O que é e o que não é nosso dever

A canção dos anos 1980, a década da qual jamais nos livraremos, pergunta se você ainda pensa em mim. Sei que não e te odeio por bem mais de um segundo, meu bem, bem mais.

*

suportes materiais que registram, de forma indelével, meu pasmo, minha irrelevância, meu pavor diante da vida, meu imenso amor por você

*

Zotto acolá esmerilhando numa milonga, e eu aqui, procurando por adjetivos que sei que não existem.

*

Péssimo momento histórico pra começar a ler O conto da aia, dona Fabia.

*

Rio em setembro (talvez), Curitiba em junho (bota talvez nisso) e já é quase segundo semestre desse ano irreal.

*

Escolher é o verbo mais cruel. E o mais necessário.

*

Pera e gorgonzola numa varanda que não é minha. A colcha cheira a Anais Anais e mal posso acreditar que ela seja necessária em algum lugar de São Paulo num abril que mal começou. Escolhi uma caixa cheia de saquinhos de chá, dei aula, contei o número de comprimidos na latinha, quase fiquei enjoada e não disse uma palavra sequer. A mão morena de alguém colocou mel no fundo da xícara. Em algum lugar da casa, Vinícius morre de amores, palmas marcam o ritmo e acho que ouvi uns latidos. Mas até domingo, nada disso é problema meu.


foto de: Ferdinand Schmutzer, 1905 . Como sempre, desconhecemos o nome da modelo. Pra que saber o nome da mulher, né, gente. Se alguém souber, me ensina.




Bom dia, seus lindos.

Ela, sim, a semana, começou.

E nós, sim, você e eu, começamos também.

Vamos ver que surpresas o país governado pelo twitter nos trará essa semana.

Coragem, gente. Muita.

Uma revista é uma revista é uma revista

Devagar, o Drops em Revista vai ficando com a cara que deve ficar. Toda vez que me enfio num negócio novo sou obrigada a admitir o tanto que não sei. É confortável ficar andando em torno do que eu-sei-que-eu-sei, se achando a boona (não que eu me ache, dr. Luiz Estevão, Mariana Aldrigui e eu concordamos que tenho o amor-próprio dum lagarto morto pela roda da carroça). Ou, vejo muito, fácil também é brincar de “ah, não, sou importante DEMAIS pra participar”.
Mas quando se mete a mão na argila para se arriscar de novo (isso deveria ir escrito na minha lápide se um dia eu morresse), é que fica claro: você é um ursinho-panda-bebê, não sabe nada, seus olhos estão fechados, você não tem pelos, história, acervo, não sabe andar, nem ler, nem escrever e se pá, mal consegue rastejar sobre o corpo da sua mãe em busca da teta perdida. Você é um zé mané, ursinho-panda-bebê-burrinho, não se meta a fazer revistas. Você não sabe nada, camarada. Você não sabe selecionar imagem, não sabe fazer editorial (para isso, pelo menos, temos Claudio Luiz pra roubar o mote), não sabe definir linha editorial. É mais ou menos isso. Mas eu vou aprender. Tou aprendendo. Pelo menos, até aqui, já aprendi que não sei quase nada.
Ah, sei uma coisa: tenho temos (vamos botar Suzi Márcia nesse B.O.) uma dívida de coração para com os excelentes colaboradores que toparam, como sempre, participar da primeira edição de um projeto ainda sem grandes definições, um experimento que vai se desenhar lentamente. O que o vulgo chamaria de roubada.
Priscila, Claudio Luiz, Mariana, Renata, Ricardo, Ana Paula, Luciana: vocês são nossa tropa de choque emocional, nossos paraquedistas do infinito, nossos stalones-achando-a-saída-do-túnel. Somos imensamente gratas. Não vamos esquecer nunca de que vocês estiveram na primeira edição, e esperamos que aceitem quando forem convidados de novo. Perdoem a inexperiência e a total leseira das editoras. Estamos aprendendo e, na próxima vez em que vocês forem chamados, estaremos mais espertonas. Obrigada, obrigada, obrigada.

PS: queridos se ofereceram para escrever no Drops em Revista, o que nos alegra e emociona. As próximas edições estão alinhavadas e vamos devagarim fazendo os convites .

Inventário

Minha caixa de cigarro tem 31 anos de uso

Saí hoje usando minha calça jeans. Na sala de espera, conversei com uma moça que precisa sair para comprar pijamas. Ela tem dezoito pijamas. Ela precisa de pijamas de inverno. Eu só tenho uma calça jeans. É uma pantalona e tem, sentem-se, vinte e dois anos. Usada, usadíssima. Tenho uma “bolsona”, daquelas gigantes, camurça (perdão aos amigos veganos que amo demais, mas é). Ela tem oito anos de uso comigo, mas antes disso, foi da minha mãe por doze anos. Tenho mais umas quatro, todas assim, velhonas. Tenho um par de saltos de inverno preto e dois marrons. Cada um deles, mais de quinze anos de uso (sei disso porque Alexandre era vivo quando os comprei e usei muito para sair com ele. Aliás, me desvio um segundo do assunto, para dizer que minha vida de viúva se divide em antes do Alê morrer / depois do Alê morrer. Não sei se isso é horrendo ou fofo ou patético, mas é assim). Minhas sapatilhas têm, com certeza, década e meia de uso. Tenho duas canetas tinteiro, uma que ganhei do Claudio Luiz, Ana Paula Medeiros e amigos (eles nem lembram disso mais) quando do lançamento do “Sonhei que a neve fervia”, em 2012, e uma que meu pai ganhou no ginásio, nos anos 1950. Uso as duas diariamente. Guardo o primeiro par de brincos que minha mãe me deu na terceira vez em que tentamos furar minha orelha, 1987, Lojas Americanas. Tenho catorze vestidos. Sim, o número me deixou aturdida. O mais novo foi comprado em 2000, o ano em que casei no papel, porque meu abençoado marido de Garanhuns não podia conceber “me tirar da casa de meu pai” e não me “dar uma situação”. Dar uma situação, pro Alê, era casar comigo no papel. O que fiz de vestido novo. Daí eu volto pra guria da sala de espera. Um amor de criatura. Não, esse não é um texto para “condenar o consumismo”, que não faço isso nunca, não panfleto nem quando sou paga. (Uma vez, numa mesa de bar, pensei alto sobre como me espanta ver crianças tão grandes andando de carrinho e que isso me parece um lance recente. Eu não estava criticando ninguém, nunca criei filhos, não entendo nada sobre isso. Só falei do que observo, vejo criançonas em carrinhos mais agora do que antes e me pergunto o motivo. Tinha um pai à mesa que, na defensiva, só faltou me bater. É isso, às vezes esqueço de explicar: sou uma observadora nessa vida, não estou falando mal, não estou julgando, não sei da vida de ninguém e uma mulher que tem a quantidade de livros que tenho, não pode falar do consumismo dos outros, ainda que fosse o caso). Mas, enfim, volto à minha amiguinha na sala de espera. Ela falou sobre os novos pijamas de que ela precisa (tudo bem, sou mala, critico um pouco nosso uso do verbo “precisar”: preciso de férias, preciso de pijamas, preciso de livros). De qualquer forma, fui escutando a guria e pensando que, do mesmo jeito que tem gente nesse mundo que ama uma coisa nova, deve ter toda uma categoria de gente que nem eu, que sente prazer em usar coisa velha. Não estamos certos, não estamos errados, só gostamos do que gostamos. Olho pra minha bolsa de vinte anos e sorrio quando me lembro que vou usá-la amanhã. Amos meus vestidos, amo ainda caber no meu jeans, porque, diabos, que alegria do caralho usar uma calça que ia comigo para a faculdade, para a produtora, para Barcelona, para os museus, para o Piccolo, para o ambulatório de Viagra (sou de humanas, tive empregos que vocês não acreditariam), para os shows do Premê. Amo minhas sapatilhas velhas e lindas e sofro quando cada uma delas morre e vai pro céu dos sapatinhos de lacinhos. Era isso só. Procura-se alma-gêmea pra ter com quem conversar sobre a imensa alegria que sentimos ao usar uma camiseta de 2008, ler um livro meio mofado dos anos 1960, sentar sob o sol usando a mesma saia que usávamos nos anos 1990 para ferver na Franz Schubert. Vou dormir agora (são 20h, não fervo mais um lugar algum), com um pijama que tem mais de onze anos. Amo vocês, estava com saudades. Devagar a vida volta.

PS: Nem perguntem sobre a situação dos meus pijamas. Vamos permitir que algum mistério sobreviva entre nós.

A primeira vez que fui à Europa e a cozinha de Monet

por Elaine Cuencas

Lendo assim um titulo desses, temos a impressão de que vamos ler um texto de uma moça de boa família que irá contar todas as suas aventuras de formação intelectual e de boas maneiras.

Mas, a primeira vez que fui à Europa, na realidade, estava me vingando do fim de um casamento, pensando nos anos de aposentadoria que viriam pela frente e de como iria sobreviver então, depois de gastar as economias na viagem. Pensava também que, finalmente, aquele sonho de visitar a Shakespeare & Cia, naquela ruazinha de Paris seria realizado.

Fui à França. Vi a Torre. Chorei na Notredame. Chorei em Chartes, porque vi a Senhora que Joseph Campbell descreve para Bill Moyers em O poder mito. E assim, todo o imaginário criado, desde menina, foi tomando forma na vida real.

Comilona, a viagem teve a receita ideal, com ingredientes incríveis! O macarron legítimo, a île flottante no café com todos aqueles espelhos, a baguete debaixo do braço, o café preto, no bairro dos cinemas, ao lado da fotografia de Yves Montand, a sopa de cebola no bairro boêmio, o crepe suzette! O século XIX da gastronomia de mentirinha, criado para alimentar nossos sonhos de turismo cultural.

Fomos passear em Giverny e o passeio foi uma das cerejas desse doce saborear os sonhos de menina.

O jardim, as flores, a ponte japonesa e aquele jardineiro caricatural que a casa mantém para alimentar a imaginação do turista, tudo isso e o céu azul foram perfeitos.

Na casa, percorremos os cômodos, tentando sentir presença do homem, da vida das pessoas, ouvir os sons daquele final de século XIX.

Até que entramos na cozinha… A alma da casa. Azul, cerâmica azul, toalha amarela, mesa posta, flores no vaso. Durante o devaneio, pensei em quantos cafés da manhã, almoços de família e jantares espetaculares saíram daquele fogão, foram àquela mesa ou à mesa de jantar.

Pude sentir os perfumes dos pratos suculentos, ouvir os talheres batendo na louça, o sorver dos sucos, água e vinhos. Uma delícia.

Algumas das minhas melhores memórias têm a ver com essa maravilha que é o ato de comer.

Um ano depois, ganho da filha um livro maravilhoso, À mesa, com Monet, texto de Claire Joyes; fotografias de Jean-Bernard Naudim e prefácio do chef Joel Robuchon, da editora Sextante. Uma beleza de publicação. Dessas que deixam a gente feliz como o diabo.

Que delícia, voltar a saborear as mesmas sensações que tive na casa em Giverny.

Penso em como as descrições da literatura do século XIX contribuíram para minha formação gastronômica e cultural. Em como o comer, solitário ou em grupo, à mesa do jantar ou na cozinha mal iluminada. Os chás na Paris de Swan ou no apartamento sujo na Petersburgo das personagens russas, a comida de rua da Itália dos romances que li. Os acepipes de Eça de Queirós que me levou um dia até Tormes a saborear as mesmas favas que Jacinto redescobriu.

Sem esses excertos literários, a casa em Giverny, a cozinha de Monet e o presente da filha não teriam o mesmo sabor.

Elaine Cuencas é professora e estudiosa da literatura brasileira.