Aniversariantes de janeiro, fevereiro e março

Isaac Asimov

Nasceu em 02 de janeiro de 1920, em Petrovichi, na Rússia Soviética e morreu em 06 de abril de 1992, em Nova York. Isso, por si só, já é um puta arco dramático.

Passou a vida explicando conceitos científicos de forma histórica em livros que lemos, relemos e a partir dos quais são feitos memoráveis filmes.

Victor Hugo

Nasceu em 26 de fevereiro de 1802, em Besançon, e morreu em 22 de maio de 1885, em Paris, França.

Leu, escreveu, discursou, militou pelos direitos humanos, mereceu ser esculpido por Rodin e disse da vida:

Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a vida! Ódio ao ódio. A liberdade é uma cidade imensa da qual todos somos concidadãos.

Bispo do Rosário

Arthur Bispo do Rosário Paes nasceu em 16 de março de 1911, em Japaratuba, Sergipe, e morreu em 05 de julho de 1988, no Rio de Janeiro.

Foi marinheiro, boxeador e empregado doméstico até receber o chamado. Apresentou-se então ao Mosteiro de São Bento onde anunciou a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar os vivos e os mortos.

Recolhido na Colônia Juliano Moreira, permaneceu lá até sua morte, cinquenta anos depois.

Produziu muitas peças com matéria prima vindo de sucata e lixo. O Drops ama o Manto da Apresentação, que Bispo certamente vestirá no dia do Juízo Final.

Sua obra tinha como missão marcar a passagem de Deus na Terra.

Manuel Bandeira

Nasceu em 19 de abril de 1886, em Recife, e morreu em 13 de outubro de 1968, .

Poeta, crítico literário e de arte, professor de literatura e tradutor.

Doente dos pulmões, Bandeira sofria de tuberculose e, por isso, passou infância e adolescência recluso, poupado sempre de esforços físicos, ventos e estiagens.

De vida contida, produziu seus poemas como quem espia:

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:

_ “Passei o dia à toa, à toa!”

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa…

Tupi, or not tupi

por Suzi Márcia Castelani

Mario não era irmão de Oswald, mas os dois conheceram Drummond.

Numa confissão feita em carta, o mineiro declarou seu lamento por nascer em terra inculta. Mario percebeu de imediato que havia um mal-estar contaminando os bem-nascidos moços de sua geração e convívio: a moléstia de Nabuco. Uma doença grave que impedia o abrasileiramento do país, pois os moços viviam com os olhos de desejo voltados para o Velho Mundo.

Mario toma para si a tarefa de uma campanha contra a influência da tradição europeia ser aqui replicada em forma e conteúdo. O segredo e o sucesso da empreitada era um só: gostar da vida. Se era para contribuir com a arte com especificidade local era preciso, primeiro, conhecer o Brasil.

Buscar uma arte mais condizente com os novos tempos, baseada no provisório, no momento atual, no que se experimenta, transformar o permanente em descoberta. Devorar o estrangeiro, aquilo que não é nosso, não para manter fronteira, diferença, distância. Mas para unir a arte brasileira ao mundo, individualizada e transformada.

Oswald de Andrade foi a Paris e observou que lá as artes estavam voltadas a retratar o primitivismo de alguns lugares como África e Indonésia. Voltou com a ideia de que, como povo de colonização recente, poderíamos explorar nosso próprio primitivismo e folclore como fonte da nossa criação.

Anita Malfatti já tinha acendido o estopim de uma nova estética com a exposição de 1917, em São Paulo. Foi duramente criticada por Monteiro Lobato em artigo no jornal O Estado de São Paulo:

Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas(..) A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. (…) Embora eles se deem como novos, precursores de uma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação.(…) Essas considerações são provocadas pela exposição da senhora Malfatti onde se notam acentuadíssimas tendências para uma atitude estética forçada no sentido das extravagâncias de Picasso e companhia.

A reação da elite paulistana, que confiava cegamente nas opiniões do escritor, é imediata: escândalo, quadros devolvidos, uma tentativa de agressão à pintora. A mostra é fechada antes do tempo. Bastou para unir os jovens bem nascidos da cidade, com pretensões intelectuais consistentes e munidos de muita influência e tempo livre, em torno de uma causa que impunha a fusão de três princípios fundamentais:

 O direito permanente à pesquisa estética

A atualização da inteligência artística brasileira

A estabilização de uma consciência criadora nacional.

Nada disso era inovação por si só. A novidade fundamental estava na conjunção dessas três normas num todo orgânico de consciência coletiva.

Todo esse caráter destruidor do movimento foi para todos os envolvidos um tempo de festa. O Manifesto do Trianon de 1921 não bastava. A cidade precisava de um evento que a sacudisse, esfregasse em sua cara novas formas de criar e a beleza disforme dessas criações.

Melhor ainda seria se o evento acontecesse em solo sagrado. O Brasil de 1922 era oligárquico. Produção e exportação de café. Paulo Prado conseguiu patrocínio com os barões do café para o aluguel do Teatro Municipal de São Paulo onde se daria o evento que pretendia acertar o relógio da arte brasileira.

Oswald de Andrade, Mario de Andrade, Menotti Del Picchia, Tarsila do Amaral, Manuel Bandeira, Heitor Villa Lobos, Di Cavalcanti, Anita Malfatti. Quase todos presentes. Não eram artistas em busca de expressão. Cada um deles já a encontrara. Era uma revolução criadora de originalidade, afinal os moços não podem ficar parados.

Foi o único momento em que a inteligência brasileira se engajou nas coisas do Brasil. O evento fazer parte das comemorações do Centenário da Independência foi um acidente feliz, pois assinalava uma ruptura com o século anterior, uma origem, recomeço com características próprias como um manifesto de liberdade. Era o Brasil descobrindo-se a si mesmo no mundo, pois o império era um jardim muito fechado.

A semana teve três dias e foi vaiada nos três. Era o reconhecimento de que aquilo era forte, vigoroso e, como tal, precisava ser combatido. A palavra moderno até hoje carrega o conceito de novidade. Ser moderno, para a Semana de 22, era equiparar-se ao que se produzia em outras partes do mundo. Era como debutar no concerto das nações cultas. Moderno – o tempo mais próximo de nós.

Mas o novo é difícil. O novo é quase impossível. Apesar de todos os desdobramentos de sua influência direta na pintura, literatura, escultura e arquitetura nas próximas décadas, a Semana de Arte Moderna só foi comemorada como evento e reconhecida como marco cinquenta anos depois.

Ela se inseriu dentro de uma discussão mais ampla que incluiu intérpretes da realidade brasileira também pensando o Brasil. Transformou a influência europeia, basicamente a francesa, em produção brasileira para o mundo. Não era só falar do brasil. Era falar também no Brasil.

O Tropicalismo foi a última onda desse movimento, na canção popular e cultura de massa. Caetano assistiu O Rei da Vela com o deslumbramento próprio de quem se encontra com sua origem. Os organizadores da Semana eram jovens de vida ganha, praticando a liberdade. Era nossa belle époque, momento em que pensávamos que a liberdade pessoal era possível.

Quão errado podia ter dado isso? Oswald não queria ficar sozinho. Precisava de gente para palavrear. A semana foi um catalizador de pensamentos. Juntando pessoas, trocando ideias, ousando mudanças esses jovens marcaram para sempre a arte brasileira ao usarem o ócio e o bem nascer como instrumentos de construção de brasilidade.

 Somos hoje o que deu pra ser desde então, mas naquele ano foi fundado o desvairismo.

Tupi or not Tupi. That is the question. Afinal, Só de noite é que não tem sol.

Suzi Márcia Castelani é editora e artesã de flores e palavras.

Um hino, uma ordem, um caminho

por Beatriz Outiz

Conheci Clara Nunes quando era criança. Numa época em que não havia internet, só tv e livros e eu, provavelmente empapuçada de uma coisa e outra, fuçava muito nos vinis da minha mãe e do meu pai.

Havia muita coisa ali no armário de discos. Tenho convicção que meu repertório musical foi forjado naqueles LPs (o que me lembra também que meu primo, três anos mais velho que eu e criado como irmão, certa feita emprestou de um vizinho um disco em cuja capa se lia a seguinte anotação à caneta: “emprestar é um prazer/ devolver é seu dever”. Meu primo não devolveu, peguei o disco para mim; uma ladrazinha de doze anos. Silvio, se você estiver lendo, desculpa, tá? A essa altura da vida, não sei onde o disco está).

Enfim, era um barato tirar o vinil da capa, do plástico fino, colocá-lo na vitrola, sentar no chão com a capa na mão e ouvir. O disco era o Clara, de 1981. A primeira faixa do lado A era o hino Portela na avenida:

Portela, eu nunca vi coisa mais bela/ quando ela pisa a passarela/ e vai entrando na avenida

Eu escutava uma voz poderosa e doce e conectava essa voz à foto da mulher com um arranjo exótico de conchas no cabelo. Observava  cada detalhe daquela imagem, o disco tocando. De alguma maneira isso entrou na minha alma como símbolo de força e beleza. Garanto que não entendia a maior parte das coisas que ela cantava, e não precisava, na verdade. No carnaval, torço para a Portela e pelo mesmo motivo torço pela Império Serrano. Para mim tudo o que essa mulher cantava era um hino, uma ordem, um caminho.

Outro disco que morava no armário era esse:

O título do disco é a bio da Clara: Se vocês querem saber quem eu sou, eu sou a tal mineira / Filha de Angola, de Ketu e Nagô / Não sou de brincadeira, e a música vai num crescendo maravilhoso; ela homenageando as entidades do candomblé, e termina dizendo que é filha de Ogum com Iansã. Imagina uma menina de uns dez anos ouvindo isso tudo: achava uau, não entendia patavina, mas queria ser a mulher da capa.

E tinha esse também:

Ninguém ouviu / um soluçar de dor / no canto do Brasil /um lamento triste sempre ecoou / desde que o índio guerreiro foi pro cativeiro e de lá cantou

Pronto, já estou chorando. Particularmente, acho que os alunos de todas as escolas do país tinham que aprender a cantar essa música, porque é esse o hino nacional. 

Encerrei com o Canto das Três Raças uma apresentação que fiz sobre Os sertões, de Euclides da Cunha, quando ainda na graduação. Achei que cabia.

Toda a força e beleza dela fazem com que cada música seja, para mim, um hino, uma ordem, um caminho.Por Clara ainda vou cantar Portela na avenida num karaokê (pessoa quer cometer um crime e coloca a culpa na rainha). Ah, e por ela vou ver a Portela desfilar na Sapucaí.

Outis, como Odisseu. Gosta de comida e revisa. Está aqui: https://www.instagram.com/beatriz.acencio/

Quando a nudez se desvela

por Pedro Eloi Rech

Por mais de mil anos a filosofia foi aprisionada pelo cristianismo e pelo moralismo que ele impôs. Santo Agostinho submeteu a razão aos ditames da fé, das crenças diretamente reveladas ou ditadas por Deus. A força do Deus judaico prosperou com as armas de Constantino e a intolerância ao mundo plural e diverso foi implantada.

João Paulo II culpa Descartes pela sua libertação. Antes dele, o sujeito fazia parte de Deus, um ente autossuficiente (Ens subsistens), do qual era participante e ao qual era submetido. A partir de Descartes, o sujeito se tornou pensante (Ens cogitans) e a dúvida, não mais a verdade, passou a ser a diretriz filosófica.  João Paulo II, em seu Memória e identidade, denomina isso de ideologias do mal e as culpa pelo nazismo e comunismo. Não via na imposição da verdade nenhum mal. O Cogito, ergo sum revolucionou a filosofia. Ela volta à sua origem grega, na busca de respostas que sempre afligiram e atormentaram o ser humano.

O nu na filosofia não deve, portanto, ser procurado neste período de dominação da interpretação do pensamento de Deus pelas autoridades cristãs, a não ser pelas figuras da repressão, que tantos recalques e personagens sinistros provocaram. Considero a oração de Santo Agostinho, como uma das preces mais sinceras ao longo de toda a história e que, numa livre interpretação, diz mais ou menos o seguinte: Dai-me Senhor, a virtude da castidade, mas sem nenhuma pressa. Só depois de velho.

O tema do nu, embora explicitamente esteja ausente da filosofia, ensejou-me um mundo de possibilidades na sua abordagem. Fiz então uma opção, ligando-o ao erótico, ao fantástico mundo do desejo e da busca de sentido e de significados. Passando por cima das bacantes fui buscar em O banquete, um dos mais belos e fundantes livros de todos os tempos, a inspiração necessária.

Os banquetes gregos eram uma instituição cultural em que se promovia a emulação em torno de belos discursos, sob a inspiração da dádiva dionisíaca do vinho. Não só o melhor orador seria premiado, mas também os que mais bebiam da divina dádiva. Era um tempo em que o ser humano era visto, não em sua divisão entre o dionisíaco e o apolíneo, mas como um todo harmonioso. Os banquetes eram precedidos de danças, a única participação dada ao feminino. Deixo para o seu imaginário a representação da cena, pois certamente ela será bem mais criativa do que a minha escrita.

Em O banquete o tema dos discursos é o amor. Conseguem imaginar a beleza que é este livro? O mote do encontro é uma premiação recebida por Agaton, o anfitrião da festa. Ao todo são sete discursos, na busca do seu significado maior. Fedro fala do que já estava dito; Pausânias elogia o amor homossexual;  Erixímaco o elogia do ponto de vista da medicina; Aristófanes nos fala da insensibilidade humana para com o verdadeiro amor, dos seres partidos ao meio e em busca da reconstituição do todo perdido; Agaton faz o elogio ao deus do amor, sempre jovem e belo. A expectativa cresce com a aproximação da vez de Sócrates discursar.

Como Sócrates nada sabe, ele invoca a sabedoria de Diotima, uma sacerdotisa. E aí vem poesia pura. Diotima fala do amor como um gênio, entre um deus e um mortal. Cabe a ele fazer a mediação entre os deuses e os homens, levando destes as súplicas e os sacrifícios e, recebendo daqueles, as ordens e as recompensas. Uma das partes mais lindas do discurso é sobre a paternidade e maternidade deste gênio. Transcrevo:

“É um tanto longo de explicar, disse ela: todavia eu te direi. Quando nasceu Afrodite, banqueteavam-se os deuses, e entre os demais se encontrava também o filho de Prudência, Recurso. Depois de acabarem de jantar, veio para esmolar do festim a Pobreza, e ficou pela porta. Ora, Recurso, embriagado com o néctar – pois vinho ainda não existia -, penetrou o jardim de Zeus e, pesado, adormeceu. A pobreza então, tramando em sua falta de recurso engendrar um filho de Recurso, deita-se ao seu lado e pronto concebe o Amor”.

Deixo para os leitores a sequência, para afirmar toda a beleza do amor, uma eterna busca pelo encontro da Pobreza, da falta, da carência e do desejo, com o Recurso, com a generosidade e a abundância. O amor sempre carregará em si a marca da carência, do “descalço e sem lar, deitando ao desabrigo, às portas e nos caminhos, porque tem a natureza da mãe, sempre convivendo com a precisão”. A este mundo de precisão se somará o mundo do Pai “insidioso com o que é belo e bom, e corajoso, decidido e enérgico, caçador terrível, sempre a tecer maquinações, ávido de sabedoria e cheio de recursos, a filosofar por toda a vida, terrível, mago, feiticeiro, sofista”. Uma busca inesgotável.

Mas o amor, segundo Diotima/Sócrates/Platão não termina aí. Ele conduz à elevação: “Subir sempre, como que servindo-se de degraus, de um só  para dois e de dois para todos os belos corpos e dos belos corpos para os belos ofícios, e dos ofícios para as belas ciências até que das ciências acabe naquela ciência, que de nada mais é senão daquele próprio belo, e conheça enfim o que em si é belo”. É a mediação para tornar-se amigo da divindade.

É o amor platônico que, importante lembrar, é uma busca e um encontro entre a pobreza e a riqueza que, em estado de elevação, encontra a plenitude do significado do que é o amor, este, estendido a toda a humanidade, a começar pelo encontro de belos corpos, certamente despidos de adornos, para que em seu estado de natureza, mostrem toda a beleza do desejo pelos corpos desvelados.

Quando tudo parece terminado, eis que chega outro belo e promissor jovem ateniense ao recinto. É Alcebíades, completamente embriagado. Ele não se contém e declara todo o seu amor ao sábio, digo, a Sócrates, evocando a uma das figuras mais recorrentes ao longo de toda a história, a figura do Sileno, pequena estatueta, que em suas aparências representa o feio, mas que, quando se desvela, quando se desnuda, mostra toda a beleza de tesouros intermináveis, que brotam do seu interior. É o sétimo discurso.

Para terminar, desnecessário seria dizer, mas convém lembrar que os moralistas, pseudo intérpretes do divino, são incapazes de ver beleza na nudez, a não ser naquela que provém da pobreza e da miséria humana, causada por homens não atingidos pelo amor; a nudez deformada pela fome que torna os corpos esquálidos e sujeitos a tortura do frio. Se esta imagem não lhes causa um sádico prazer, ao menos os situa no mundo da indiferença, pois, o seu moralismo lhes diz da necessidade de privações e sacrifícios para a expiação de seus males e a obtenção da salvação de suas almas.

Pedro Elói Rech é administrador de tempo livre e do http://www.blogdopedroeloi.com.br