem conta no insta, sem caixa de anéis, meias na gaveta. Não tinha qualquer coisa a não ser dor. E você rastejou para fora do poço da dor para criar membros, andar de quatro, escalar árvores, andar de dois, aprender a matar tigres, simbolizar com sangue e suco de frutinha, registrar a vida, matar Aníbal, construir Paris, telefonar para a sua mãe, comer no coreano, torcer pelo time, checar o celular e parar de doer tanto, o que se mostrou impossível. Um caldo primordial de dor e desistência do qual jamais nos livraremos, era sobre isso que eu queria falar. Não tem perfume francês, shampoo recomendado pela blogueira, esponja esfoliante do catálogo da vizinha que nos afaste desse cheiro, dessa lama, desse pegajoso em nossa pele morta, da dor. Queria falar sobre os pequenos gestos impregnados de dor, os sorrisos dolorosos, as respostas rápidas e silenciosas no gerenciador de mensagens, ah, sim, o silêncio, o silêncio da dor, o silêncio, sua respiração, a respiração do gato, a lambreta que passa na rua, é silenciosa a dor, sempre, não há dor no barulho, ainda que ela exista em todas as partes (e não exista, como o gatinho na caixa), ela é silenciosa, fluida, adaptável, sorrateira, a dor. Ela não vai a lugar algum e viaja, rápida como a luz. Ela não vai a lugar algum. Você vai, em breve, ir é seu destino, ela fica aqui, esperando por você, espreitando a mangueira na janela do carro ligado, o nó na corda, as pílulas coloridas, o despencar no abismo, o saco plástico, a pólvora, os cortes transbordantes, o gás. E não, não importa que você não volte, ela sabe que nunca mais o verá e não se aflige, porque você a verá todos os dias, sentirá a respiração dela sobre sua pele todos os dias, mesmo depois de morto, mesmo depois que tudo isso acabar, mesmo depois de sempre, mesmo com os carros voadores, teletransporte e Marte conquistado, a dor, a dor, mesmo depois de morto.

(da newsletter Noticinhas do Drops 11 – se você quiser assinar, fala comigo no dropsdafal@gmail.com)

Vaidade, Moby Dick, a Veronica tendo um ataque apoplético, quitandas mineiras, postais da Anlene, e um pouco de apocalipse zumbi 

Inda tá em tempo de vocês votarem em mim, fios. Meu governo será animadíssimo: dia sim, dia também, teremos surra de rabo de tatu em público. Minha lista é sensacional, bobagem de vocês não me alçarem ao poder em meio dum banho de sangue.

Dá tempo.

*

Negócio que me deixa fula é esse tal de “apoio crítico”. “Apoio, sim, mas com restrições porque…”. Vai se foder, amigue. Apoia ou não apoia, sério, mas não vem com “mas”. Pode me odiar loucamente, fala mal de mim  pra minha irmã (que certamente vai concordar com você), mas não vem com essa coalhada de “restrição”. No seu cu a sua restrição.

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Sim, é com esse espírito gentil e bonachão que mergulho as pontas dos pés na grande piscina da vida (caraio, Fal).

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Minha alergia misteriosa? Voltou bombando. O mundo me dá urticária.

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Para variar, devo texto para metade da interneta brasileira. Não é que os dias são curtos, eu é que sou lerda.

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Informada pela Veronica, a minha diagramadora, que o livro novo ia ficar com quase quinhentas páginas, só não surtei porque a pobre Vero estava com o surto em curso. Quinhentas páginas, meu pai eterno. Na prateleira dos meus três leitores seríamos eu e Moby Dick, versão especial de luxe, com desenhos e ensaios. Aquela mesma. Tudo bem, baleia nós temos (porra, Fal), mas, né, ninguém aguenta quinhentas páginas de me, myself and I falando sozinha, num exercício constante de neurose irreversível.

Cortar aquilo foi cortar na carne. Ah, literatura (ou, no caso de yours truly, esse negócio aqui) é vaidade, vaidade, vaidade.

*

Não seja o cara que liga pra uma mulher para perguntar sobre a outra. Não seja, não faça isso. Contrate um detetive particular, a CIA, instale grampos no celular da presa, compre um satélite, mas não mande um “Oi Fal, e Fulana, sabe dela?”, assim, como quem não quer nada, no meio da conversa, depois que sua amiga, toda felizinha, se enrolou no travesseiro achando que você realmente queria ficar de conversê. 

*

Anlene me mandou um envelope de cartões postais mais lindos do universo. Vou fazer quadrinhos, é fácil me fazer feliz.

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Se essa eleição não te deixou descaralhado das ideias, você é um ser superior e imbatível. Manda seu currículo pro Tibete, cê é o próximo Dalai Lama. Pode dar meu nome de referência.

De vídeos de sexo a suásticas, defesa da KKK, amiga judia sendo ameaçada na base do “Sua puta da Bíblia, em janeiro a gente vai fazer fogueira com você e seus livros” (”puta da Bíblia”? De onde vêm essas pessoas, meu Deus?), amigos gays sendo espancados no meio da rua (não um, não dois, antes que você venha bancar o superior ao falar de “fanfic, blablablá exagero”), amigos curtindo páginas inomináveis e achando que “ah, é isso aí mesmo” (gente que, certamente, acha que minha mãe devia ter apanhado até morrer em 1970 e que nem tenta esconder isso de mim por, sei lá, decoro), amigo de fé e ex-colega de trabalho branco, hetero, careta, pai de três, todo o figurino classe média churrascão-de-bermuda sendo recebido aos gritos de “Cata aquele comunista do caralho e corta as bolas dele” (sic) em reunião de condomínio porque se recusou a assinar abaixo-assinado que pedia a proprietário de apartamento para não alugar o imóvel para “família de pretos suspeitos e escrotos” (sic. Pai, mãe, avozinha meio zureta e dois meninos, um de 3 anos, um de 5 anos, era essa a galere suspeita, escrota), gente muito pia e religiosa comemorando print FAKE de restaurante indo à falência, morte, fim de banheiros de gênero neutro, e compartilhando mais trocentos posts fakes, todos de .moral abjeta.

Acho que toda a miséria humana passou pela tela do meu computador, meu telefone, minha caixa de e-mails. Toda.

 E gente que acredita em Deus, vê bem, gente que, ao contrário de mim, crê que vai morrer e prestar contas.

Vocês estão de parabéns. 

 *

Turma no bar. Geral tomando cerveja, eu na cacacola.

Nasci pra matinê, não tem jeito.

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Acaba a luz. Fico sem ventilador. Começo de choramingar imediatamente. Eu não ia durar nem vinte minutos num apocalipse zumbi.

*

Biscoitinhos mineiros. Dá a chave do mundo pra Minas Gerais, gente. 

agosto/2018

Preparo a chaleira, separo as páginas, afio o lápis.

Armo as palavras, apuro o olhar, mergulho o infusor.

Desenho a intenção , sorvo o calor, repenso o argumento.

Contrabandeio seu nome, conjugo  sentidos, pouso xícara no pires.

Quer meu livro novo? Escreve pra mim: comoensinarumidiotaadancar@gmail.com

Joquenpô – plástico ou papel

por Tatiana Yazbeck

Sou da época em que as compras da casa vinham em sacos de papel pardo, relativamente grosso, de tamanhos variados. O pequeno, onde cabia, por exemplo, uma lata de leite condensado ou achocolatado, o médio, onde já era possível colocar uns três ou quatro itens um pouco maiores e, finalmente, o grande. Existiam também as sacolas de papel que não eram encontradas em qualquer mercado, só nas grandes redes, tipo “Disco”, lembram? – que não aguentavam quase nenhum peso.

Lembro que nunca íamos sozinhos ao mercado. Precisávamos de muitas mãos disponíveis para carregar as embalagens. Algumas vezes, no trajeto para casa, o papel ficava úmido, por conta de algum produto refrigerado – reparem, eu não disse congelado, disse refrigerado. Congelada, no meu tempo, nem a carne – e com isso, chegávamos com as mãos frias, a encomenda ameaçando cair no chão, o saco se desfazendo pela umidade. Um caos.

Outras vezes, o saco não aguentava o peso e rasgava antes que chegássemos ao nosso destino. Já catei muito pacote de macarrão na rua enquanto os vizinhos riam de mim.

Tínhamos outras opções. Para as compras do mês, caixas de plástico duro, do próprio mercado, que entregava os pedidos, mediante pagamento de taxa. Ou então, o queridinho das donas de casa, o carrinho de compras. Feito de aço, com duas rodinhas, não havia ninguém nos arredores que não possuísse um modelo. O da minha casa era dourado com rodas azuis e servia tanto ao mercado, quanto à quitanda e também à feira livre. Aliás, eu amava ir à feira! Quando criança, ia sempre com minha avó. Lá, nos encontrávamos com as amigas dela e ficávamos sabendo de todas as fofocas do bairro. Mortes, separações, nascimentos, nada passava em branco. Comíamos churrasquinho e pastel. Pastel de feira, minha gente, com ou sem quarentena, é uma ótima pedida. Já na adolescência, comecei a paquerar um menino que morava na rua da feira e praticamente implorava pra vovó ir comigo até lá, para comprar, nem que fosse uma cartela de ovos. Mas isso fica para outra crônica.

Alguns anos depois, os sacos de papel foram sendo substituídos pelas sacolas de plástico e todos nós ficamos enlouquecidos com a praticidade que a novidade proporcionou. Já podíamos ir ao mercado sozinhos. Desde o início percebi que, quando em maior quantidade, as alças das danadinhas machucavam meus dedos, deixando marcas vermelhas e doloridas. Mesmo com uma gerigonça de plástico que servia para transformar o emaranhado de pequenas alças em uma só, nunca me senti cem por cento confortável. Eventualmente, o plástico rasgava também.

Quanto ao meio ambiente, não me lembro de ninguém, mas ninguém mesmo, ter mencionado que o material plástico iria causar problemas para o ecossistema. Agora, adulta, eu me pergunto: será que ninguém sabia dos riscos? Do impacto que causaria ao meio ambiente?

Há, porém, uma atmosfera vintage no ar. Pequenos e médios produtores estão migrando do plástico para o papel em suas embalagens. As pessoas ressuscitaram o uso dos carrinhos, cuja versão moderna se parece com uma enorme mochila de rodas. Além disso, muitos estabelecimentos deixam caixas de papelão à disposição dos clientes. Sacolas de plástico biodegradável, que levam em média seis meses para se decompor, já vem sendo usadas por grandes redes de supermercado. As ecobags viraram objeto de desejo.

Precisamos ainda pensar num substituto para o uso das sacolinhas no descarte do lixo, mas como tudo é uma questão de hábito, é possível que o brasileiro vá se readequando ao uso de alternativas menos danosas ao meio ambiente quando sai para fazer compras.

Tatiana Yazbeck é psicóloga, jornalista e está enlouquecida com a quarentena, mas não ao ponto de lavar e pendurar sacolas plásticas no varal. Ainda.

A palavra é o que fica

por Fal Azevedo

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
E eu sei que é preciso matar

É um tempo de guerra

É um tempo sem sol

Da canção Eu vivo num tempo de guerra,

de Guarnieri e Edu Lobo

O casal Guarnieri, ele, maestro, ela, harpista, não gostava nadinha das propostas fascistas do governo da Itália na década de 1930. Um pouco alarmados, um tanto apavorados (aliás, em quase todas as situações da vida, quem declara “Não sinto medo”, ou é bobo-alegre ou é filho do rei. O medo mantém a gente vivo e quicando, amigos), pegaram o filhinho de dois anos e rumaram para no Brasil, em 1936. No que fizeram muitíssimo bem.

*

Este se revelou um texto muito difícil de fazer.

Eu me arrastei por mais de um mês. Atrasei o lançamento do Drops em Revista, deixei os gentis-patrocinadores da Guilda do Drops na mão, enervei a Suzi Márcia como poucas vezes Suzi Márcia foi enervada e não dei conta desse trem.

Ah, e veja bem, fui eu que escolhi o tema. Escolhi Gianfrancesco Guarnieri como tema da revista. Vi um documentário maravilhoso sobre ele no Canal Curta, e achei que esse cara seria uma grande personagem. Eu-que-quis. Ainda assim, que inferno fazer esse texto.

Daí que fiz o que sempre faço: tergiversei. Daí que danei a me perguntar: por que tão difícil falar do velho Guarnieri, Fal?

*

O colégio carioca Santo Antônio Maria Zacarias não estava lá para lidar com aluno subversivo. Quando o aluno Gianfrancesco – nascido em Milão, em 1934, mas brasileiro por adoção desde os dois anos e alfabetizado em português – escreveu uma peça falando mal do vice-reitor da escola, foi expulso. Nem o padre que cuidava do teatro da escola pôde protegê-lo. Gianfrancesco aprendeu cedo que pagamos um preço por cada palavra. Sombras do Passado foi um tremendo sucesso e alunos de todos os anos aplaudiram e gritaram o nome do vice-reitor durante o espetáculo. A produção, em sua breve temporada, deixou saudades.

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Botei um espumante no freezer. Escrever de fogo talvez seja um caminho.

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Escrevo e encho a cara ao mesmo tempo. Se dava certo pro Hemingway, dará certo para mim. (eu sei, eu sei, me deixe)

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Gianfrancesco escolheu continuar a escrever e, apesar de se meter com política estudantil – foi presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários –, em vez de seguir carreira política, resolveu se concentrar nas palavras.

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Hoje é dia das mães e escrevo aqui na sala, com minha mãe fazendo comentários pouco elogiosos ao governo, aos animais que apoiam esse governo desastroso, a ministros e ex-ministros e penso, de novo, na vida da minha personagem. O que diria Guarnieri do mundo em que vivemos? Ele estaria com nojo, permitam-me arriscar. Nojo do presidente e da presidência, nojo dos relativistas das mortes, nojo de quem não uivou com as mortes de Aldir e do Migliaccio e do Santana e da Lúcidi e dos outros mais de onze mil mortos (até agora, leitor, até agora). Ele estaria horrorizado com os caras de direita que não respeitam o isolamento social – que não passa duma invenção para reinstalar o comunismo no Brasil (???) –  e da classe média de esquerda, muito ciosa dos perigos da pandemia, que quebra o isolamento a cada dois dias pra viver aventuras essenciais, tipo andar de bicicleta por Ipanema, visitar a madrinha, comprar aquela massinha que só tem naquela rotisserie-que-não-faz-entrega, sabe, naquela ruazinha fofa porque afinal estamos do lado dos bons. Guarnieri, quero crer, cuspiria em todos nós. Ou, melhor ainda, faria uma peça foda, achincalhando geral.

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Não me parece possível encontrar um ponto onde se diga “Aqui, bem aqui, Gianfrancesco optou pela arte popular. Ele optou, neste momento, falar do povo e suas dores, do povo e suas vivências, do povo e da vida do povo. Era um menino de classe média que não se escondeu atrás do discurso, ainda em voga, nós os italianos. Menino europeu, filho de maestro e harpista, que poderia tranquilamente vestir a capa do italianinho que vê graça no cotidiano dos trópicos, mas não foi isso que fez Gianfrancesco. Ele desde cedo que identificou fortemente com a classe operária e a transformou em sua principal bandeira.

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Quando se trata de um autor da grandeza de Guarnieri, é injusto destacar só uma obra do cara, afinal, são tantas grandes obras. Por outro lado, é injusto citar O jardim do diabo, quando se fala de Luis Fernando Verissimo, ou Anarquistas graças a Deus, quando se fala de Zelia Gattai? Ou será que escolher uma, entre uma porção de obras genais, é também um gesto de amor? A tentativa honesta, ainda que reducionista, de condensar o que um autor que amamos tem de melhor?

Enfim, quando tratamos da obra de Guarnieri, é difícil, demais mesmo, escolher. Mas se você pedisse e só porque você pediu, sempre elegerei Eles não usam black-tie como a melhor coisa, dentre tantas tão boas, que o velho escreveu.

Nessa peça, temos um operário em cena. Pela primeira vez, o teatro brasileiro tem um cara pobre, não caricato, em cena. E ele sofre e briga com o pai e descobre que vai ser pai também e perde e se frustra e oscila entre dois polos bem na frente do público que, usando seus melhores vestidos e sapatos, nunca tinha visto nada parecido. Palavras como “patrão” e “greve” e sindicato” explodem em cena e, quando nos damos conta, estamos ali testemunhando mais conflitos de classe do que conflitos românticos. É uma obra enorme, ainda mais se tivermos em mente a época em que foi pensada, escrita e posta nos palcos, por um menino de 22, 23 anos. Mas sua grandeza independe da época ou da idade do autor. Ela é importante porque fala dum pedaço suro e lindo da nossa história, dum jeito suro e lindo. Guarnieri capturou o espírito de sua época em falas, atitudes e fez isso alicerçado em diálogos muito bem estruturados e numa sequência de acontecimentos de gelar a espinha e de deixar boquiaberto qualquer professor de literatura, crítico ou escritora apaixonada por ele, seja lá em que época for.

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A peça, Eles não usam black-tie, contava com elenco formado por Leia Abramo, Eugênio Kusnet, Guarnieri, Riva Nimitz, Miriam Mehler, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e Chico de Assis. A direção foi de José Renato. O texto é incrível, mas vamos combinar: difícil não dar certo com esse elenco.

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Gianfrancesco dizia que entender o mundo se dá de duas formas: pelos olhos de quem domina ou de quem é dominado.

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Leio os planos da amiga-da-amiga de reunir, hoje mesmo, três gerações da família num almocinho, “afinal não nos vemos há trinta e cinco dias”. Minha filha, isso não é um almoço de dia das mães, é um pacto de suicídio.

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Todo comunista e fazia novela, o Guarnieri? Pois. Fazia. Para além das contas a pagar, Guarnieri acreditava que o povo merecia diversão. Entretenimento. Fantasia. Fuga. Fazia novela, sim, como quem faz um menino rir, uma senhora dar uma fungadela numa cena muito sentida, um cara sonhar com mundos outros. Ele era um grande ator, cheio de recursos, autodidata e feroz em seu próprio método (o arrepio de Gianfrancesco à academia, mesmo reconhecendo seus méritos e valor, de alguma forma nos aproxima ainda mais).

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O povo que ele queria que risse e sonhasse está sendo dizimado, espremido entre um governo acéfalo, feito de e para imbecis, negacionistas burros, negacionistas imbecis e negacionistas burros and imbecis, que pra mal dos nossos pecados inda se acham grandes analistas da realidade brasileira. Hoje é domingo e temos mais de onze mil mortos pelo Covid-19, vírus que o brasileiro batizou de Coronga. Guarnieri adoraria o apelido. Aliás, meu pai também.

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Gianfrancesco veio para São Paulo em 1952, aos dezoito anos, porque já sabia que não teria opção além de ser ator e escritor. Ajudou a fundar o Teatro Paulista do Estudante, uma companhia teatral que, em 1955, fundiu-se com outra companhia, o Teatro de Arena. Sob esse nome, a companhia definiu os rumos do novo teatro brasileiro e fez frente ao regime militar com grande dignidade.

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“A gente tem de ser firme”, me diz a Andréa Natal, querida demais. Gianfrancesco concordaria com ela.

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Em 1956, a montagem da peça Eles não usam black-tie, apresenta ao público de São Paulo, e depois do Brasil, à persona que Gianfrancesco cultivaria por toda a vida: o intelectual de esquerda. Mais ou menos malvestido, mais ou menos impaciente, profundamente humano, ligado às causas sociais, aliás, atuante nas causas sociais, e sempre com um Hollywood no bico.  

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Camisa social de listras, xadrez ou com estampas malucas, calça social vincada, usada com cinto, meia fina e sapato. Às vezes, um terno mal-ajambrado. Cigarro numa das mãos, sempre gesticulando. Voz rouca (o que aconteceu com os homens de voz rouca?). Olho no olho do interlocutor, certezas. Alguns palavrões. Risadas. Biritas até o porrezinho suave. Cabelo penteado para trás. A estética dos anos 1950/1970, a fumaça do cigarro, as discussões. Tudo isso fala demais ao meu coração, o que só me faz gamar mais em Guarnieri.

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A linguagem que permeia a obra de Guarnieri é realista. É direta, é a língua que se fala nas ruas. Guarnieri se preocupa, e muito, em ser entendido. Em alcançar as pessoas nos morros e nos botecos, nas salas de aula, nos sofás de veludo, nos bancos das praças. Guarnieri não inventa um Brasil, ele apenas o encara e registra.
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Eu disse pro meu amigo Char que a palavra dos dias, para mim, tem sido “ignorância”. A incontornável, imposta pela vida, pelos meios e a opcional. Daí ele me disse que não existe ignorância opcional, que isso é só calhordice.

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Guarnieri, mais maduro, fazia o papel do velho bonzinho. Sempre. Ele dizia que era o escolhido para viver qualquer senhor romântico e bonachão nas novelas, mas não parecia ressentido. Ria disso.

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Aqui na nossa rua, onde antes funcionava o consultório do psiquiatra marreta, agora vive uma senhora que faz refeições para uma empresa. O cheiro que toma o Brócolis, nosso querido bairro, é de fazer chorar. Domingo, fim de tarde, ela está a todo vapor, fazendo um peixe dos deuses e testando a minha falta de fé.

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Filho de músicos, Guarnieri adorava orquestras e amava o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi um menino encantado com o maquinário que mantinha as peças em cena.  Em uma entrevista para o programa da TV Cultura, o Roda Viva, contou que, muito pequeno, não podia assistir da plateia as apresentações da orquestra regida por seu pai, o maestro, Edoardo Guarnieri. Por isso, ficava em pé no fosso da orquestra sobre uma caixa de instrumento, acompanhando as óperas.

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O universo dos operários, dos trabalhadores, das pessoas comuns que limpavam casas e faziam carros. Esse era o universo que Guarnieri queria imortalizar e que perseguiu por toda sua carreira de dramaturgo, em peças como A semente, Gimba, Marta Saré.

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Entrevista do ex-ministro da Saúde na tevê e, pelas bochechas, Mandetta está quarentenando aqui em casa. Temos nada menos de cinco bolos deliciosos disponíveis para nossa alegria.

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Será que está difícil falar de Guarnieri porque ele é dolorosamente parecido com meu finado pai? Vamos garrar na mão de Freud. Sim, ele é. Mesma geração, mesmas referências literárias (pelo que pude ler sobre o velho Gianfrancesco), bom de copo, bom de garfo, dentes ruins (não péssimos, mas certamente não os teclados de hoje em dia), corte de cabelo horroroso, bigode padrão anos 1970, voz meio suja de cigarro e birita, bom pai, pai foda (ser filho de homens geniais é muito duro, muito mesmo), algo impaciente, algo bondoso, vaidoso demais e ciente de suas próprias qualidades e talentos.

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Guarnieri gostava da dramaturgia por sua permanência. Dizia que o que fica da produção teatral é a palavra.

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Até 1972, quando chega ao fim a companhia Teatro de Arena, Guarnieri esteve lá. A cada montagem. Escrevendo e atuando e repensando um país que, algumas décadas depois, saudaria um bando de analfabetos funcionais como seus salvadores. O Brasil não mereceu a vida e a arte Guarnieri, músico, ator e dramaturgo premiado. Nunca mereceu seu esforço, sua abnegação. Nós, você e eu, não merecemos. Sou feliz por tê-lo e me sinto privilegiada por contar com sua obra no meu repertório, mas olha, que desperdício de talento.

Fal Azevedo, 49 anos, é editora da Drops em Revista e autora dos melhores risotos do território nacional.

Rosa e Vermelho

por Krysse Barros

Vênus no espelho – Diego Velásquez

Um quadro pintado há séculos. Nosso cérebro precisa compreender o que nossos olhos veem. Começa a trabalhar com as informações recebidas pelos olhos que perscrutam a tela em busca de formas conhecidas, detalhes já vistos, posturas ou paisagens antes tentadas por outros artistas. Muitos pontos podem atrair nosso olhar. Invariavelmente o artista escolhe o ponto focal que será o objeto principal da sua obra e concentra neste objeto o que deseja transmitir aos seus futuros observadores.

Analisamos toda obra que vemos segundo critérios estritamente próprios, criados e amadurecidos de acordo com os padrões culturais que cada uma das pessoas ao redor do mundo pôde ou escolheu manter. Ou seja, cada livro lido, filme assistido, peça teatral aplaudida, exposição vista, museu visitado, viagem feita e curso finalizado.

Desenvolvemos opiniões únicas a respeito de tudo na vida, inclusive cultura. Cada um de nós é um espectador único e nos colocamos de frente para uma obra de arte com toda a nossa bagagem cultural.

De frente para a Vênus ao Espelho, de Diego Velásquez, vemos um quadro de nudez, produzido no século XVII em plena Espanha católica de Felipe IV, um país enriquecido pelas viagens exploratórias do século anterior.

Ali, o espectador consegue se transportar, com seu cabedal de conhecimentos, ao tempo histórico em que Diego Velásquez pintou essa mulher nua, reclinada em seu récamier (ou canapé – olha que palavra linda). Posicionando-a desse modo, o artista aumentou suas curvas e as destacou como se fossem uma insensata linha do horizonte. O que nos leva ao objetivo principal da obra: retratar de modo pessoal o clássico tema da Vênus. Velásquez dividiu o quadro entre a tentação em marfim e rosa do corpo desnudo de sua Vênus e o vermelho da cortina, um dramático pano de fundo para o Cupido que segura o espelho, nos atraindo para o rosto da Vênus que nos encara.

O que a Vênus diz com seu olhar refletido que não pode ser totalmente visto, uma vez que o artista utilizou sua técnica de chiaroscuro para obter esse efeito de intangibilidade na mirada que apenas adivinhamos? Essa mulher em sua nudez tão diferente dos padrões vigentes e considerados belos à época realmente nos vê?

Qual seria a história da Vênus desnuda? Que, revolucionária, desafia os padrões de seu tempo com seu corpo magro e sua nudez de costas – não frontal, como era habitual e que observa o espectador de um ângulo impossível devido à posição em que Cupido segura o espelho.

Por que Velásquez, diferente de outros artistas que criaram suas Vênus, não a retratou num opulento nu frontal, como era o usual? Ele compôs um nu sensual e calipígio, escandaloso, mas nada vulgar. Maravilhoso! Há documentos em que constam outros quadros com nus que ele pintou. Nenhum deles, porém, alcançou os séculos posteriores. Teria sido a esperteza em retratar uma mulher fora do padrão de beleza da época que salvou esse quadro da destruição?

 Velásquez teve uma vida confortável desde o nascimento. Desde cedo demonstrou aptidões artísticas e seus pais o colocaram sob a tutela de um mestre que o ensinou as técnicas de pintura por seis anos, dos onze aos dezessete. Com dezoito anos, prestou um exame que o habilitou a pintar obras sacras e obteve licença para atuar como pintor profissional. No ano seguinte casou-se com a filha do seu professor e já fazia retratos em sua cidade natal, Sevilha. Sua habilidade fez com que se tornasse rapidamente conhecido e com vinte e três anos foi para Madri pintar o retrato de um nobre que o recomendou ao rei. Este se fez retratar por Velásquez e teve tanta estima por seu retrato que o tornou um dos pintores da corte.

Velásquez não apenas era um mestre do Barroco, um virtuose do chiaroscuro (claro/escuro), um excepcional retratista. Era também uma pessoa de modos sociáveis, inteligente e com uma veia irônica e profundamente orgulhoso de sua carreira e trabalho. O espírito amigável do pintor pode ser constatado em diversos, senão na maioria de seus trabalhos, nos quais há amiúde a presença de um personagem a observar o espectador a partir da obra. Por vezes é o próprio Velásquez quem nos observa, como que a indagar se porventura está você admirado com a obra que ele produziu.

Krysse Barros tem 53 anos, quatro filhos e dois cães resgatados. Aprendeu Direito na faculdade e a ser de esquerda em 1978 assistindo à “propaganda eleitoral” na TV. Gosta de praia, cinema, literatura e teatro. Acredita que a única filosofia possível é viver cada dia que se apresenta e sonha, ah, Deus, que um dia ainda vai conseguir morar sozinha.

Como limpar janelas de vidros

por Suzi Márcia Castelani

Para limpar uma janela de vidro é necessário que se tenha uma janela, que a mesma seja de vidro e que os vidros estejam sujos.

Caso tenha uma janela de vidro e ela esteja limpa, convém aguardar umas três semanas. Neste tempo, certamente, se formará uma película de poeira em todos os vidros da janela de maneira uniforme. Pronto. Agora você tem uma janela de vidros sujos e já podemos retomar o projeto.

Um material excelente para limpar janelas de vidros sujos é camiseta velha. É importante que seja velha pois o uso deixa o tecido mais macio, livre de gomas e permite limpar todos os cantinhos de poeiras resistentes.

Caso possua somente camisetas novas, é imperativo que aguarde um tempo de uso que comporte muitas lavadas, que as muitas lavadas desbeicem as costuras deixando-a no ponto correto de maciez adequado à limpeza de vidros sujos.

Esse tempo servirá para acumular ainda mais poeira nos vidros já sujos de sua janela, possibilitando até que pequenas aranhas teçam teias nos cantos de alguns vidros.

No caso disso acontecer saiba: o ciclo normal de vida de uma aranha pequena, se ela não tiver um encontro fatal com uma chinelada é de cerca de um ano. Tempo mais que suficiente para eclodir seus ovos e os filhotes deixarem a ninhada.

Pense bem. Na impossibilidade temporária de limpar os vidros por falta de camiseta velha, sendo a sua ainda nova, e tendo que esperar que o tempo e as lavagens ajam sobre o tecido, essa ninhada pode ser muito útil devorando outros pequenos insetos que se aventurem pela casa.

Portanto, durante este tempo, evite matar moscas, grilos e qualquer outro inseto de pequeno porte que apareça em qualquer dos cômodos pois há uma família de pequenas aranhas habitando temporariamente sua janela de vidros sujos e seria uma lástima eles não terem o que comer, sob a sua jurisdição.

Se possível, estenda fitas adesivas dupla face em todas as superfícies antes de dormir para aprisionar pequenos insetos e levá-los, ainda vivos, à pequena teia na janela. Hospitalidade. Já que você ainda não tem uma casa de janelas limpas vamos pelo menos manter o ambiente saudável.

Uma vez eclodidos os ovos e tendo as pequeninas aranhas abandonado a teia-mãe, certamente sua camiseta, que era nova, já chegou no ponto que desejávamos e podemos iniciar os trabalhos.

Para retirar o grosso do pó que se formou nesses vários meses antes de poder usar a camiseta, agora velha, recomendo um pincel do tipo achatado. Varra com ele todos os vidros, por dentro e por fora da janela, parapeito inclusive.

Nesta parte da tarefa recomendo que use um avental já que a única camiseta velha que você tinha será usada para a limpeza do vidro e não queremos sujar sua roupa ainda nova, ou queremos?

Um método eficiente de não sujar a roupa na hora de limpar os vidros sujos da janela é tirar toda a roupa e realizar a tarefa nu.

Para a eficácia desse método é necessário que planeje com cuidado o tempo de envelhecimento da camiseta para calhar no verão. Não que não seja possível executar a tarefa nu, no inverno. Sim, é possível, mas desconfortável. Fica a critério de cada um.

Encha um borrifador com vinagre branco. Borrife sobre cada vidro, passando a seguir a camiseta velha, esfregando com força e mudando para uma parte limpa da camiseta a cada novo vidro.

Ao final do processo, sua janela de vidros sujos se transformará em uma janela cristalina diante de seus olhos. A janela de vidros limpos filtrará os raios de sol, uma beleza de se ver pelo lado de fora!

Perceba que é recomendável que vista sua roupa, caso tenha realizado a tarefa nu, antes de sair pra apreciar o resultado do trabalho. Mas caso não se importe em flanar ao ar livre exibindo suas partes pudendas, nada contra.

Mas se nu, talvez fumando um cigarrinho, apreciando o bom trabalho alguém passe e leve a mão à boca numa expressão de espanto, evite a frase ficou limpinho, né? Você pode ser mal interpretado.

É tempo, então, de jogar fora a camiseta velha, agora velha e imunda, no lixo e recomeçar todo o processo.

Suzi Márcia Castelani é artesã de flores e palavras.

A arte não tem simpatia pelo humano

por Suzi Márcia Castelani

Photo by Steve Johnson 

Nossa rotina esmigalha nossa capacidade de concentração e contemplação. Temos obrigação de ser livres, de escolher todo o tempo e o futuro é sempre incerto.

A angústia é dado originário da condição humana e construímos uma forma de sociedade que a aprimora a cada dia.

Vivemos presos em hipnóticas ocupações e no falatório superficial da cotidianidade. É uma angústia sem objeto, de uma realidade sem rosto, o lamento profundo pelo nosso destino de sempre morrer no final.

Vivemos constantemente preocupados sobre nossa permanência no mundo. Batalhamos diariamente por sucesso mas o chegar lá é tão vago que nos sentimos permanentemente derrotados.

Para sermos, precisamos primeiro entender nosso lugar no mundo. Na sequência, conhecê-lo e as estruturas que o sustentam. A ansiedade acontece quando entendemos que nossa atuação neste mundo é parte do que determinará as mudanças desejadas.

Só nos angustiamos quando somos. A existência pressupõe o sofrimento pois só há tranquilidade na ignorância e na cegueira social.

A ansiedade não pode ser afastada inteiramente. O que a psicoterapia pode fazer é nos ajudar a ter uma perspectiva sobre ela de modo que não sejamos apenas vítimas mas também observadores que entendem a tormenta.

A arte também é feita de angústia e não precisa ter simpatia pelos humanos. Nem acolher. Deleuze afirma que a grande arte olha para o mundo como se fosse pré-humano.

A proposta do novo requer imaginação. Para imaginar é necessário pressupor o que ainda não há.

A arte, diante da impossibilidade de segurar o tempo, aprisiona e marca uma época, identifica um período. É uma das respostas do homem ao determinismo do tempo, que o premia com a morte.

É sempre um grito, um rasgo individual. O lado criativo é feito de dor e angústia. O artista rende-se à ela como centelha criadora, o desejo da própria imortalidade.

Em um primeiro momento, a obra de arte constrói-se com base no ponto de vista interno do autor. A arte influencia o mundo muito mais do que é influenciado por ela. Quando nasce não pretende explicar qualquer coisa que não seja ela mesma.

Uma obra pode ter uma originalidade tão esmagadora a ponto de assombrar sua época e fazer com que gerações futuras se debrucem sobre seus signos fundantes sem nunca mais ser capaz de escapar seja pela negação ou concordância.

O sublime, para Harold Bloom é o fracasso do pensamento lúcido e sempre supre sua ausência.

Qualquer coisa que nos tira da esfera humana, que nos relativiza, seja por grandiosidade ou beleza, que nos coloca em contato com algo maior, tem o poder de restaurar a perspectiva e nos acalmar.

Que seja a arte essa coisa. Forjada na dor e na angústia que em todos é matéria, mas só a genialidade é capaz de traduzi-la em obra perene, captando o etéreo, o desejo de fuga de uma lucidez aprisionante para a materialização do sublime, essa arte que, quando ocorre, é imortal.

Suzi Márcia Castelani é editora e artesã de flores e palavras.

Abra suas asas

por Lucas Pedroso

Quando me pediram para criar um drink que representasse minhas impressões sobre os anos 1970, fiquei bastante inseguro. Como homenagear um período que eu não vivi? Certamente vou acabar me agarrando aos lugares comuns. Aliás, o simples ato de escrever algumas linhas sobre essa década beira a prepotência, e sei que vou ficar com a impressão de que escrevi um texto episódico e óbvio, como uma redação de um adolescente pouco inspirado em uma sala de aula. 

Fiquei um pouco mais otimista quando me dei conta de que mesmo as lembranças dos anos que vivi são todas retratadas na minha mente com cores fortes e pinceladas apaixonadas. Provavelmente me esqueci de fatos importantes que presenciei e atribuo relevância quase fanática a detalhes insignificantes que, no final das contas, compõem os quadros na parede da memória.

Em resumo, representar uma década, mesmo pra quem a viveu, é uma tarefa que nasce incompleta, pois nossos olhos têm lentes distorcidas e nossa memória nos trai de acordo com o que o coração sugere.

Mas tanto li, dancei, assisti e ouvi sobre os anos 1970 que é como se eu tivesse presenciado tudo. É um grande baú de sentimentos e sensações que eu vivi mesmo sem ter conhecido. Ou que eu conheci mesmo sem ter vivido, não sei ao certo.

Se escrever é se expor, elaborar um drink não é diferente, acreditem. Sei que exagero um pouco ao escrever isso, mas o fato é que a receita acaba sendo fruto tanto do autor quanto de seu tempo. Já adianto que criei duas receitas para escolher a melhor e acabei me apegando a ambas. Isso já mostra algumas características minhas, como a precaução e a indecisão. Os ingredientes que consegui comprar e mesmo os adereços usados nas fotos foram adaptados para a realidade que enfrentamos de isolamento social, como se 2020 quisesse se impor sobre 1970. Tentei não permitir e é claro que, em parte, falhei. Acrescento que, se o cenário político atual remonta a fatos aterradores da década homenageada, cabe a nós buscarmos na mesma década as diversas referências de alegria, resistência, tolerância e liberdade.

Mas voltemos à minha influência sobre o que eu mesmo criei (pensando agora, não havia como ser diferente, não é mesmo?). Um dos drinks devia ter sido feito com vodca, mas usei gin. Não se bebia muito gin nos anos 1970, a bebida saiu recentemente do ostracismo após um longo período. É que, bem, eu adoro gin. Não haveria como não usá-lo. E vodca não tem gosto de nada, só de álcool (porém não se enganem, bebo drinks de vodca muito feliz).

Esse drink de que falo é uma releitura do Hi-fi. Isso mesmo, a famosa mistura de Fanta laranja com vodca. Era combinação obrigatória em festas dos anos 1970, e me lembro de minhas tias comentando saudosas de quando tomavam alguns copos e dançavam e paqueravam a noite toda. Confesso que eu achei por muitos anos que o nome da bebida era High Five, motivo pelo qual esse será o nome da minha versão. Eu podia ter escolhido algo homenageando a Cuba Libre, também bastante apreciada. Como um drink que tem Cuba no nome leva o refrigerante símbolo do capitalismo? Aí está algo que sempre me intrigou. Mas não foi isso que me fez escolher outro caminho, e sim o fato de que a receita deixa, penso eu, pouco espaço para a criatividade. O outro drink, que nomeei Frenético, lembra um ponche de frutas, também muito popular à época, e o concebi de modo que visualmente remetesse às cores de um globo de discoteca. Ficou delicioso. O gelo vai derretendo e o drink vai ficando cada vez melhor conforme o tempo passa. Como os próprios anos 1970.

High Five

Esprema frutas cítricas de sua preferência. Usei uma laranja Bahia, uma laranja pera, uma tangerina e um limão siciliano. É o que tinha em casa. Meça o suco e ferva brevemente com o mesmo volume de açúcar. Coloquei também um pedaço de gengibre, que eu adoro. Especiarias certamente trariam nuances interessantes de sabor. Quase coloquei um anis estrelado, mas descobri a tempo que só em 1982 a Rita Lee chupava drops de anis no escurinho do cinema, então a referência perdeu sentido e eu desisti. Voltemos à receita. Espere esfriar um pouco e bata no liquidificador por 1 minuto com as raspas das frutas alaranjadas. Coe bem e guarde em uma garrafa na geladeira. Esse xarope conserva-se bem por aproximadamente um mês e pode ser usado para fazer soda italiana ou adoçar chá. Tenho sempre algum xarope de fruta guardado. Admito que acrescentei um pouco de xarope artesanal de framboesa ao de laranja, mas só porque eu tinha na geladeira e achei ajudaria na coloração sem alterar o sabor. Totalmente estético e dispensável. Num copo alto com gelo, despeje 45ml de xarope de laranja, 60ml de gin e um dash de Angostura. Complete com água com gás e misture levemente com uma bailarina.

Frenético

Faça gelos coloridos saborizados com frutas. Há vários modos possíveis de se fazer isso, por exemplo simplesmente batendo as frutas com água e açúcar no liquidificador. Eu escolhi ferver as frutas com água e açúcar e depois coar. Isso deixa as cores mais vivas e, espero eu, ajuda na conservação. Os gelos podem ser dos sabores que se preferir, os da foto são: morango com framboesa (que eu tinha no freezer), laranja Bahia, abacaxi com laranja pera e gengibre, kiwi com limão posteriormente batido com (muita) hortelã. Para a montagem, complete um copo alto com gelos saborizados, despeje 60ml de rum, um dash de bitter de laranja e complete com água tônica. Mexa suavemente com uma bailarina e sirva. Saúde!

Fotos de Fernando Passarini

Lucas Pedroso é doutor em Matemática Aplicada. Não que importe, mas é a isso que se resume seu currículo. De típica personalidade taurina, não acredita em signos. Consegue discorrer sobre qualquer assunto por não mais do que três minutos.