Clássico do coração: Maria Sybilla Merian

por Vera Guimarães

Por volta de 2004, inventei de ter aulas de ilustração botânica, uma expressão artística muitíssimo de meu agrado. As professoras que tive me deram a conhecer parte do universo dos grandes ilustradores e assim fiquei atenta a nomes.

Em 2008, em Amsterdam, sem que procurasse, entrei no Museu Casa de Rembrandt e estava acontecendo a exposição Maria Sibylla Merian & Filhas: Mulheres de Arte e Ciência. Em casa, procurei saber mais dela e meu queixo caiu e eu caí de amores por ela definitivamente. Espero aqui trazer a vocês todo meu espanto e encantamento com essa vida, arte, ciência, delicadeza e generosidade.

Maria Sibylla nasceu na Alemanha em família de artistas e editores. Com o pai e depois com o padrasto circulava pelo mundo das artes e das publicações.

Quando isso? Séculos XVII e XVIII.. De 1647 a 1717. Respirando. Longe, não?

Desde cedo se interessou pelo mundo natural e observava, coletava, registrava dados e pintava insetos e outros animais, plantas e tudo que a cercava na natureza.

Casou-se, teve duas filhas, divorciou-se e foi viver em Amsterdam, enorme centro comercial e artístico da época. Dava aulas e vendia suas aquarelas. Teve contato com material chegado do Novo Mundo via Cia. das Índias e se interessou pela natureza longínqua.

Espantem-se comigo! Aos cinquenta e dois anos, idade em que, àquela época, a pessoa já deveria ser considerada idosa, resolve partir em companhia da filha mais nova para a colônia holandesa no Caribe, o Suriname.

Com indígenas e africanos escravizados embrenhava-se na selva tropical em busca de exemplares da fauna e flora, que observava, pesquisava, registrava e transformava em desenhos.

Depois de dois anos contraiu malária e retornou à Europa, com vasto material para publicação.

Maria Sibylla só passou a ser conhecida em fins do século XX, um tanto por força do movimento feminista.

Em sua trajetória, alguns fatos e o caráter de seu trabalho a tornam maravilhosamente destacada.

GÊNERO: num ambiente totalmente dominado por homens, saiu do papel destinado às meninas/mulheres e fez algo além de ser esposa e mãe.

CURIOSIDADE INTELECTUAL: desde menina se interessou por desvendar o ciclo de vida dos insetos, não se conformando com a noção de geração espontânea, em vigor desde Aristóteles. Embora Lineu já houvesse descrito partes da metamorfose, foi ela a primeira a incluir a fase ovo, fechando o ciclo.

“AVENTURA”: no século XVII, lançou-se numa travessia oceânica e foi bater às portas de um mundo desconhecido, tropical, quente e úmido.

VER IN LOCO: cento e trinta anos antes de Darwin, cuja expedição científica revolucionou a ciência, Sibylla fez em silêncio a sua.

ESPÍRITO CIENTÍFICO: seus registros, não apenas cheios de beleza, são rigorosos.

ECOLOGIA: suas pesquisas e registros levam em consideração o meio em que os fenômenos ocorrem, não são soltos.

HUMANIDADE: inserida na comunidade de trabalhadores do Suriname, observava sua vida e valores. Na descrição de determinada planta, anotou que era abortiva e usada pelas mulheres escravizadas, que não desejavam que seus filhos tivessem o mesmo destino.

EDUCAÇÃO: quando junta arte e ciência, abre as portas para uma forma integrada de gerar conhecimento, pelo estímulo à observação e respeito à verdade factual.

NEGÓCIOS: voltando à Europa, ela mesma edita seus livros.

DELICADEZA: a descrição das plantas/insetos em suas pranchas revela pessoa sensível e delicada.

Querida Maria Sibylla Merian, você é meu CLÁSSICO DO CORAÇÃO.

Vera Guimarães, pacata e preguiçosa, vivendo a vida dos outros.

A chegada da Família Real no Brasil: transformações e crescimento desigual na cidade do Rio de Janeiro

por Ana Paula Medeiros

P.R. Príncipe Regente ou Ponha-se na Rua?

As primeiras histórias que circulam dão conta desta singela placa que era afixada na porta das casas requisitadas por decreto real para receber os membros da Corte portuguesa que chegaram ao Rio de Janeiro em 1808. Oficialmente, queria dizer que você estava sendo honrado com um pedido de despejo para que algum nobre passasse a morar ali, mas a sempre sábia e gaiata população traduziu melhor as iniciais. 

Todo mundo afiado com as aulas de História que contam como Napoleão dominava a Europa, ameaçava invadir Portugal e aí D.João veio com malas e cuias pro Brasil? Posso pular esse pedaço?

Bom, deixa eu contar um tiquinho como era o Rio de Janeiro naquele momento, pra vocês entenderem o tamanho das transformações. 

De 1565, quando foi fundada, a 1800, o Rio se limitava ao espaço existente entre quatro morros: Castelo, São Bento, Santo Antônio e Conceição, dos quais hoje apenas São Bento e Conceição ainda existem, além de uma pequena parte do Morro de Santo Antônio, onde se pode ver o convento de mesmo nome, no Largo da Carioca. Fora isso, tinha umas picadas que levavam às áreas rurais no interior. Mesmo entre os morros, predominavam terrenos encharcados, mangues, pântanos e lagoas, que foram, aos poucos, sendo drenados e se transformando em área urbana, com ruas, praças e casas. 

Ah, só pra lembrar também. Até 1763 a capital do Brasil era Salvador, na Bahia. O Rio tinha relativamente pouca importância no cenário nacional. Mas a descoberta do ouro em Minas Gerais, ali por meados do século XVIII tornou os portos do Rio estratégicos para o escoamento dessa produção, e o Rio virou capital. De um vilarejo que tinha casinhas térreas, umas poucas lojas, armazéns, açougues, trapiches, cocheiras, senzalas, casas de banho, pardieiros e depósitos, a cidade virou alvo de um monte de melhorias, com a construção de aquedutos, fontes, novas ruas, prédios e espaços públicos como praças e parques. Mesmo assim, ainda era uma cidadezinha acanhada, com ruas estreitas e sinuosas, e um modesto casario colonial espremido ali na meiuca dos morros. A Lapa e os campos de Santana e Lampadosa (atual Praça Tiradentes), bem como os caminhos em direção a São Cristóvão estavam recentemente e ainda de forma tímida se incorporando ao tecido urbano, enquanto Catete e Botafogo constituíam arredores rurais. 

Um autor que eu gosto muito, chamado Maurício de Abreu, mostra que a população do Rio, até o século XIX, era formada em sua maioria por escravos, e alguns poucos funcionários públicos, comerciantes, religiosos e nobres. Todo mundo muvucado no mesmo espaço urbano limitado. Não tinha isso de bairro de rico e bairro de pobre. A elite local diferenciava-se do restante da população apenas pela aparência de suas casas, e não pela localização. Dois motivos ajudam a explicar isso: a necessidade de defesa contra invasões estrangeiras e a falta de meios de transporte coletivo que permitissem à população mais pobre se deslocar para outras áreas. Além disso, lembra que eu falei que tinha monte de manguezal, pântano e morro no meio do caminho? Então, era difícil expandir o território pra fora desses limites. 

Tem um mapinha aqui que mostra como era o Rio no início dos anos 1800. Só pra esclarecer, chamava-se “freguesia” a uma espécie de recorte simultaneamente eclesiástico e administrativo do território da cidade, que comporta o agrupamento de algumas áreas. Uma mistura de paróquia com bairro, se podemos dizer assim. 

Aí, Napoleão pressionando de um lado, Inglaterra de outro, veio a Corte pro Brasil. De cara, o príncipe regente, D.João, vendo aquele pardieiro que era a cidade, tratou de fazer os esforços necessários para dar ares mais europeus e “civilizados”, dignos da sede de uma monarquia. Afinal, os recém-chegados, habituados aos padrões sociais europeus, estavam chocados. Bom lembrar que chegaram naqueles navios cerca de 15000 pessoas, entre nobres, funcionários públicos e empregados diversos. Numa cidade de cerca de 50.000 habitantes, isso representava um acréscimo, do dia para a noite, de 30% do total de sua população.

Parênteses: a rainha de Portugal, de verdade, era d. Maria I, mas ela tinha sido afastada do trono desde 1799, por demência, e vivia enclausurada, por isso d. João reinava. Assim que chegou e nos anos seguintes, d. João criou órgãos públicos, fundou a Casa da Moeda e o Banco do Brasil, revogou a proibição de se instalarem indústrias no país e, paulatinamente, estimulou a produção artística, científica e cultural, culminando com o patrocínio da vinda da Missão Francesa capitaneada  por Joaquim LeBreton, e da qual fizeram parte, entre outros, os pintores Jean Baptiste Debret e Nicolas Taunay, e o arquiteto Granjean de Montigny. Entre otras cositas igualmente importantes, nem dá pra citar tudo aqui. 

Por outro lado, os habitantes locais viram um rei de verdade de perto pela primeira vez, e foram apresentados a uma série de cerimônias e hábitos novos, criando na cidade uma nova urbanidade. Vocês acham que os nobres portugueses vieram só com seus paninhos de bunda? Bom, quase isso, mas ainda assim, a nobreza portuguesa certamente se fez acompanhar de toda a riqueza que coube em seus navios, o que gerou um afluxo de bens que sacudiu a atividade econômica da modorrenta capital do Brasil. Era gente com gostos mais sofisticados (eu rio sempre com isso, mas enfim) e se imbuíram da nobre missão de imprimir os códigos monárquicos europeus numa sociedade tropical, marcada pela diversidade racial e por costumes provincianos. Tradução: eles achavam que estavam trazendo a civilização para esse bando de pretos, índios e outros primitivos que viviam barbaramente neste muquifo. Oba, chegou o progresso: Conselho Supremo Militar, Academia da Marinha, uma fábrica de pólvora, junto à Lagoa Rodrigo de Freitas, Escola de Medicina, Imprensa Régia (não podia ter jornal local antes, sabia?). Quer mais? D. João não era um boboca fraco, não. Fundou o Jardim Botânico, um observatório astronômico, estimulou a construção de teatros e bibliotecas – um governante que preza as Artes e a Ciência, vejam vocês. 

Pois bem, nem cheguei na tese principal deste texto ainda, vamos a ela. Eu disse ali atrás que vivia todo mundo misturado no espaço urbano entre os quatro morros, mas na verdade tinha uma tênue diferenciação social as freguesias urbanas.  Olha lá no mapinha pra facilitar: enquanto Candelária e São José eram freguesias ocupadas preferencialmente pelas classes dirigentes (burocratas e pequenos comerciantes), tanto para suas residências de cidade quanto para os negócios, as parcelas mais pobres da população habitavam Santa Rita e Santana, que deram origem aos atuais bairros portuários da Saúde, Gamboa e Santo Cristo. Uma questão crucial era a mobilidade. Na ausência de meios coletivos de transporte, os pobres precisam morar perto dos locais onde se encontram as oportunidades de trabalho. 

Mas os poucos nobres têm suas próprias carruagens e escravos, e construíam, às vezes, residências de campo nos bairros distantes do Flamengo, Laranjeiras e Botafogo, que constituíam freguesias rurais. Com a vinda da família real, essa ocupação se intensificou, pois todos queriam seguir os passos da rainha Carlota Joaquina. d. Carlota era uma princesa espanhola da casa dos Bourbon casada com d. João, e portanto, rainha de Portugal e do Brasil a partir da ascensão ao trono do príncipe regente. Ela tem uma importante participação neste deslocamento parcial da cidade rumo ao sul. Conta-se que odiava o Brasil e que, nos 13 anos em que aqui viveu, construiu uma reputação bastante reprovável para alguém de sua estirpe. Enquanto d. João se acomodou no Paço da Boa Vista, em São Cristóvão, a rainha se instalou num amplo casarão nos confins da Praia de Botafogo, lugar mais ventilado e discreto, onde ela podia receber seus muitos amantes, longe dos olhares da corte.

A mesma lógica – estar próximo ao poder – levou parte das classes mais altas a se deslocar na direção de São Cristóvão, assim que d. João lá se instalou, no palacete que ganhou de presente de um rico comerciante. A ocupação desta parte da cidade só era viável para quem dispusesse de meios de locomoção e depois do aterramento de um grande braço de água que entrava pelo meio da cidade (ali onde hoje é a avenida Francisco Bicalho). No rastro da mudança de residência da família real para a Quinta da Boa Vista, portanto, São Cristóvão viu multiplicarem-se as moradias ricas e palacetes, sendo em seguida incorporado à zona urbana da cidade. Logo o bairro foi foco dos investimentos em infra-estrutura, sendo o primeiro da cidade a ser atendido por um serviço de diligências públicas, ainda na década de 1830.

Assim, podemos admitir que a instalação da família real no Rio de Janeiro lançou as bases para uma expansão da malha urbana da cidade, socialmente diferenciada, que se projetou em três eixos principais:

1 – Oeste 

Para além do Campo de Santana, em direção a São Cristóvão, seguindo os passos do imperador d. João VI, que lá foi morar. Ocupação prioritariamente de moradores mais ricos, com poder de mobilidade, instalados em palacetes e casarões senhoriais, cuja construção foi também estimulada pela isenção de alguns impostos urbanos concedida a sobrados ali edificados com dois ou mais pavimentos.  

2 – Sul

Na região já existiam muitas fazendas, mas essa ocupação se intensificou bastante após a mudança da rainha para lá, fugindo do tumulto e apinhamento do Centro. As fazendas foram retalhadas em chácaras, inicialmente reservadas para as atividades de fim de semana, mas aos poucos transformadas em residência permanente de nobres e burgueses ricos. O adensamento populacional dessas áreas até então rurais é notável no período de 1821 a 1838, justificando o desmembramento e criação de novas freguesias, incorporadas ao perímetro urbano, e que dão origem à primeira etapa do surgimento da Zona Sul (Glória, Catete, Laranjeiras, Flamengo e Botafogo)

3 – Noroeste

A parte da população mais pobre, que não tinha meios próprios de locomoção, ao se ver expulsa do Centro da cidade, que deve abrigar os funcionários e membros da corte recém-chegada, se muda para os bairros e morros próximos, adensando as freguesias de Santa Rita e Santana. 

Segue outro mapinha, indicando esses vetores de expansão urbana. 

A despeito das inevitáveis e saudáveis divergências de percepção sobre esse movimento, que aparecem na bibliografia sobre o assunto, uns defendendo que a vinda da família real não operou nenhuma transformação significativa sobre a estrutura urbana da cidade, outros garantindo que a chegada da corte deslocou o eixo da vida administrativa da cidade e sim, mudou a fisionomia da cidade, vou mandar a real sobre o que eu penso.

De fato, não há um plano organizado, que caracterize um conjunto de iniciativas sistêmicas, mas é nítido o surgimento ou consolidação de vetores que indicam a direção e a qualificação da expansão urbana que se vai verificar nas décadas seguintes, incluindo aí a priorização das áreas merecedoras do aporte de investimentos públicos. Para Maurício de Abreu, o fator mobilidade é crucial para entender isso. Fato é que a cidade se expande em território e importância econômica, social e política, e isso não se dá de maneira aleatória. A expansão é diferenciada, e tem, nessa expulsão inicial de parte da população do Centro da cidade, e na movimentação da corte nos anos seguintes, um marco que merece ser mais bem considerado. 

Ana Paula Medeiros é arquiteta, urbanista e narradora do cotidiano.

O que faz minha cabeça

por Flávia Guimarães

O que faz minha cabeça é, e sempre foi, uma boa história. Desde menina pequena. Desde os tempos que meu avô Fernando me contava a história do aniversário do elefante. Ele fazia a voz de cada animal e a voz do elefante era muito grossa e eu escutava fascinada, entrando pra dentro da floresta, caminhando ao lado do elefante que já era meu amigo. Sou feita todinha de histórias. Mas não me venha com muitas filosofias que não gosto. E deusmelivreguarde das teses e dos ensaios. Isso você deixa pra Ângela, aquela intelectual. Eu gosto mesmo é de histórias de gentes que me levam para seus lugares e gostos, que me apresentam suas famílias, seus amigos, seus amores. Não há nada melhor que um bom personagem. Só comida mesmo. E sexo, claro. Um bom personagem me conquista irremediavelmente e me arrasta com ele por sua vida que vira minha também. Talvez por isso eu esteja tão feliz por agora. Porque estou vivendo a realização de um grande sonho, aquilo para o qual venho me preparando desde pequena. Pois a menina que amava as histórias do avô Fernando agora vive de contar as suas. É sorte que fala, né? .

Flávia Guimarães é uma doce criatura e tem uma risada deliciosa. É atriz, produtora, roteirista, mãe de dois, mulher de uma.

Mais um dia nacional do livro?

por Ana Cristina Rodrigues

Todos os anos, as redes sociais são tomadas por uma série de efemérides (nem acredito que consegui usar essa palavra) ligadas ao mundo do livro. Dia Mundial do Livro, Dia do Leitor, Dia do Livro Infanto Juvenil… Quando chega outubro e começam a aparecer as postagens sobre o Dia Nacional do Livro, todos estão de saco cheio e resmungam sobre a necessidade de ter tantos “dias do livro” assim. Mas o dia 29 de outubro tem um bom motivo para ser comemorado no Brasil – e ser o nosso dia nacional do livro.

Sabem a Europa pós-Renascimento? Universidades florescendo, livros sendo impressos, o humanismo surgindo? Bem, a distribuição pelo tal “Novo Mundo” não foi muito igualitária. Portugal, preocupadíssimo em manter suas posses seguras e protegidas, não permitiu a abertura de universidades, não permitiu que a imprensa se estabelecesse aqui. A circulação de ideias dentro do Brasil era limitada e informações sobre o Brasil eram censuradas abertamente – um dos documentos mais reveladores sobre as estruturas econômicas do nosso país no século XVIII, Cultura e opulência do Brasil do jesuíta Antonil, teve todos os seus exemplares recolhidos e destruídos por ordem da Coroa.

Ou seja, éramos tão colônia, mas tão colônia que nem a Inquisição tinha filial aqui. Às vezes, mandava uns visitadores para vigiar se nossos genitais estavam sendo utilizados da forma certa, porque afinal existem prioridades, mas sem estabelecer tribunal aqui porque não era para tanto.

Acontece que um corso invocado assumiu o governo da França e resolveu invadir Portugal. A família real fez a coisa mais sensata no momento e fugiu para o Brasil em 1808. Só que isso inverteu a ordem natural que eles mesmos tinham estabelecido por séculos. A colônia oprimida e obscurecida virou metrópole. E aí?

Aí, foi correr para recuperar o tempo perdido. Pintar paredes, urbanizar a área do porto, expulsar as pessoas das suas casas… Deixar o Rio de Janeiro, nova residência da família real, com cara de Corte – no mínimo. E, claro, acomodar os pertences todos nos prédios a serem ocupados pelos nobres lusitanos. Em “pertences”, estavam incluídos aproximadamente sessenta mil itens de interesse “cultural”, entre livros, medalhas, mapas e moedas.

E você aí, reclamando da estante cheia.

Uma coisa curiosa é que boa parte da coleção de livros inclusa nessa contagem era uma aquisição relativamente recente da família real. O terremoto que acabou com uma boa parte de Lisboa em 1755 prejudicou muito a Biblioteca Real que ficava no palácio da Ajuda. Procurando restaurar a coleção, a Coroa adquiriu a coleção do abade Diogo Barbosa Machado, que incluía livros sobre os feitos de Portugal, vidas de santos e nobres – e uma coleção de gravuras cuidadosamente montada pelo próprio abade, que as recortava de outros livros para colar em volumes únicos e temáticos.

A coleção do abade atravessou o oceano encaixotada, junto com a nata da nobreza portuguesa. Mas ao chegar no Brasil, ficou sem teto, assim como seus companheiros, por algum tempo. Até que em 1810, arranjaram um porãozinho no Hospital da Ordem Terceira, ali no centro do Rio de Janeiro, para acomodar todas aquelas muitas peças. Assim, em 29 de outubro de 1810 foi inaugurada a Real Biblioteca, acessível apenas a estudiosos com autorização régia.

Então, isso mesmo: o nosso dia nacional do livro é o aniversário da Biblioteca Nacional – o nome definitivo veio em 1876, depois de várias aquisições, reformas e uma primeira mudança, para o prédio onde hoje é a Escola Nacional de Música. (Os cariocas conhecem o prédio como aquele que tem a parede pintada com a parede do prédio, ali entre a Lapa e o Passeio).

Biblioteca Nacional – Rio de Janeiro

Mas como as coisas no Brasil são sempre complicadas quando se trata de cultura, a Biblioteca sofria com orçamentos apertados, falta de funcionários e instalações cheias de problemas. Sim, no século XIX os bibliotecários-chefes já reclamavam disso. Quanto mais as coisas mudam…

A segunda grande mudança da Biblioteca Nacional veio junto de uma grande mudança do próprio centro da cidade, agora já capital federal da República. A reforma de Pereira Passos deu à Biblioteca Nacional a sua sede até hoje, 2019 – um prédio arrojado e pensado para ser a casa de uma coleção bibliográfica gigantesca em 1910, mas que atualmente sofre para receber e acomodar a memória livresca nacional.

O prédio anterior estava mesmo pequeno, principalmente depois de receber a doação do imperador exilado – mais de cem mil volumes, na coleção que hoje é chamada de Coleção Teresa Cristina Maria. A Biblioteca Nacional não foi a única beneficiária desse ato, pois além desses livros, Pedro II deixou o palácio de Petrópolis com móveis e utensílios, base do atual museu imperial. E claro, a sua maior contribuição para a ciência brasileira foi a doação da coleção de artefatos históricos e arqueológicos que deram origem ao Museu Nacional: múmias, fósseis, meteoritos, peças da antiguidade clássica. Infelizmente, o republicanismo de resultados dos últimos anos deixou que essa parte do legado ardesse – e se o caminho continuar sendo o atual, nem a parte que sobrou está segura.

Nada mais justo que o aniversário da Biblioteca Nacional ser o dia nacional do livro. Além de ser parte fundamental da história da leitura e da literatura em nosso país, a Biblioteca é onde fica o registro oficial dos direitos autorais de obras literárias (através do Escritório de Direitos Autorais) e é a responsável pelo cumprimento da lei de Depósito Legal, que diz que todo o livro publicado no Brasil deve ter um exemplar enviado para o acervo da BN. Também já foi, por algumas vezes, parte da política nacional do livro e da leitura, mas essas iniciativas acabam sendo governadas mais pelos quereres políticos do que pelas demandas do Estado, e a Biblioteca perdeu boa parte desse projeto com a saída do Programa Nacional de Incentivo a Leitura e do Sistema Nacional de Bibliotecas Públicas.

Mesmo com todas as dificuldades – lembram dos orçamentos apertados, da falta de funcionários e das instalações cheias de problemas – a Biblioteca resiste. Seu projeto de digitalização de obras é reconhecido no mundo todo e as fotos doadas pelo imperador são consideradas patrimônio cultural da humanidade. Pesquisadores usam suas obras para desvendar o passado e buscar respostas para o futuro. Escritores e cineastas protegem seus direitos autorais e guardam seus originais no depósito. Ela é o símbolo nacional do livro, uma pequena amostra da riqueza que geramos em pouco mais de dois séculos de liberdade de pensar (mesmo que por vezes limitada e censurada).

Ana Cristina Rodrigues é escritora, historiadora e tradutora, além de servidora da Biblioteca Nacional desde 2006. Seu primeiro romance, Atlas Ageográfico de Lugares Imaginados, fala de memórias, lembranças e uma cidade-biblioteca, podendo ser comprado em pré-venda no link https://www.lendaristore.com.br/atlas

Não vou mais levar você para ver um filme nacional

por Patricia Daltro

–  Você me trouxe para ver um filme nacional? Desde quando um filme nacional presta?” –  pergunta a personagem dentro do filme assistido pelas personagens do filme “Os Farofeiros.”

Como se dialogassem entre si. A personagem que assiste ao filme, representada pela atriz Danielle Winits completa:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real.

Imediatamente a personagem na tela repete a fala da primeira:

– Cinema nacional só tem putaria e palavrão. E as pessoas não falam assim na vida real. Não é verdade, gente? Hum?

Neste pequeno e metalinguístico diálogo vemos a essência do que o cinema nacional ainda representa no imaginário popular. Filmes brasileiros não prestam. Ou são tão autorais, que se restringem a um seleto publico que “os entende”, os famosos filmes “cabeças” ou se resume a putaria e palavrão. Esta mentalidade não surgiu do nada. Foi construída e pavimentada por décadas, regadas à falta de incentivo financeiro, censura e tecnologia obsoleta, além da competição injusta com as produções hollywoodianas.

Podemos dividir a história do cinema nacional em momentos distintos, até agora.

Por incrível que pareça, foi na década de 1970 que o cinema nacional alcançou seu auge. Embora tenha sido durante a ditadura que tenham sido criadas a Embrafilme (Empresa Brasileira de Filme) e a Concine (Conselho Nacional de Cinema), que fomentaram a produção cinematográfica, a mesma, restringia, através da censura, a diversificação da produção. Restou aos cineastas nacionais burlarem o sistema com histórias ufanistas, bibliográficas, infantis (Os Trapalhões como grande expoente), e, é claro, a pornochanchada, que levou à população a lotar suas salas – embora restritas a uns poucos cinemas.

Com a retomada da democracia, era de se esperar que, assim como na música e em outras produções culturais, o cinema também se reestruturasse e trouxesse novos ares e temáticas. Mas, a crise econômica dos anos 1980 e a recessão que assolou o país durante os primeiros anos da década de 1990, ocasionou a quebra do cinema nacional. Salas foram fechadas, produções canceladas. O auge da crise aconteceu durante o governo Collor de Mello que suspendeu, através de medidas provisórias, quase todos os mecanismos de incentivo, extinguindo a Concine e a Embrafilme, ações que levaram a estagnação quase completa das produções nacionais.

Somente após a deposição do presidente Collor, a criação da Lei Audiovisual do presidente Itamar Franco, as políticas estatais de fomento à cultura do presidente Fernando Henrique e a lei Roaunet, promulgada pelo presidente Collor, mas que só veio a funcionar, mesmo timidamente, nos meados dos anos 1990, foram sem dúvida, as ferramentas propulsoras deste movimento de retomada do cinema nacional. O advento de novas tecnologias, de linguagens mais atraentes ao público em geral e a entrada em cena de novos cineastas, que trouxeram diversificação ao cinema, consolidaram esta etapa.

O filme tido como marco inicial deste período foi Carlota Joaquina, de Carla Camurati, lançado em 1995, primeiro filme nacional da década a levar mais de um milhão de pessoas ao cinema.

Imagem de divulgação do filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil de Carla Camurati

O filme produzido com baixo orçamento, trazia uma nova forma de contar a história do Brasil. A chegada da corte portuguesa às terras brasileiras, tendo a princesa Carlota Joaquina como a protagonista e trazendo um d. João VI caricato e glutão, utilizou uma linguagem pautada no humor ácido, tão em alta nessa década, uma relação que flertava com a teledramaturgia do horário nobre das TVs, que caiu no gosto popular e abriu os portões para que outros explorassem esta e outras linguagens.

Encerraria esse texto aqui, desejando um final feliz para o nosso cinema, com quase duas décadas de sucesso, com produções chegando aos milhões de espectadores. Mas, a triste verdade, é que hoje vivemos novamente, um período obscuro, onde não apenas uma recessão e restrições financeiras ameaçam nossa história cinematográfica, mas também, restrições de ideias, mental e cultural, sem dúvida, esse é o período mais perigoso que nosso cinema já enfrentou até hoje.

Patricia Daltro é artesã e escritora. Ela pode ser encontrada aqui: http://avidasemmanual.blogspot.com/

Abigail, uma Andrade

por Rita Paschoalin

Oswald, Carlos, Mário. O sobrenome Andrade aparece fácil nos índices remissivos da arte brasileira. O culto pelos Andrades nasce cedo, lá no fundão da sala de aula. Sempre masculino, o sobrenome dita a trilha da leitura modernista do país: siga por Pindorama, insulte o burguês, tenha nas mãos o sentimento do mundo.

No entanto, anos antes de nascer o menino de Itabira ou de se acenderem os escândalos do amor intransitivo, e antes de clamarem que só a antropofagia nos salvaria, o nome Andrade já tinha feito casa nas artes deste país confuso. Num tempo em que os manifestos que inauguraram a modernidade por aqui ainda não tinham sido proclamados, o nome Andrade já traçava não o verso no jornal, mas o pincel nas telas, e deixava um rastro mais sutil do que a pedra no caminho.

Pode-se divagar livremente sobre as razões da invisibilidade feminina na história oficial da arte mundial no século XIX. O fato é que “o” Andrade que pisou o campo das artes antes de nossa tríade mais famosa era, na verdade, uma Andrade.

Quem circulou pela 26ª Exposição Geral de Belas Artes no Rio de Janeiro, em 1884, teve acesso a quase quatrocentas obras de setenta e cinco artistas. Era um ano de grandes transformações aqui e ali. Ceará e Amazonas aboliam a escravidão, o que só ocorreria quatro anos depois no restante do país; a Europa fatiava o continente africano. No Rio, a 26ª Exposição Geral foi a última — e a maior — realizada durante o Império, cinco anos antes da derrubada da Monarquia. A ocasião foi glamourosa, e o catálogo da exposição, custeado por uma renomada galeria de arte do Rio, foi ilustrado por esboços feitos pelos próprios artistas expositores. A grandiosidade do evento foi repercutida pelos principais jornais da época e prestigiada por notáveis críticos de arte.

Entre muitos outros, o elenco de artistas da grande exposição de 1884 incluía nomes como Pedro Américo, o paraibano que logo pintaria seu célebre Independência ou Morte, e Zeferino da Costa, autor das pinturas da cúpula na Igreja da Candelária. Abigail de Andrade, uma moça de apenas vinte anos, natural de Vassouras/RJ, foi uma das quatro mulheres entre os setenta e cinco artistas da exposição. Dentre pinturas, cópias e estudos de desenho, Abigail exibiu quatorze obras no maior evento de artes do Segundo Reinado.

Apenas oito anos depois, em 1892, as mulheres passariam a ter direito de frequentar a Academia Imperial de Belas Artes. Na época da exposição, Abigail estudava há dois anos no Liceu de Artes e Ofícios do Rio, que desde 1881 aceitava alunas na escola. Em linhas gerais, as mulheres artistas da época contavam apenas com aulas particulares ou eventuais aulas livres oferecidas pela AIBA.

Um canto do meu ateliê – Abigail de Andrade


Mesmo sem acesso à formação oferecida pela Academia Imperial, Abigail foi agraciada com a Primeira Medalha de Ouro da grande exposição de 1884, graças ao destaque conseguido pelas telas Cesto de Comprase Um canto do meu ateliê. Foi a primeira mulher a ganhar a medalha, e gosto de pensar que ela rompeu limites e abriu uma janela que nos mostraria, no século seguinte, as cores de nomes como Anita Malfatti e Tarsila do Amaral.

Ainda que seu nome não apareça em nossos índices com a mesma assiduidade de outros Andrades que amamos, uma espiada em reproduções das telas de Abigail pode nos surpreender. É fácil imaginar que o silêncio em torno de seu nome reflita mais o espaço negado às mulheres nas academias de arte no século XIX do que a qualidade de seu trabalho.

Cesto de compras – Abigail de Andrade

Imagino os críticos de arte do salão em 1884 diante da variedade de materiais retratada em Cesto de Compras — a madeira da mesa, o metal das moedas, a palha do cesto, as raízes das hortaliças sobre a gaveta esquecida aberta por quem correu para pintar outra luz, uma paisagem, um retrato, romper outro limite. Abigail existiu, foi Andrade, pintou, desenhou e fez da arte profissão, um feito e tanto para uma mulher de seu tempo.

Abigail também amou. E escandalizou, como as personagens do amar intransitivo do outro Andrade. Mudou-se para Paris na companhia de um amor proibido e lá, na terra da arte e da luz, morreu em 1890. Tinha apenas vinte e seis anos. O alvoroço em torno do romance com o celebrado cartunista Angelo Agostini encerrou a convivência de Abigail com a comunidade artística e ajudou a apagar seu nome de nossos índices.

Mas sempre há tempo. Talvez mais humana do que a moral, a arte resiste. E aí penso no cinema, que adora nos jogar nos salões e suores do século XIX — que belo filme não daria a vida de Abigail?

***

Infelizmente, as telas de Abigail de Andrade atualmente compõem coleções privadas e se encontram (ainda) inacessíveis ao grande público.

Estendendo a roupa – Abigail de Andrade

Da união de Abigail de Andrade com Angelo Agostini, nasceu Angelina Agostini, também pintora (1888-1973). Angelina fixou-se em Londres a partir de 1914 e expôs em importantes galerias da Inglaterra e da França. Retornou ao Brasil na década de 1950 e foi agraciada com Medalha de Ouro no Salão Nacional de Belas Artes de 1953. O quadro Vaidade, pintado por Angelina em 1913, integra o acervo do Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Rita Paschoalin lê, traduz e escreve. Acredita piamente que só a arte nos salva e nos justifica.

A volta triunfal da nossa proverbial mulher pelada das segundas-feiras

Foto de Henry B. Goodwin , 1920
Não sei o nome da modelo 😦

Vim só para dizer que a semana começou. E, com ela, volta a nossa proverbial mulher pelada das segundas-feiras.

Tem nada melhor do que ser dono do próprio site, seus lindos.

Bão, pelo menos até o WordPress resolver ser idiota também, feito o finado Tumblr.

Daí veremos pronde vamos levar nossos mamilos vintage.

Por ora, aqui estamos. 🙂

Livros ensopados, soluços, o Stra e a onipresente Salmaso

Né nada modesto isso que vou fazer. Mas eu tava tão triste. Nem sei mais o que é tristeza, o que é cansaço a essa altura de um domingo de trabalho pesado – e nada agradável. Joguei metade da casa fora, não porque sou desapegada de bens materiais e sim porque a chuva me obrigou (Oi, chuva, te amo, mas né, vai se danar).

E daí, fui ler emeinhos acumulados e tava lá o Stra. Sendo incrivelmente gentil com uma senhorinha cansada e meio solucenta.

Então é isso. Pedi autorização, ele deixou. Boto aqui o mais incrível dos elogios. Feito por um amigo de infância, esse caras que elogiam a gente para muito além do que a gente é ou é capaz, mas né, a gente deixa, porque está triste e cansada e é bom de ouvir e, por um segundo, acreditar .


“Que lindo link com o final do show do Lobo, Fal! Que lindo a música, a idade de todos (inclusive a nossa), a beleza da Salmaso (que linda que ela está! envelheceu embelezando, a cafa!).
Enquanto ouvia a música, embasbacado com a voz da Monica (como todas as vezes que a ouço), me veio a explicação do universo. Que tem a ver com uma queixa que ia fazer a ti, depois de ver seu site novo. Mas aí fui no Edu Lobo e tudo ficou claro.
A queixa que eu ia dizer era que não eres só escritora. Eres cantora e sabes disso e eu sei disso, e tenho toneladas de horas na vida e (ainda) na memória que comprovam isso. Tinha uma fita cassete sua que comprovava isso, mas sabes né? Tudo físico meu se perdeu por aí, inclusive meu corpitcho.
Mas voltando, ao ver teu link e Salmaso cantando, entendi tudo.
Porque eres uma artista completa, daquelas que nasceram pra ser artista, de circo, de róliud, da globo. Isso deverias dizer no teu site novo, quando em terceira pessoa tipo Pelé, dizes quem és. Eu tascava: artista. Mas entendo que soa raro, como se diz aqui. 
E em algum momento, ouvindo e vendo a Salmaso, tudo ficou claro pra mim. O universo te deu tudo pra ser a artista plena de todas as artes. E em algum momento tu disseste que cantora não. Sei lá porque e nem quero entrar nisso. Terás teus motivos e os respeito. Mas quando disseste isso pro universo, ele respondeu. “Ok, fellows, pois os tasco uma Monica Salmaso, que é igual de bom e o universo (eu mesmo, veja só), não posso ficar sem a musicalidade afinada e sentida dessas duas que são uma só.”
Então Salmaso surgiu no seu vácuo, porque tudo que existe precisa acontecer. E aconteceu a Monica cantora e a Fal escritora. E agora tudo fica claro e não preciso fazer a reclamação. Eres cantora, mas isso está em Monica. 
Um dia perguntaremos se o lado escritora da Monica gerou a Fal. Mas isso fica pra outro dia.
bj saudoso de dar abraço de 30 segundos.

Marcelo Estraviz

Si todo cambia

Há muito tempo, tive um amante que me ensinou com palavras e na prática: não existe amor sem ressentimento.

Amar, por mais maravilhoso e transformador que seja, cobra um preço. Nunca insignificante. Nunca em apenas uma prestação. Nunca sem juros e correção monetária e não, não aceitam esse cartão.

O Drops é meu amor. Meu grande amor.

Não vou explicar o que é um blog, todo mundo já sabe. Nem vou discutir se é possível fazer literatura em blog. Participei de uma jornada literária há quase vinte anos, na mesma mesa que os enormes Alexandre Inagaki e Idelber Avelar (eles, uns monstros da blogosfera, eu, um café-com-leite-babão) e já naquele tempo afirmávamos: o que se faz em blogs é literatura. O tempo, esse lindo, só nos deu razão.

Sigo no Drops, há dezessete anos, fazendo literatura. Boa literatura. Consistente, cuidada, boa mesmo. Hahahaha, não vou bancar a sonsa, adoro o que escrevo, pelamor. Produzo aqui no Drops a literatura que sei e posso produzir, a literatura que amo. E faço amigos. E aprendo coisas, e leio coisas novas que me chegam nessa prainha, há tantos, tantos anos.

Vou dizer: amo esse pedaço de chão. Adoro vir aqui. Seja lá onde “aqui” for. Passamos, Drops e eu, por mais mudanças e solavancos do que é humanamente possível explicar. Ele nunca falhou. Nunca titubeou, nunca hesitou.

Eu, às vezes, empaquei. E hei de empacar de novo e de novo no futuro. Errei, me perdi, esqueci a senha, taquei longe os dicionários. O Drops, nunca. Ele nunca falhou. Nunca deixou de estar.

Redes sociais vêm e vão, jornais, partidos, condomínios blogueiros, modinhas, coletivos de textos, todos esses trens passam e passam.

O Drops está aqui. O Drops não vai a lugar nenhum.

Temos fotos, turma. E canecas, e desenhos, revista com artigos dos queridos, sacolas, quadrinhos e folhetim assinado por convidada especial (em breve, aguardem), fotonovelas em portunhol (em breve, aguardem, de novo). Temos musiquinha (MUSIQUINHAAAAAA) e linques para outras casas lindas – fiquem de olho nessa barrinha lateral porque ela vai ser uma riqueza. E temos comentários em todos os posts! Sim, sim, falem comigo!

Mas antes de qualquer outra cousa, temos textos. Textos, sei que vocês se lembram. Textos.

E, ah, temos vida, temos vida, temos vida. Estamos atentos, fortões pra cacete e, como sempre, desbocados. Estamos firmes. Pode não parecer, porque essa vida nos quer de joelhos, mas estamos firmes. A cada dia, a cada instante. Firmes, firmes.

Vamos produzir. Vamos ser autorais. Vamos vamos colocar em palavras, vamos relembrar, afofar, destruir, definir, esquecer, confundir, avaliar, julgar, atacar e perdoar, vamos dar forma aos pensamentos e aos desejos e aos anseios e aos quereres.

Se havia ressentimento, nós o superamos.

E escrevemos, todos os dias, sempre, sempre, caneta tinteiro em punho, mãos manchadas de azul, municiados com teclados afiados, monitores radioativos, livrão de citações do Paulo Rónai, canetinhas de flamingo e cadernetas que a Telinha compra para nós na Casa Cruz.

Nossos corretores ortográficos em riste, chispas nos olhos, fúria no coração.

Ergamos o rosto para receber o vento e sigamos em frente.

Uma palavra de cada vez.

O Drops, como Minas, está onde sempre esteve. Ainda que o endereço, ali na barrinha de navegação, às vezes precise ser atualizado.

Vem cá, meu bem.

Faça um pé descalçar o outro, acomode-se com um gato no colo – tenho vários, pode escolher –, apanhe uma taça, dê um abraço na Suzi Márcia (ela merece todos os abraços) e brinde comigo pela vida: a sua, a minha, a do Drops.

Cent’anni.

Que vivamos cem anos.

Todos nós.

A vida cotidiana, essa fonte de lugares-comuns, chatices e horrores

Deus abençoe meu retraimento, minha desconfiança e minha timidez. Não necessariamente nessa ordem.

*

Brasil, tem quase dois meses que você se livrou do socialismo cruel, tá se sentindo melhor, amole? Mais free, mais fresh, mais in, mais cool?

Tá bão.

*

Leite em pó. Que morte horrível. O problema com leite continua nessa casa. Um litro – agora que Maliu não pode mais beber leite – é coisa demais pra mim, estraga direto, preciso de um tico no meu café com leite matinal e fim… Mas leite em pó nem pensar. Que troço odiento.

*

Segunda temporada de La trêve. Então. Não é a batatinha mais crocante do pacote, mas né, estou esperando pela nova temporada de The west wing, pela nova temporada de Mash.

Nunca mais vi meu amigo

Uma vez eu me despedi do maior amigo que já tive na vida.Era uma sala, não, era uma espécie de vestíbulo, todo verde.Eu, no pé da escada, a madeira pintada de branco, minha calça de linho cor de abóbora; ele a alguns passos de mim. Foi um ou dois dias antes do avião; aquela cidade era o centro do mundo; aquela dor era o meu peito; ele estava noivo e usando uma camiseta cinzenta; eu, sem rumo e de sapatos azuis; ele vinha partindo meu coração há mais de uma década, partindo meu coração, partindo meu coração, partindo meu coração, estilhaçando meu coração.Ele me disse alguma coisa, eu disse blablablá, ele virou as costas e saiu dando passos largos, e quando vi a nuca dele, meio cor de rosa, meio creme, o cabelo alourado, raspado, encontrando a pele fininha, soube que nunca mais ia vê-lo. Naquela hora, naquele exato momento, eu disse a mim mesma, disse, disse, disse, disse, disse, disse, disse, eu disse: “Nunca mais vamos nos ver”.Pelas décadas seguintes nos encontramos algumas vezes, um trampo aqui, um esbarrão em um café ali.Mas nunca mais vi meu amigo, meu amigo nunca mais me viu.E da longa, muito mesmo, lista de homens que não me quiseram, ele é o retrato pendurado na parede, tantos anos, tantos anos, tantos anos.

Menu dégustation: abril

Coisas vistas & ouvidas & preparadas & assistidas & comidas & visitadas; mas não todas, não tudo, não todo o tempo.

Suzi Márcia, que tinha feito cartazes do Drops mês passado, nesse mês fez bonecos do Maximus e seus amiguinhos, bolsa linda e abriu grupo do Drops lá no feissy. Eu só fico olhando de boca aberta, achando tudo lindo demais. Estraçalhei meu braço dum jeito patético-burro-tonto-trapalhão-porrafal e Suzi também está cuidando da digitação geral e absoluta. Quem tem Suzi tem tudo.

*

Graças a Fabiana Mesquita e Mariana Aldrigui, tem equipamento funcionando nessa casa.

*

Fiz tortas salgadas lindas. Lindas. Elas ficam com o queijo derretidinho, com a crosta dourada, umas belezocas.

*

Vi:

A série Happy, na Netflica. Que coisinha bem pensada e engraçada. 

A série Borderliner, também na Netflica, achei fuéééén.

A série Counterpart, em meio alternativo de entretenimento, oia, MUITO AMOR. 

E só. Não vi filmes, não vi coisa alguma além das séries supracitadas, porque a Netflica vai tirar Supernatural do ar H-O-J-E e eu fiquei maratonando e maratonando, com o coração cheio de saudade antecipada. Não tá certo isso, não.

*

Li muita coisa sobre a vida de Monet. Achei que conhecia o cara e, como sói acontecer, constatei que não se sabe coisa alguma da vida dozotros. 

*

Reli, cheia de assombro e o horror da total identificação, A invenção da solidão, do Auster. Pelamor.

*

Dei uma parada com o livro do Peter Gay, mas já voltei pra ele.

*

Li O buda no sótão. Que livro. /o\

*

Graças ao meu amigo Sérgio e sua generosidade, estou lendo Rex Stout como uma viciada. No fim de maio eu faço a lista do que li, porque já comecei a me perder.

*

Testemunhei o desmonte da casa de um amigo. Foi mais ou menos como o desmonte da minha. Odeio mudança. Mudanças.

*

Minhas plantas tão crescendo que nem uns bebezinhos. Inclusive minhas suculentas, que chegaram aqui do tamanico de meio brigadeiro e quase mortas.

(chamo as suculentas de leguminosas, só pra fazer Maliu rir).

*

Foi isso. Abril foi um mês lento.

Abril de 2018


Notas rápidas duma digitação errante

Deve haver alguma espécie de explicação pra sem-noçãozice, a sua, a minha, mas né, a NASA não liberou o material, de modos que só observo a pessoa circulando alegremente entre o resto do pessoal, fingindo que olha, tudo bem.

*

A filha da amiga tem cinco anos e não se conforma quando vê a cena na casa dela ou aqui: um adulto, com a tevê desligada, lendo um livro feito de papel. Ela esteve aqui e não queria conversar ou fazer gracinha ao me cercar enquanto eu lia. Estava mesmo impressionada. “Você fica que nem a minha mãe, sem se mexer, lendo, lendo. O seu livro não pisca”. 

Não emito juízo de valor, quem ama o passado pelo passado e não as coisas legais do passado, que volte a tomar banho de canequinha, mas ler livros me parece ser uma daquelas atividades que, muito em breve, vai se unir a bater manteiga, acender o lampião, levantar-se pra torcar o canal da tevê (com bombril na antena), casar por procuração e fazer a América.

Eu e meus livros que não piscam, graças a Deus, em extinção acelerada. Que São Darwin nos abençoe.

*

Filmes velhos na Netflix. Obrigada, civilização ocidental.

*

Meu braço tá uma chatura e eu não quero mais falar dele.

Segundo semestre de 2018

Poeminha sobre velas de maçã; roupa de cama; bolachinhas de goiaba e a imensa falta que você me faz

Tudo quieto no meu quarto, 

tudo ali estava bem

nem um cisco se mexia, 

nem um rato, 

nem um trem,

mas ao me levantar, 

em busca de dicionário honesto

sou alarmada pela algazarra

coisa que, de hábito, detesto.

Para apanhar o meliante, 

viro-me de supetão,

e eis que constato aflita:

sobre minha cama, 

o cão.

É um cão novo, redondo, 

bobinho e feliz

que ama todo mundo, 

que suja de leite o nariz,

faz dos gatos, irmãozinhos,

gosta da Maliu e de mim

gosta de desenho animado,

de balas e chá de jasmim.

Ele está sempre alegre, 

está sempre agitado

está sempre com fome, 

nunca parece cansado.

E agora, em minha cama, 

late, se agita e brinca

como se fosse um dia gentil,

numa semana boa, 

num ano sensato,

como se não fosse o Brasil.

Caldo

Queria falar sobre a dor do que é contínua, definitiva, invariável. Sobre a dor do que se pode ter, não se pode ter, existe e não existe, como o gato na caixinha. Sem gradação. Sem alívio, sem começo ou fim, sem abinha para puxar, sem “ligue para o nosso SAC”, sem “abra o pacote na linha pontilhada”. Queria falar sobre a dor que está lá todos os dias, todos, esperando por você dentro das crocs brancas, esperando, e que quando você se senta na cama e desliza os pés pra dentro delas, é tomado por aquela sensação de conforto, de morno, de reconhecimento, de enfiar os pés não nas crocs, mas nas crocs recheadas pela lama primordial da dor ininterrupta e, então, vem a lembrança. E cheio de dor da dor que a dor causa, você revive, antes de sair da cama, fazer xixi, escovar os dentes e amaldiçoar o dia, a lama de onde se arrastou ainda um organismo patético, sem rabo, sistema nervoso central digno desse nome e cílios. Você, sim, veio dela, ainda um nada, sem pelos, sem conta no insta, sem caixa de anéis, meias na gaveta. Não tinha qualquer coisa a não ser dor. E você rastejou para fora do poço da dor para criar membros, andar de quatro, escalar árvores, andar de dois, aprender a matar tigres, simbolizar com sangue e suco de frutinha, registrar a vida, matar Aníbal, construir Paris, telefonar para a sua mãe, comer no coreano, torcer pelo time, checar o celular e parar de doer tanto, o que se mostrou impossível. Um caldo primordial de dor e desistência do qual jamais nos livraremos, era sobre isso que eu queria falar. Não tem perfume francês, shampoo recomendado pela blogueira, esponja esfoliante do catálogo da vizinha que nos afaste desse cheiro, dessa lama, desse pegajoso em nossa pele morta, da dor. Queria falar sobre os pequenos gestos impregnados de dor, os sorrisos dolorosos, as respostas rápidas e silenciosas no gerenciador de mensagens, ah, sim, o silêncio, o silêncio da dor, o silêncio, sua respiração, a respiração do gato, a lambreta que passa na rua, é silenciosa a dor, sempre, não há dor no barulho, ainda que ela exista em todas as partes (e não exista, como o gatinho na caixa), ela é silenciosa, fluida, adaptável, sorrateira, a dor. Ela não vai a lugar algum e viaja, rápida como a luz. Ela não vai a lugar algum. Você vai, em breve, ir é seu destino, ela fica aqui, esperando por você, espreitando a mangueira na janela do carro ligado, o nó na corda, as pílulas coloridas, o despencar no abismo, o saco plástico, a pólvora, os cortes transbordantes, o gás. E não, não importa que você não volte, ela sabe que nunca mais o verá e não se aflige, porque você a verá todos os dias, sentirá a respiração dela sobre sua pele todos os dias, mesmo depois de morto, mesmo depois que tudo isso acabar, mesmo depois de sempre, mesmo com os carros voadores, teletransporte e Marte conquistado, a dor, a dor, mesmo depois de morto.

(da newsletter Noticinhas do Drops 11 – se você quiser assinar, fala comigo no dropsdafal@gmail.com)

Vaidade, Moby Dick, a Veronica tendo um ataque apoplético, quitandas mineiras, postais da Anlene, e um pouco de apocalipse zumbi 

Inda tá em tempo de vocês votarem em mim, fios. Meu governo será animadíssimo: dia sim, dia também, teremos surra de rabo de tatu em público. Minha lista é sensacional, bobagem de vocês não me alçarem ao poder em meio dum banho de sangue.

Dá tempo.

*

Negócio que me deixa fula é esse tal de “apoio crítico”. “Apoio, sim, mas com restrições porque…”. Vai se foder, amigue. Apoia ou não apoia, sério, mas não vem com “mas”. Pode me odiar loucamente, fala mal de mim  pra minha irmã (que certamente vai concordar com você), mas não vem com essa coalhada de “restrição”. No seu cu a sua restrição.

*

Sim, é com esse espírito gentil e bonachão que mergulho as pontas dos pés na grande piscina da vida (caraio, Fal).

*

Minha alergia misteriosa? Voltou bombando. O mundo me dá urticária.

*

Para variar, devo texto para metade da interneta brasileira. Não é que os dias são curtos, eu é que sou lerda.

*

Informada pela Veronica, a minha diagramadora, que o livro novo ia ficar com quase quinhentas páginas, só não surtei porque a pobre Vero estava com o surto em curso. Quinhentas páginas, meu pai eterno. Na prateleira dos meus três leitores seríamos eu e Moby Dick, versão especial de luxe, com desenhos e ensaios. Aquela mesma. Tudo bem, baleia nós temos (porra, Fal), mas, né, ninguém aguenta quinhentas páginas de me, myself and I falando sozinha, num exercício constante de neurose irreversível.

Cortar aquilo foi cortar na carne. Ah, literatura (ou, no caso de yours truly, esse negócio aqui) é vaidade, vaidade, vaidade.

*

Não seja o cara que liga pra uma mulher para perguntar sobre a outra. Não seja, não faça isso. Contrate um detetive particular, a CIA, instale grampos no celular da presa, compre um satélite, mas não mande um “Oi Fal, e Fulana, sabe dela?”, assim, como quem não quer nada, no meio da conversa, depois que sua amiga, toda felizinha, se enrolou no travesseiro achando que você realmente queria ficar de conversê. 

*

Anlene me mandou um envelope de cartões postais mais lindos do universo. Vou fazer quadrinhos, é fácil me fazer feliz.

*

Se essa eleição não te deixou descaralhado das ideias, você é um ser superior e imbatível. Manda seu currículo pro Tibete, cê é o próximo Dalai Lama. Pode dar meu nome de referência.

De vídeos de sexo a suásticas, defesa da KKK, amiga judia sendo ameaçada na base do “Sua puta da Bíblia, em janeiro a gente vai fazer fogueira com você e seus livros” (”puta da Bíblia”? De onde vêm essas pessoas, meu Deus?), amigos gays sendo espancados no meio da rua (não um, não dois, antes que você venha bancar o superior ao falar de “fanfic, blablablá exagero”), amigos curtindo páginas inomináveis e achando que “ah, é isso aí mesmo” (gente que, certamente, acha que minha mãe devia ter apanhado até morrer em 1970 e que nem tenta esconder isso de mim por, sei lá, decoro), amigo de fé e ex-colega de trabalho branco, hetero, careta, pai de três, todo o figurino classe média churrascão-de-bermuda sendo recebido aos gritos de “Cata aquele comunista do caralho e corta as bolas dele” (sic) em reunião de condomínio porque se recusou a assinar abaixo-assinado que pedia a proprietário de apartamento para não alugar o imóvel para “família de pretos suspeitos e escrotos” (sic. Pai, mãe, avozinha meio zureta e dois meninos, um de 3 anos, um de 5 anos, era essa a galere suspeita, escrota), gente muito pia e religiosa comemorando print FAKE de restaurante indo à falência, morte, fim de banheiros de gênero neutro, e compartilhando mais trocentos posts fakes, todos de .moral abjeta.

Acho que toda a miséria humana passou pela tela do meu computador, meu telefone, minha caixa de e-mails. Toda.

 E gente que acredita em Deus, vê bem, gente que, ao contrário de mim, crê que vai morrer e prestar contas.

Vocês estão de parabéns. 

 *

Turma no bar. Geral tomando cerveja, eu na cacacola.

Nasci pra matinê, não tem jeito.

*

Acaba a luz. Fico sem ventilador. Começo de choramingar imediatamente. Eu não ia durar nem vinte minutos num apocalipse zumbi.

*

Biscoitinhos mineiros. Dá a chave do mundo pra Minas Gerais, gente. 

agosto/2018

Preparo a chaleira, separo as páginas, afio o lápis.

Armo as palavras, apuro o olhar, mergulho o infusor.

Desenho a intenção , sorvo o calor, repenso o argumento.

Contrabandeio seu nome, conjugo  sentidos, pouso xícara no pires.

Quer meu livro novo? Escreve pra mim: comoensinarumidiotaadancar@gmail.com

Joquenpô – plástico ou papel

por Tatiana Yazbeck

Sou da época em que as compras da casa vinham em sacos de papel pardo, relativamente grosso, de tamanhos variados. O pequeno, onde cabia, por exemplo, uma lata de leite condensado ou achocolatado, o médio, onde já era possível colocar uns três ou quatro itens um pouco maiores e, finalmente, o grande. Existiam também as sacolas de papel que não eram encontradas em qualquer mercado, só nas grandes redes, tipo “Disco”, lembram? – que não aguentavam quase nenhum peso.

Lembro que nunca íamos sozinhos ao mercado. Precisávamos de muitas mãos disponíveis para carregar as embalagens. Algumas vezes, no trajeto para casa, o papel ficava úmido, por conta de algum produto refrigerado – reparem, eu não disse congelado, disse refrigerado. Congelada, no meu tempo, nem a carne – e com isso, chegávamos com as mãos frias, a encomenda ameaçando cair no chão, o saco se desfazendo pela umidade. Um caos.

Outras vezes, o saco não aguentava o peso e rasgava antes que chegássemos ao nosso destino. Já catei muito pacote de macarrão na rua enquanto os vizinhos riam de mim.

Tínhamos outras opções. Para as compras do mês, caixas de plástico duro, do próprio mercado, que entregava os pedidos, mediante pagamento de taxa. Ou então, o queridinho das donas de casa, o carrinho de compras. Feito de aço, com duas rodinhas, não havia ninguém nos arredores que não possuísse um modelo. O da minha casa era dourado com rodas azuis e servia tanto ao mercado, quanto à quitanda e também à feira livre. Aliás, eu amava ir à feira! Quando criança, ia sempre com minha avó. Lá, nos encontrávamos com as amigas dela e ficávamos sabendo de todas as fofocas do bairro. Mortes, separações, nascimentos, nada passava em branco. Comíamos churrasquinho e pastel. Pastel de feira, minha gente, com ou sem quarentena, é uma ótima pedida. Já na adolescência, comecei a paquerar um menino que morava na rua da feira e praticamente implorava pra vovó ir comigo até lá, para comprar, nem que fosse uma cartela de ovos. Mas isso fica para outra crônica.

Alguns anos depois, os sacos de papel foram sendo substituídos pelas sacolas de plástico e todos nós ficamos enlouquecidos com a praticidade que a novidade proporcionou. Já podíamos ir ao mercado sozinhos. Desde o início percebi que, quando em maior quantidade, as alças das danadinhas machucavam meus dedos, deixando marcas vermelhas e doloridas. Mesmo com uma gerigonça de plástico que servia para transformar o emaranhado de pequenas alças em uma só, nunca me senti cem por cento confortável. Eventualmente, o plástico rasgava também.

Quanto ao meio ambiente, não me lembro de ninguém, mas ninguém mesmo, ter mencionado que o material plástico iria causar problemas para o ecossistema. Agora, adulta, eu me pergunto: será que ninguém sabia dos riscos? Do impacto que causaria ao meio ambiente?

Há, porém, uma atmosfera vintage no ar. Pequenos e médios produtores estão migrando do plástico para o papel em suas embalagens. As pessoas ressuscitaram o uso dos carrinhos, cuja versão moderna se parece com uma enorme mochila de rodas. Além disso, muitos estabelecimentos deixam caixas de papelão à disposição dos clientes. Sacolas de plástico biodegradável, que levam em média seis meses para se decompor, já vem sendo usadas por grandes redes de supermercado. As ecobags viraram objeto de desejo.

Precisamos ainda pensar num substituto para o uso das sacolinhas no descarte do lixo, mas como tudo é uma questão de hábito, é possível que o brasileiro vá se readequando ao uso de alternativas menos danosas ao meio ambiente quando sai para fazer compras.

Tatiana Yazbeck é psicóloga, jornalista e está enlouquecida com a quarentena, mas não ao ponto de lavar e pendurar sacolas plásticas no varal. Ainda.

A palavra é o que fica

por Fal Azevedo

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
E eu sei que é preciso matar

É um tempo de guerra

É um tempo sem sol

Da canção Eu vivo num tempo de guerra,

de Guarnieri e Edu Lobo

O casal Guarnieri, ele, maestro, ela, harpista, não gostava nadinha das propostas fascistas do governo da Itália na década de 1930. Um pouco alarmados, um tanto apavorados (aliás, em quase todas as situações da vida, quem declara “Não sinto medo”, ou é bobo-alegre ou é filho do rei. O medo mantém a gente vivo e quicando, amigos), pegaram o filhinho de dois anos e rumaram para no Brasil, em 1936. No que fizeram muitíssimo bem.

*

Este se revelou um texto muito difícil de fazer.

Eu me arrastei por mais de um mês. Atrasei o lançamento do Drops em Revista, deixei os gentis-patrocinadores da Guilda do Drops na mão, enervei a Suzi Márcia como poucas vezes Suzi Márcia foi enervada e não dei conta desse trem.

Ah, e veja bem, fui eu que escolhi o tema. Escolhi Gianfrancesco Guarnieri como tema da revista. Vi um documentário maravilhoso sobre ele no Canal Curta, e achei que esse cara seria uma grande personagem. Eu-que-quis. Ainda assim, que inferno fazer esse texto.

Daí que fiz o que sempre faço: tergiversei. Daí que danei a me perguntar: por que tão difícil falar do velho Guarnieri, Fal?

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O colégio carioca Santo Antônio Maria Zacarias não estava lá para lidar com aluno subversivo. Quando o aluno Gianfrancesco – nascido em Milão, em 1934, mas brasileiro por adoção desde os dois anos e alfabetizado em português – escreveu uma peça falando mal do vice-reitor da escola, foi expulso. Nem o padre que cuidava do teatro da escola pôde protegê-lo. Gianfrancesco aprendeu cedo que pagamos um preço por cada palavra. Sombras do Passado foi um tremendo sucesso e alunos de todos os anos aplaudiram e gritaram o nome do vice-reitor durante o espetáculo. A produção, em sua breve temporada, deixou saudades.

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Botei um espumante no freezer. Escrever de fogo talvez seja um caminho.

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Escrevo e encho a cara ao mesmo tempo. Se dava certo pro Hemingway, dará certo para mim. (eu sei, eu sei, me deixe)

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Gianfrancesco escolheu continuar a escrever e, apesar de se meter com política estudantil – foi presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários –, em vez de seguir carreira política, resolveu se concentrar nas palavras.

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Hoje é dia das mães e escrevo aqui na sala, com minha mãe fazendo comentários pouco elogiosos ao governo, aos animais que apoiam esse governo desastroso, a ministros e ex-ministros e penso, de novo, na vida da minha personagem. O que diria Guarnieri do mundo em que vivemos? Ele estaria com nojo, permitam-me arriscar. Nojo do presidente e da presidência, nojo dos relativistas das mortes, nojo de quem não uivou com as mortes de Aldir e do Migliaccio e do Santana e da Lúcidi e dos outros mais de onze mil mortos (até agora, leitor, até agora). Ele estaria horrorizado com os caras de direita que não respeitam o isolamento social – que não passa duma invenção para reinstalar o comunismo no Brasil (???) –  e da classe média de esquerda, muito ciosa dos perigos da pandemia, que quebra o isolamento a cada dois dias pra viver aventuras essenciais, tipo andar de bicicleta por Ipanema, visitar a madrinha, comprar aquela massinha que só tem naquela rotisserie-que-não-faz-entrega, sabe, naquela ruazinha fofa porque afinal estamos do lado dos bons. Guarnieri, quero crer, cuspiria em todos nós. Ou, melhor ainda, faria uma peça foda, achincalhando geral.

*

Não me parece possível encontrar um ponto onde se diga “Aqui, bem aqui, Gianfrancesco optou pela arte popular. Ele optou, neste momento, falar do povo e suas dores, do povo e suas vivências, do povo e da vida do povo. Era um menino de classe média que não se escondeu atrás do discurso, ainda em voga, nós os italianos. Menino europeu, filho de maestro e harpista, que poderia tranquilamente vestir a capa do italianinho que vê graça no cotidiano dos trópicos, mas não foi isso que fez Gianfrancesco. Ele desde cedo que identificou fortemente com a classe operária e a transformou em sua principal bandeira.

*

Quando se trata de um autor da grandeza de Guarnieri, é injusto destacar só uma obra do cara, afinal, são tantas grandes obras. Por outro lado, é injusto citar O jardim do diabo, quando se fala de Luis Fernando Verissimo, ou Anarquistas graças a Deus, quando se fala de Zelia Gattai? Ou será que escolher uma, entre uma porção de obras genais, é também um gesto de amor? A tentativa honesta, ainda que reducionista, de condensar o que um autor que amamos tem de melhor?

Enfim, quando tratamos da obra de Guarnieri, é difícil, demais mesmo, escolher. Mas se você pedisse e só porque você pediu, sempre elegerei Eles não usam black-tie como a melhor coisa, dentre tantas tão boas, que o velho escreveu.

Nessa peça, temos um operário em cena. Pela primeira vez, o teatro brasileiro tem um cara pobre, não caricato, em cena. E ele sofre e briga com o pai e descobre que vai ser pai também e perde e se frustra e oscila entre dois polos bem na frente do público que, usando seus melhores vestidos e sapatos, nunca tinha visto nada parecido. Palavras como “patrão” e “greve” e sindicato” explodem em cena e, quando nos damos conta, estamos ali testemunhando mais conflitos de classe do que conflitos românticos. É uma obra enorme, ainda mais se tivermos em mente a época em que foi pensada, escrita e posta nos palcos, por um menino de 22, 23 anos. Mas sua grandeza independe da época ou da idade do autor. Ela é importante porque fala dum pedaço suro e lindo da nossa história, dum jeito suro e lindo. Guarnieri capturou o espírito de sua época em falas, atitudes e fez isso alicerçado em diálogos muito bem estruturados e numa sequência de acontecimentos de gelar a espinha e de deixar boquiaberto qualquer professor de literatura, crítico ou escritora apaixonada por ele, seja lá em que época for.

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A peça, Eles não usam black-tie, contava com elenco formado por Leia Abramo, Eugênio Kusnet, Guarnieri, Riva Nimitz, Miriam Mehler, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e Chico de Assis. A direção foi de José Renato. O texto é incrível, mas vamos combinar: difícil não dar certo com esse elenco.

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Gianfrancesco dizia que entender o mundo se dá de duas formas: pelos olhos de quem domina ou de quem é dominado.

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Leio os planos da amiga-da-amiga de reunir, hoje mesmo, três gerações da família num almocinho, “afinal não nos vemos há trinta e cinco dias”. Minha filha, isso não é um almoço de dia das mães, é um pacto de suicídio.

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Todo comunista e fazia novela, o Guarnieri? Pois. Fazia. Para além das contas a pagar, Guarnieri acreditava que o povo merecia diversão. Entretenimento. Fantasia. Fuga. Fazia novela, sim, como quem faz um menino rir, uma senhora dar uma fungadela numa cena muito sentida, um cara sonhar com mundos outros. Ele era um grande ator, cheio de recursos, autodidata e feroz em seu próprio método (o arrepio de Gianfrancesco à academia, mesmo reconhecendo seus méritos e valor, de alguma forma nos aproxima ainda mais).

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O povo que ele queria que risse e sonhasse está sendo dizimado, espremido entre um governo acéfalo, feito de e para imbecis, negacionistas burros, negacionistas imbecis e negacionistas burros and imbecis, que pra mal dos nossos pecados inda se acham grandes analistas da realidade brasileira. Hoje é domingo e temos mais de onze mil mortos pelo Covid-19, vírus que o brasileiro batizou de Coronga. Guarnieri adoraria o apelido. Aliás, meu pai também.

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Gianfrancesco veio para São Paulo em 1952, aos dezoito anos, porque já sabia que não teria opção além de ser ator e escritor. Ajudou a fundar o Teatro Paulista do Estudante, uma companhia teatral que, em 1955, fundiu-se com outra companhia, o Teatro de Arena. Sob esse nome, a companhia definiu os rumos do novo teatro brasileiro e fez frente ao regime militar com grande dignidade.

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“A gente tem de ser firme”, me diz a Andréa Natal, querida demais. Gianfrancesco concordaria com ela.

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Em 1956, a montagem da peça Eles não usam black-tie, apresenta ao público de São Paulo, e depois do Brasil, à persona que Gianfrancesco cultivaria por toda a vida: o intelectual de esquerda. Mais ou menos malvestido, mais ou menos impaciente, profundamente humano, ligado às causas sociais, aliás, atuante nas causas sociais, e sempre com um Hollywood no bico.  

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Camisa social de listras, xadrez ou com estampas malucas, calça social vincada, usada com cinto, meia fina e sapato. Às vezes, um terno mal-ajambrado. Cigarro numa das mãos, sempre gesticulando. Voz rouca (o que aconteceu com os homens de voz rouca?). Olho no olho do interlocutor, certezas. Alguns palavrões. Risadas. Biritas até o porrezinho suave. Cabelo penteado para trás. A estética dos anos 1950/1970, a fumaça do cigarro, as discussões. Tudo isso fala demais ao meu coração, o que só me faz gamar mais em Guarnieri.

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A linguagem que permeia a obra de Guarnieri é realista. É direta, é a língua que se fala nas ruas. Guarnieri se preocupa, e muito, em ser entendido. Em alcançar as pessoas nos morros e nos botecos, nas salas de aula, nos sofás de veludo, nos bancos das praças. Guarnieri não inventa um Brasil, ele apenas o encara e registra.
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Eu disse pro meu amigo Char que a palavra dos dias, para mim, tem sido “ignorância”. A incontornável, imposta pela vida, pelos meios e a opcional. Daí ele me disse que não existe ignorância opcional, que isso é só calhordice.

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Guarnieri, mais maduro, fazia o papel do velho bonzinho. Sempre. Ele dizia que era o escolhido para viver qualquer senhor romântico e bonachão nas novelas, mas não parecia ressentido. Ria disso.

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Aqui na nossa rua, onde antes funcionava o consultório do psiquiatra marreta, agora vive uma senhora que faz refeições para uma empresa. O cheiro que toma o Brócolis, nosso querido bairro, é de fazer chorar. Domingo, fim de tarde, ela está a todo vapor, fazendo um peixe dos deuses e testando a minha falta de fé.

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Filho de músicos, Guarnieri adorava orquestras e amava o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi um menino encantado com o maquinário que mantinha as peças em cena.  Em uma entrevista para o programa da TV Cultura, o Roda Viva, contou que, muito pequeno, não podia assistir da plateia as apresentações da orquestra regida por seu pai, o maestro, Edoardo Guarnieri. Por isso, ficava em pé no fosso da orquestra sobre uma caixa de instrumento, acompanhando as óperas.

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O universo dos operários, dos trabalhadores, das pessoas comuns que limpavam casas e faziam carros. Esse era o universo que Guarnieri queria imortalizar e que perseguiu por toda sua carreira de dramaturgo, em peças como A semente, Gimba, Marta Saré.

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Entrevista do ex-ministro da Saúde na tevê e, pelas bochechas, Mandetta está quarentenando aqui em casa. Temos nada menos de cinco bolos deliciosos disponíveis para nossa alegria.

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Será que está difícil falar de Guarnieri porque ele é dolorosamente parecido com meu finado pai? Vamos garrar na mão de Freud. Sim, ele é. Mesma geração, mesmas referências literárias (pelo que pude ler sobre o velho Gianfrancesco), bom de copo, bom de garfo, dentes ruins (não péssimos, mas certamente não os teclados de hoje em dia), corte de cabelo horroroso, bigode padrão anos 1970, voz meio suja de cigarro e birita, bom pai, pai foda (ser filho de homens geniais é muito duro, muito mesmo), algo impaciente, algo bondoso, vaidoso demais e ciente de suas próprias qualidades e talentos.

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Guarnieri gostava da dramaturgia por sua permanência. Dizia que o que fica da produção teatral é a palavra.

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Até 1972, quando chega ao fim a companhia Teatro de Arena, Guarnieri esteve lá. A cada montagem. Escrevendo e atuando e repensando um país que, algumas décadas depois, saudaria um bando de analfabetos funcionais como seus salvadores. O Brasil não mereceu a vida e a arte Guarnieri, músico, ator e dramaturgo premiado. Nunca mereceu seu esforço, sua abnegação. Nós, você e eu, não merecemos. Sou feliz por tê-lo e me sinto privilegiada por contar com sua obra no meu repertório, mas olha, que desperdício de talento.

Fal Azevedo, 49 anos, é editora da Drops em Revista e autora dos melhores risotos do território nacional.

Rosa e Vermelho

por Krysse Barros

Vênus no espelho – Diego Velásquez

Um quadro pintado há séculos. Nosso cérebro precisa compreender o que nossos olhos veem. Começa a trabalhar com as informações recebidas pelos olhos que perscrutam a tela em busca de formas conhecidas, detalhes já vistos, posturas ou paisagens antes tentadas por outros artistas. Muitos pontos podem atrair nosso olhar. Invariavelmente o artista escolhe o ponto focal que será o objeto principal da sua obra e concentra neste objeto o que deseja transmitir aos seus futuros observadores.

Analisamos toda obra que vemos segundo critérios estritamente próprios, criados e amadurecidos de acordo com os padrões culturais que cada uma das pessoas ao redor do mundo pôde ou escolheu manter. Ou seja, cada livro lido, filme assistido, peça teatral aplaudida, exposição vista, museu visitado, viagem feita e curso finalizado.

Desenvolvemos opiniões únicas a respeito de tudo na vida, inclusive cultura. Cada um de nós é um espectador único e nos colocamos de frente para uma obra de arte com toda a nossa bagagem cultural.

De frente para a Vênus ao Espelho, de Diego Velásquez, vemos um quadro de nudez, produzido no século XVII em plena Espanha católica de Felipe IV, um país enriquecido pelas viagens exploratórias do século anterior.

Ali, o espectador consegue se transportar, com seu cabedal de conhecimentos, ao tempo histórico em que Diego Velásquez pintou essa mulher nua, reclinada em seu récamier (ou canapé – olha que palavra linda). Posicionando-a desse modo, o artista aumentou suas curvas e as destacou como se fossem uma insensata linha do horizonte. O que nos leva ao objetivo principal da obra: retratar de modo pessoal o clássico tema da Vênus. Velásquez dividiu o quadro entre a tentação em marfim e rosa do corpo desnudo de sua Vênus e o vermelho da cortina, um dramático pano de fundo para o Cupido que segura o espelho, nos atraindo para o rosto da Vênus que nos encara.

O que a Vênus diz com seu olhar refletido que não pode ser totalmente visto, uma vez que o artista utilizou sua técnica de chiaroscuro para obter esse efeito de intangibilidade na mirada que apenas adivinhamos? Essa mulher em sua nudez tão diferente dos padrões vigentes e considerados belos à época realmente nos vê?

Qual seria a história da Vênus desnuda? Que, revolucionária, desafia os padrões de seu tempo com seu corpo magro e sua nudez de costas – não frontal, como era habitual e que observa o espectador de um ângulo impossível devido à posição em que Cupido segura o espelho.

Por que Velásquez, diferente de outros artistas que criaram suas Vênus, não a retratou num opulento nu frontal, como era o usual? Ele compôs um nu sensual e calipígio, escandaloso, mas nada vulgar. Maravilhoso! Há documentos em que constam outros quadros com nus que ele pintou. Nenhum deles, porém, alcançou os séculos posteriores. Teria sido a esperteza em retratar uma mulher fora do padrão de beleza da época que salvou esse quadro da destruição?

 Velásquez teve uma vida confortável desde o nascimento. Desde cedo demonstrou aptidões artísticas e seus pais o colocaram sob a tutela de um mestre que o ensinou as técnicas de pintura por seis anos, dos onze aos dezessete. Com dezoito anos, prestou um exame que o habilitou a pintar obras sacras e obteve licença para atuar como pintor profissional. No ano seguinte casou-se com a filha do seu professor e já fazia retratos em sua cidade natal, Sevilha. Sua habilidade fez com que se tornasse rapidamente conhecido e com vinte e três anos foi para Madri pintar o retrato de um nobre que o recomendou ao rei. Este se fez retratar por Velásquez e teve tanta estima por seu retrato que o tornou um dos pintores da corte.

Velásquez não apenas era um mestre do Barroco, um virtuose do chiaroscuro (claro/escuro), um excepcional retratista. Era também uma pessoa de modos sociáveis, inteligente e com uma veia irônica e profundamente orgulhoso de sua carreira e trabalho. O espírito amigável do pintor pode ser constatado em diversos, senão na maioria de seus trabalhos, nos quais há amiúde a presença de um personagem a observar o espectador a partir da obra. Por vezes é o próprio Velásquez quem nos observa, como que a indagar se porventura está você admirado com a obra que ele produziu.

Krysse Barros tem 53 anos, quatro filhos e dois cães resgatados. Aprendeu Direito na faculdade e a ser de esquerda em 1978 assistindo à “propaganda eleitoral” na TV. Gosta de praia, cinema, literatura e teatro. Acredita que a única filosofia possível é viver cada dia que se apresenta e sonha, ah, Deus, que um dia ainda vai conseguir morar sozinha.